por Jorge de Souza | out 6, 2026
Na madrugada de 25 de fevereiro de 2023, dois pescadores da região de Chubut, no litoral sul da Argentina, se preparavam para destrinchar três pequenos tubarões que haviam acabado de capturar no mar, quando, do estômago de um deles, brotou um pedaço de antebraço humano.
O membro ainda estava em tão bom estado – sinal de que havia sido recém engolido pelo animal -, que foi possível ver que continha uma tatuagem: uma rosa, com o nome de uma mulher abaixo dela.
A tatuagem permitiu à Polícia identificar facilmente a vítima.
Tratava-se do mecânico argentino Diego Alejandro Barría, de 32 anos, morador de Comodoro Rivadia, na mesma região do achado, que havia saído de casa uma semana antes para dar um passeio de quadriciclo na longa praia deserta da cidade, e nunca mais voltou – como sua mulher, dona do nome tatuado naquele membro, registrara na queixa que fizera à Polícia, seis dias antes.
No dia seguinte ao desaparecimento, o quadriciclo de Diego foi encontrado semidestruído na praia, bem como o seu capacete, rachado em diversas partes – mas sem nenhum sinal do argentino.
A dedução dos policiais foi que ele havia sofrido um acidente nas irregularidades na praia, repleta de valas, depressões e pedras, capotado e sido ejetado do veículo, como comprovava o seu capacete rachado.
Com o impacto, Diego teria perdido os sentidos, ou mesmo morrido.
Mas, e o corpo?
Onde teria ido parar a vítima?
Para isso, a única explicação que os policiais encontraram foi que Diego, inconsciente ou já morto, poderia teria caído perto da água e sido arrastado pelo mar, que estava particularmente violento naquela noite, repleto de ondas e correntezas.
Ao que tudo indicava, eles estavam certos.
O que ninguém poderia imaginar é que a autor de um passeio terrestre pudesse acabar dentro da barriga de um tubarão no mar.
Aparentemente, foi o que aconteceu com Diego, embora, por um bom tempo, a família da vítima tenha defendido a tese de homicídio (visando o eventual roubo do quadriciclo), seguido de descarte do corpo de Diego no mar, quando, então sim, teria entrado em cena o tal tubarão glutão – que, se por um lado, confirmou que o argentino estava morto, por outro tornou o seu fim ainda mais macabro.
Mas também parecia claro que Diego não morrera por causa do tubarão.
Ele já estaria morto – pelo acidente ou por afogamento, no caso de ter caído desacordado no mar -, quando foi parcialmente devorado, já que seu braço ainda estava bem preservado no estômago do animal, sinal de que fora engolido pouco antes da captura, que, no entanto, ocorreu uma semana depois do acidente.
Por outro lado, soava como improvável que a resposta para o misterioso sumiço de um motociclista fosse estar dentro da barriga de um tubarão, e que aquele exato animal viesse a ser capturado por pescadores, logo depois.
Mas, contrariando todas as probabilidades, foi o que aconteceu.
E o mais impressionante é aquela não foi a primeira vez que ocorreu um caso assim.
Quase nove décadas antes, em abril de 1935, um grande tubarão tigre, recém-capturado para exibição em um parque aquático em Sydney, na Austrália, vomitou um pedaço de braço humano, para horror dos visitantes e desconfiança da Polícia, que decidiu investigar a quem aquele membro decepado poderia ter pertencido.
Também não foi difícil descobrir, porque, tal qual no caso do infeliz argentino, naquele pedaço de braço havia igualmente uma tatuagem: no caso, duas luvas de boxe estilizadas.
A investigação logo descobriu que o membro pertencera a um lutador que havia desaparecido da cidade, dias antes, e que ele fora assassinado, e seu corpo jogado ao mar.
Oitenta em oito anos depois, o que parecia praticamente impossível aconteceu de novo.
E da barriga de outro tubarão brotou um pedaço de braço, que ajudou a desvendar outro mistério.
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por Jorge de Souza | set 25, 2026
Até o início do Século 20, a Marinha do Brasil ainda punia com castigos físicos, quase sempre chicotadas, os marinheiros que, na visão dos seus superiores, tivessem cometido falhas ou irregularidades.
Oficialmente, a abominável prática havia sido extinta em 1889 – 65 anos após o castigo corporal ter sido proibido na população em geral pela Constituição Imperial de 1824, e um ano após a abolição da escravatura no Brasil.
Mas, na prática, a bordo dos navios da corporação, ela persistia, disfarçada sob o nome “Companhias Correcionais”, decisões arbitrárias que davam aos oficiais o direito de aplicar punições aos marinheiros de má conduta, “cujas falhas não fossem tão severas a ponto de serem julgadas por um Conselho Militar”.
A prática, abominável, havia sido herdada dos antigos comandantes portugueses.
As punições eram aplicadas nos conveses dos próprios navios, diante dos demais marinheiros, “para que servissem de lição e alerta” aos demais membros da tripulação – uma barbaridade só comparável ao tratamento dedicado aos escravos.
E aquilo sempre incomodou muito um dos marinheiros mais especiais da corporação: o jovem negro João Cândido Felisberto, que ingressara na Marinha aos 14 anos de idade, levado por um almirante amigo do patrão de seus pais, que eram cativos em uma fazenda no interior do Rio Grande do Sul – naquela época, a totalidade dos marinheiros e grumetes da Marinha do Brasil eram negros, pobres e igualmente tratados como escravos.
Na corporação, no entanto, João Cândido logo se destacou pela facilidade que tinha no aprendizado.
Em pouco tempo, tornou-se um timoneiro confiável, e sua habilidade o levou a ser incluído na tripulação brasileira que, no início do século 20, foi levada para a Inglaterra, para ser treinada nos dois mais novos – e poderosos – navios encomendados pelo governo brasileiro, os encouraçados São Paulo e Minas Geraes.
Lá, além de aprender a movimentar perfeitamente as duas grandes embarcações, o jovem timoneiro – que já era uma espécie de líder natural entre os marinheiros, justamente por se opor aos castigos a bordo -, tomou conhecimento de dois fatos: o fim das punições na Marinha Inglesa, muitos anos antes, e o bem sucedido motim no encouraçado russo Potemkin, ocorrido em 1905, contra o regime tirânico dos oficiais daquele navio.
E aquilo fez com que a semente da revolta brotasse dentro dele.
A gota d´água viria logo depois, quando, no retorno ao Brasil, em novembro de 1910, o capitão do Minas Geraes, comandante João Batista das Neves, navio no qual ele passou a servir, determinou que um dos marinheiros, o também negro Marcelino Rodrigues de Menezes, fosse punido com 250 chibatadas, por ter, segundo ele, “cometido falta grave” – sem, contudo, maiores detalhes.
O castigo fez com que o acusado chegasse a desmaiar durante as chicotadas, mas, ainda assim, a punição continuou – para total indignação dos demais marinheiros, especialmente João Cândido.
Naquele dia, junto com os companheiros, o carismático marinheiro, então com pouco mais de 20 anos de idade, decidiu que, a exemplo do que haviam feito os ingleses e russos, era preciso pôr um ponto final na barbárie dos castigos físicos na Marinha do Brasil.
E marcou para o dia seguinte, 22 de novembro de 1910, quando o Minas Geraes, acompanhado de outras embarcações, inclusive o encouraçado São Paulo, estaria na Baía de Guanabara, então sede do governo brasileiro, a insurreição contra os maus tratos nos navios da corporação.
O plano original previa aproveitar uma saída do comandante para terra firme para os insurgentes tomarem posse do navio – e, juntamente com aliados em outras embarcações da Marinha, forçar o governo do então recém empossado presidente Hermes da Fonseca a determinar o fim da prática abusiva dos castigos físicos, além de melhorar os soldos dos marinheiros, que quase nada recebiam pelo trabalho que faziam.
Mas o comandante Batista das Neves voltou antes do esperado e, após uma discussão com um dos rebeldes, foi morto, bem como outros dois oficiais.
João Cândido se opôs às mortes, mas assumiu o controle do motim.
Em seguida, enviou uma mensagem ao governo brasileiro e mandou que seus companheiros nos demais navios tomados pelos marinheiros, também estacionados na Baía de Guanabara, apontassem seus canhões para a cidade do Rio de Janeiro.
