O barquinho de brinquedo que atravessou, sozinho, um oceano inteiro

O barquinho de brinquedo que atravessou, sozinho, um oceano inteiro

No início do ano passado, atendendo a um pedido de dois garotos escoceses, os irmãos Harry e Ollie Ferguson, de seis e oito anos respectivamente, um navio depositou na costa do litoral africano, na altura da Mautitânia, um barquinho de brinquedo, do tamanho de uma caixa de sapatos.

O objetivo, tanto dos meninos quanto do próprio capitão do navio, que decidiu embarcar na brincadeira depois de ter sido contatado pelos pais dos garotos, era descobrir se o tal barquinho, um pequeno navio pirata montado com pecinhas plásticas de Playmobil, mas com um aparelho de GPS dentro dele (além de um bilhete, escrito pelos próprios garotos, pedindo a quem o encontrasse que o devolvesse ao mar, para “seguir viagem”), conseguiria atravessar, sozinho, o Oceano Atlântico, movido apenas pelas correntes marítimas – um misto de brincadeira com experiência científica. E assim foi feito.

Pouco mais de três meses depois, para surpresa geral, o barquinho dos dois garotos (que, graças ao GPS, era monitorado o tempo todo através de um site criado pelos seus pais na internet) foi dar, intacto, na costa da Guiana, do outro lado do Atlântico, a quase 4 000 quilômetros de distância.

Ali, o barquinho prescreveu uma curva, embarcou em outra corrente marítima e seguiu “navegando” até as imediações da ilha de Barbados, onde, por fim, desapareceu das telas dos computadores.

A improvável façanha do barquinho de plástico que atravessou o oceano foi notícia no mundo inteiro e ajudou a transformar o projeto dos pais dos garotos, que prevê fazê-los participar de 500 aventuras e descobertas antes de completarem 18 anos, numa espécie de método educativo alternativo e serviu de estímulo para outras famílias fazerem o mesmo com seus filhos.

Algumas experiências do projeto eram bem singelas, como passar uma noite acampado no quintal de casa ou lançar um enorme aviãozinho de papel do alto de uma montanha, para ver por quanto tempo ele voava. Outras, bem mais elaboradas, como a própria viagem do barquinho de plástico de um lado a outro do Atlântico. “Mas, todas divertem os garotos e os fazem aprender algo novo”, disse o pai dos garotos, o escocês MacNeill Ferguson.

“No caso do barquinho, queríamos que eles aprendessem sobre as correntes marítimas de uma maneira prática e bem mais divertida do apenas lançando uma garrafa ao mar”, explicou.

Entusiasmada com a repercussão da curiosa travessia do barquinho em miniatura, uma editora inglesa decidiu lançar um livro contando a saga do brinquedo no Atlântico, façanha que os dois garotos e uma legião de fãs mundo afora, acompanharam, diariamente, pela internet.

Pena a brincadeira acabou.

Desde que atingiu a região entre Barbados e a Jamaica, o barquinho de plástico de meninos parou de emitir sinais de GPS e não pode mais ser monitorado.

Naufrágio? Sim, é possível, já que não passava de um brinquedo de plástico. Mas o mais provável é que a bateria que alimentava o seu GPS tenha apenas terminado, deixando o barquinho sem contato.

Neste caso, ele bem pode estar flutuando em algum ponto do mar do Caribe até hoje. E convém não duvidar disso, como duvidaram aqueles que achavam que um brinquedo jamais conseguiria atravessar, sozinho, um oceano inteiro.

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A vergonhosa morte de um mito da vela em águas brasileiras

A vergonhosa morte de um mito da vela em águas brasileiras

Na madrugada de 7 de dezembro de 2001, um fato chocou o mundo, sobretudo o da vela, e maculou ainda mais o nome do Brasil.

