O navio que decidiu o destino dos seus tripulantes

O navio que decidiu o destino dos seus tripulantes

Na manhã de 21 de julho de 1939, o Windhuk, na época um dos melhores transatlânticos alemães, partiu do porto de Hamburgo com destino à África, com cerca de 400 passageiros e perto de 250 tripulantes a bordo, todos alemães.

A viagem estava prevista para durar 60 dias, mas o navio jamais retornaria. Nenhuma tragédia, no entanto, aconteceu naquela viagem. Ao contrário, ela teve um final feliz para todos os tripulantes do navio, mesmo tendo o Windhuk ido parar do outro lado do Atlântico, no porto brasileiro de Santos, cinco meses depois.

Tudo começou em 1º de setembro de 1939, quando a Alemanha invadiu a Polonia, dando início a Segunda Guerra. Naquela data, o Windhuk estava atracado no porto da Cidade do Cabo, na África do Sul. Lá, ele recebeu a ordem de retorno imediato à Alemanha.

Todos os passageiros desembarcaram e só ficaram a bordo os tripulantes. Mas como o navio estava com pouco combustível, eles não puderam ir longe. Logo, o Windhuk parou em um porto de Angola, em busca de suprimentos. Mas levou dois meses para conseguí-los.

Naquelas alturas, a navegação para um navio com bandeira alemã já estava bem difícil. Navios ingleses patrulhavam a costa africana com intensidade e a única saída foi o Windhuk atravessar o Atlântico, em busca de abrigo em um país neutro no conflito. Foi quando veio a ideia de navegar até o porto de Santos, na costa do Brasil.

O Windhuk chegou ao porto brasileiro em 7 de dezembro de 1939, data que, até hoje, é comemorada pelos descendentes daqueles tripulantes, todos inocentes garçons, camareiros, engenheiros e marinheiros, em nada envolvidos com a guerra.

Como o Brasil ainda nada nutria contra a Alemanha, nada aconteceu com eles. Apenas o navio ficou retido, como era praxe nos tempos de guerra.

Para os 244 tripulantes do Windhuk, a nova e tranquila vida em Santos passou a ser uma espécie de prêmio inesperado. Alguns começaram a namorar garotas da cidade. Outros, até se casaram. Em Santos, eles ficaram mais de dois anos, em total harmonia com os moradores locais.

Até que, com a entrada do Brasil na guerra, todos os tripulantes do Windhuk foram presos e enviados para um “campo de internação”, como foram chamados os campos de concentração em território brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, em Pindamonhangaba, no interior do estado de São Paulo.

Neles, a despeito de ser uma espécie de penitenciária, os tripulantes alemães do navio seguiram gozando quase a mesma liberdade de antes, já que não representavam perigo algum ao país.

Criavam galinhas, ordenhavam vacas, jogavam futebol, cozinhavam e até saiam para fazer compras na cidade. De “presidiários”, aqueles mais de 200 alemães boas-praças não tinham nada.

Quando a guerra terminou, em 1945, o governo brasileiro, sem saber o que fazer com aquele grupo, deu aos marinheiros alemães duas opções: voltar para a Alemanha ou ficar de vez no Brasil, com direito a cidadania. Praticamente todos escolheram a segunda opção.

Eles, então, se espalharam por cidades de São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e foram trabalhar em diversas áreas. Aqui, constituíram famílias e nunca mais quiseram sair. Passaram a ser “os alemães do Windhuk”, que viraram brasileiros por opção e coração.

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

Quando decidiu construir um barquinho (um “barquinho” de fato, de apenas 11 pés e 10 polegadas ou míseros 3,6 metros de comprimento), o francês radicado na Austrália e que já havia vivido no Brasil na infância, Serge Testa não tinha se¬quer um projeto no papel. Só a...

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Eles moram num barco há praticamente 20 anos. E só veem vantagens nisso

Eles moram num barco há praticamente 20 anos. E só veem vantagens nisso

20 anos atrás, o casal Hélio Viana e Mara Blumer decidiu mudar radicalmente de vida. Um se aposentou e o outro pediu demissão do emprego de analista de sistemas, alugaram o apartamento onde viviam no Rio de Janeiro, se desfizeram de praticamente tudo o que tinham e foram morar no pequeno veleiro que eles mesmo haviam acabado de construir. Coisa de rico? Nada disso. Até porque, dinheiro é algo que eles nunca tiveram sobrando. Mas, desde então, garantem que vivem bem melhor do que antes, e com muito menos dinheiro.

