Se você, algum dia, pensou em fugir para um lugar longe de tudo e de todos, é para aqui que você deveria ir: o Ponto Nemo, no Oceano Pacífico, a área de mar mais remota e afastada de qualquer terra firme do planeta.

O Ponto Nemo, assim batizado em homenagem ao lendário submarino da clássica obra 20 000 Léguas Submarinas, de Julio Verne (nada a ver com o simpático peixinho colorido do desenho animado, mas sim com o termo “nemo”, que em latim significa algo como “nada” ou “ninguém”), não aparece em nenhum mapa e nunca foi visitado nem pelo cientista que o descobriu, o engenheiro croata-canadense Hrvoje Kukatela, em 1992.

Também chamado pelos oceanógrafos de “Polo de Inacessibilidade”, o Ponto Nemo é uma área específica ao sul do Oceano Pacífico, mais ou menos entre a Nova Zelândia e a costa do Chile, onde não existe nenhum naco de terra firme por perto, e a ilha ou continente mais próximo fica a exatos 2 688 quilômetros de distância, qualquer que seja a direção.

Ou seja, o Ponto Nemo é o ponto equidistante mais longe de qualquer terra firme em todos os oceanos – o local mais ermo, remoto e isolado do mundo, entre as áreas de mar do planeta.

Em 2014, os barcos que competiram na regata de volta ao mundo Volvo Ocean Race passaram pelo Ponto Nemo, vindos da Nova Zelândia para a América do Sul.

O barco mais veloz da competição levou meio mês para atingi-lo, o que dá uma ideia do isolamento da região.

“O Ponto Nemo não é uma porção de terra. É o que de mais distante existe dela”, brincam os navegantes.

Um marinheiro que tiver a infelicidade de se tornar náufrago no Ponto Nemo estará praticamente arruinado, porque os seres humanos mais próximos dele serão os astronautas da Estação Espacial, que orbita em torno da Terra a cerca de 400 quilômetros de altura – mas, ainda assim, quase sete vezes mais perto do Ponto Nemo do que a terra firme mais próxima dele.

E o pior é que, qualquer que seja a direção em que o infeliz avance, o que ele encontrará de mais próximo não passará de uma ilha deserta.

Ou será a Ilha Ducie, ao norte, que faz parte das Ilhas Pitcairn, consideradas as mais remotas ilhas habitadas do planeta; ou o Motu Nui, a nordeste, um simples rochedo próximo à Ilha de Páscoa; ou a gelada Ilha Maher, ao sul, na Antártica, onde só existe gelo.

De civilização, não há nada.

E foi exatamente por isso que o Ponto Nemo foi criado – por não haver nenhuma alma viva por perto.

O Ponto Nemo fica em uma parte tão remota do globo terrestre que só recentemente os cartógrafos concluíram que a Ilha Henderson, que também faz parte das Pitcairns, uma das pontas do triângulo imaginário que fez nascer o ponto, sempre esteve erroneamente indicada nos mapas, a quase dois quilômetros mais ao sul do que apontavam as cartas náuticas.

Foi a partir da triangulação entre aquelas três ilhotas, cada uma delas a quase 2 700 quilômetros de distância, que surgiu o Ponto Nemo, um “X” invisível nas cartas náuticas, mas que, para os cientistas, é uma área muito mais relevante do que uma simples curiosidade geográfica.

E por uma razão que nada tem a ver com o mar, e sim com o espaço.

Por que é no Ponto Nemo que são descartadas as naves espaciais e satélites que não servem mais.

O Ponto Nemo foi criado com este objetivo: atender as necessidades dos programas espaciais, que precisavam de uma área de mar que não fosse habitada nem fizesse parte da rota regular de barcos, para realizar o descarte de suas naves e satélites, ao serem trazidos de volta à Terra – um local totalmente desabitado e isento de riscos para as pessoas.

Por isso, nos anos de 1990, o pesquisador croata, radicado no Canadá, Hrvoje Kukatela se debruçou sobre mapas dos oceanos e passou a medi-los, em busca do local mais distante entre todas as ilhas ou porções de terra firme existentes nos mares do planeta.

E foi assim que ele chegou ao Ponto Nemo, o “cemitério de objetos espaciais”, onde não existe nada nem ninguém por perto.

Até hoje, perto de 300 elementos espaciais (entre satélites, estações e naves) já terminaram os seus dias no fundo do mar do Ponto Nemo, ou ao redor dele, já que é impossível direcionar tão precisamente assim as quedas dos objetos – razão pela qual, quando uma operação de reinserção na atmosfera está para entrar em curso, todos os navios que estejam em um raio de 3 000 quilômetros em torno do Ponto Nemo são avisados e aconselhados a mudar de rumo.

No imenso cemitério espacial (curiosamente, no fundo do mar) do Ponto Nemo jaz, por exemplo, a primeira estação espacial tripulada da História, a MIR, lançada pela União Soviética, em 1986, que operou até 2001, quando foi trazida de volta à Terra e afundou, com segurança, dentro daquele perímetro.

Também o mesmo aconteceu com as estações espaciais soviéticas anteriores, do Programa Salyut.

E será lá também que está previsto o descarte da Estação Espacial Internacional – ISS, a maior de todas, prevista para o início da década de 2030.

Mas, no Ponto Nemo, não é apenas na superfície que não existe vida alguma por perto.

Também debaixo d´água, a vida marinha é bem escassa, porque a região é banhada por uma corrente marítima poderosa que inibe a presença de nutrientes e, consequentemente, não atrai tanto os seres marinhos.

É quase como um deserto de água salgada – uma das regiões menos biologicamente ativas do planeta.

E que, embora não esteja indicado em nenhuma carta náutica, existe de fato, ao menos na teoria -, nas coordenadas 48.526 latitude sul e 123.236 longitude oeste.

Para os interessados no mais completo isolamento nos mares do planeta, fica a sugestão de roteiro.

Mas, se optar em ir para lá, não espere encontrar ninguém por perto para ajudá-lo a voltar.

Gostou desta história?

Ela faz parte do NOVO LIVRO HISTÓRIAS DO MAR – VOLUME 3 – 100 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos, que pode ser comprado CLICANDO AQUI, com ENVIO GRÁTIS

VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE OS LIVROS HISTÓRIAS DO MAR


Sensacional! Difícil parar de ler”.
Amyr Klink, navegador

“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor