A brava xerife do mar que não deixa ninguém entrar no único atol do Brasil

A brava xerife do mar que não deixa ninguém entrar no único atol do Brasil

No meio do mar, a cerca de 270 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, existe um lugar absolutamente lindo: o Atol das Rocas, único atol do Brasil (um tipo de ilha rente ao mar que forma uma espécie de lagoa no meio do oceano) e, também, de todo o Atlântico Sul.

O Atol das Rocas é o que de mais perto o Brasil tem do Taiti. Seu mar é incrivelmente azul e com uma quantidade extraordinária de seres marinhos. Seja na beleza ou na riqueza de sua vida marinha, o Atol das Rocas deixa qualquer ilha do Caribe no chinelo.

Mas convém não se animar. Porque ali ninguém pode entrar. Nem mesmo se aproximar com um barco. E quem trabalha 24 horas por dia para que isso nunca aconteça é Maurizélia de Brito Silva, a “Zélia”, como ela prefere, a mais durona – e abnegada – guardiã das áreas de preservação da costa brasileira.

Ninguém conhece esse naco do território brasileiro com cara de paraíso, mar de aquário e absolutamente ninguém por perto, melhor do que Zélia. E ninguém manda ali mais do que ela.

Desde 1991, quando, aos 26 anos, desembarcou no atol pela primeira vez, levada pelo pai, então encarregado do extinto IBDF – Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, Zélia, hoje com o dobro daquale idade, 53 anos, nunca mais fez outra coisa a não ser tomar conta do Atol da Rocas. Com unhas e dentes.

Seu rigor na hora de defender o atol dos pescadores e invasores em geral lhe rendeu até um apelido: “Xerife do Mar”, que ela muito se orgulha.

Rendeu, também, a admiração de todos os biólogos, pesquisadores e ambientalistas em geral. Ninguém jamais foi tão dedicado a tarefa de proteger um pedacinho do mar brasileiro do que a Xerife Zélia – que segue na ativa até hoje como chefe suprema da Reserva Biológica do Atol das Rocas, não tem planos de se aposentar e aí de quem fizer algo errado lá!

“Mexeu no Atol, mexeu comigo”, diz Zélia. “Tenho autorização para portar arma, mas não uso. Prefiro conversar com os infratores. Mas falo grosso. Sempre”, avisa.

No começo de sua cruzada solitária para proteger o Atol das Rocas, sobretudo da pesca, Zélia cansou de ser ameaçada pelos pescadores.

Cortava redes, mergulhava para soltar os peixes enredados e não se intimidava nem quando os mais agressivos vinham para cima do seu precário bote, às vezes com armas em punho.

“Eu morria de medo, porque, se tomasse um tiro ali, no meio do mar, ninguém jamais ficaria sabendo. Mas não afinava nem desistia. Fingia que tinha coragem e ia pra cima deles. O atol sempre foi a minha vida”, diz.

Até hoje, ninguém pode visitar o Atol das Rocas, que fica a mais de 20 horas de barco da capital do Rio Grande do Norte. Já Zélia vai para lá três ou mais vezes por ano. E, a cada incursão, fica mais de um mês no Atol.

No começo, ia sozinha. “Hoje ficou bem mais fácil encarar a solidão, porque já tem até internet lá. Mas, no começo, eu cheguei a passar fome e sede, quando acabava a água de beber e o gás do fogareiro. Era um sofrimento só. Mas nunca me arrependi”, conta.

“Também nunca comi um peixe tirado do mar do atol. Tem peixe lá que eu acompanho o crescimento há mais de dez anos. Graças a Deus, isso é possível”, vibra a Xerife Zélia. E até os pescadores concordam que, se ela não existisse, o Atol das Rocas há muito teria deixado de ser o que é até hoje.

O Atol das Rocas fica numa posição estratégica de correntes marítimas e é uma espécie de criadouro marinho natural – daí ter virado área de proteção ambiental.

Os peixes gerados lá abastecem toda a região. Mas quem for pego pescando nas imediações do atol vai ter que se entender com Zélia, que está sempre de plantão, na internet, analisando imagens via satélite, ou encarapitada no alto do farol que há no atol, em busca de barcos invasores no horizonte.

No entanto, barcos com problemas são permitidos e até auxiliados, na medida do possível. Já pesqueiros viraram raridades na área. Depois que Zélia assumiu, ninguém mais pesca na área do atol.

Zélia admite que, se não tivesse tido pulso forte desde o princípio, a fauna marinha do atol já estaria seriamente comprometida. Mas diz que fez isso movida, sobretudo, pelo idealismo.

