O perfume que veio do fundo do mar

O perfume que veio do fundo do mar

Mais de um século e meio atrás, em 1864, um barco cargueiro afundou nas proximidades das Ilhas Bermudas com um carregamento de mercadorias diversas, que se destinavam aos apoiadores do Confederados, durante a Guerra Civil Americana.

Em 2011, 147 anos depois, uma tempestade revirou a areia do fundo do mar no local onde havia acontecido o naufrágio e revelou a proa do velho barco afundado, que se chamava Mary Celestia.

Dentro dela, foram achados dois vidros de perfume, ainda em perfeito estado.

O achado intrigou os mergulhadores que haviam descoberto os restos do barco, e eles decidiram levar os dois frascos para serem analisados na principal perfumaria da ilha, a Lili Bermuda, da perfumista canadense Isabelle Ramsay-Brackstone.

Ela se interessou tanto pelo achado que decidiu investigar a origem do perfume, a partir de indicações nos vidros que os embalavam.

Logo, Isabelle concluiu que se tratava de uma antiga fragrância inglesa, produzida pela extinta perfumaria londrina Piesse e Lubin, conhecida como “Perfume da Rainha”, já que era um dos preferidos da lendária Rainha Victoria.

E decidiu recriar o perfume, a partir daqueles dois únicos exemplares que restaram – mesmo eles tendo passado quase um século e meio no fundo do mar.

Com a ajuda do especialista Jean Claude Delville, e usando técnicas de cromoterapia reversa, que fazem a engenharia ao contrário e identificam ingredientes e fórmulas originais de produtos, Isabelle conseguiu recriar a fragrância e trazer novamente à vida o “Perfume da Rainha”, uma suave combinação de aromas cítricos e florais, que só teve que ser ligeiramente adaptada porque um dos solventes, de origem animal, não mais poderia ser usado no mundo atual.

O (re)lançamento do perfume (que, na verdade, foi a volta à vida de algo que já havia desaparecido) aconteceu em grande estilo, no exato dia que marcou os 150 anos do naufrágio do barco (cujo nome, Mary Celestia, passou a batizar também o perfume), com um lote inicial de apenas 1 864 frascos, mesmo número do ano do naufrágio – que se esgotaram rapidamente.

Animada com o sucesso da empreitada – e também das vendas, no dia do lançamento -, Isabelle decidiu incorporar o perfume Mary Celestia à linha regular de produtos da sua perfumaria.

Hoje, o “Perfume da Rainha” é um dos preferidos dos turistas que visitam a mais famosa perfumaria das Ilhas Bermudas, embora custe o equivalente a cerca de R$ 700 o frasco de apenas 100 ml, e passou a ser vendido também pela internet.

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O naufrágio que inspirou Shakespeare

O naufrágio que inspirou Shakespeare

A derradeira peça de Shakespeare, escrita em 1611, recebeu o nome de A Tempestade porque foi inspirada em um fato real, que aconteceu no mar: o drama gerado pelo naufrágio da fragata inglesa Sea Venture, ocorrido dois anos antes, no mar que banha as Ilhas Bermudas.

O Sea Venture levava oficiais, colonos e mantimentos para um isolado e pioneiro assentamento de ingleses no Rio Potomac, no que, mais tarde, viria a se tornar os Estados Unidos, quando foi colhido por um furacão e afundou, mas sem deixar vítimas.

Como o único jeito de sair das então desabitadas Ilhas Bermudas, onde o grupo buscou abrigo, era construindo outro barco, o capitão George Somers colocou todos os ocupantes do Sea Venture para trabalhar, inclusive alguns aristocratas que estavam a bordo da fragata – daí o interesse de Shakespeare pela história, que envolveu tensos conflitos sociais.