A decisão de trocar o apartamento por um barco e a vida na cidade por uma vaga numa marina foi acalentada durante os muitos meses que os dois levaram construindo o pequeno barco, de pouco mais de oito metros de comprimento, com a ajuda de amigos. Até que o casal se encheu de coragem e resolveu experimentar viver nele, 20 anos atrás. “Nós teríamos que esperar até quando para mudar de vida?”, recorda Hélio. “Quando não pudéssemos mais aproveitá-la direito?”.

Até hoje, Mara e Hélio não se arrependem da escolha – embora, atualmente, dividam o tempo entre o barco e um minúsculo apartamento bem em frente a ele, na Marina Bracuhy, em Angra dos Reis, onde o casal vive desde que resolveu virar a própria mesa. “Diminuímos o padrão de vida, mas aumentamos infinitamente a qualidade da vida que passamos a ter”, recorda o casal sobre a decisão tomada duas décadas atrás, embora ela não tenha sido motivada pela vontade de ganhar o mundo viajando com um barco, como acontece na maioria desses casos.

“Gostamos de navegar, mas sempre passamos mais de 90% do tempo com o barco parado na marina, porque nossa proposta nunca foi sair velejando pelo mundo, já que isso exigiria um veleiro maior e mais recursos”, explica Hélio, hoje com 61 anos. “Para nós, o barco sempre foi, acima de tudo, a nossa casa, o lugar onde morávamos – e bem”, completa Mara, atualmente com 63 anos.

“E não foi só o tamanho da ´casa` que diminui”, ela prossegue. “Num barco, você muda as necessidades e logo aprende a viver com muito menos do que qualquer casal de classe média numa grande cidade, porque se você não tem grandes contas para pagar, não precisa de muito dinheiro para viver, além de se divertir muito mais”, completa Mara.

Mara e Hélio são casados há 37 anos e, embora tenham passado praticamente os últimos 20 vivendo sem terra firme debaixo dos pés, não se arrependem nem um pouco disso. O barco deles, de 29 pés, tem apenas pouco mais de 25 m2 de área, dividido entre a cabine, com um quarto com cama (triangular) de casal, uma saleta conjugada com a cozinha e um micro-banheiro, e o convés, do lado de fora – “o nosso quintal” eles brincam.

Mas Mara e Hélio se habituaram a viver com pouco espaço, tanto que o apartamento onde hoje passam parte do tempo, na própria marina, bem em frente ao barco, não é tão maior assim do que ele. “A gente, hoje, fica alternando entre o barco e o apartamento. Mas não passamos um dia sem ficar um bom tempo no veleiro, porque a sensação de estar sobre a água, mesmo parado na marina, é bem relaxante”, diz o casal, que, de vez em quando, também sai para passear com o seu barco-casa, pelas ilhas de Angra. “Às vezes, até passamos alguns dias fora, para visitar os amigos que também moram em barcos”, acrescenta Hélio. “O bom de morar num barco é que, quando você sai, leva a casa inteira junto”, brinca. “Todo mundo acha que viver num barco custa caro, mas é justamente o contrário”, ele garante.

Apesar do orçamento modesto e do barco acanhado, Mara e Hélio, há 20 anos, personificam o sonho de muita gente: o de viver no mar. Os dois também foram quase precursores no Brasil desta forma de vida e têm inspirado muitos outros casais a fazerem o mesmo. “Nós somos uma boa prova de que isso é perfeitamente possível”, diz Mara.

Foto: Douglas Roquete

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

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A lagosta que quase levou o Brasil à guerra contra a França

A lagosta que quase levou o Brasil à guerra contra a França

Na década de 1960, a pesca da lagosta no litoral do Nordeste brasileiro gerou uma séria crise diplomática entre Brasil e França e quase culminou em ações bélicas entre os dois países, no que ficou conhecido como a Guerra da Lagosta – que, de guerra mesmo, felizmente, não teve nada.

Tudo começou quando barcos lagosteiros franceses passaram a frequentar o litoral de Pernambuco em busca do cobiçado crustáceo, amparados por autorizações concedidas pelo governo brasileiro para realizar “pesquisas pesqueiras” no nosso litoral. Mas, ao constatar que os barcos estavam apenas capturando lagostas com fins comerciais, a licença foi cancelada.

Os barcos franceses, no entanto, não desistiram da empreitada e um deles foi apreendido pela corveta brasileira Ipiranga, deflagrando o conflito.

No auge da crise, a França chegou a enviar um navio de guerra para as proximidades da costa do Nordeste, com a tarefa de proteger os pesqueiros franceses. Já o Brasil respondeu mandando vários barcos e aviões para a região.

As discussões diplomáticas duraram meses, até que, em 10 de março de 1963, a França concordou em retirar o seu navio das águas brasileiras, bem como os pesqueiros que vinham sendo protegidos por ele. E o Brasil pode, finalmente, dizer que vencera a “Guerra da Lagosta”.

Como consequência deste episódio, um ano depois, o Brasil estendeu os limites do seu mar territorial de 12 para 200 milhas da costa, acabando assim com eventuais pendengas futuras sobre a fatia do mar que lhe pertencia.

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

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O casal que trocou a casa por um barco e foi viver no mar

O casal que trocou a casa por um barco e foi viver no mar

Quatro anos atrás, o gaúcho Adriano Plotzki, de 38 anos, foi passar um fim de semana com a mulher, a paulista Aline Sena, na Ilha Grande, no litoral do Rio de Janeiro, quando viu uma cena que mudaria sua vida para sempre.

Ao nadar entre os barcos ancorados numa das praias, ele viu uma família fazendo churrasco a bordo de um veleiro, algo que nunca havia passado pela cabeça daquele gaúcho de Bagé, até então um pacato dono de uma produtora de vídeos em São Paulo e com uma vida estável e confortável.

“Fazer churrasco num barco e numa paisagem daquelas. Era isso que eu queria para a minha vida!”, concluiu Adriano, que, na mesma semana, tratou de se matricular em uma escola de vela. “Eu nem sabia velejar, mas, desde então, viver a bordo de um veleiro passou a ser o meu objetivo de vida. E também da Aline, que aprendeu junto”, recorda.

Hoje, depois de passarem dois anos se adaptando gradualmente a vida no mar, alternando períodos entre São Paulo e Paraty, os dois já moram exclusivamente num barco, o veleiro Balanço, de 36 pés, que compraram, usado, por cerca de 120 mil reais, depois de venderem os dois carros e todos os móveis que possuíam na casa alugada onde viviam.

“Nossa maior surpresa foi descobrir que ter um pequeno veleiro e viver dentro dele custa bem menos do que as pessoas imaginam”, conta Adriano, que agora, junto com a mulher, se prepara para o início, de fato, de uma nova vida: o casal vai navegar por toda a costa brasileira, “o mais lentamente possível e parando onde der vontade, pelo tempo que a gente quiser”, numa viagem que não tem roteiro nem data para terminar.

“Não é bem uma viagem” corrige Adriano. “É o início de um novo tipo de vida, onde o que realmente importa é viver a vida, ainda que com simplicidade e pouquíssimas despesas”, diz Adriano, que desde que decidiu trocar a confortável casa de 400 metros quadrados onde o casal morava, num condomínio em São Paulo, por um barquinho de quarto, sala, cozinha, banheiro e mais nada, trocou, também, de trabalho.

Ele fechou a produtora de vídeos que tinha e, junto com a mulher, que também largou o trabalho de produção numa emissora de televisão, criou um canal no Youtube, chamado Hashtag Sal (#Sal), dedicado exclusivamente às pessoas que, assim como eles, renunciaram à agitação da vida urbana para ir viver num barco. “Hoje, nossa casa é pequena, mas quando enjoamos da paisagem ou dos vizinhos é só levá-la para outro lugar”, diz, feliz da vida com a nova vida que o casal escolheu para viver. “Nosso endereço não tem mais CEP”, brinca.