Durante uma ancoragem no Rio Amazonas, bem diante da cidade de Macapá, capital do Amapá, o lendário velejador neozelandês Peter Blake, então com 53 anos e um dos maiores nomes do iatismo de todos os tempos, foi assassinado ao reagir a um assalto em seu barco, o também lendário veleiro Seamaster, que ele havia comprado de Jacques Cousteau.

Na época, Blake era idolatrado por velejadores do mundo inteiro.

Havia vencido a regata de volta ao mundo Whitbread de 1989/1990, era o recordista do Troféu Júlio Verne, para quem rodeasse o planeta navegando em menos tempo, vencera por duas vezes as famosas regatas Fastnet (em 1979 e 1989) e Sydney Hobart (em 1980 e 1984), e, mais relevante que tudo, conduzira, em duas ocasiões, a equipe da Nova Zelândia à vitória na mais tradicional competição a vela da História, a America´s Cup – na primeira delas, em 1995, quebrando uma hegemonia de 144 anos dos americanos, que jamais haviam sido derrotados naquela competição.

Por essas e outras, Blake fora agraciado pela rainha Elizabeth com o título de Sir, uma distinção conferida a poucos.

Blake, contudo, já não mais competia.

Após vencer sua segunda America´s Cup, em 2000, ele decidiu abandonar as regatas, embora no auge de sua capacidade esportiva, criou a Blake Expeditions, dedicada a estudar problemas ambientais dos rios e oceanos do planeta, e transformou o Seamaster num veleiro-laboratório para expedições científicas, razão pela qual seguira para a Amazônia naquele final de 2001, com mais oito pessoas a bordo, todas estrangeiras.

O objetivo do grupo era analisar as condições ambientais dos rios amazônicos e, depois, seguir navegando pela própria selva, até a Venezuela. “Por que estamos aqui?”, escreveu Blake naquele que se tornaria o seu último registro no diário de bordo do Seamaster: “Porque precisamos estudar – e também apreciar – a natureza antes que seja tarde demais. Queremos motivar as pessoas a cuidarem do meio-ambiente. Queremos fazer a diferença”.

Mas não deu tempo.

Naquela noite, a chegada de um barco tão vistoso quanto o Seamaster ao pequeno balneário de Fazeninha, nas proximidades de Macapá, chamou a atenção de um grupo de seis bandidos da cidade, conhecidos como “ratos d´água”. E eles decidiram assaltá-lo.

Vestindo capuzes e até improvisados capacetes de motociclistas, os bandidos fizeram um barqueiro a levá-los até o veleiro e, protegidos pela escuridão, abordaram o barco de armas em punho. O grupo de Blake foi surpreendido no convés e rendido. Um deles, no entanto, tentou reagir e levou uma coronhada na cabeça. No tumulto, Blake conseguiu correr para a cabine e pegou um rifle, intimando o bandido que o seguiu a deixar o barco.

Mas outro bandido viu a cena e disparou. Blake foi alvejado duas vezes e morreu na hora.

Em seguida, os bandidos pegaram algumas coisas do barco (um estojo de CDs, uma máquina fotográfica, um relógio, o motor de popa do bote de apoio e a próprio rifle de Blake) e fugiram, dando a arma do neozelandês como pagamento ao barqueiro que os levara até o veleiro. Na partida, ainda dispararam contra outro tripulante, um amigo de Blake, de 58 anos, que tentava socorrer o neozelandês, que, no entanto, já estava morto.

Era o fim de um mito da vela mundial e o início de outra tragédia: a da realidade brasileira.

A morte brutal do velejador neozelândes em águas brasileiras foi manchete no mundo inteiro. Três semanas antes da tragédia, a própria primeira-ministra da Nova Zelândia, em visita oficial ao Brasil, havia estado com Blake (que ela chamava carinhosamente de “Hillary dos mares”, numa referência ao alpinista neozelandês Edmund Hillary, o primeiro homem a conquistar o Monte Everest), no Rio de Janeiro.

A deferência era mais que justificada: Blake era uma espécie de Ayrton Senna da Nova Zelândia, ídolo maior de um país que sempre teve a vela como seu esporte número 1. E o que aconteceria com ele dias depois geraria grandes constrangimentos ao governo brasileiro.

Pressionada, a polícia do Amapá precisou agir rápido e, graças a uma denúncia anônima, conseguiu, dias depois, prendeu os seis bandidos. Eles, então, foram julgados, condenados e enviados ao presídio de Macapá. Mas o autor dos disparos que mataram Blake, José Iradir Cardoso, que havia sido condenado a 35 anos de reclusão, ficou preso pouquíssimo tempo –  porque logo fugiu da cadeia.

E passou incríveis 16 anos livre, foragido da Justiça.

Até que, em fevereiro do ano passado, durante uma blitz rotineira de trânsito na principal rua do município de Breves, no arquipélago do Marajó, no vizinho estado do Pará, José Irandir foi detido por falhas na documentação do veículo que dirigia, e, por puro acaso, identificado como sendo um presidiário fugitivo. O bandido foi novamente preso e enviado a um presídio no Acre, onde se encontra neste momento – muito provavelmente, apenas aguardando outra oportunidade de fugir da cadeia.

Já Blake, que cometeu o erro de reagir ao assalto imaginando que os bandidos não teriam como fugir de seu barco, ainda mais estando em desvantagem numérica, virou lenda e, hoje, entre outras homenagens, batiza um fundo criado pelo governo neozelandês para a educação ambiental, enquanto seu barco, vendido e rebatizado Tara, ainda participa de expedições ambientais ao redor do mundo.

De certa forma, o legado ambientalista de Blake continua. Embora ele tenha pagado com a própria vida por isso.

Foi tragédia para a Nova Zelândia e uma vergonha para o Brasil inteiro.

 

Foto: Sailfeed

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A brava xerife do mar que não deixa ninguém entrar no único atol do Brasil

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No meio do mar, a cerca de 270 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, existe um lugar absolutamente lindo: o Atol das Rocas, único atol do Brasil (um tipo de ilha rente ao mar que forma uma espécie de lagoa no meio do oceano) e, também, de todo o Atlântico Sul.

O Atol das Rocas é o que de mais perto o Brasil tem do Taiti. Seu mar é incrivelmente azul e com uma quantidade extraordinária de seres marinhos. Seja na beleza ou na riqueza de sua vida marinha, o Atol das Rocas deixa qualquer ilha do Caribe no chinelo.

Mas convém não se animar. Porque ali ninguém pode entrar. Nem mesmo se aproximar com um barco. E quem trabalha 24 horas por dia para que isso nunca aconteça é Maurizélia de Brito Silva, a “Zélia”, como ela prefere, a mais durona – e abnegada – guardiã das áreas de preservação da costa brasileira.

Ninguém conhece esse naco do território brasileiro com cara de paraíso, mar de aquário e absolutamente ninguém por perto, melhor do que Zélia. E ninguém manda ali mais do que ela.

Desde 1991, quando, aos 26 anos, desembarcou no atol pela primeira vez, levada pelo pai, então encarregado do extinto IBDF – Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, Zélia, hoje com o dobro daquale idade, 53 anos, nunca mais fez outra coisa a não ser tomar conta do Atol da Rocas. Com unhas e dentes.

Seu rigor na hora de defender o atol dos pescadores e invasores em geral lhe rendeu até um apelido: “Xerife do Mar”, que ela muito se orgulha.

Rendeu, também, a admiração de todos os biólogos, pesquisadores e ambientalistas em geral. Ninguém jamais foi tão dedicado a tarefa de proteger um pedacinho do mar brasileiro do que a Xerife Zélia – que segue na ativa até hoje como chefe suprema da Reserva Biológica do Atol das Rocas, não tem planos de se aposentar e aí de quem fizer algo errado lá!

“Mexeu no Atol, mexeu comigo”, diz Zélia. “Tenho autorização para portar arma, mas não uso. Prefiro conversar com os infratores. Mas falo grosso. Sempre”, avisa.

No começo de sua cruzada solitária para proteger o Atol das Rocas, sobretudo da pesca, Zélia cansou de ser ameaçada pelos pescadores.

Cortava redes, mergulhava para soltar os peixes enredados e não se intimidava nem quando os mais agressivos vinham para cima do seu precário bote, às vezes com armas em punho.

“Eu morria de medo, porque, se tomasse um tiro ali, no meio do mar, ninguém jamais ficaria sabendo. Mas não afinava nem desistia. Fingia que tinha coragem e ia pra cima deles. O atol sempre foi a minha vida”, diz.

Até hoje, ninguém pode visitar o Atol das Rocas, que fica a mais de 20 horas de barco da capital do Rio Grande do Norte. Já Zélia vai para lá três ou mais vezes por ano. E, a cada incursão, fica mais de um mês no Atol.

No começo, ia sozinha. “Hoje ficou bem mais fácil encarar a solidão, porque já tem até internet lá. Mas, no começo, eu cheguei a passar fome e sede, quando acabava a água de beber e o gás do fogareiro. Era um sofrimento só. Mas nunca me arrependi”, conta.

“Também nunca comi um peixe tirado do mar do atol. Tem peixe lá que eu acompanho o crescimento há mais de dez anos. Graças a Deus, isso é possível”, vibra a Xerife Zélia. E até os pescadores concordam que, se ela não existisse, o Atol das Rocas há muito teria deixado de ser o que é até hoje.

O Atol das Rocas fica numa posição estratégica de correntes marítimas e é uma espécie de criadouro marinho natural – daí ter virado área de proteção ambiental.

Os peixes gerados lá abastecem toda a região. Mas quem for pego pescando nas imediações do atol vai ter que se entender com Zélia, que está sempre de plantão, na internet, analisando imagens via satélite, ou encarapitada no alto do farol que há no atol, em busca de barcos invasores no horizonte.

No entanto, barcos com problemas são permitidos e até auxiliados, na medida do possível. Já pesqueiros viraram raridades na área. Depois que Zélia assumiu, ninguém mais pesca na área do atol.

Zélia admite que, se não tivesse tido pulso forte desde o princípio, a fauna marinha do atol já estaria seriamente comprometida. Mas diz que fez isso movida, sobretudo, pelo idealismo.

“Um dia, eu decidi que ia cuidar do Atol como se ele fosse meu. Fiz até empréstimo no banco para pagar, do meu bolso, as despesas das viagens para lá. Hoje, quando vejo como aumentou a quantidade de peixes, lagostas, tartarugas e tubarões nas piscinas do Atol, vejo como tudo valeu a pena”.

O Atol das Rocas não é para todo mundo não apenas na questão jurídica – já que, pela lei, reservas biológicas têm acesso totalmente proibido. Embora lindo, o atol em si é bem inóspito.

A vida no pedaço menos conhecido da costa do Brasil é dura. Bem dura. A começar pelo fato de que o Atol das Rocas, embora cercado de mar por todos os lados, não tem água potável.

É preciso trazer água doce do continente ou torcer para chover. Banho? Só de água salgada. E banheiro é o próprio mar – até hoje.

“No começo era bem pior”, consola-se Zélia. “Vivi quase três anos dentro de uma barraca de camping, enxotando baratas e escorpiões, porque a Reserva não tinha sequer uma sede. Hoje, está bem melhor. Mesmo assim, são poucos os pesquisadores que aguentam ficar lá um mês inteiro, até o barco vir buscá-los de volta”.

Velejadores, de vez em quando, aparecem. E, quando isso acontece, Zélia vai até o barco, explica que pode ancorar ali, mas pergunta se está tudo bem a bordo. Se estiver, manda o pessoal embora. É a sua obrigação.

Zélia chegou a cursar Ciências Sociais e Biologia, mas não terminou nenhuma das duas faculdades, porque faltava demais as aulas, por causa justamente do Atol. “Acabei me formando em ´atologia´”, brinca.

O prêmio, para ela o maior de todos, foi ter sido homenageada pelos pesquisadores, que colocaram o seu nome em duas novas espécies já encontradas no Atol. “Quando eu não estiver mais aqui, ainda assim ficará algo meu lá”, diz, orgulhosa.

No Brasil, a dedicação da Xerife do Mar só tem paralelo com a de outra abnegada brasileira, a arqueóloga Niède Guidon, que também tem dedicado sua vida ao estudo de pinturas rupestres no interior do Piauí, que retratam o passado do povo brasileiro – e ambas têm o mesmo comportamento firme e irredutível quando se trata de proteger o território no qual dedicaram a vida inteira.

Não por acaso, ambas foram premiadas. A arqueóloga com uma comenda da Unesco e Zélia com um prêmio dado aos brasileiros que fazem diferença na transformação do mundo.

Nos Estados Unidos, contudo, a história da ambientalista potiguar encontra paralelo em outra heroína do mar, embora em outro sentido.

No final do século 19, a americana Ida Lewis tornou-se não apenas a mais jovem faroleira da História, com apenas 16 anos de idade, como foi a primeira mulher a receber a mais alta condecoração do Congresso Americano, além de ter sido eleita “A Mais Brava Mulher da América”, pelos resgastes que promoveu no mar, com um simples barco a remo – uma história igualmente extraordinária, que pode ser conferida neste site, clicando aqui.

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Escada com 15 metros de altura, pouquíssimo espaço e nenhum conforto. Como é navegar em um submarino

Escada com 15 metros de altura, pouquíssimo espaço e nenhum conforto. Como é navegar em um submarino

Você se enfia numa escotilha pouco maior do que uma privada, olha para baixo e vê um apertado tubo vertical, que desce a perder de vista e mais parece um poço. Pelo menos, a altura é de um poço de verdade: 15 metros, o mesmo que um prédio de cinco andares.

 

A escadinha também não ajuda muito. É estreita, não permite dobrar as pernas e os ombros vão raspando nas laterais do cilindro de aço. Um ser mais rechonchudo certamente entalaria. Um mais medroso, nem tentaria. Ao descer, a impressão é que se você soltar as mãos da escadinha, que mais parece coisa de alpinista, despencará lá embaixo – e cairá mesmo.

 

Vencido o primeiro desafio, vem outro: a claustrofobia. Um submarino é um tubulão de aço tão hermeticamente fechado quanto um cofre. E tão apertado quanto um ônibus lotado. A bordo, não há espaço sobrando para nada. Tudo é compactamente encaixado e todos os espaços são milimetricamente aproveitados.

 

Também para economizar espaço, quase tudo a bordo tem mais de uma função. A mesa de refeições vira maca, se necessário, já que o refeitório é, também, enfermaria. Nem seria tão estranho assim se o ambiente não ficasse bem aos lados dos torpedos – sim, torpedos, porque todo submarino é, acima de tudo, uma nave de guerra. Mesmo que não exista combate algum à vista.

 

Submarinos são as embarcações menos conhecidas pelas pessoas, no mundo inteiro. A começar pelo fato de que foram feitos justamente para não serem vistos.

 

Mesmo assim são considerados “barcos” (ou “navios”, como preferem chamar os seus tripulantes), embora feitos para afundar em vez de flutuar. Só quando um submarino desaparece debaixo d´água é que ele começa, de fato, a cumprir o seu papel de navegar escondido. É uma máquina assustadora e fascinante, ao mesmo tempo.

 

– Quando vamos afundar? – fui logo perguntando ao comandante, tão logo embarquei.

– Espero que nunca – ele respondeu, enigmático.

 

É que a pergunta foi formulada errada. Submarinos não “afundam” – eles “submergem”. Quando um submarino “afunda”, é o fim. Como qualquer barco.

 

Foi minha primeira lição a bordo. A segunda é que, dentro de um submarino, tudo é tão apertado quanto a tal escadinha de acesso às entranhas daquele monstro fechado de aço.