A empreitada durou um ano inteiro, até que dois barcos, sintomaticamente batizados de Patience (“Paciência”) e Deliverance (“Libertação”), construídos com restos do naufrágio e madeira da própria ilha, ficaram prontos e tiraram os náufragos de lá – mas apenas para eles descobrirem que, ao chegar ao seu destino, o povoado ao qual se dirigiam havia sido dizimado pelos índios.

Desconsolado, Somers decidiu retornar às Bermudas, onde morreu, logo depois.

Quatro séculos se passaram, até que, em 2009, durante as comemorações dos 400 anos daquela possessão inglesa, um evento especial marcou as Ilhas Bermuda: a encenação de uma peça de Shakespeare.

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Abandonado, navio histórico ameaça afundar no próprio porto de Santos

Abandonado, navio histórico ameaça afundar no próprio porto de Santos

A novela na qual se transformou o destino do histórico navio Professor W. Besnard, considerado um ícone da oceanografia brasileira e pioneiro da presença do Brasil na Antártica, para onde viajou diversas vezes, ganhou mais um capítulo na última sexta-feira, quando agentes do Ibama e da Autoridade Portuária de Santos fizeram uma vistoria no navio, que está parado no porto há 12 anos, sem condições de navegar, e concluíram que algo precisa ser feito urgentemente para ele não afundar ali mesmo.

Os fiscais constataram que o casco do navio, hoje coberto de limo, musgo e ferrugem, está cheio de água e com algumas escotilhas quebradas perigosamente perto da linha d´água, ou seja, da superfície do mar.

“Se ele descer um pouco mais, por conta do peso da água que há dentro do casco, o mar invadirá o navio pelas escotilhas e ele afundará, gerando um problema também ambiental”, disse, na ocasião, a chefe do Ibama em Santos, Ana Angélica Alabarce, que participou da vistoria do navio.

“O que aconteceu foi que choveu demais há duas semanas e a água da chuva escorreu para o fundo do casco”, miniminiza o advogado Fernando Liberalli, único membro do Instituto do Mar, atual responsável pelo navio, desde que ele foi tombado pelo Patrimônio Histórico e impedido de ser afundado ou transformado em sucata.

“Além disso, vândalos invadiram o navio e andaram quebrando vidros de algumas escotilhas, permitindo assim que entre água do mar dentro do casco, com as ondulações geradas pelos navios que passam pelo porto”, acrescenta o advogado, que foi oficialmente notificado sobre a necessidade de fazer algo com urgência.

“Com a ajuda da Codesp, já providenciamos o bombeamento da água que está dentro do navio, e isso será feito ainda esta semana”, garante Liberalli. “Mas não há risco de o navio afundar totalmente, até porque o local onde ele está é tão raso que isso seria impossível”, explica.

Liberalli também alega que a pandemia do coronavirus e a burocracia atrapalharam o início dos trabalhos de recuperação do navio, que, segundo ele, começarão em breve. “O navio também ficou doente com a pandemia”, diz Liberalli, de 64 anos, que por fazer parte do grupo de risco, pela idade, também alega que teve que ficar temporariamente afastado do navio”.

Ele estima que só o trabalho de remoção da água que há dentro do casco custará cerca de R$ 300 mil.

“A Codesp irá fazer o trabalho e nós acertaremos isso com a empresa tão logo sejam liberados os recursos de um fundo retido que temos para recuperar o navio, e transformá-lo em um museu flutuante, o que sempre foi o nosso projeto”.

Mas a vistoria da semana passada avaliou que o casco do navio está começando a adernar e há risco de tombar, criando, com isso, além de um problema ambiental, também um obstáculo a navegação no porto.

Embora também creditando às fortes chuvas parte da água empoçada dentro do navio, a equipe de vistoria não descartou a hipótese de haver, ainda, alguma avaria no casco. “Não há nenhum laudo nesse sentido”, diz a chefe do Ibama na cidade.

Com quase 50 metros de comprimento, o navio Professor W. Besnard foi construído em 1966 e desativado 50 anos depois. Mas, desde então, virou protagonista de uma novela que parece não ter fim.