Para se manter, o casal vive com o dinheiro que recebe através de um site de vaquinha virtual na internet, sistema conhecido como crowdfunding. “Temos mais de 450 colaboradores, que fazem contribuições para que a nossa websérie sobre a vida a bordo de um barco não pare”, explica Adriano, que, por conta disso, junto com Aline, nunca para de trabalhar – mas de dentro do próprio barco.

“Estamos sempre gravando ou editando os vídeos que fazemos, o que consome um bom tempo”, diz ele. “Mas preferimos fazer isso quando o tempo está feio ou chovendo, porque, se o dia estiver bonito, vale mais a pena aproveitar a vida do que ganhar dinheiro”, raciocina. “Hoje, nosso maior valor não é possuir bens, mas ter tempo para viver a vida”, completa o casal, que, para isso, teve que desapegar de tudo o que tinham. “Mas a gente logo percebeu que tinha muito mais do que precisava para viver e é justamente isso o que estamos praticando agora”.

E conclui o casal: “Não estamos preocupados sobre quanto tempo nossa experiência de morar num barco irá durar, mas sim em viver bem até lá”.

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

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Despencar dentro de um barril. A suicida tradição das Cataratas do Niágara

Despencar dentro de um barril. A suicida tradição das Cataratas do Niágara

Em outubro de 1901, a professora aposentada americana Annie Edson Taylor, então com 63 anos, teve uma ideia insana para ficar rica e famosa: entrar num barril de madeira e se deixar levar pela correnteza até a maior e mais famosa cachoeira dos Estados Unidos, as Cataratas do Niágara, de 50 metros de altura, na fronteira com o Canadá. E foi o que ela fez, depois de fazer um teste, enviando, primeiro, o seu gato. E ambos sobreviveram.

Famosa, aquela aloprada professora, que passou a ser chamada de a “Heroína das Cataratas do Niágara”, realmente ficou – rica, nem um pouco. Mesmo assim, sua estripulia quase suicida deu início a uma verdadeira mania: a de se atirar cachoeira abaixo na quarta maior queda d´água do mundo em volume de água, mais até do que as Cataratas do Iguaçu, só para ver o que acontece.

Até hoje, intencionalmente, 17 malucos já fizeram isso – outros tantos também despencaram de propósito, mas como puro suicídio. Nem todos, porém, tiveram o mesmo sucesso daquela professora pioneira.

O segundo a experimentar a doida sensação de despencar de uma altura de 20 andares sob um turbilhão de toneladas de águas furiosas, o também americano Bobby Leach, até que teve sorte: foi resgatado “apenas” com o maxilar e os dois joelhos quebrados e passou seis meses hospitalizado.

Já, do terceiro, tudo o que se conseguiu recuperar foi seu braço direito, ainda preso às tiras que ele havia instalado dentro do barril para (tentar) se segurar durante a queda. E o seguinte foi ainda pior: o barril de George Stathakis ficou preso atrás da cortina d’água da cascata, girando alucinadamente durante 18 horas, até que seu corpo pode ser recuperado – totalmente triturado.

Desde então, saltar nas Cataratas do Niágara passou a ser crime sujeito a pesada multa, tanto no lado americano quanto no canadense, este o favorito dos candidatos a defuntos, já que tem menos pedras no fundo. Mesmo assim, elas continuaram acontecendo.

Quinze anos atrás, o americano Kirk Jones se atirou na água sem proteção alguma – sequer dentro do icônico barril. E, contrariando todas as probabilidades, também sobreviveu, com apenas algumas costelas quebradas.

Mas a mesma sorte não teve o remador Jesse Sharp, que, depois de ter sido impedido pela família, que chamou a polícia e impediu a tentativa, voltou dez anos depois às Cataratas de Niagara e, desta vez, conseguiu o seu intento: despencou da cachoeira a bordo de um insólito caiaque. Seu corpo jamais foi encontrado.

Foto: Reprodução

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

Quando decidiu construir um barquinho (um “barquinho” de fato, de apenas 11 pés e 10 polegadas ou míseros 3,6 metros de comprimento), o francês radicado na Austrália e que já havia vivido no Brasil na infância, Serge Testa não tinha se¬quer um projeto no papel. Só a...