E, como forma de pressão, autorizou um disparo de advertência – que, por acidente, atingiu uma casa e matou duas crianças.
Durante quatro dias, a Capital Federal ficou sob a mira dos canhões dos navios da própria Marinha, mas agora comandados por João Cândido – que, com a destreza um bom timoneiro, e com o que aprendeu na Inglaterra sobre as capacidades do Minas Geraes, manobrava com maestria o grande encouraçado dentro da baía.
Nascia assim o “Almirante Negro”, como os jornais da época passaram a chamar o líder dos revoltosos – apelido que ficaria para sempre ligado ao seu nome.
Acuado – e temeroso de que a audácia daqueles marinheiros levasse ao bombardeio da cidade -, o governo brasileiro descartou uma retaliação militar e optou pela saída diplomática.
O próprio presidente Hermes da Fonseca negociou com João Cândido o fim do levante – que entraria para a História como a “Revolta das Chibatas” -, aceitando banir os castigos físicos nas instituições do país, e dando anistia aos revoltosos.
Mas não foi bem assim que aconteceu depois.
Terminado o movimento, mais de 1 200 marinheiros foram expulsos da corporação, e outros presos – especialmente João Cândido, um dos dois únicos que sobreviveu às insalubres condições do cárcere privado em uma base da Marinha, na própria Baía de Guanabara, onde 16 companheiros seus morreram na mesma noite, vítimas da cal viva usada para desinfetar as celas.
De lá, João Cândido foi enviado para um hospício, sob a alegação ter enlouquecido.
Quando conseguiu provar não estava maluco, veio outro golpe vingativo: foi mandado para julgamento, pelo levante contra o governo.
Julgado, foi absolvido. Mas, em seguida, expulso da Marinha.
João Cândido passou a viver como pescador na Baia de Guanabara, já que sempre que conseguia emprego como timoneiro em algum barco era rapidamente demitido, por pressões políticas.
E assim foi até sua morte, em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos, de câncer no intestino, quando o “Almirante Negro” já havia sido homenageado até com letra de música: o sucesso “Mestre-Sala dos Mares, de Aldir Blanc e João Bosco, imortalizado na voz de Elis Regina, na década de 1970 – que, ainda assim, também por pressão dos militares, sofreu alterações nas expressões originais “marinheiro” (que virou “feiticeiro”), “negros” (que deu lugar a “santos”) e sobretudo “almirante” (que foi trocado por “navegante”).
A perseguição da Marinha (que, até hoje, se refere ao movimento como a “Revolta dos Marinheiros”, e não “da Chibata”) persistiu mesmo após a morte de João Cândido. Em 2021, treze anos após o Senado brasileiro ter concedido anistia post mortem a ele e outros marinheiros participantes do levante (o que desagradou aos militares), a corporação também se opôs à proposta de que o nome do líder dos marinheiros fosse incluído na lista dos “Heróis da Pátria”, como um “símbolo da luta antirracista”.
E conseguiu.
Hoje, além de batizar um grande navio petroleiro brasileiro, e de ter virado estátua em um dos principais pontos do Rio de Janeiro – não por acaso, bem diante do palácio onde a Princesa Isabel assinou a lei que aboliu a escravidão no Brasil, em 1888 -, a vida do marinheiro que entrou para a História por sua bravura e senso de justiça, já foi retratada em três filmes, e virou enredo de escola de samba em meia dúzia de oportunidades.
A última delas, como tema do desfile da Paraíso do Tuiuti, na Marquês de Sapucaí, no Carnaval de 2024.
O povo aplaudiu de pé.
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por Jorge de Souza | set 15, 2026
Era a 214ª travessia que aquele ferry boat fazia, entre a cidade de Incheon e a ilha de Jeju, no litoral da Coréia do Sul.
Uma travessia tão rotineira que a tripulação nem se deu ao trabalho de organizar, com afinco, a distribuição dos mais de 150 veículos, entre carros, ônibus e caminhões, que seriam transportados na parte inferior do Sewol, um velho ferry boat com mais de 20 anos de uso, que havia passado por uma reforma que aumentara significativamente a sua capacidade – tanto de passageiros, quanto de automóveis.
À medida em que os veículos iam entrando na garagem, eram apenas estacionados um atrás do outro, sem respeitar equilíbrios entre tamanhos e pesos, o que contrariava todos os protocolos de segurança em embarcações do gênero.
E isso, mais tarde, seria o estopim de uma tragédia que custaria a vida de mais de 300 pessoas, a grande maioria jovens estudantes de uma escola sul-coreana.
Mas a má distribuição dos veículos que o Sewol transportava naquela noite, em sua habitual travessia diária de seis horas de duração, não foi a única causa da tragédia.
Houve, também, o desentendimento geral entre o encarregado de conduzir a embarcação, o terceiro imediato Park Han-kyul, enquanto o comandante Lee Joon-seok, de 69 anos, descansava em sua cabine, e o timoneiro Cho Joon-ki, responsável por transformar os comandos que recebia em movimentos.
A confusão na comunicação entre os dois tripulantes resultou em uma curva acentuada demais do Sewol no canal de acesso à ilha Jeju, a poucos quilômetros da costa sul-coreana, e o movimento brusco deslocou os veículos mal distribuídos, concentrando ainda mais o peso em um único lado do casco.
Com isso, o Sewol adernou e, aos poucos, foi deitando no mar, incapaz de retornar à sua posição original – uma situação causada pela imprudência e despreparo da equipe comandada pelo capitão Lee, que dormia quando tudo aconteceu. Mas coisas muito piores aconteceriam naquele início de manhã de 16 de abril 2014.
Quando o ferry boat começou a adernar, quase derrubando das camas os seus quase 500 passageiros e tripulantes, o capitão Lee correu para a ponte de comando e sua primeira ordem foi que, a despeito daquela situação dramática, os passageiros permanecessem em suas cabines, por receio de que a movimentação de pessoas fizesse o ferry boat tombar de vez.
Pelos alto-falantes, todos foram instruídos a vestirem seus coletes salva-vidas, mas permanecerem onde estavam – nas cabines ou no refeitório, já que estava sendo servido o café da manhã -, a despeito da água que já começava a inundar o casco.
Como a grande maioria dos passageiros eram obedientes estudantes de uma escola da cidade de Ansan, próxima a Seul, que viajavam para alguns dias de férias em um resort na ilha Jeju, eles seguiram a instrução do comandante à risca, sem nenhum questionamento.
Mas não deveriam ter feito isso.
Nas duas horas seguintes, à medida que o navio foi sendo lentamente tragado pelo mar, um a um eles foram se afogando, trancados em suas cabines e, agora, acuados pela água.
Só os que ignoraram a ordem do capitão Lee sobreviveram – inclusive, ele próprio, um dos primeiros a abandonar o navio condenado, mas ainda brandando que os passageiros se mantivessem onde estavam.
E não parou por aí.
A negligência continuou também durante a operação de resgate, que só foi acionada depois que um dos próprios estudantes ligou, do seu celular, para a Guarda Costeira Sul-Coreana, relatando o acidente e pedindo socorro imediato – que, no entanto, levou 40 minutos para chegar, embora o iminente naufrágio estivesse acontecendo a poucas milhas da costa.
Quando uma única embarcação da Guarda Costeira chegou ao local – apesar das dimensões da tragédia -, o Sewol já havia adernado mais de 50 graus, e eram barcos particulares voluntários que tentavam recolher aqueles que haviam desobedecidos as ordens do capitão e corrido para o convés, de onde se atiraram na água.
Só eles se salvariam.
Presos no interior do casco, com a água subindo mais e mais a cada instante, os jovens estudantes usavam seus celulares para enviar mensagens (algumas delas de despedida) aos pais, que, desesperados, passaram a acompanhar a tragédia em tempo real, através das ligações, mas sem nada poderem fazer para socorrer seus filhos.
Uma das mensagens dizia: “Mãe, não se preocupe. Já estou vendo o barco de socorro pela janelinha”.
A mãe ligou de volta.
Mas o filho não atendeu.
Já era tarde demais.
No tumulto que se seguiu a desorganizada operação de resgate dos sobreviventes, o solitário barco da Guarda Costeira Sul-Coreana (após recolher no mar o assustado capitão Lee, bem como outros tripulantes que fizeram o mesmo que ele), passou a usar um megafone para instruir os passageiros que ainda estavam dentro do Sewol a fazerem o oposto do que o comandante ordenara.
A ordem, agora, é que todos saíssem de onde estavam e se jogassem ao mar, já que a inclinação do casco não mais permitia a penetração de equipes de resgate.
Mas não havia mais como eles saírem de dentro do ferry boat virado e inundado.
Estavam trancados no casco emborcado, condenados a uma morte tão certa quanto agonizante.
As tentativas de quebrar as janelas das cabines do ferry boat para retirar os passageiros também não deram em nada, porque o material era resistente demais.
Gradualmente, o ferry boat foi afundando, até que restou apenas o seu bico de proa fora d´água – e assim ficou por mais de duas horas.
Quando isso aconteceu, até as emissoras de TV já haviam chegado ao local e passaram a transmitir, ao vivo, a tragédia, para desespero ainda maior dos familiares das vítimas, que passaram a acompanhar tudo pela televisão.
Minutos depois, o Sewol mergulhou de vez, ceifando as esperanças dos parentes dos que não tinham conseguido sair de dentro do ferry boat – quase dois terços dos seus passageiros.
Das 476 pessoas que havia a bordo do Sewol, quando ele zarpou do continente, apenas 172 foram resgatadas com vida.
304 pessoas morreram no desastre, quase 200 delas jovens estudantes, com idades entre 9 e 16 anos, que pagaram com suas vidas a obediência a ordem insensata do comandante Lee.
Desde então, na Danwon High School, na cidade de Ansan, onde moravam a quase totalidade das vítimas, dois monumentos homenageiam os estudantes mortos no mais terrível naufrágio da história da Coréia do Sul.
Um deles, tem a forma pacífica de uma baleia. Já o outro é bem mais impactante: reproduz uma sala de aula da escola, com os nomes de todos os alunos mortos no desastre.
Ela costuma ser visitada quase que diariamente por familiares das vítimas em busca de algum tipo de consolo.
Até hoje.
Após a tragédia do Sewol, pelo menos três pais de alunos cometeram suicídio, deprimidos com a morte dos filhos.
O mesmo fez o diretor da escola, que também estava a bordo, acompanhando os alunos, e jamais se perdoou por ter sobrevivido.
Seu último pedido foi que suas cinzas fossem jogadas no local onde aconteceu o naufrágio.
Ele queria se juntar às vítimas.
Já os demais parentes das vítimas, revoltados com a letargia do governo sul-coreano em dar respostas à causa do acidente, passaram a promover manifestações – e a fazer greve de fome, acampados diante da sede do governo -, exigindo uma investigação aprofundada.
A indignação aumentou ainda mais quando eles tomaram conhecimento de que, ao saber do acidente, a presidenta Park Geun-hye (que estava em um salão de beleza, arrumando o cabelo) ordenou que a Guarda Costeira recusasse ajuda externa, como já havia sido oferecido pelos governos do Japão e Estados Unidos, ambos com navios e helicópteros nas proximidades, a fim de minimizar a gravidade da catástrofe mundo afora, e não fragilizar o seu governo – que, durante o naufrágio, chegou a dizer que todos os passageiros tinham sido resgatados com vida.
A sequência de mentiras e atos desconexos do governo desencadearia uma reação social e política sem precedentes na história recente da Coréia do Sul, que culminaria no impeachment da presidenta Park Geun-hye, também acusada de outros escândalos, três anos depois.
Antes disso, porém, a pressão popular obrigou as autoridades sul-coreanas a agir – ainda que tardiamente.
Uma comissão de inquérito foi instaurada, para apurar responsabilidades, ao mesmo tempo em que mergulhadores e robôs submarinos foram enviados até o casco soçobrado, a 40 metros de profundidade, em busca de corpos de vítimas.
Mas eles só conseguiram penetrar no compartimento das garagens, onde não havia ninguém.
Após meses de análises, apurações e entrevistas com os sobreviventes, a comissão de inquérito concluiu que não havia uma causa para a tragédia.
Haviam várias.
Uma delas foi a sobrecarga de peso a bordo.
O Sewol, que dois anos antes havia passado por uma imprudente reforma, que adicionara dois deques de cabines à sua estrutura, aumentando assim sua capacidade de passageiros – além de 37 toneladas de pisos de mármore em seus salões internos -, partira com 180 veículos, mal distribuídos, quando sua capacidade segura era para pouco mais de 150.
Naquela viagem, ele transportava mais de 3 600 toneladas, entre veículos e carga em geral, quase o dobro do que comportava.
Para tanto, o tamanho do seu lastro fora reduzido das 2 000 toneladas recomendadas para pouco mais de 500 – uma forma de compensar o maior peso transportado.
Contudo, esta troca de lastro no fundo do casco por peso de carga acima d´água, alterou o centro de gravidade e o equilíbrio do casco, deixando-o bem mais sensível a manobras bruscas, como feita por conta do desentendimento entre os dois tripulantes que pilotavam o ferry boat, na entrada do canal de acesso à ilha, uma área de forte correnteza.
Quando se aproximava de uma curva mais acentuada no canal, o terceiro imediato Park Han-kyul, encarregado de conduzir a embarcação pelo comandante Lee, ordenou que o timoneiro Cho Joon-ki guinasse levemente para estibordo.
Mas o timoneiro entendeu que era para virar e exagerou na manobra.
O terceiro imediato tentou corrigir, mandando, então, que ele girasse o timão no sentido oposto, o de bombordo, para compensar o movimento equivocado.
Mas isso desequilibrou ainda mais o casco, que já estava com sua estabilidade comprometida, pela má distribuição dos veículos a bordo.
O Sewol inclinou demais, e não conseguiu mais voltar à posição original.
Era o começo da tragédia.
A conclusão da comissão foi que houve negligência generalizada, tanto na compensação do menor lastro com maior volume de carga, na má distribuição dos veículos na garagem e na comunicação truncada entre os dois encarregados de conduzir a embarcação.
Também houveram falhas gritantes nas operações de evacuação e resgate, ambas feitas de forma precária e muito aquém da intensidade do desastre – quantas pessoas poderiam ter sido salvas se a Guarda Costeira tivesse agido com rapidez, e se o comandante Lee não tivesse dado aquela catastrófica ordem para que todos permanecessem onde estavam?
Como consequência disso, mais de 150 pessoas, entre tripulantes, agentes portuários e oficiais da Guarda Costeira sul-coreana, envolvidos direta ou indiretamente na tragédia, foram indiciados.
Já o capitão Lee Joon-seok foi preso, acusado de múltiplos homicídios, com pedido de pena de morte pela promotoria. Julgado, foi condenado a 36 anos de prisão, pena depois aumentada para prisão perpétua, que vem cumprindo desde então.
Outros 13 membros da tripulação foram condenados a penas de até 20 anos de prisão, por abandonarem a embarcação antes de socorrer os passageiros, incluindo os dois que estavam na cabine de comando no instante daquela desastrosa manobra.
Três anos depois, em março de 2017, o casco do Sewol foi retirado do fundo do mar, em busca de restos de vítimas que ainda estivessem confinadas dentro dele.
Apenas uma ossada foi encontrada.
Nove corpos jamais foram localizados: o de oito estudantes e de uma criança, de 6 anos de idade.
Não poderia haver desfecho mais tocante par a pior tragédia da história da Coréia do Sul.
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por Jorge de Souza | ago 11, 2026
Na Segunda Guerra Mundial, nem todos os navios militares tinham como único objetivo combater o inimigo.
Em pelo menos um deles, o foco era outro: a diversão dos próprios marinheiros.
O HMS Menestheus foi ex-caça minas da Marinha Inglesa, que atuou durante algum tempo nas águas da Islândia, implantando explosivos contra os submarinos alemães.
Mas ao ser desativado, por conta da extinção do seu batalhão, acabou sendo recomissionado para algo bem menos bombástico: produzir e distribuir cerveja aos soldados Aliados.
Tudo começou quando a Marinha Real Inglesa detectou uma sensível queda no entusiasmo e na moral de seus comandados.
Abalados com as frequentes perdas de companheiros nos combates, os marinheiros, especialmente aqueles que atuavam nos sangrentos combates contra os japoneses no Pacífico, começaram a entrar em um quase estado de depressão coletiva.
Foi quando o chefe máximo do Almirantado inglês, Winston Churchill, teve a ideia de reviver uma antiga prática nas naus inglesas do passado: a distribuição de bebida alcoólica para elevar a moral das tropas – algo vital na situação em que os ingleses se encontravam.