 

Como os espaços são pra lá de acanhados, os esbarrões a bordo são inevitáveis, o que implica em permanentes pedidos de desculpas, especialmente quando a vítima é o comandante, que ali não tem como manter o habitual distanciamento dos seus subordinados – em um submarino não há espaço sequer para muita hierarquia.

 

Para complicar ainda mais a locomoção interna, as paredes são revestidas com um mar de válvulas, registros, manômetros e tubos salientes, capazes de dilacerar ombros e canelas de qualquer tripulante mais estabanado.

 

Há válvulas e registros em profusão até ao lado do vaso sanitário – um só para todo o submarino, por sinal, embora ele abrigue mais de 30 homens, muitas vezes por dias a fio. Não existe convivência mais intensa e estreita. Literalmente.

 

O piso (convés?) fica sobre nada menos que 480 baterias elétricas, cada uma com meia tonelada de peso, que são as responsáveis pela movimentação do hélice – sim um submarino é um barco elétrico, embora também possua motor a diesel, mas apenas para recarregar as próprias baterias.

 

Quando é preciso ligá-lo, o submarino sobe e lança uma espécie de tubo na superfície, por onde saem os gases do escapamento. Outro tubo, chamado de ”snorkel”, é responsável por sugar ar fresco lá de fora para renovar o oxigênio a bordo. De tempos em tempos, é preciso fazer as duas coisas. Mas nem para isso ele precisa emergir.

 

Submarinos existem desde o final do século 19 (o primeiro da Marinha do Brasil foi de 1910!), mas são raramente vistos, por razões óbvias. Na América do Sul, o Brasil tem a maior frota: apenas seis, incluindo o que Riachuelo, que foi lançado recentemente e ainda nem navegou.

 

Por isso, a súbita aparição no mar de um submarino é sempre um misto de susto e surpresa – como um monstro marinho que emerge das profundezas. Ou uma espécie de nave às avessas, que vem do fundo do mar em vez do espaço. Ninguém fica indiferente frente a um submarino.

 

Por isso, quase ninguém sabe nada sobre estes incríveis ”navios”, feitos para navegar onde nenhum barco convencional gostaria de estar – debaixo d´água. Eu era um deles.

 

Enquanto era assolado por dúvidas mundanas (será que no fundo do mar pega celular?; será que eu deveria ter vestido máscara e pé de pato?; e se alguém soltar um pum lá dentro?), fui descendo a tal escadinha, até que pisei num corredor igualmente apertado, que era a síntese do próprio submarino, o Tupi, um dos mais veteranos da Marinha Brasileira – porque, a bordo, não existe muito mais do que aquele simples corredor.

 

Uma vez dentro dele, tanto faz se há sol ou chuva na superfície, se é dia ou noite, se a região é feia ou bonita ou se o mar está bom ou ruim. A bordo, o ambiente nunca muda. É tranquilo, silencioso e sem visibilidade alguma.

 

Quem está dentro de um submarino não enxerga nada do mundo exterior, porque, afinal, não existem janelinhas. Só o periscópio que, por sinal, é sensacional. Você ficaria surpreso com o extraordinário alcance daquele pirolitinho na superfície do mar. Dá para ver até a cor da camisa dos pescadores num barco a quilômetros de distância.

 

Mesmo assim, a pilotagem de um submarino é sempre feita apenas por instrumentos, como um avião em dia de mau tempo. Aliás, a analogia com os aviões é pertinente, porque embora transitem num ambiente diametralmente oposto ao das aeronaves, os submarinos estão muito mais próximos da concepção de um Boeing do que um navio convencional.

 

Tem, por exemplo, manche (ou joystick) em vez de timão, necessidade de controlar também o “movimento vertical”, que nenhum navio exige, e, se alguém enjoar, tampouco dá para ir lá fora “tomar um ar fresco”.