“Um dia, eu decidi que ia cuidar do Atol como se ele fosse meu. Fiz até empréstimo no banco para pagar, do meu bolso, as despesas das viagens para lá. Hoje, quando vejo como aumentou a quantidade de peixes, lagostas, tartarugas e tubarões nas piscinas do Atol, vejo como tudo valeu a pena”.

O Atol das Rocas não é para todo mundo não apenas na questão jurídica – já que, pela lei, reservas biológicas têm acesso totalmente proibido. Embora lindo, o atol em si é bem inóspito.

A vida no pedaço menos conhecido da costa do Brasil é dura. Bem dura. A começar pelo fato de que o Atol das Rocas, embora cercado de mar por todos os lados, não tem água potável.

É preciso trazer água doce do continente ou torcer para chover. Banho? Só de água salgada. E banheiro é o próprio mar – até hoje.

“No começo era bem pior”, consola-se Zélia. “Vivi quase três anos dentro de uma barraca de camping, enxotando baratas e escorpiões, porque a Reserva não tinha sequer uma sede. Hoje, está bem melhor. Mesmo assim, são poucos os pesquisadores que aguentam ficar lá um mês inteiro, até o barco vir buscá-los de volta”.

Velejadores, de vez em quando, aparecem. E, quando isso acontece, Zélia vai até o barco, explica que pode ancorar ali, mas pergunta se está tudo bem a bordo. Se estiver, manda o pessoal embora. É a sua obrigação.

Zélia chegou a cursar Ciências Sociais e Biologia, mas não terminou nenhuma das duas faculdades, porque faltava demais as aulas, por causa justamente do Atol. “Acabei me formando em ´atologia´”, brinca.

O prêmio, para ela o maior de todos, foi ter sido homenageada pelos pesquisadores, que colocaram o seu nome em duas novas espécies já encontradas no Atol. “Quando eu não estiver mais aqui, ainda assim ficará algo meu lá”, diz, orgulhosa.

No Brasil, a dedicação da Xerife do Mar só tem paralelo com a de outra abnegada brasileira, a arqueóloga Niède Guidon, que também tem dedicado sua vida ao estudo de pinturas rupestres no interior do Piauí, que retratam o passado do povo brasileiro – e ambas têm o mesmo comportamento firme e irredutível quando se trata de proteger o território no qual dedicaram a vida inteira.

Não por acaso, ambas foram premiadas. A arqueóloga com uma comenda da Unesco e Zélia com um prêmio dado aos brasileiros que fazem diferença na transformação do mundo.

Nos Estados Unidos, contudo, a história da ambientalista potiguar encontra paralelo em outra heroína do mar, embora em outro sentido.

No final do século 19, a americana Ida Lewis tornou-se não apenas a mais jovem faroleira da História, com apenas 16 anos de idade, como foi a primeira mulher a receber a mais alta condecoração do Congresso Americano, além de ter sido eleita “A Mais Brava Mulher da América”, pelos resgastes que promoveu no mar, com um simples barco a remo – uma história igualmente extraordinária, que pode ser conferida neste site, clicando aqui.

O patético naufrágio do submarino brasileiro

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Escada com 15 metros de altura, pouquíssimo espaço e nenhum conforto. Como é navegar em um submarino

Escada com 15 metros de altura, pouquíssimo espaço e nenhum conforto. Como é navegar em um submarino

Você se enfia numa escotilha pouco maior do que uma privada, olha para baixo e vê um apertado tubo vertical, que desce a perder de vista e mais parece um poço. Pelo menos, a altura é de um poço de verdade: 15 metros, o mesmo que um prédio de cinco andares.

 

A escadinha também não ajuda muito. É estreita, não permite dobrar as pernas e os ombros vão raspando nas laterais do cilindro de aço. Um ser mais rechonchudo certamente entalaria. Um mais medroso, nem tentaria. Ao descer, a impressão é que se você soltar as mãos da escadinha, que mais parece coisa de alpinista, despencará lá embaixo – e cairá mesmo.

 

Vencido o primeiro desafio, vem outro: a claustrofobia. Um submarino é um tubulão de aço tão hermeticamente fechado quanto um cofre. E tão apertado quanto um ônibus lotado. A bordo, não há espaço sobrando para nada. Tudo é compactamente encaixado e todos os espaços são milimetricamente aproveitados.

 

Também para economizar espaço, quase tudo a bordo tem mais de uma função. A mesa de refeições vira maca, se necessário, já que o refeitório é, também, enfermaria. Nem seria tão estranho assim se o ambiente não ficasse bem aos lados dos torpedos – sim, torpedos, porque todo submarino é, acima de tudo, uma nave de guerra. Mesmo que não exista combate algum à vista.