Mas, em vez de apenas determinar que todos os navios de combate fossem carregados, também, com algumas garrafas, Churchill foi além e decidiu transformar um deles em uma autêntica cervejaria flutuante, que produziria e distribuiria cerveja entre as flotilhas.
E o escolhido foi o HMS Menestheus, que havia ficado sem nenhuma função na guerra.
Por ordem do próprio Churchill, um admirador confesso de um bom copo, o HMS Menestheus foi levado para um estaleiro da costa oeste do Canadá, e ali passou por uma grande – e inusitada – reforma.
Sua artilharia foi praticamente removida e, nos espaços que restaram livres, foram instalados equipamentos inusitados em navios militares, como salões, balcões, mesas e cadeiras, como nos mais legítimos pubs ingleses.
Mas o mais extraordinário foi a implantação, nos porões do HMS Menestheus, de uma grande caldeira feita de cobre, com seis fermentadores e depósitos apropriados para estocar lúpulo e extrato de malte.
Ou seja, uma legítima cervejaria, capaz de produzir, em pleno mar – e com água salgada destilada -, barris e mais barris de bebida.
Muito possivelmente, o HMS Menestheus foi o único navio militar da História que, além de um comandante, teve, também, um mestre cervejeiro.
Toda a produção era servida aos marinheiros ingleses e Aliados nos intervalos dos combates, em salões que haviam sido criados dentro do navio – um deles, uma espécie de teatro, com capacidade de 350 lugares, no quais eram apresentadas pequenas sessões de comédias, e outro, tão grande quanto, para danças entre os soldados.
O sucesso da cervejaria flutuante entre as tropas foi imediato – e os benefícios na autoestima dos marinheiros, notável.
Pena que a bem sucedida estratégia de Churchill tenha chegado um tanto tarde.
Por conta dos atrasos na reforma do navio – nunca, afinal, um estaleiro militar havia feito tal empreitada -, o HMS Menestheus só chegou à região do Pacífico onde a frota britânica atuava em setembro de 1945, um mês após a rendição japonesa.
Mas foi igualmente útil, de duas formas: para animar as forças Aliadas que permaneceram na região, e, mais tarde, para que os marinheiros comemorassem, com muita cerveja, o fim da própria guerra.
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por Jorge de Souza | jul 28, 2026
Se você, algum dia, pensou em fugir para um lugar longe de tudo e de todos, é para aqui que você deveria ir: o Ponto Nemo, no Oceano Pacífico, a área de mar mais remota e afastada de qualquer terra firme do planeta.
O Ponto Nemo, assim batizado em homenagem ao lendário submarino da clássica obra 20 000 Léguas Submarinas, de Julio Verne (nada a ver com o simpático peixinho colorido do desenho animado, mas sim com o termo “nemo”, que em latim significa algo como “nada” ou “ninguém”), não aparece em nenhum mapa e nunca foi visitado nem pelo cientista que o descobriu, o engenheiro croata-canadense Hrvoje Kukatela, em 1992.
Também chamado pelos oceanógrafos de “Polo de Inacessibilidade”, o Ponto Nemo é uma área específica ao sul do Oceano Pacífico, mais ou menos entre a Nova Zelândia e a costa do Chile, onde não existe nenhum naco de terra firme por perto, e a ilha ou continente mais próximo fica a exatos 2 688 quilômetros de distância, qualquer que seja a direção.
Ou seja, o Ponto Nemo é o ponto equidistante mais longe de qualquer terra firme em todos os oceanos – o local mais ermo, remoto e isolado do mundo, entre as áreas de mar do planeta.
Em 2014, os barcos que competiram na regata de volta ao mundo Volvo Ocean Race passaram pelo Ponto Nemo, vindos da Nova Zelândia para a América do Sul.
O barco mais veloz da competição levou meio mês para atingi-lo, o que dá uma ideia do isolamento da região.
“O Ponto Nemo não é uma porção de terra. É o que de mais distante existe dela”, brincam os navegantes.
