A novela do resgate do naufrágio mais valioso da História

A novela do resgate do naufrágio mais valioso da História

Se você acha que tesouros no fundo do mar tem a ver com histórias infantis de ficção, prepare-se para mudar radicalmente de opinião.

Nas primeiras horas da manhã de 8 de junho de 1708, o almirante inglês Charles Wagner finalmente avistou, ao largo da costa de Cartagena, no mar caribenho da Colômbia, a esquadra de uma dúzia de naves espanholas que ele vinha buscando há tempos.

Naquela época, Espanha e Inglaterra eram inimigos e atacar os galeões que levavam para os reis espanhóis as riquezas do “Novo Mundo” era uma maneira de enfraquecê-los.

Por isso, Wagner não pensou duas vezes em disparar seus canhões quando avistou a flotilha, que era capitaneada pela nau mais valiosa – e poderosa – da esquadra espanhola: o galeão San Jose, abarrotado de ouro, prata e esmeraldas extraídas durante anos nas minas da América do Sul e Central.

O San Jose transbordava de riquezas.

Segundo cálculos de estudiosos, só em ouro eram mais de 200 toneladas, já que aquela era a primeira viagem do gênero de volta à Espanha após de dez anos.

Mas ela não passou da costa colombiana.

Apesar dos seus 64 canhões, o San Jose não teve chances de escapar dos ingleses.

Foi alvejado impiedosamente, enquanto o restante da flotilha escapava.

Até que uma explosão, causada pelo tiro de um canhão inglês que atingiu o seu depósito de pólvora, fez a proa do galeão sumir pelos ares.

O San Jose afundou instantaneamente, por completo.

Dos 600 espanhóis que havia a bordo, só 11 sobreviveram.

E nada do seu tesouro pode ser recuperado, porque os restos da nau mergulharam até o fundo, a 600 metros de profundidade.

Durante quase três séculos, a localização exata da batalha que pôs fim a vida do valioso galeão espanhol (tão valioso que passou a ser considerado como o “Santo Graal dos Naufrágios”) permaneceu ignorada.

Até que uma empresa americana de exploração de naufrágios, a Sea Search Armada, que teve como sócia naquela empreitada a Ocean Infinity, que tinha o inglês Ross Hyett como um dos seus sócios, começou a pesquisar e apontou possíveis áreas onde poderia estar os restos do San Jose.

Num lance digno de filmes de espionagem, um agente do governo colombiano conseguiu uma cópia do tal documento, com a indicação dos possíveis pontos, e a Marinha da Colômbia começou a pesquisá-los.

Em dezembro de 2015, veio o achado – anunciado, com toda pompa, pelo próprio presidente da Colômbia.

Só que, desde então, os direitos pela exploração do que é considerado “o mais valioso naufrágio de todos os tempos” (hoje avaliado em algo como 20 bilhões de dólares) se transformou em pendenga jurídica que envolve não só a empresa americana, como os governos da Espanha e da Colômbia.

Os dois países brigam nos tribunais pela posse legal dos escombros do galeão – que, hoje, mais de 300 anos depois, só são visíveis graças aos mesmos canhões que permitiram a identificação do naufrágio como sendo o do San Jose.

A Colômbia diz que, como os restos do galeão estão em águas territoriais colombianas, eles pertencem ao Patrimônio Histórico do país.

Já a Espanha contra-ataca alegando que o San Jose era um “barco do Estado espanhol”, e, baseada na determinação da Unesco de que os naufrágios devem pertencer ao país da bandeira de origem do navio, exige o seu direito.

O problema é que a Colômbia não faz parte deste tratado e, portanto, não segue nem reconhece a determinação da Unesco.

Além disso, ainda há a empresa americana que identificou o local do naufrágio, que, há décadas, briga pelos seus direitos na Justiça – algo como metade do que for encontrado, o que a Colômbia solenemente ignora.

No ano passado, sem recursos tecnológicos para explorar o naufrágio (que jaz a uma profundidade impossível aos mergulhadores e só viável aos robôs submarinos mais modernos do mundo, o que o país não possui), o governo colombiano anunciou a criação de uma iniciativa público-privada e passou a convidar empresas da área para participar da licitação de um “levantamento arqueológico” dos restos do galeão – a americana Sea Search Armada se recusou a participar, porque alega que já tem direito adquirido no caso.

Na Colômbia, até hoje, o caso do galeão naufragado é tratado como “assunto de Estado”. E tornou-se o principal projeto cultural e científico em curso no país.

Mas, obviamente, este não é o único – muito menos o principal – motivo da pendenga, que já se arrasta há quase uma década.