 

Submarinos são as embarcações menos conhecidas pelas pessoas, no mundo inteiro. A começar pelo fato de que foram feitos justamente para não serem vistos.

 

Mesmo assim são considerados “barcos” (ou “navios”, como preferem chamar os seus tripulantes), embora feitos para afundar em vez de flutuar. Só quando um submarino desaparece debaixo d´água é que ele começa, de fato, a cumprir o seu papel de navegar escondido. É uma máquina assustadora e fascinante, ao mesmo tempo.

 

– Quando vamos afundar? – fui logo perguntando ao comandante, tão logo embarquei.

– Espero que nunca – ele respondeu, enigmático.

 

É que a pergunta foi formulada errada. Submarinos não “afundam” – eles “submergem”. Quando um submarino “afunda”, é o fim. Como qualquer barco.

 

Foi minha primeira lição a bordo. A segunda é que, dentro de um submarino, tudo é tão apertado quanto a tal escadinha de acesso às entranhas daquele monstro fechado de aço.

 

Como os espaços são pra lá de acanhados, os esbarrões a bordo são inevitáveis, o que implica em permanentes pedidos de desculpas, especialmente quando a vítima é o comandante, que ali não tem como manter o habitual distanciamento dos seus subordinados – em um submarino não há espaço sequer para muita hierarquia.

 

Para complicar ainda mais a locomoção interna, as paredes são revestidas com um mar de válvulas, registros, manômetros e tubos salientes, capazes de dilacerar ombros e canelas de qualquer tripulante mais estabanado.

 

Há válvulas e registros em profusão até ao lado do vaso sanitário – um só para todo o submarino, por sinal, embora ele abrigue mais de 30 homens, muitas vezes por dias a fio. Não existe convivência mais intensa e estreita. Literalmente.

 

O piso (convés?) fica sobre nada menos que 480 baterias elétricas, cada uma com meia tonelada de peso, que são as responsáveis pela movimentação do hélice – sim um submarino é um barco elétrico, embora também possua motor a diesel, mas apenas para recarregar as próprias baterias.

 

Quando é preciso ligá-lo, o submarino sobe e lança uma espécie de tubo na superfície, por onde saem os gases do escapamento. Outro tubo, chamado de ”snorkel”, é responsável por sugar ar fresco lá de fora para renovar o oxigênio a bordo. De tempos em tempos, é preciso fazer as duas coisas. Mas nem para isso ele precisa emergir.

 

Submarinos existem desde o final do século 19 (o primeiro da Marinha do Brasil foi de 1910!), mas são raramente vistos, por razões óbvias. Na América do Sul, o Brasil tem a maior frota: apenas seis, incluindo o que Riachuelo, que foi lançado recentemente e ainda nem navegou.

 

Por isso, a súbita aparição no mar de um submarino é sempre um misto de susto e surpresa – como um monstro marinho que emerge das profundezas. Ou uma espécie de nave às avessas, que vem do fundo do mar em vez do espaço. Ninguém fica indiferente frente a um submarino.

 

Por isso, quase ninguém sabe nada sobre estes incríveis ”navios”, feitos para navegar onde nenhum barco convencional gostaria de estar – debaixo d´água. Eu era um deles.

 

Enquanto era assolado por dúvidas mundanas (será que no fundo do mar pega celular?; será que eu deveria ter vestido máscara e pé de pato?; e se alguém soltar um pum lá dentro?), fui descendo a tal escadinha, até que pisei num corredor igualmente apertado, que era a síntese do próprio submarino, o Tupi, um dos mais veteranos da Marinha Brasileira – porque, a bordo, não existe muito mais do que aquele simples corredor.

 

Uma vez dentro dele, tanto faz se há sol ou chuva na superfície, se é dia ou noite, se a região é feia ou bonita ou se o mar está bom ou ruim. A bordo, o ambiente nunca muda. É tranquilo, silencioso e sem visibilidade alguma.

 

Quem está dentro de um submarino não enxerga nada do mundo exterior, porque, afinal, não existem janelinhas. Só o periscópio que, por sinal, é sensacional. Você ficaria surpreso com o extraordinário alcance daquele pirolitinho na superfície do mar. Dá para ver até a cor da camisa dos pescadores num barco a quilômetros de distância.