 

Diante do piloto (que, num submarino, é chamado de “piloto” mesmo) há uma tela que vai exibindo, em números, o rumo a seguir, informação que é passada, também, em voz alta, de um tripulante para outro, com dois detalhes: todas as ordens são repetidas duas vezes (“Emergir!”, “Emergir!”, por exemplo) e quem as recebe repete uma vez mais (“Emergir!”), para deixar claro que entendeu o comando.

 

A navegação também é acompanhada à moda antiga, com lápis, réguas e compassos, riscados sobre uma carta náutica em papel, para o caso de alguma pane elétrica nos instrumentos de navegação.

 

Precisão é tudo em um submarino. Segurança, também. Ninguém a bordo confia apenas na tecnologia. A atmosfera na sala de comando é de filme de 007, com homens monitorando os instrumentos a todo o instante, sob alarmantes luzes vermelhas iluminando o ambiente. Você se sente como num filme de ação. Ou de terror, para os claustrofóbicos.

 

Depois de visitar a tal sala de comando (que é apenas uma extensão do tal corredor que sintetiza o barco inteiro, caminhei (meia dúzia de passos, não mais que isso) até a “praça de armas”, como é chamada a única área “social” de um submarino – que, por sua vez, não passa de um cubículo com a tal mesa-maca ao lado dos torpedos.

 

Ali, naquele dia, dois marinheiros relaxavam assistindo a um filme na televisão, enquanto aguardavam os seus turnos de trabalho. Ao lado, outro dormia num beliche quase nada mais largo do que ele próprio. E, da cozinha, vinha um cheiro gostoso de comida feita na hora. Ou seja, um ambiente tipicamente familiar. Só que 20 metros debaixo d´água.

 

É uma sensação esquisita saber que você está debaixo d´água e que ela está, o tempo todo, tentando entrar onde você está. Eu tentava não pensar muito nisso, determinado a desembarcar tão seco quando quanto embarquei naquele submarino, porque, se isso acontecesse, era um sinal inequívoco de que o passeio fora bem-sucedido.

 

Até que vi um marinheiro passar, um tanto apressado, com um balde nas mãos. “Êpa!”, pensei. Seria um vazamento? Um furo no casco? Uma escotilha mal fechada (sim, já aconteceu no passado e com um submarino da própria Marinha do Brasil, que afundou pateticamente junto ao cais, por uma falha no sistema hidráulico – clique aqui para ler esta história também).

 

Mas não era nada disso. Era apenas o chuveiro do banheiro que pingava. Respirei aliviado. Mas só até concluir que, para sair dali, teria que vencer os mesmos 15 metros de altura daquela escadinha suicida que tive que enfrentar na chegada. E, de novo, foi uma experiência sinistra.

 

Voltar ao mundo real da superfície foi a pior parte daquele passeio, de resto, inesquecível.

 

Foto: Mozart Latorre

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Jovem, bonita e mora sozinha num barco. A curiosa vida da carioca Carina

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Na noite de Réveillon de 2014, a carioca Carina Seixas, então com 32 anos, parou para pensar nas promessas que faria para o ano que começava. Mas nada a atraía. Nem mesmo a recente decisão de largar o emprego de designer para montar um negócio próprio.

Foi quando ela se lembrou da paixão que nutria na infância pelo veleiro que seu pai tinha e teve a ideia de mudar radicalmente de vida. Pronto. Era isso que ela faria: iria morar num barco. E sozinha – coisa rara para uma mulher no Brasil.

Hoje, aos 36 anos de idade, já fazem quatro que Carina trocou um modesto apartamento na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, por um pequeno veleiro e não se arrepende. Nem se vê voltando a viver num apartamento.

“Morar num barco significa ter pouco espaço, ficar balançando quase o tempo todo e abrir mão de certos confortos, como, por exemplo, ter um guarda-roupa cheio de roupas, mas, no meu caso, tem valido muito a pena”, resume Carina, que hoje vive apenas do aluguel do apartamento onde antes morava. “Morar num barco não é apenas mudar de casa”, avalia. “É mudar de vida”.