Um tesouro dessa magnitude interessa a qualquer pessoa.

Sobretudo, funcionários de governos não muito confiáveis.

Por isso, os arqueólogos estão preocupados.

A despeito da normativa da Unesco de que itens submersos devem ficar onde estão, porque fazem parte do patrimônio da humanidade, eles temem que os restos do velho galeão serão revirados, até que se extraia toda a sua carga ultra-valiosa.

Recentemente, o próprio presidente colombiano, Gustavo Petro, anunciou que seu governo irá financiar uma expedição aos escombros do galeão, em busca de “artefatos históricos”, embora ninguém acredite que ficará só nisso.

Afinal, quem resistiria a tentação de colocar as mãos no maior tesouro submerso de todos os tempos?

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A trágica regata dos ventos fatais

A trágica regata dos ventos fatais

A previsão do tempo nem sempre acerta. Sobretudo décadas atrás, quando não havia tantos recursos tecnológicos. Um dos exemplos mais dramáticos disso aconteceu em dezembro de 1998, durante a regata Sydney-Hobart, na Austrália, uma das competições de barcos à vela mais famosas do mundo.

Quando os 115 veleiros inscritos para aquela competição partiram da bonita baía australiana para um percurso de 630 milhas até a capital da vizinha Tasmânia, o sol brilhava forte, os ventos eram tranquilos e a meteorologia previa nada além do habitual para a travessia do Estreito de Bass, que separa as duas ilhas — onde sempre costuma ventar forte e bastante.

“Ali, as rajadas podem chegar a 50 nós”, anunciou, quase burocraticamente, o organizador da regata, aos participantes.

Mas, três dias depois, quando os primeiros barcos começaram a chegar a Hobart, semidestruídos e com tripulações esgotadas, os números daquela triste regata eram bem mais aterrorizantes: 71 barcos haviam abandonado a prova ou sido abandonados pelos seus tripulantes, cinco afundaram, a Guarda Costeira australiana recebeu mais de 80 pedidos de socorro e fez 55 tenebrosas operações de resgates, com barcos e helicópteros, na maior ação do gênero da história do país.

Mas o pior de tudo é que seis velejadores estavam mortos.

A culpa foi da meteorologia, que não previu que os ventos de 50 nós anunciados na partida virariam mais de 80 (ou quase 150 km/h) ao longo da travessia do Estreito.

Nenhuma tripulação estava preparada para tamanha intensidade de vento.

O resultado foi uma das regatas mais trágicas da História.

Soprava um vento moderado, entre 13 e 20 nós, quando os barcos partiram de Sydney, na manhã de sábado, 26 de dezembro, logo após o Natal, como manda a tradição da prova.

Mas, no dia seguinte, domingo, apenas 24 horas depois, as tripulações dos dois barcos líderes da prova, o Brindabella e o gigantesco Sayonara, do milionário americano Larry Ellison, já reportavam, pelo rádio, ventos crescentes e mar bem grosso pela frente.

E a situação seguiu piorando, rapidamente.

Logo, toda a flotillha estava lutando contra ondas de até 15 metros de altura, que faziam com que os barcos fossem atirados de uma para a outra, feito rolhas, gerando um cenário de terror para os tripulantes.

Avariados, nove veleiros abandonaram a regata ainda no primeiro dia, e outros comandantes já tencionavam fazer o mesmo quando começou o pior: os acidentes e as mortes.

Um dos barcos, o Stand Aside, foi tombado por uma onda e perdeu o maestro, que desabou sobre a tripulação, deixando três feridos a bordo.

Um deles teve parte dos dedos decepados pelos cabos de aço do mastro e outra tripulante ficou presa na mastreação avariada, dentro d´água.

Milagrosamente, foi resgata pelos próprios companheiros, em meio aquele quase maremoto.

Instantes depois, uma onda enorme atingiu o veleiro Winston Churchill, que inclinou 45 graus e foi arremessado de encontro a outra vaga, que completou a tragédia, inundando e afundando o barco.

A tripulação só teve tempo de disparar um pedido de socorro e pular para as balsas salva-vidas.

Mas nem todos escaparam.

Três tripulantes que estavam agarrados a uma das balsas, tentando subir de volta ao veleiro, foram tragados por outra onda, no começo daquela noite — uma longa noite de seguidas tragédias.

E logo veio outra perda trágica: a do velejador olímpico inglês Glyn Charles, que não era nenhum principiante no esporte.

Mesmo estando atado ao barco por um cinto de segurança, ele foi varrido do convés do veleiro Sword of Orion por uma muralha d´água e também desapareceu no turbilhão de água salgada que se tornou o mar do Estreito de Torres naquela noite.