 

Mesmo assim, a pilotagem de um submarino é sempre feita apenas por instrumentos, como um avião em dia de mau tempo. Aliás, a analogia com os aviões é pertinente, porque embora transitem num ambiente diametralmente oposto ao das aeronaves, os submarinos estão muito mais próximos da concepção de um Boeing do que um navio convencional.

 

Tem, por exemplo, manche (ou joystick) em vez de timão, necessidade de controlar também o “movimento vertical”, que nenhum navio exige, e, se alguém enjoar, tampouco dá para ir lá fora “tomar um ar fresco”.

 

Diante do piloto (que, num submarino, é chamado de “piloto” mesmo) há uma tela que vai exibindo, em números, o rumo a seguir, informação que é passada, também, em voz alta, de um tripulante para outro, com dois detalhes: todas as ordens são repetidas duas vezes (“Emergir!”, “Emergir!”, por exemplo) e quem as recebe repete uma vez mais (“Emergir!”), para deixar claro que entendeu o comando.

 

A navegação também é acompanhada à moda antiga, com lápis, réguas e compassos, riscados sobre uma carta náutica em papel, para o caso de alguma pane elétrica nos instrumentos de navegação.

 

Precisão é tudo em um submarino. Segurança, também. Ninguém a bordo confia apenas na tecnologia. A atmosfera na sala de comando é de filme de 007, com homens monitorando os instrumentos a todo o instante, sob alarmantes luzes vermelhas iluminando o ambiente. Você se sente como num filme de ação. Ou de terror, para os claustrofóbicos.

 

Depois de visitar a tal sala de comando (que é apenas uma extensão do tal corredor que sintetiza o barco inteiro, caminhei (meia dúzia de passos, não mais que isso) até a “praça de armas”, como é chamada a única área “social” de um submarino – que, por sua vez, não passa de um cubículo com a tal mesa-maca ao lado dos torpedos.

 

Ali, naquele dia, dois marinheiros relaxavam assistindo a um filme na televisão, enquanto aguardavam os seus turnos de trabalho. Ao lado, outro dormia num beliche quase nada mais largo do que ele próprio. E, da cozinha, vinha um cheiro gostoso de comida feita na hora. Ou seja, um ambiente tipicamente familiar. Só que 20 metros debaixo d´água.

 

É uma sensação esquisita saber que você está debaixo d´água e que ela está, o tempo todo, tentando entrar onde você está. Eu tentava não pensar muito nisso, determinado a desembarcar tão seco quando quanto embarquei naquele submarino, porque, se isso acontecesse, era um sinal inequívoco de que o passeio fora bem-sucedido.

 

Até que vi um marinheiro passar, um tanto apressado, com um balde nas mãos. “Êpa!”, pensei. Seria um vazamento? Um furo no casco? Uma escotilha mal fechada (sim, já aconteceu no passado e com um submarino da própria Marinha do Brasil, que afundou pateticamente junto ao cais, por uma falha no sistema hidráulico – clique aqui para ler esta história também).

 

Mas não era nada disso. Era apenas o chuveiro do banheiro que pingava. Respirei aliviado. Mas só até concluir que, para sair dali, teria que vencer os mesmos 15 metros de altura daquela escadinha suicida que tive que enfrentar na chegada. E, de novo, foi uma experiência sinistra.

 

Voltar ao mundo real da superfície foi a pior parte daquele passeio, de resto, inesquecível.

 

Foto: Mozart Latorre

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Jovem, bonita e mora sozinha num barco. A curiosa vida da carioca Carina

Jovem, bonita e mora sozinha num barco. A curiosa vida da carioca Carina

Na noite de Réveillon de 2014, a carioca Carina Seixas, então com 32 anos, parou para pensar nas promessas que faria para o ano que começava. Mas nada a atraía. Nem mesmo a recente decisão de largar o emprego de designer para montar um negócio próprio.

Foi quando ela se lembrou da paixão que nutria na infância pelo veleiro que seu pai tinha e teve a ideia de mudar radicalmente de vida. Pronto. Era isso que ela faria: iria morar num barco. E sozinha – coisa rara para uma mulher no Brasil.

Hoje, aos 36 anos de idade, já fazem quatro que Carina trocou um modesto apartamento na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, por um pequeno veleiro e não se arrepende. Nem se vê voltando a viver num apartamento.

“Morar num barco significa ter pouco espaço, ficar balançando quase o tempo todo e abrir mão de certos confortos, como, por exemplo, ter um guarda-roupa cheio de roupas, mas, no meu caso, tem valido muito a pena”, resume Carina, que hoje vive apenas do aluguel do apartamento onde antes morava. “Morar num barco não é apenas mudar de casa”, avalia. “É mudar de vida”.