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A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

Quando decidiu construir um barquinho (um “barquinho” de fato, de apenas 11 pés e 10 polegadas ou míseros 3,6 metros de comprimento), o francês radicado na Austrália e que já havia vivido no Brasil na infância, Serge Testa não tinha se¬quer um projeto no papel. Só a vontade de dar a volta ao mundo com ele e, com isso, também bater o recorde da circum-navegação do planeta com o menor barco da História – que, até então, pertencia a um barco de 18 pés e 4 polegadas.

Para bater aquela marca, bastaria construir um barco uma polegada menor, mas Serge foi bem além (ou melhor, bem abaixo) disso: seu barquinho teria quase seis pés a menos, o que, no caso, representava uma brutal diferença.

O objetivo era torná-lo o mais leve possível, para ganhar velocidade, e com capacidade para abrigar apenas o que ele, de fato, precisaria naquela longa jornada. Ou seja, um lugar para dormir, ainda que sem poder me mexer muito, um espaço para estocar água e comida, um rádio, um fogareiro, um sextante, um kit de primeiros socorros e um aparelho sinalizador de emergência, para o caso de algo dar errado na viagem, embora ele confiasse bastante na resistência do seu barquinho. Nem banheiro teria – só um balde para atender as suas necessidades, quando não fosse possível recorrer diretamente ao mar, sem intermediários.

Antes disso, Serge havia começado a construir outro barco, bem maior, de 33 pés de comprimento. Mas logo percebeu que não só não teria dinheiro para equipá-lo, como não precisava daquele espaço todo a bordo. Um dia, olhando para um pequeno bote numa marina, Serge concluiu que um veleiro daquele tamanho bastaria. Nele, caberia tudo o que ele precisaria. Menos, é claro, conforto.
Me¬ses de¬pois, seguindo apenas a sua intuição, brotou da garagem de sua casa uma micro em¬bar¬ca¬ção de alumínio com uma apa¬rên¬cia tão incomum que foi batizada de Acrohc (al¬go co¬mo “Coi¬sa”) Aus-tra¬lis – um nome esquisito para um barco ainda mais estranho no seu minúsculo tamanho.

O veleirinho de Serge era tão acanhado que só o peso do seu corpo já fazia o casco adernar até o convés quase tocar a água. E ele só podia navegar sentado, com as pernas dentro da cabine e o restante para fora, ou deitado dentro dela, já que todos os comandos eram internos, para permitir comandar o barco de dentro da cabine – uma maneira de aumentar a segurança, já que, em caso de mau tempo, bastava fechar a cabine e transformar o barco numa espécie de rolha.

A viagem começou em 9 de junho de 1984, em Brisbane, na Austrália, para onde Serge havia se mudado com a família. E logo no primeiro trecho, com um ciclone pela frente. No 44º dia da travessia até a Ilha Cocos, no meio do oceano Índico, os ventos mudaram de direção, o mar engrossou, as ondulações se transformaram em um festival de muralhas d´água desencontradas e o Acroch passou a ser sacudido como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupas. E com Serge trancado dentro dele.

Para se proteger dos solavancos, que vinham de todos os lados, Serge escorava o corpo com o travesseiro e rezava para que ambos (ele o barco) aguentassem. Algumas ondas vinham com uma rapidez alucinante e cuspiam os dois de uma crista para outra, enquanto Serge se perguntava quanto tempo suportaria aquele inferno.

Ambos, porém, não só sobreviveram aquele acidental teste inicial, como, a partir de então, Serge passou a ter certeza de que ele e seu barquinho estavam realmente preparados para a longa e imprevisível jornada.

Rapidamente ele se acostumou a ter a companhia apenas de si próprio, dia após dia, e sabia que nem teria escolha, porque mesmo que conhecesse alguém interessante em alguma escala da viagem, não haveria espaço para outra pessoa a bordo. Nem bote salva-vidas o Acrohc Australis tinha, porque o tamanho do barco não permitia.