Seu corpo jamais foi encontrado.

Enquanto tudo isso acontecia, os atônitos organizadores da regata se limitavam a retransmitir dezenas de pedidos de socorro à Guarda Costeira australiana.

Esta, por sua vez, mobilizou todos os seus barcos e helicópteros para tentar tirar o máximo possível de velejadores do meio do oceano.

Às 22 horas de domingo, as rajadas chegaram a insuportáveis 80 nós e outra meia dúzia de barcos foi abandonada no mar.

Outros tantos buscaram abrigo numa ilha próxima e por ali ficaram.

Mas o cenário de horror continuava.

Outro veleiro, o Business Post Naiad, capotou duas vezes, perdeu o mastro e dois tripulantes: um afogado e o próprio comandante, de ataque cardíaco, causado pelo estresse e esforço em tentar manter o barco flutuando.

O mais incrível, contudo, foi que a regata prosseguiu, ainda que, lá na frente, os ponteiros avançassem tentando apenas escapar o mais rápido possível daquele inferno.

Vencer não importava mais. O que contava era sobreviver.

E a melhor maneira de fazer isso era chegar logo a um porto seguro.

Só na terça-feira, três dias depois da partida em Sydney, o primeiro barco chegou a Hobart.

Era o Sayonara, do milionário Elisson, que estava a bordo e nem de longe comemorou a vitória.

“Não estávamos competindo”, disse, chocado, ao desembarcar. “Estávamos apenas tentando sair vivos”.

No final, apenas 44 barcos completaram a competição, que teve um trágico saldo de mortes, mas deixou um legado: a previsão do tempo nunca mais foi a mesma na Austrália, depois daquela pavorosa regata Sydney-Hobart.

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“Livro fantástico, mais que recomendado”
Márcio Bortolusso, documentarista e explorador

FOTO: ROLEX SYDNEY HOBART

3 iates de brasileiros famosos que estão entre os maiores do país

3 iates de brasileiros famosos que estão entre os maiores do país

Titanium II (Azimut Grande 30 Metri), de Roberto Justus

O empresário e apresentador de televisão recebeu, no ano passado, o seu novo iate, que é um dos maiores (e mais caros) que o Brasil já teve. Batizado de Titanium II (o anterior se chamava apenas Titanium), o barco, um Azimut Grande 30 Metri (o nome já mostra o seu comprimento), produzido em Santa Catarina, mas com projeto italiano, possui quatro suítes, três andares (ou deques, em linguagem náutica), cozinha completa, sala de estar e de jantar, banheira de hidromassagem ao ar livre com capacidade para oito pessoas e até uma sala privativa de cinema. No total, são mais de 300 m2 de área útil a bordo – bem mais do que muito apartamento de luxo em São Paulo.

Preço estimado: cerca de R$ 45 milhões.

 

Lady Laura IV (Falcon 115), de Gusttavo Lima  (ex-iate de Roberto Carlos)

O lendário iate do Rei da Jovem Guarda, e eterno queridinho do Brasil, ganhou, recentemente, um novo dono: o também cantor Gusttavo Lima, que já tinha outro grande barco. Comprado por estimados R$ 25 milhões, bem menos que seu valor de mercado, o ex-iate de Roberto Carlos (que sempre batizou seus iates com o nome Lady Laura, uma homenagem à sua mãe) é um modelo Falcon 115, de 35 metros de comprimento, feito na Itália, em 2011, e tem cinco suítes e três camarotes de serviço para a tripulação. Foi vendido porque vinha sendo pouquíssimo usado pelo cantor, e passava a maior parte do tempo atracado na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, ao lado de outro iate lendário: o Tamarind, que pertenceu ao dono da Rede Globo, Roberto Marinho.

Preço estimado: cerca de R$ 25 milhões.

Bejoa (Riostar 120), de Luciano Huck

O apresentador do Caldeirão sempre gostou de barcos. E já teve vários. Ao longo dos anos, foi trocando de modelos e sempre crescendo o tamanho deles. O atual é um dos maiores iates já construídos no Brasil: o Bejoa – o nome, um tanto estranho, é a junção das letras dos nomes Benjamim, Joaquim e Eva, filhos dele com a apresentadora Angélica, tal qual fizera o ator Johnny Deep, ao batizar seu iate de Vajoliroja. Construído pelo estaleiro carioca Riostar, mas com interior criado por estilistas italianos, como Paola Lenti, uma das designers de mobiliário mais premiadas do mundo, o iate tem 120 pés (ou quase 40 metros) de comprimento, quatro pisos, quatro suítes, duas cozinhas e até uma academia de ginástica. Ficou pronto no início de 2017 e, desde então, vem sendo bastante usado pela família, em Angra dos Reis, onde o barco fica guardado.