O atual barco de Carina (no começo, ela teve outro, menor ainda), o Criloa, de 1975, tem pouco mais de dez metros de comprimento, um quarto, uma sala, um banheiro e uma cozinha. “Morar num barco ensina a gente a se tornar uma pessoa organizada, porque não há espaço nem para bagunça, muito menos para deixar louça suja na pia”, brinca. “É uma lição minimalista de vida”, diz.

“No barco, eu descobri que posso viver bem com bem pouco, desde que este pouco seja realmente valioso para mim. Também aprendi a dar valor a tudo o que tenho, mesmo que seja pouca coisa”, diz Carina, com uma fala sempre pausada, tranquila e reflexiva.

“Descobri, também, que sou uma boa companhia para mim mesmo, e não sinto falta nem da falsa sensação de segurança de ter um homem a bordo”, diz, a respeito do que mais chama a atenção das pessoas quando ela conta que mora sozinha num barco, na companhia apenas de uma cadelinha, a Abigail.

“As pessoas estranham, mas não existe nada de heroico no que eu faço. Até porque pouco navego”, explica Carina, que, depois de uma temporada na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, hoje “mora”, na Praia de Santa Teresa, em Ilhabela, no litoral de São Paulo, onde o seu barco está atualmente ancorado. “Meu veleiro é basicamente a minha casa, não um meio para sair viajando mundo afora, embora, com ele, eu também possa fazer isso”, analisa. E completa: “Quem sabe, um dia”.

“De vez em quando, gosto de mudar de ´endereço` e um barco facilita muito isso”, explica. “Também consigo `morar` em lugares legais, sem precisar pagar por isso. Mas, para mim, o melhor de tudo é a paz, a liberdade e a integração com a natureza que morar num barco permite. Foi a melhor resolução de ano-novo que eu poderia ter tido”.

Medo? Ela garante que não tem. “Me sinto segura no meu barco e sempre tenho um ou outro vizinho nos locais onde paro. E a gente se visita, convida o vizinho para um café, coisa que nunca fiz quando morava num apartamento no Rio”, exemplifica.

Solidão? Ela também jura que não sente. “Me dou bem comigo mesma e gosto de ficar sozinha. Mas, se um dia aparecer um namorado, ele será bem-vindo no barco”, brinca Carina, que preenche seu tempo lendo, fazendo (ela mesma) a manutenção básica do veleiro, passeando nas regiões onde ancora ou cozinhando, embora o seu barco não tenha nem geladeira.

“Não ter geladeira não é tão ruim assim, porque me obriga a consumir apenas alimentos frescos e sem desperdícios, porque não há como conservá-los”, explica. “Mas, quando dá vontade de comer algo diferente, eu desembarco e vou comer num dos restaurantes da ilha”, completa.

Apesar de seguir feliz com a vida que decidiu experimentar a partir daquele Réveillon de quatro anos atrás, Carina, que, de vez em quando, até participa de regatas com o seu barco, na companhia de amigas, prefere não fazer planos para o futuro. “Só acho que consigo mais voltar a trabalhar num escritório”, diz.

“Não sei se vou morar para sempre num veleiro, mas estou gostando muito de viver no mar, e isso, por enquanto, é o que importa para mim”, diz, repetindo o mesmo raciocínio de quase todo mundo que decidiu trocar uma casa por um barco, a fim de aproveitar a vida, ainda que com muito mais simplicidade.

 

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O dia que um barco chinês tentou afundar um pesqueiro brasileiro e ficou por isso mesmo

O dia que um barco chinês tentou afundar um pesqueiro brasileiro e ficou por isso mesmo

Na manhã de 22 de novembro do ano passado, quando pescava atuns a cerca de 600 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, já fora do limite de 200 milhas do mar territorial brasileiro, o barco pesqueiro potiguar Oceano Pesca I, conduzido pelo mestre João Batista dos Santos, detectou, pelo radar, o pesqueiro chinês Chang Rong 4 vindo na sua direção, em grande velocidade.

Ele, então, ficou monitorando a aproximação da outra embarcação. Quando o barco chinês se aproximou e não demonstrou nenhuma intenção de desviar, João Batista fez contato pelo rádio e ouviu como resposta, em português, apenas as palavras “Afundar! Afundar!”. O mestre potiguar avisou rapidamente os companheiros e pôs o seu barco em movimento, tentando evitar a colisão – que, mesmo assim, aconteceu.