Um marinheiro que tiver a infelicidade de se tornar náufrago no Ponto Nemo estará praticamente arruinado, porque os seres humanos mais próximos dele serão os astronautas da Estação Espacial, que orbita em torno da Terra a cerca de 400 quilômetros de altura – mas, ainda assim, quase sete vezes mais perto do Ponto Nemo do que a terra firme mais próxima dele.
E o pior é que, qualquer que seja a direção em que o infeliz avance, o que ele encontrará de mais próximo não passará de uma ilha deserta.
Ou será a Ilha Ducie, ao norte, que faz parte das Ilhas Pitcairn, consideradas as mais remotas ilhas habitadas do planeta; ou o Motu Nui, a nordeste, um simples rochedo próximo à Ilha de Páscoa; ou a gelada Ilha Maher, ao sul, na Antártica, onde só existe gelo.
De civilização, não há nada.
E foi exatamente por isso que o Ponto Nemo foi criado – por não haver nenhuma alma viva por perto.
O Ponto Nemo fica em uma parte tão remota do globo terrestre que só recentemente os cartógrafos concluíram que a Ilha Henderson, que também faz parte das Pitcairns, uma das pontas do triângulo imaginário que fez nascer o ponto, sempre esteve erroneamente indicada nos mapas, a quase dois quilômetros mais ao sul do que apontavam as cartas náuticas.
Foi a partir da triangulação entre aquelas três ilhotas, cada uma delas a quase 2 700 quilômetros de distância, que surgiu o Ponto Nemo, um “X” invisível nas cartas náuticas, mas que, para os cientistas, é uma área muito mais relevante do que uma simples curiosidade geográfica.
E por uma razão que nada tem a ver com o mar, e sim com o espaço.
Por que é no Ponto Nemo que são descartadas as naves espaciais e satélites que não servem mais.
O Ponto Nemo foi criado com este objetivo: atender as necessidades dos programas espaciais, que precisavam de uma área de mar que não fosse habitada nem fizesse parte da rota regular de barcos, para realizar o descarte de suas naves e satélites, ao serem trazidos de volta à Terra – um local totalmente desabitado e isento de riscos para as pessoas.
Por isso, nos anos de 1990, o pesquisador croata, radicado no Canadá, Hrvoje Kukatela se debruçou sobre mapas dos oceanos e passou a medi-los, em busca do local mais distante entre todas as ilhas ou porções de terra firme existentes nos mares do planeta.
E foi assim que ele chegou ao Ponto Nemo, o “cemitério de objetos espaciais”, onde não existe nada nem ninguém por perto.
Até hoje, perto de 300 elementos espaciais (entre satélites, estações e naves) já terminaram os seus dias no fundo do mar do Ponto Nemo, ou ao redor dele, já que é impossível direcionar tão precisamente assim as quedas dos objetos – razão pela qual, quando uma operação de reinserção na atmosfera está para entrar em curso, todos os navios que estejam em um raio de 3 000 quilômetros em torno do Ponto Nemo são avisados e aconselhados a mudar de rumo.
No imenso cemitério espacial (curiosamente, no fundo do mar) do Ponto Nemo jaz, por exemplo, a primeira estação espacial tripulada da História, a MIR, lançada pela União Soviética, em 1986, que operou até 2001, quando foi trazida de volta à Terra e afundou, com segurança, dentro daquele perímetro.
Também o mesmo aconteceu com as estações espaciais soviéticas anteriores, do Programa Salyut.
E será lá também que está previsto o descarte da Estação Espacial Internacional – ISS, a maior de todas, prevista para o início da década de 2030.
Mas, no Ponto Nemo, não é apenas na superfície que não existe vida alguma por perto.
Também debaixo d´água, a vida marinha é bem escassa, porque a região é banhada por uma corrente marítima poderosa que inibe a presença de nutrientes e, consequentemente, não atrai tanto os seres marinhos.
É quase como um deserto de água salgada – uma das regiões menos biologicamente ativas do planeta.
E que, embora não esteja indicado em nenhuma carta náutica, existe de fato, ao menos na teoria -, nas coordenadas 48.526 latitude sul e 123.236 longitude oeste.
Para os interessados no mais completo isolamento nos mares do planeta, fica a sugestão de roteiro.
Mas, se optar em ir para lá, não espere encontrar ninguém por perto para ajudá-lo a voltar.
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