Preço estimado: cerca de R$ 30 milhões.

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Regata mais difícil do mundo começa com icebergs, resgate, desistências e barco dobrado ao meio

A cada quatro anos, alguns dos maiores velejadores do mundo se reúnem para a disputa daquela que é considerada a mais dura, difícil e desgastante corrida de barcos a vela do planeta – além de ser, também, a mais longa, já que obriga os participantes a contornarem todo o globo terrestre, durante cerca de três meses, navegando dias e noites sem parar em lugar algum, e, ainda por cima, sozinhos, cada um no seu barco.

É a Vendée Globe, apelidada de “Everest da Vela”, pelos seus desafios, que, este ano, partiu da França, no último dia 8 de novembro, com 33 participantes – que, no momento, já estão reduzidos a 29.

Como que comprovando a fama de ser uma das mais desafiadoras competições esportivas que existem, entre todos os esportes, logo no seu primeiro trecho, a descida do Atlântico, rumo ao Oceano Índico, dois dos favoritos tiveram que abandonar a competição – um deles, sob o sério de perder, também, a vida.

Na última segunda-feira, após mergulhar numa grande onda e ver o seu barco dobrar ao meio (uma das suspeitas é que isso tenha sido causado pelos foils, asas laterais que os barcos estão usando, que teriam agido como uma “barreiras” na passagem da onda) o francês Kevin Escoffier só teve tempo de acionar o pedido automático de socorro e pular para a balsa salva-vidas, antes de ficar à deriva, a mais de 1 500 quilômetros da costa da África, enquanto seu veleiro, praticamente dividido em duas partes, era engolido pelo oceano.

Naquele mesmo instante, na França, a milhares de quilômetros de distância, ao receber o sinal de socorro emitido pelo velejador, a coordenação da competição acionou os competidores que estavam mais próximos do barco acidentado, para que resgatassem o francês, já que nenhum helicóptero teria autonomia para ir e voltar ao local, quase no meio do Atlântico.

E foi o que aconteceu.

O também francês Jean Le Cam, um veterano de 61 anos de idade e cinco participações nesta duríssima regata, cujo barco chama-se Yes, We Cam (um trocadilho do slogan da campanha de Barack Obama (“Sim, Nós Podemos”) com o sobrenome do velejador, desviou sua rota, e mesmo sabendo que seria prejudicado na prova, foi resgatar o outro velejador.

Duas horas depois, ele chegou ao local de onde o francês havia disparado o pedido de socorro, avistou a balsa dele bem ao longe, mas não conseguiu alcançá-la, porque as ondas estavam altas demais e a faziam desaparecer no horizonte.

Le Cam, que, na edição desta regata de 2009 viveu situação inversa e teve que ser resgatado por outro competidor, depois que seu barco capotou, ficou dando voltas na área, apesar do mar agitado, com ondas que passavam dos cinco metros de altura, até que, quase uma hora depois, voltou a enxergar a balsa e resgatou o francês – que já estava à deriva no mar havia quase 12 horas.

“Nunca vi nada igual”, contou o náufrago ao conterrâneo que o resgatou. “A onda engoliu o meu barco e ele simplesmente dobrou ao meio. Vi a proa ficar a 90 graus em relação ao restante do casco, enquanto a água entrava pelo rasgo e inundava tudo. Só deu tempo de disparar o alarme de socorro e mandar mensagem para a minha equipe em terra firme, dizendo que eu estava afundando, e que aquilo não era uma brincadeira! Dois minutos depois, eu já estava no meio do mar, dentro da balsa, só com a roupa do corpo, enquanto meu barco sumia da superfície”, contou mais tarde o francês, que seguiu a bordo do barco de Le Cam por mais alguns dias até que foi transferido para um navio da Marinha Francesa, já que o regulamento da Vendée Globe proíbe que os barcos parem em portos durante toda a competição, sob o risco de desclassificação.

Apesar do contratempo, Le Cam, que, pelo seu gesto heroico, recebeu congratulações até do presidente da França, Emmanuel Macronm, segue na prova, contando com algum tipo de compensação pelo tempo que perdeu socorrendo o compatriota.

E o francês não foi o único vencido pela severidade da Vendée Globe, logo no seu trecho inicial.

Dias antes, o inglês Alex Thomson, que liderava a competição, foi surpreendido por uma rachadura na fixação de uma das asas que fazem o seu barco literalmente voar sobre o mar, e precisou passar uma madrugada inteira tentando um conserto de emergência, sozinho, em pleno mar.