O atual barco de Carina (no começo, ela teve outro, menor ainda), o Criloa, de 1975, tem pouco mais de dez metros de comprimento, um quarto, uma sala, um banheiro e uma cozinha. “Morar num barco ensina a gente a se tornar uma pessoa organizada, porque não há espaço nem para bagunça, muito menos para deixar louça suja na pia”, brinca. “É uma lição minimalista de vida”, diz.

“No barco, eu descobri que posso viver bem com bem pouco, desde que este pouco seja realmente valioso para mim. Também aprendi a dar valor a tudo o que tenho, mesmo que seja pouca coisa”, diz Carina, com uma fala sempre pausada, tranquila e reflexiva.

“Descobri, também, que sou uma boa companhia para mim mesmo, e não sinto falta nem da falsa sensação de segurança de ter um homem a bordo”, diz, a respeito do que mais chama a atenção das pessoas quando ela conta que mora sozinha num barco, na companhia apenas de uma cadelinha, a Abigail.

“As pessoas estranham, mas não existe nada de heroico no que eu faço. Até porque pouco navego”, explica Carina, que, depois de uma temporada na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, hoje “mora”, na Praia de Santa Teresa, em Ilhabela, no litoral de São Paulo, onde o seu barco está atualmente ancorado. “Meu veleiro é basicamente a minha casa, não um meio para sair viajando mundo afora, embora, com ele, eu também possa fazer isso”, analisa. E completa: “Quem sabe, um dia”.

“De vez em quando, gosto de mudar de ´endereço` e um barco facilita muito isso”, explica. “Também consigo `morar` em lugares legais, sem precisar pagar por isso. Mas, para mim, o melhor de tudo é a paz, a liberdade e a integração com a natureza que morar num barco permite. Foi a melhor resolução de ano-novo que eu poderia ter tido”.

Medo? Ela garante que não tem. “Me sinto segura no meu barco e sempre tenho um ou outro vizinho nos locais onde paro. E a gente se visita, convida o vizinho para um café, coisa que nunca fiz quando morava num apartamento no Rio”, exemplifica.

Solidão? Ela também jura que não sente. “Me dou bem comigo mesma e gosto de ficar sozinha. Mas, se um dia aparecer um namorado, ele será bem-vindo no barco”, brinca Carina, que preenche seu tempo lendo, fazendo (ela mesma) a manutenção básica do veleiro, passeando nas regiões onde ancora ou cozinhando, embora o seu barco não tenha nem geladeira.

“Não ter geladeira não é tão ruim assim, porque me obriga a consumir apenas alimentos frescos e sem desperdícios, porque não há como conservá-los”, explica. “Mas, quando dá vontade de comer algo diferente, eu desembarco e vou comer num dos restaurantes da ilha”, completa.

Apesar de seguir feliz com a vida que decidiu experimentar a partir daquele Réveillon de quatro anos atrás, Carina, que, de vez em quando, até participa de regatas com o seu barco, na companhia de amigas, prefere não fazer planos para o futuro. “Só acho que consigo mais voltar a trabalhar num escritório”, diz.

“Não sei se vou morar para sempre num veleiro, mas estou gostando muito de viver no mar, e isso, por enquanto, é o que importa para mim”, diz, repetindo o mesmo raciocínio de quase todo mundo que decidiu trocar uma casa por um barco, a fim de aproveitar a vida, ainda que com muito mais simplicidade.

 

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

Quando decidiu construir um barquinho (um “barquinho” de fato, de apenas 11 pés e 10 polegadas ou míseros 3,6 metros de comprimento), o francês radicado na Austrália e que já havia vivido no Brasil na infância, Serge Testa não tinha se¬quer um projeto no papel. Só a...

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A plataforma marítima que virou país

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra construiu algumas pequenas bases ao longo da sua costa para se proteger contra eventuais invasões alemãs pelo mar. Quase sempre estas bases não passavam de construções que lembravam plataformas de petróleo e não raro...

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