Serge também aproveitou o trecho inicial da viagem para testar a capacidade do seu organismo de absorver pequenas doses diárias de água salgada, para o caso do seu estoque de água acabar durante as travessias..

O Acrohc Australis possuía um tanque de 100 litros de água e Serge levava outros 100 litros em galões. Isso dava ao velejador uma autonomia de cerca de 100 dias no mar, desde que ele consumisse, no máximo, dois litros de água por dia. Para cozinhar e tomar banho, só água do mar e quando ele permitisse isso, porque o veleirinho sacudia tanto que tudo a bordo tinha que ser feito com apenas uma das mãos – porque a outra era usada para se segurar, o tempo todo.

Além disso, ao chegar à Ilha Cocos, após oito semanas no mar, Serge teve quase que reaprender a caminhar e reativar os músculos das pernas, porque o tamanho do seu barco não permitia que ele desse mais do que um passo.

Mesmo assim, ele chegou sentindo falta apenas de um cigarro e uma cerveja gelada, luxos que o Acroch Australis não permitia. Até porque sua cabine era úmida feito uma caverna, por conta da condensação da própria respiração do navegador, que, por causa do tamanho reduzido do barco, passava 90% do tempo dentro dela. Era um desconforto só.

Mas o pior ainda estava por vir. Na travessia seguinte, entre a Ilha Cocos e Madagascar, uma explosão no fogareiro gerou um princípio de incêndio na apertada cabine do barco. Na ânsia de apagá-lo, Serge viu as chamas tomarem conta do seu cabelo e da longa barba que tantos dias de mar cultivara, obri¬gan¬do-o a se atirar na água para apagar o fogo no próprio corpo.

Em seguida, ainda mais apavorado, ele tratou de alcançar o barco, que seguiu avançando, empurrado pelos ventos. O fogo só foi dominado quando Serge, esbaforido, assustado e queimado, conseguiu voltar a bordo e passou a jogar baldes e mais baldes de água dentro da cabine – que, com isso, ficou completamente inundada. Foram preciso vários dias de sol para tudo voltar ao normal, sem falar nas queimaduras de velejador, que só foram tratadas quando ele chegou a Madagascar.

O trecho seguinte da travessia, entre a África e o Brasil, também começou da pior maneira possível. Para vencer com seu pequeno barco o cabo da Boa Esperança, onde o Índico encontra o Atlântico e gera ondas do tamanho de pequenos edifícios, Serge viveu dias de extremo desconforto, acentuado pelo frio congelante das correntes marítimas que vêm da Antártica e ali desembocam.

Açoitado dia e noite por monstruosos vagalhões de água muito fria, o casco de alumínio do Acrohc Australis se transformou numa espécie de caixa frigorífica, enquanto sacudia não apenas para frente, para trás e para os lados, mas também para cima e para baixo. Diversas vezes, o veleirinho de Serge inclinou tanto que encostou o mastro no mar, ao mesmo tempo em que era martelado por montanhas de água gelada, gerando um barulho ensurdecedor dentro da cabine-sarcófago, onde ele passou dias trancado.

Serge sofreu tanto para dobrar o histórico cabo africano, sobretudo com o frio, que decidiu mudar de rota: não mais avançaria para o Sul, na direção do Cabo Horn, onde as águas do Atlântico se misturam às do Pacífico, nas cercanias da península Antártica (portanto, águas ainda mais geladas), mas subiria para o Norte, rumo ao Canal do Panamá, onde a travessia para o maior dos oceanos é bem mais tranquila e segura – embora igualmente tensa para um barquinho tão pequeno.

No caminho, ele fez escalas nas ilhas de Santa Helena e Ascenção, antes chegar a Natal, na costa brasileira, 52 dias depois de começar a cruzar o Atlântico. Desta vez, a travessia foi tranquila, salvo a intensa movimentação de navios em certos trechos. Mas Serge jamais abriu mão de dormir as noites inteiras, para descansar, a despeito de não haver ninguém lá fora para vigiar o mar e de sequer usar luzes de navegação, porque, segundo ele, elas de nada adiantariam frente aos gigantescos navios – e ainda consumiriam toda a energia da única bateria que o Acrohc Australis tinha.