Conseguiu. Mas apenas para descobrir, três dias depois, que também um dos lemes do seu barco havia quebrado, possivelmente após bater em algo no mar. E, para isso, não havia conserto possível.

Thomson, que, ao longo de sua carreira como velejador profissional já navegou o equivalente a duas vezes e meia a distância que separa a Terra da Lua, perseguia a vitória nesta regata há quatro edições, mas, com o duplo imprevisto, tive que desistir.

Ele navegou lentamente (e com o barco inclinado apenas para o lado do leme não danificado) na direção da Cidade do Cabo, na África do Sul, onde chegou após uma semana.

E o mesmo foi feito por dois outros competidores, que também tiveram os seus barcos seriamente danificados por “objetos flutuantes não identificados” – os “OFNIS”, numa referência gaiata ao termo “OVNIS”, usados para designar discos voadores.

“De repente, do nada, meu barco estancou no mar, como se eu tivesse batido numa pedra”, contou a francesa Samantha Davies, uma das cinco mulheres que participam da competição. “Voou tudo dentro da cabine, inclusive eu, enquanto o barulho de partes do barco rachando deixavam claro que o problema era realmente sério. Até agora, não sei no que o meu barco bateu”, relatou a francesa, que também já chegou à África do Sul, mas, mesmo fora da competição, diz que seguirá em frente, após o conserto do seu barco.

Quase no mesmo instante de Samantha Davies, outro veleiro, o do também francês Sébastien Simon, viveu a mesma experiência, no mesmo local: a ponta da África, onde o Oceano Atlântico encontra o Índico. “Também não sei no que bati, mas vi muitas coisas boiando no mar nos últimos dias. E isso é um perigo para os barcos”, disse Simon.

Entre os objetos flutuantes que estão sendo detectados na região onde os barcos da Vendée Globe navegam neste instante, um deles em especial preocupa os organizadores: os blocos de gelo e icebergs, que estão se desprendendo cada vez mais da Antártica.

Por conta disso, a direção da prova decidiu aumentar em cinco graus a “Zona de Exclusão”, região na qual os competidores não podem navegar.

“Precisamos garantir a segurança dos velejadores, pelo menos contra o que nós podemos enxergar através das imagens de satélites”, explicou o diretor da competição, Jacques Caraës.

Mais do que uma simples e longa corrida de barcos à vela, a Vendée Globe, também apelidada de “Regata dos Fortes”, é um teste de resistência e resiliência para os competidores, que velejam 24 horas por dia, durante meses a fio, sem parar em lugar algum, e o que é ainda pior: sozinhos nos barcos – que são uma espécie de Fórmula 1 dos mares.

Os veleiros, chamados de Imoca 60 (numa referência ao seu tamanho, de 60 pés, ou 18 metros de comprimento), são todos iguais, com casco em fibra de carbono e duas “asas” laterais, os foils, cuja função é “erguer” o barco, para que ele toque o menos possível na água – porque, assim, ficam ainda mais rápidos.

Possuem mastros com a altura de um prédio de dez andares, velas que cobririam uma área equivalente à de três quadras de tênis e custam cerca de R$ 30 milhões cada.

Também navegam completamente inclinados, chegando a 45 graus em relação ao mar, e só não viram porque possuem uma quilha móvel que inclina na direção contrária à do barco, impedindo que ele tombe.

Mas, apesar desses números grandiosos, os barcos da Vendée Globe não oferecem nenhum conforto.

Nem banheiro costumam ter – quase sempre, só uma espécie de balde, bem mais fácil de adaptar a absurda inclinação sob a qual navegam. E banho, só quando chove.

Como navegam em solitário, os competidores também costumam dormir pouco. Bem pouco, em fragmentos de 20 ou 30 minutos por vez, porque, ao fazerem isso, o barco segue avançando, sem ninguém ao comando.

E se alimentam apenas de comida em pó, dissolvida em água do mar aquecida numa espécie de fogareiro, já que os barcos também não possuem cozinha.

“É preciso estar preparado física e psicologicamente para dar uma volta ao mundo em solitário com um barco desses”, admite o inglês Alex Thomson.

Conviver com desconforto, a solidão e o permanente risco, durante tanto tempo, como acontece na Vendée Globe, exige mesmo um bom preparo mental.

Competidores sem essa virtude, costumam ficar pelo caminho.

Hoje, com a tecnologia ajudando os competidores, a vida dos participantes da Vendée Globe se tornou um pouco mais segura.