A colisão só não provocou o naufrágio do barco brasileiro – e a previsível morte dos dez pescadores que havia a bordo – porque o Oceano Pesca estava em movimento, o que diminuiu a intensidade da pancada. E, também, porque a colisão aconteceu lateralmente e não no meio do casco, como, aparentemente, era o intuito do comandante do barco chinês.

Mesmo atingido, João Batista tratou de escapar e ficou dando voltas em torno do barco chinês, que, por ser bem maior, não tinha a mesma agilidade. A tripulação chinesa, no entanto, reagiu, atirando pedaços de ferro na direção do barco dos brasileiros. Eles, então, mudaram de estratégia e trataram de fugir, fazendo seguidas curvas para os dois lados, mas com os chineses sempre no encalço.

Apavorados, alguns tripulantes do Oceano Pesca I chegaram a ajoelhar no convés para pedir que os chineses os deixassem em paz. Mas não adiantou. A perseguição durou quase uma hora de puro terror.

Até que o barco chinês, finalmente, foi embora. E os pescadores brasileiros, assustados e com o barco danificado, voltaram à costa. “A gente pensou que ia morrer”, disse, ao desembarcar em Natal, o primeiro imediato do barco atacado, o pescador potiguar Carlos Derlano. “Eles queriam mesmo nos matar”.

Não foi a primeira vez que um barco estrangeiro de pesca profissional tentou intimidar pescadores brasileiros em alto-mar. Mas foi a primeira vez que chegaram às vias de fato.

Se o barco potiguar tivesse afundado, sua tripulação muito provavelmente teria morrido e ninguém jamais saberia o que aconteceu, porque o episódio aconteceu em águas internacionais, onde nenhum país possui soberania nem responsabilidade.

Mesmo assim, os pescadores brasileiros ficaram justificadamente indignados quando foram informados pela Marinha do Brasil de que nada podia ser feito contra o barco chinês, porque o fato aconteceu fora dos limites do mar territorial brasileiro – como se as águas internacionais fossem uma espécie de faroeste, onde qualquer um pode fazer o que quiser. Inclusive tentar afundar impunimente outros barcos.

“Será que ninguém liga para os cidadãos brasileiros quando eles estão fora do território brasileiro?”, questionou, na ocasião, o dono do barco, o empresário potiguar Everton Padilha. Mas, mesmo assim, não deu em nada.

O barco chinês não fui punido e os dez pescadores potiguares, mesmo assustados, voltaram para o mar tão logo o seu barco foi reparado.

Por trás daquele episódio que poderia ter terminado em tragédia há uma guerra de verdade: a guerra do atum, uma intensa – e tensa – competição entre barcos pesqueiros do mundo inteiro pelos grandes cardumes de atuns, peixe que, por isso mesmo, já está correndo sérios riscos de extinção.

Eram cardumes de atum que o pesqueiro brasileiro buscava no instante do confronto com o barco chinês, cujo objetivo era o mesmo. Ao detectar a presença de um grande cardume na região onde o barco brasileiro estava, os chineses partiram para o ataque, mesmo sabendo que, pelas regras internacionais, a prioridade era dos brasileiros, porque o Brasil era o país costeiro mais próximo daquele ponto do oceano. Mas isso de nada adiantou. O barco dos brasileiros foi atacado e abalroado do mesmo jeito.

Afinal, se um comandante chega ao ponto de decidir afundar propositalmente outro barco, por que iria respeitar simples regras escritas num pedaço de papel?

Não foi, no entanto, a primeira vez que a pesca serviu de estopim para momentos bem tensos no mar brasileiro.

Na década de 1960, a captura de lagosta no litoral do nordeste brasileiro gerou uma seríssima crise diplomática entre o Brasil e a França, que quase culminou em ações bélicas entre os dois países. O episódio, que ficou conhecido como a “Guerra da Lagosta”, pode ser conferido em outro post deste site.

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A linda praia do litoral do Rio de Janeiro onde ninguém pode entrar. Nem de barco

A linda praia do litoral do Rio de Janeiro onde ninguém pode entrar. Nem de barco

No Brasil, por força de lei, todas as praias são públicas. Mas existe uma praia (na verdade, duas, embora unidas pela mesma faixa de areia) onde esta lei não se aplica: as lindas praias-siamesas do Leste e do Sul, no lado de fora da Ilha Grande, na Baía de Angra dos Reis, no litoral sul do Rio de Janeiro.

Nelas, ao contrário do que determina a lei, o acesso de qualquer pessoa é terminantemente proibido. Mas por um bom motivo: para mantê-las cem por cento do jeito que sempre foram.