Mesmo sabendo dos riscos de ser atropelado no mar, Serge tinha confiança na resistência do seu barco e na capacidade dele de continuar flutuando mesmo após ser atingido, graças a meia dúzia de compartimentos estanques espalhados pelo pequeno casco. Além disso, considerava que seu barco, por ser muito leve, não ofereceria nenhuma resistência a um eventual impacto, sendo apenas afastado, em vez de esmagado. Pelo menos era nisso que ele acreditava.

No Canal de Panamá, Serge esteve literalmente muito perto de comprovar isso, quando se viu lado a lado com gigantescos navios dentro das eclusas. Perto deles, o Acrohc Australis parecia uma canoa. Tão acanhado que não havia como seguir o protocolo de levar um prático a bordo. A solução foi prendê-lo a um veleiro maior e usar o mesmo prático do outro barco.

Foi, talvez, a primeira vez que um barquinho tão pequeno cruzou o mais famoso canal do mundo. Tanto que, ao chegar à entrada do canal e comunicar, pelo rádio, os dados do seu barco, Serge teve que frisar que se tratava de uma embarcação de 12 pés e não 12 metros, como habitualmente era interpretado por quem estava do outro lado.

Da mesma forma, quando ele dizia de onde estava vindo e para onde estava indo com aquele barquinho, sempre havia uma constrangedora pausa na conversa, porque era difícil acreditar naquilo. Desde o início, responder aos incrédulos interrogatórios das pessoas durante a viagem tornou-se uma gostosa rotina para Serge, que, com isso, foi colecionando amigos e admiradores a cada escala.
Quando, porém, estava sozinho no mar, Serge passava o tempo conversando mentalmente consigo mesmo, admirando uma paisagem que raramente mudava e, eventualmente, pescando, para aumentar a quantidade de comida a bordo. Fisgava atuns e dourados com frequência, embora, muitas vezes, tivesse que disputá-los com tubarões maiores do que o seu barco, na hora de recolhê-los. Às vezes, vinha só a cabeça dos peixes.

Mas jamais passou fome. Chegou a ter comida estocada para ficar um ano inteiro no mar, apesar do trecho mais longo da viagem ter sido os dois meses que gastou para vencer a distância entre Galápagos e as Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, já no Pacífico, no caminho de volta para casa.

Aquela foi também a primeira vez que Serge usou um equipamento de navegação de verdade, um Satnav, que permitia navegar com a ajuda de satélites, comprado no Panamá, porque, até então, ele usava apenas um pré-histórico sextante para determinar sua posição no mar – e raramente errava, apesar da dificuldade em mirar o horizonte a bordo de um barco bem menor do que as ondas.

Na Polinésia Francesa, Serge recebeu a visita de um de seus irmãos, mas como era impossível dormirem os dois no barco (e os parcos recursos da viagem não permitiam excessos, como quartos de hotéis), a solução foi alugar um carro e transformá-lo, também, em dormitório. Nenhum problema para quem se habituara a viver em espaços bem menores.

Já, na escala seguinte, nas Ilhas Cook, Serge foi recebido com certa preocupação. Dois anos antes, passara por ali o americano Bill Dunlop a bordo de um barco ainda menor que o seu, o Winds Will, de apenas 2,7 metros de comprimento. Com ele, Dunlop pretendia bater o recorde da travessia do Pacífico com o menor dos barcos, depois de já ter feito o mesmo no Atlântico. Mas não conseguiu. Partiu de lá e nunca mais foi visto.

Já Serge seguiu em frente, sem maiores problemas. Até que, três anos depois de ter partido de Brisbane com o firme objetivo de rodear o mundo com um barco menor que um automóvel, retornou à mesma cidade com o globo inteiro no currículo e o recorde da circum-navegação do planeta com o menor barco de todos os tempos garantido, o que perdura até hoje.

Na Austrália, Serge foi recebido como uma espécie de herói e o seu minúsculo barco levado para o museu de Queensland, bem perto de onde ele havia partido para a histórica travessia, e não muito distante onde ele vive até hoje. E ainda navegando. Mas, agora, só com barcos de tamanho convencional. Seu incrível recorde, no entanto, permanece.

Foto Reprodução/Serge Testa