Mas, ainda assim, sujeita a imprevistos, como a onda que dobrou o barco do francês Kevin Escoffier ao meio, na última segunda-feira.

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A grande trapaça na maior das regatas

A grande trapaça na maior das regatas

Em maio de 1967, o velejador inglês Francis Chichester virou ídolo na Inglaterra ao completar a primeira circum-navegação do planeta velejando em solitário, com apenas uma escala.

O feito, até então inédito, animou os velejadores a tentar superá-lo, fazendo a mesma travessia sem parada alguma – algo ainda mais ousado.

Aproveitando todo aquele entusiasmo, em março do ano seguinte, o jornal inglês Sunday Times resolveu promover a primeira regata de volta ao mundo sem escalas, a Golden Globe, que inaugurou a era das ainda mais desafiadoras competições oceânicas ao redor do globo.

Nove competidores se inscreveram. Um deles, apenas de olho no gordo prêmio de 5 000 libras esterlinas para o vencedor da regata.

Seu nome, Donald Crowhurst. E ele acabaria entrando para a história das regatas pela porta errada.

Até o final dos anos de 1960, Donald Crowhurst era um simples velejador de fim semana, dono de uma pequena empresa de equipamentos de navegação no interior da Inglaterra.

Mas, endividado até as orelhas (e vendo naquela regata também uma oportunidade de divulgar os produtos que fabricava), resolveu se inscrever na Golden Globe.

Perto, porém, do nível dos demais participantes, entre eles o francês Bernard Moitesseier e o também inglês Robin Knox-Johnston, ambos lendários no mundo da vela, Crowhurst não passava de um pretencioso azarão, sem chance alguma de vitória.

Ele não tinha sequer um barco a altura do desafio de atravessar o planeta inteiro velejando. Muito menos dinheiro para construí-lo.

Mas, persuasivo, conseguiu convencer um rico empresário, Stanley Best, a financiar a construção de um trimarã de 40 pés, que ele mesmo projetara.

Em troca, assinou um contrato no qual se comprometia a pagar ao seu patrocinador as 12 000 libras esterlinas investidas na construção do barco, caso algo desse errado com o trimarã na regata.

Mas Crowhurst não tinha este dinheiro para pagá-lo.

A falta de experiência de Crowhurst na construção de um barco de tamanha envergadura gerou seguidos atrasos na construção do Teignmouth (nome da sua cidade) Electron (marca dos equipamentos que ele produzia), como o barco foi batizado.

O trimarã só ficou pronto uma semana antes do prazo final para a largada da regata. E, ainda assim, com sérios problemas de navegabilidade, que só foram descobertos quando foi finalmente para a água.

A partida de Crowhurst de sua cidade foi, ao mesmo tempo, pomposa e patética. Praticamente todos os moradores foram saudá-lo no porto.

Mas, tão logo ele partiu, retornou. Alguns estais, cabos que sustentavam o mastro, haviam sido fixados errados. Um erro primário.

Uma hora e meia depois, com os cabos improvisadamente presos, ele partiu de novo. Mais atrasado do que nunca para a largada da regata.

Na Golden Globe, os competidores não precisavam largar juntos, porque o que valeria seria o total de dias gasto por cada barco no longo percurso.

Mas havia um prazo máximo para a partida: 31 de outubro.

Crowhurst chegou a Falmouth, ponto de partida da prova, apenas na véspera.

Foi o último a partir. E o primeiro a acusar problemas no barco.

Duas semanas depois, quando descia o Atlântico rumo a costa brasileira, de onde os participantes tomariam o rumo da ponta da África, oceano Índico e por aí afora, Crowhurst teve a confirmação do que tanto temia: seu barco não tinha condições de enfrentar aquele desafio, muito menos os mares bem mais violentos do que as calmarias da Linha do Equador, onde ele se encontrava.

Mesmo navegando em condições extremamente favoráveis, o Teignmouth Electron já acumulava uma desesperadora lista de defeitos, a começar por sinistras rachaduras no casco, que permitiram a entrada de água nos porões e danificaram o gerador.

Num só dia, conforme registrou no diário de bordo, Crowhurst retirou, com baldes, porque as bombas também não estavam funcionando direito, mais de 500 litros de água do interior dos cascos.

A epopéia também foi narrada, pelo rádio, à sua mulher, Clare, que, um tanto angustiada, acompanhava a evolução inicial de Crowhurst na regata.

As rachaduras no casco trouxeram a mente de Clare as dramáticas últimas horas do marido em casa, quando, na noite da véspera da partida, ele confessara, chorando, que estava muito desapontado com o barco e pedia a opinião da esposa sobre sua participação na regata.