“O Professor W. Besnard não é um simples navio”, diz Liberalli. “É um monumento histórico, tanto que foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio do Estado de São Paulo. E é isso que estou tentando preservar”, defende o advogado, cuja ONG que preside não tem fins lucrativos.

O objetivo de Liberalli é transformar o navio, que navegou durante 23 anos fazendo pesquisas marinhas e foi o pioneiro das incursões brasileiras na Antártica, em um museu flutuante, permanentemente atracado em Santos.

“Nunca naveguei no Professor W. Besnard, mas tenho a maior admiração por este navio, que é lendário entre os cientistas brasileiros e histórico sob todos os aspectos”, diz Liberalli.

“O Brasil é um país sem memória, que não faz nenhuma questão de preservar o seu passado. Não quero que isso aconteça também com o Professor W. Besnard, que ainda pode ser salvo”, acrescenta.

Até ser praticamente esquecido no porto de Santos, o destino do navio pioneiro nas pesquisas marinhas brasileiras era igualmente sombrio: ou viraria sucata e vendido como ferro-velho, ou propositalmente afundado em Ilhabela, no litoral de São Paulo, para servir de atração submarina para mergulhadores.

Mas Liberalli interviu e, com o tombamento do navio, conseguiu que as duas hipóteses fossem descartadas.

Desde então, no entanto, o navio apodrece a céu aberto no porto de Santos, onde, agora, corre o risco de afundar de vez.

Não é, porém, a primeira vez que o Professor W. Besnard corre o risco de afundar.

No passado, quase 30 anos atrás, ele quase naufragou de verdade na volta de uma de suas expedições à Antártica, após perder o motor e ficar à deriva, com 37 pessoas a bordo, num tenso episódio que virou notícia em todo o pais (clique aqui e conheça também essa história).

Agora, o que se pretende é que isso, de novo, não aconteça.

“Mas é preciso agir rápido”, concordam os dois lados.

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Japonês que viveu 30 anos numa ilha deserta sofre até hoje com a volta à vida na cidade

Japonês que viveu 30 anos numa ilha deserta sofre até hoje com a volta à vida na cidade

O japonês Masafumi Nagasaki tinha 82 anos de idade quando foi obrigado, pelas autoridades japonesas, a deixar a ilha onde viveu isolado por quase 30 anos, na costa do Japão, e proibido de retornar.

O motivo da expulsão fora a saúde já debilitada do ermitão, que ficou conhecido como o “Robinson Crusoé Japonês”.

O ancião foi, então, alocado em uma casa na cidade de Ishigaki, mantida por um órgão de assistência social do governo japonês, onde, desde então, passa os dias remoendo as lembranças da vida tranquila que levava na ilha, amargurado com sua “volta à civilização”.

Para preencher o tempo, faz pequenas caminhadas no quarteirão, interrompidas a todo instante para recolher qualquer tipo de resíduo que encontra nas calçadas.

Desde que decidiu viver sozinho, feito um náufrago voluntário, na deserta ilha Sotobanari, no extremo sul do Japão, Masafumi Nagasaki desenvolveu profundo respeito pela natureza e uma verdadeira obsessão por limpeza.

Quando repórteres começaram a chegar à ilha, a fim de conhecê-lo, ele os obrigava a, antes de desembarcar, mergulhar no mar e se lavar, para não “contaminar” a ilha. “Não posso ficar doente”, explicava.

Mas, um dia, por conta da idade avançada, ficou.

E os órgãos de saúde do Japão foram buscá-lo, o levaram para um hospital e o proibiram de retornar à ilha. Para sempre.

Com isso, o desejo de Masafumi, de morrer em paz na sua ilha deserta, em total harmonia com a natureza, não poderá mais ser realizado.

“É importante ter um bom lugar para morrer”, explicou Masafumi, ao tentar convencer os agentes de saúde a liberá-lo, após a internação.

Não adiantou.

Ele agora vive cercado de cuidados numa casa de verdade (e não dentro de uma gruta de pedra, como vivia na ilha), mas visivelmente incomodado.

Na nova vida que foi obrigado a levar, Masafumi também teve que se readaptar a vestir roupas, já que na ilha ele vivia nu.

“No começo, eu até tinha algumas roupas, mas, um dia, um tufão passou pela ilha e saiu tudo voando. Daí, conclui que não precisava andar vestido num lugar onde só havia eu”, explicou, quando voltou à chamada “vida normal”.

Vegetariano convicto, mesmo durante as três décadas em que passou sozinho na ilha, Masafumi se alimentava apenas com as verduras que plantava e com o arroz que, de vez em quando, ia comprar numa ilha próxima, com o equivalente a cerca de 80 dólares que sua irmã lhe dava de ajuda.

“Só quando ia até a outra ilha eu me vestia”, explicou também.

Embora estivesse rodeado de mar por todos os lados, ele sequer pescava, porque tinha pena de tirar os peixes da água.

“A natureza tem que ser respeitada”, repete até hoje o ex-ermitão, agora condenado a terminar os seus dias no mesmo local de onde havia fugido: as urbanizadas cidades do Japão.

Até onde se sabe, Masafumi Nagasaki foi, até hoje, o homem moderno que mais tempo passou numa ilha deserta.

E, todos os dias, ele ainda sonha em voltar para lá.

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Foto: Docastaway.com

O náufrago que virou presidente dos EUA

O náufrago que virou presidente dos EUA

Nos duros tempos da Segunda Guerra Mundial, o atropelamento de uma pequena lancha americana de patrulha, a PT-109, por um destroyer japonês, nas águas do Pacífico, em agosto de 1943, nem chegou a ser notícia, apesar da morte imediata de dois dos 12 ocupantes do pequeno barco.

Mas, quase duas décadas depois, com a posse daquele que se tornaria o mais carismático presidente da História dos Estados Unidos, o ex-marujo John Fitzgerald Kennedy, o episódio veio à tona.

Por um bom motivo: um dos sobreviventes daquele trágico acidente havia sido o próprio Kennedy, então um tenente da Marinha Americana e responsável por aquela patrulha, naquele dia.

Kennedy não só escapou com vida do atropelamento do barco que comandava, como, depois, liderou com firmeza os seus subordinados na luta pela sobrevivência.

O grupo ficou unido, boiando no mar, até o amanhecer do dia seguinte, quando uma pequena ilha surgiu no horizonte.

Kennedy, então, estimulou seus comandados a nadarem até a ilha, o que exigiu mais de cinco horas de braçadas no mar aberto.

Ele próprio rebocou um dos feridos no acidente, arrastando-o pelo cinto, que levava preso entre os dentes.

Ao chegar à ilha, o grupo descobriu que ela era deserta e não tinha nada além de cocos.

Após dois dias naquele ermo naco de terra, Kennedy conclui que, para não morrerem de fome e sede, era preciso voltar ao mar e nadar até outras ilhas próximas, em busca de ajuda.

E decidiu que ele mesmo faria isso, tendo como companheiro apenas um dos seus subordinados.

Depois de muito nadar, os dois chegaram a uma ilhota, onde havia dois nativos com uma canoa – que não entendiam o que Kennedy dizia.

O jovem tenente, então com 26 anos, pegou um coco, esculpiu na casca um pedido de socorro e persuadiu um dos nativos a navegar até a maior ilha da região, a fim de entregar aquela mensagem a alguma autoridade.

Depois de muitas tentativas, o nativo, finalmente, compreendeu o pedido.

E só assim Kennedy e seus homens foram salvos, seis dias depois do naufrágio.

Graças ao seu esforço e gesto heroico, Kennedy foi agraciado com a medalha do mérito da Marinha Americana, e isso, mais tarde, seria decisivo na sua campanha à presidência dos Estados Unidos.

Também por isso, a ilha deserta na qual ele e seus homens passaram dias como náufragos, hoje pertencente às ilhas Salomão, foi batizada como Ilha Kennedy.

E, desde então, virou atração turística na região.

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Resgate do rádio do Titanic pode ser a segunda tragédia do navio, dizem os arqueólogos

Resgate do rádio do Titanic pode ser a segunda tragédia do navio, dizem os arqueólogos

A recente decisão de uma juíza americana de permitir que a empresa dona dos direitos de resgate de objetos do naufrágio mais famoso da História, a RMS Titanic Inc,, remova o aparelho de rádio do lendário transatlântico que afundou 108 anos atrás acaba de desencadear uma nova e intensa polêmica.

Inconformados com a sentença da juíza federal Rebecca Smith, que, pela primeira vez, autorizou a penetração nos restos do navio e a remoção de um objeto de dentro dele, arqueólogos, parentes das vítimas, entidades preservacionistas e o próprio governo dos Estados Unidos se uniram contra a medida.

“Os escombros do Titanic são protegidos como bens culturais por convenções internacionais e não podem ser violados”, diz o advogado Kent Porter, que defende o governo americano e autor de um recurso que acaba de ser feito contra a decisão da juíza. “Isso só poderia ser feito com a aprovação do Secretário de Comércio dos Estados Unidos”, alega o advogado.

Já os arqueólogos defendem outros pontos bem mais relevantes do que meros procedimentos jurídicos para condenar a operação de retirada do aparelho de rádio do navio, afundado na madrugada de 15 de abril de 1912, depois de colidir com um iceberg, no Atlântico Norte.

“O mundo já sabe tudo o que precisa saber sobre aquele tipo de rádio, bem como o conteúdo das mensagens com os pedidos de socorro que foram enviados durante o naufrágio. Então, a única motivação para o resgate do aparelho seria o interesse comercial, para exibir o rádio como atração turística, e, mais tarde, vendê-lo para algum colecionador de raridades”, diz um especialista em arqueologia submarina. “E isso pode encorajar outras pessoas a extrair ainda mais coisas do interior do Titanic”.

Os descendentes das vítimas do naufrágio, por sua vez, são contra a remoção do aparelho porque veem nisso a violação de algo que deve ser encarado como sagrado.

Para eles, os restos do Titanic são como um cemitério – algo que não pode ser violado.

“É preciso tratar com respeito o local onde mais de 1 500 almas descansam”, diz um parente de uma das vítimas do naufrágio. “Não é certo abrir uma sepultura para remover algo de dentro dela”.

O que torna o rádio do Titanic tão icônico – e valioso, sobre todos os aspectos – é que foi a graças a ele que o mundo ficou sabendo do naufrágio do navio e as circunstâncias que levaram para o fundo do mar, causando a morte de 1 517 pessoas.

Foi daquele aparelho que partiram os desesperados pedidos de socorro do transatlântico naquela trágica noite, cuja última mensagem foi um dramático pedido feito aos outros navios pelo operador do rádio, que, agora, está no centro de intensa polêmica: “Venham rápido!”, dizia apenas a última mensagem.

Em seguida, a casa de máquinas do Titanic inundou, o navio ficou sem energia, o rádio emudeceu e os infelizes ocupantes do luxuoso transatlântico condenado perderam o único contato que tinham com o restante do mundo.

Esta é a razão da relevância daquele rádio (hoje batizado de “A última voz do Titanic”), que, agora, uma empresa particular garante que irá resgatar do fundo do mar, embora até o governo dos Estados Unidos seja contra isso.

“Estamos dependendo da questão da pandemia, mas é bem provável que o resgate do rádio aconteça já no final de agosto ou início de setembro”, diz Bretton Hunchak, diretor da empresa que detém os direitos sobre itens do naufrágio, mas que, até hoje, só tinha tido autorização para coletar o que estava espalhado ao redor do navio afundado – mesmo assim, mais de 5 000 objetos, que passaram a fazer parte de exposições itinerantes promovidas mundo afora.

“Vamos usar alguns buracos que já existem no casco deteriorado pelo tempo para penetrar no navio, com um mini-robô equipado com ferramentas especiais, e chegar à sala de rádio, onde extrairemos o aparelho numa operação cirúrgica, sem danos as demais partes do Titanic. Já temos tudo simulado em imagens de 3D” explica o empresário, que recorreu à Justiça americana alegando que o estado de deterioração do navio já estava colocando em risco o famoso aparelho.

O resgate do rádio do Titanic só se tornou tecnicamente possível depois que uma parte da estrutura do navio, que ficava imediatamente acima da sala de rádio, desabou, de maneira natural, 15 anos atrás.

Com isso, abriram-se buracos que permitiriam a entrada de um mini-submarino na sala de rádio, a fim de recolher o equipamento, que, segundo Hunchak, corre sério risco de ser destruído pelo desmantelamento do próprio navio.

“Se ele não for removido rapidamente, talvez não haja uma segunda chance de fazer isso, porque a sala de rádio é a que corre maior risco de desabamento”, explicou o empresário à juíza, que pareceu convencida do argumento ao decretar que “o rádio do Titanic possui valor histórico, científico e cultural suficiente para justificar o seu resgate”, e que “leis internacionais permitem a recuperação de artefatos históricos que estejam em risco de desaparecimento”.

Mas até a questão do real estado de conservação dos restos dos Titanic agora está sendo questionada.

Alguns especialistas dizem que, a despeito de estar mais de um século debaixo d´água, a deterioração do navio é mais ou menos estável, porque ele se encontra a grande profundidade, onde não há muitas alterações no ambiente marinho.

Mas alertam que a interferência humana pode acelerar barbaramente esse processo, numa referência direta aos planos da RMS Titanic Inc. de resgatar o rádio do navio.

“O rádio do Titanic é uma peça histórica e merece ser preservada”, defende-se Hunchak. “Se não fosse por ele, bem mais pessoas teriam morrido naquele naufrágio, porque nenhum navio receberia o pedido de socorro nem viria resgatar os sobreviventes. Nem mesmo a localização dos restos do Titanic seriam conhecidos até hoje, porque ninguém saberia exatamente onde ele afundou”.

“Queremos resgatar o aparelho para exibi-lo às pessoas, porque, do contrário, só os afortunados que podem pagar milhões para visitar os restos do navio com um submarino no fundo do mar poderão fazer isso”, argumenta o empresário.

E completa: “Muitos historiadores também sempre sonharam em ver este rádio de perto”.

Mas não é o que pensam as outras partes.

“Um aparelho desse tamanho não é o tipo de coisa que se possa remover de um naufrágio, a 3 800 metros de profundidade, sem causar estragos nos destroços, ainda mais um século depois”, argumenta a entidade governamental americana NOAA, sigla, em inglês, do departamento de Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, que, com base em um acordo firmado meses atrás entre Estados Unidos, Inglaterra, França e Canadá, de restringir as visitações ao naufrágio e não permitir que nenhum país o explore, é radicalmente contra qualquer interferência nos escombros do famoso navio.

“Se permitirmos isso, imagine o que pode acontecer com outros sítios arqueológicos submersos bem menos famosos que o Titanic?”, questionam também os arqueólogos, que consideram os bens culturais submersos bem mais vulneráveis que os terrestres, “porque, como ele não estão visíveis, podem ser saqueados sem a fiscalização das pessoas e autoridades”.

“O resgate do rádio do Titanic pode ser a segunda tragédia do navio”, dizem os arqueólogos envolvidos no caso.

“A operação de retirada do rádio do Titanic pode até ser legal, mas jamais será ética”, defendem os arqueólogos, que são totalmente contra o resgate do aparelho.

Mesmo após 108 anos no fundo do mar, o Titanic ainda dá o que falar.

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