As Praias de Leste e de Sul fazem parte de uma reserva biológica, a mais severa das classificações ambientais no Brasil e, por isso, não podem ser visitadas. Apenas biólogos, cientistas e pesquisadores têm permissão para frequentá-las, mesmo assim, mediante autorização do Inea – Instituto Nacional do Ambiente, responsável pelo Parque Estadual da Ilha Grande e, também, pela enorme área ainda totalmente virgem que a cerca – um dos últimos e maiores santuários de mata atlântica do litoral carioca.

Ao fundo das duas praias, ambas sempre desertas e sem viva alma por perto, porque o controle é feito por fiscais que ficam no vizinho povoado do Aventureiro, munidos de binóculos, há densas montanhas cobertas de mata e um sinuoso riozinho, com águas cor de Coca-Cola, fruto da decomposição de materiais naturais nas margens, que forma duas lagoas e avança até a areia da praia, dividindo-a em duas – de um lado, é chamada de Praia do Sul; do outro, Praia do Leste.

Entre uma praia e outra, há ainda uma caprichosa ilha. Juntas, elas somam mais seis quilômetros de extensão, com areias bem finas e brancas. É um dos cenários mais lindos da região de Angra dos Reis, onde fica a Ilha Grande. Mas ninguém pode conhecê-lo.

Nem mesmo de barco, porque até o trecho de mar que fica diante da praia também faz parte da reserva e, por isso, é proibido parar ou ancorar ali. Desembarcar, nem pensar.

“Reservas biológicas são sensíveis demais à presença humana e precisam ser preservadas intactas”, explica o responsável pela área, Tercius Barradas, que também é o chefe do Parque Estadual da Ilha Grande. “À princípio, as pessoas reclamam de não poderem conhecer as duas praias, mas depois que a gente explica o porquê disso, elas entendem e até nos ajudam”, diz Tercius, que hoje conta com a valiosa ajuda de voluntários para livrar as praias do Leste e do Sul do maior problema ambiental que ambas enfrentam: o lixo que chega pelo mar em quantidades cada vez maiores,

“Chega de tudo pelo mar”, ele lamenta. “Sobretudo cotonetes usados, que são ainda mais perigosos para a fauna marinha do que os canudinhos, porque são menores e mais fáceis de serem engolidos”, explica.

Para ajudar na tarefa de recolher tamanha quantidade de lixo trazido pelo mar, Tercius bolou uma estratégia, já que seria um absurdo colocar um trator dentro de uma reserva ecológica: passou a dar permissão de travessia pelas duas praias para os caminhantes que optam por dar volta na Ilha Grande a pé. Mas com a condição de eles retribuírem a gentileza coletando o lixo nas duas praias, feito um trabalho de formiguinhas.

Os autorizados precisam comprovar a coleta dos resíduos através de fotos e vídeos. “Eles ´pagam´ a travessia com lixo”, brinca Tercius, que, no entanto, explica que nem todos que pedem a autorização a conseguem, porque até o número dessas pessoas na praia é limitado.

O prêmio para os selecionados é poder pisar nas areias das duas praias mais fechadas – e preservadas – do litoral carioca, algo que pouquíssimas pessoas até hoje fizeram.

Isoladas na parte de acesso mais difícil da Ilha Grande, as lindas Praias do Leste e do Sul, de certa forma, sempre foram inacessíveis.

No passado, antes de virarem reserva biológica, chegaram a ser interditadas pelos militares por conta de um fato que, até hoje, gera histórias e polêmica entre os moradores mais velhos da Ilha Grande: o pouso forçado de um avião comercial na Praia do Sul, em 1958, que transportava ouro (segundo alguns) ou material radioativo (segundo outros), num episódio jamais devidamente esclarecido. E que pode ser conferido em outro post deste site.

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Levado pelo mar: o francês que está cruzando o Atlântico à deriva, dentro de um barril

Levado pelo mar: o francês que está cruzando o Atlântico à deriva, dentro de um barril

Neste exato momento, em algum ponto quase no meio do Atlântico, um homem está tentando atravessar o segundo maior oceano do planeta de uma maneira inédita e insólita: dentro de uma espécie de barril – uma cápsula feita de material resistente, mas sem velas, nem motor nem nenhum tipo de propulsão, que avança empurrada apenas pelo vento e pelas correntezas.

Loucura? Não é o que pensa o navegador e aventureiro francês Jean-Jacques Savin, dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível. Ou seja, sendo levado pelo próprio oceano, dentro de uma espécie de gigantesca rolha, sem nenhum tipo do comando ou controle.