Sabendo que o marido precisa de uma injeção de ânimo, Clare, mesmo um tanto a contragosto, o incentivou.

– Se você desistir agora, será infeliz pelo resto da vida -, disse.

No dia seguinte, Clare e os filhos se despediram de Crowhurst, que partiu com seu barco problemático. Seria a última vez que o veriam.

Tempos depois, ao ser entrevistada pelo mesmo jornal que promovera a regata, Clare Crowhurst disse o quanto se arrependera daquele comentário.

– O que Donald, secretamente, estava me pedido naquela noite é que o detivesse. E eu fiz exatamente o contrário.

Para Crowhurst, no entanto, era tarde demais.

Embora atormentado pelo mau funcionamento do Teignmouth Electron, ele se sentia acuado por aquela cláusula no contrato. Desistir da regata seria decretar a sua ruína financeira.

Por outro lado, ele sabia que o seu barco não só não tinha nenhuma chance de vitória, como sequer seria capaz de completar a prova, o que também o levaria a ter que “comprá-lo”, sem que tivesse recursos para isso.

Foi quando Crowhurst teve a ideia que, esta sim, acabou selando o seu fim: ele “venceria” a regata – mas sem sair de onde estava.

Numa época em que não havia navegação por satélite e todas as comunicações no mar eram feitas apenas por rádio ou telégrafo, mentir sobre a localização de um barco era coisa fácil.

Na Golden Globe, cabia aos próprios participantes irem informando os seus avanços.

Bastava, portanto, passar coordenadas fictícias aos organizadores da regata, para “assumir” a liderança da competição na reta final, que, providencialmente, era ali mesmo, no Atlântico, onde Crowhurst já estava.

Portanto, tudo o que ele tinha que fazer era ficar perambulando pelo Atlântico e aguardar alguns meses para “vencer” a competição, livrando-se assim da multa com o patrocinador e ainda colocando um bom dinheiro no bolso pela vitória.

Um plano, enfim, perfeito.

Até porque a habitual integridade dos velejadores, especialmente os ingleses, como também eram os organizadores da Golden Globe, jamais levaria alguém a pensar em tal tipo de trapaça.

Ninguém.

Menos Donald Crowhurst.

A primeira providência dele foi criar um segundo livro de bordo.

Nele, Crowhurst passou a registrar os avanços fictícios do Teignmouth Electron informados aos organizadores da regata, enquanto o diário original seguiu marcando a posição real do barco – algo que tinha tudo a ver com o seu jeito metódico.

Em seguida, traçou sua verdadeira rota, que jamais extrapolaria o Atlântico, e deu início a grande farsa.

Logo após cruzar a Linha do Equador, Crowhurst enviou uma mensagem dizendo ter avançado 170 milhas náuticas em apenas um dia, quando, na verdade, não passara de míseras 13.

Semanas depois, foi ainda mais longe na mentira: garantiu ter batido o recorde mundial de singradura, com incríveis 243 milhas navegadas em apenas 24 horas, o que deixou um tanto intrigado o próprio Francis Chichester, um dos fiscais da regata.

Crowhurst percebeu isso e tomou outra providência: desligou o rádio, a fim de não ser interpelado.

E seguiu perambulando lentamente em ziguezagues pelo Atlântico.

No Natal, chamou a mulher e disse estar se prestes a dobrar a ponta da África, quando apenas zanzava pela costa brasileira.

Para quem recebia seu relatos, a “performance” de Crowhurst era realmente espantosa. Ainda mais depois de tantos problemas antes da largada.

As informações sobre o desempenho extraordinário do Teignmouth Electron animaram, o patrocinador do barco.

No início de janeiro, ele pediu à rádio de Cidade do Cabo que tentasse um contato com Crowhurst para felicitá-lo e informá-lo que, como prêmio pelo que havia conseguido até ali, estava cancelando a cláusula contratual sobre o tal pagamento do barco.

Mas, como o rádio do Teignmouth Electron permanecia desligado, Crowhurst não ficou sabendo da novidade, que poderia ter lhe poupado a vida.

Ele já poderia retornar a Inglaterra sem falir. Mas, ironicamente, não o ouviu a mensagem.

Nos dois meses seguintes, Crowhurst ficou vagando entre a costa sul do Brasil e o Uruguai.

Mas, a bordo do precário Teignmouth Electron, as coisas não iam nada bem.

O gerador funcionava tão mal que Crowhurst passava as noites às escuras, sem sequer luzes de navegação.

Com isso, mal dormia, porque precisava ficar atento a aproximação de eventuais navios.

O piloto automático também não funcionava. E as rachaduras no casco seguiam vertendo água, o que começou a mofar parte da comida.

Em 6 de março, a situação se tornou insuportável. Crowhurst resolveu, então, fazer uma parada no esquecido povoado de Rio Salado, na costa da Argentina, para reparos no casco do Teignmouth Electron, apesar do risco que isso representava.

Se fosse identificado, ele não só seria desclassificado da regata, que proibia paradas, como acabaria desmascarado, porque, àquelas alturas, dizia estar cruzando o Índico, no encalço dos líderes.

Mas não havia sequer telefones em Rio Salado e o único agente do povoado nem de longe desconfiou que aquele gringo estivesse fazendo algo de errado, embora ele tivesse remendado o barco com toscas pranchas de madeira.

Dois dias depois, Crowhurst voltou ao mar. E continuou o teatro.

Lá na frente, contudo, as dificuldades para os competidores também não eram poucas.

Entre os demais oito barcos, só três restavam na competição: os ingleses Robin Knox-Johnston e Nigel Tetley e o francês Bernard Moitessier.

Logo, seriam só dois, depois que o líder Moitessier, já na reta final do Atlântico, resolveu abandonar a regata, dar meia-volta e rumar para a Polinésia Francesa, onde passou a viver longe da civilização.

Com isso, Knox-Johnston disparou para a linha de chegada e foi o primeiro a retornar a Inglaterra.

Mas, no total de dias gastos na travessia, era certo que perderia para Tetley, que vinha em segundo, e até para o mentiroso Crowhurst, que, pelo rádio, agora dizia estar no encalço do rival e se aproximando rapidamente.

Era o ato final da farsa. O momento de “assumir” a liderança.

Mas acabou sendo o fim para Donald Crowhurst.

Cada vez mais intrigado com os avanços de Crowhurst na perseguição a Tetley, Francis Chichester passou a desconfiar seriamente do compatriota. E este, temendo ser desmascarado, resolveu mudar de estratégia.

Ele não mais “venceria” a regata (porque sabia que isso geraria uma checagem apurada em seu diário de bordo), mas chegaria em segundo, ganhando assim algum dinheiro e se livrando tanto da multa do seu patrocinador, que ele não sabia ter sido abolida, quanto de uma conferência mais severa nos seus registros.

Tudo o que ele tinha que fazer era chegar atrás de Tetley. Quem, afinal, se preocuparia em investigar um perdedor?

Mas quis o destino que não fosse bem assim.

Pressionado pelos comunicados de Crowhurst que relatavam “avanços acelerados no Atlântico”, Tetley passou a forçar seu barco ao máximo.

Chegou a fazer furos no casco para contornar alguns problemas de vazamentos que vinha enfrentando.

Até que, durante uma tempestade nas imediações dos Açores, a pouco mais de 1 000 milhas da linha de chegada, quando navegava com mais velas do que deveria, Tetley capotou e naufragou.

Ao saber do desastre de Tetley, que, no entanto, sobreviveu ao naufrágio, Crowhurst desesperou-se.

Ele, agora, estava condenado a “vencer a regata” e encarar a verdade sobre a sua farsa. Foi demais para o seu já fraco equilíbrio emocional.

Nos dias subsequentes, Crowhurst começou a dar claros sinais de confusão mental.

Enredado em sua própria teia de mentiras, encurralado e sentindo remorso pela atitude tomada, ele passou a fazer anotações desconexas sobre o cosmo, teorias de Einstein e outros absurdos em seus diários de bordo, que de livros marítimos se tornaram quase metafísicos.

Perdeu, também, a noção do tempo. Na solidão do seu cada vez mais precário barco (a cabine era uma permanente bagunça, com peças e comidas estragadas por todos os lados, como registrava no diário verdadeiro), foi perdendo a própria sanidade.

Por fim, perdeu o rádio, seu único meio de contato com o restante da humanidade. Para Crowhurst, restaram apenas os diários.

E foi neles que ele registrou o improvável.

Em 1o de julho de 1969, num dos seus já raros momentos de lucidez, Crowhurst fez o último registro no diário de bordo.

E contou a verdade.

“Não há porque prolongar o jogo”, escreveu. “Vem sendo um bom jogo, mas é preciso terminá-lo. Acabou, acabou”.

Terminou o seu testamento com um pedido de misericórdia – “Mercy”, em inglês, título que, anos depois, seria usado no filme que narrou sua vida.

Até hoje, os restos do seu trimarã, o Teignmouth Electron, jazem, abandonados e destruídos, em uma praia das Ilhas Cayman, no Caribe, para onde as correntes marítimas o levaram.

A família jamais quis resgatar o barco.

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