“Não serei o capitão de um barco e sim um simples passageiro do oceano. Ele me levará para onde quiser”, disse Savin ao partir das Ilhas Canárias, no último dia 26 de dezembro (portanto exatos dois meses atrás) rumo ao Caribe, onde ele pretende chegar dentro de mais dois meses – ou mais, se as correntes marítimas que estão empurrando o seu barril não ajudarem.

“Não sei onde vou chegar, mas deve ser em Barbados ou Martinica”, arrisca o francês, que, para isso, escolheu uma região onde as correntes marítimas são favoráveis e cruzam de um lado a outro do oceano, embora ventos contrários e mudanças de correntezas sejam sempre possíveis.

“Até aqui, está indo tudo bem”, diz Savin, que se comunica quase que diariamente com o mundo exterior através da sua página no Facebook, graças aos equipamentos eletrônicos (alimentados por uma placa de energia solar) que há no seu barril de fibra de vidro, que ele mesmo construiu e que batizou com um nome bem-humorado: OFNI – iniciais de “Objeto Flutuante Não Identificado”, uma brincadeira com os OVNIs do espaço.

“Meu OFNI tem capacidade para suportar ondas e até eventuais choques com baleias”, garante. No começo, no entanto, o francês enjoou bastante, pelos constantes balanços do seu exótico “barco”, que vai para onde o mar – e só o mar! – quiser.

O mais curioso, no entanto, é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo. Ele é ex-paraquedista, ex-piloto de aviões, ex-guarda de parques de animais selvagens na África e também tri-atleta, e já atravessou o Atlântico navegando quatro vezes – mas, até aqui, sempre com barcos convencionais.

Empurrado apenas pelos ventos e correntes marítimas, Savin tem avançado a uma velocidade média de apenas 2 ou 3 km/h (menos do que uma pessoa caminhando) e assim pretende chegar ao Caribe, a 4 500 quilômetros de distância.

Mas ele não tem pressa, até porque, mesmo que quisesse, nada poderia fazer para acelerar sua jornada. “Passo o tempo lendo, escrevendo, pescando, checando o barril e lançando marcos na água, para ajudar uma instituição oceanógrafa a analisar as correntes marítimas”, diz. “De vez em quando, também me exercito, nadando ao lado do barril, mas preso a ele por uma corda”.

Quando a natureza ajuda, o francês consegue avançar quase 100 quilômetros por dia, embora nem sempre na direção desejada.

No início da jornada, seu barril foi empurrado pelas ondas e pelo mau tempo na direção norte, contrária ao seu objetivo. Mas, depois, retomou sozinho o rumo do Caribe. “No começo, a navegação não foi boa, mas o que isso importa? Eu não podia mesmo dar meia-volta”, disse bem-humorado.

Nos últimos dias, Savin voltou a viver o drama de ver seu barco-barril ser levado para o lado contrário e, depois, ainda ficou navegando em círculos, sem sair do lugar. Mas, uma vez mais, após alguns dias de retrocesso, retomou o rumo do Caribe.

Outro susto aconteceu na semana passada, quando dois navios passaram bem próximos de Savin. Um deles, tão perto que o francês conseguiu avistar um homem no convés – embora o seu barril não tenha sido visto pelo navio.

Só quando Savin, temendo ser atropelado, chamou o navio pelo rádio é que o comandante do cargueiro tomou conhecimento dele. Em seguida, os dois conversaram por alguns minutos, antes que o sinal de rádio sumisse. “Aquela breve conversa com outro ser humano, no meio do oceano, me deixou emocionado”, escreveu Savin no Facebook. Na véspera, ele havia visto baleias nas proximidades do seu curioso “barco”.

O barril-navegador de Savin tem três metros de comprimento por 2,10 m de diâmetro, uma cama, uma pia (com água extraída do mar e dessalinizada), um fogareiro, um assento e um compartimento onde ele guarda o estoque de comida liofilizada, um tipo de alimento desidratado, que ele leva em quantidade suficiente para cerca de três meses no mar. Tem, também, uma escotilha de acesso e três janelas, uma delas no fundo do casco, para ele poder observar os peixes que passam.

Eventualmente, ele também pesca, para aumentar o estoque de comida a bordo.

A ideia de Savin de atravessar o oceano totalmente à deriva, dentro de um cilindro fechado, veio de uma velha – e ainda mais insana – maluquice: a de atirar nas Cataratas de Niágara, a mais famosa cachoeira dos Estados Unidos, dentro de um barril de madeira, algo que, no passado, muitos fizeram e poucos sobreviveram para contar a história.

Mas, até agora, com o septuagenário Savin vem dando tudo certo.

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