Os náufragos que viraram comida

Os náufragos que viraram comida

Um dos mais dramáticos episódios envolvendo naufrágios no Estreito de Torres, onde o oceano Índico encontra o Pacífico, aconteceu em 1858 e envolveu um grupo de 327 chineses que estava sendo levado pelo veleiro francês St. Paul, comandado por Emmanuel Pinard, para trabalhar nas minas de ouro da Austrália.

O St.Paul havia partido de Hong Kong com destino a Sydney, mas as calmarias tornaram a travessia extremamente lenta, o que comprometeu o seu estoque de comida.

O capitão Pinard decidiu, então, pegar um “atalho” na rota, entre as Ilhas Salomon e o arquipélago Louisiade, a fim de encurtar o tempo de viagem.

E enveredou por uma região sabidamente perigosa e mal mapeada.

O resultado foi o naufrágio do St.Paul, depois de bater em um banco de coral, a pouca distância de um grupo de ilhotas, que, por sua vez, ficavam próximas a uma grande ilha chamada Rossel, habitada por selvagens canibais.

O St. Paul tinha apenas três pequenos barcos de apoio e um deles foi destruído no naufrágio.

Restaram só dois, que logo foram ocupados pelo comandante e seus tripulantes.

Aos chineses, só restou pular no mar e nadar até uma ilhota, que, felizmente, ficava próxima.

Felizmente, ninguém morreu no naufrágio.

Mas o que aconteceria depois seria bem pior que isso.

No dia seguinte, Pinard enviou alguns homens à ilha principal, em busca de água doce.

Junto com o precioso líquido, eles encontraram um grupo de nativos selvagens, que os atacaram.

No desespero da fuga, três homens foram deixados para trás na ilha. E nunca mais foram vistos.

Ao saber do ocorrido, Pinard tomou uma decisão: partir em busca de ajuda, em terras mais civilizadas.

A Austrália, distante algumas centenas de milhas, era a localidade mais próxima.

E era para lá que ele seguiria, com um dos barcos, levando consigo a tripulação do St. Paul, a fim de ajudar na longa travessia a remo.

Mais uma vez, aos chineses, só restou o abandono, embora Pinard tivesse dito que voltaria para buscá-los.

Para evitar surpresas de última hora, a partida do grupo foi quase sigilosa.

Na madrugada seguinte, Pinard e seus homens aproveitaram que os chineses dormiam e se lançaram ao mar, com parte dos suprimentos que haviam conseguido resgatar do naufrágio do St. Paul – que, mesmo assim, durou pouco.

A travessia foi longa, sofrida e os obrigou a beber até a própria urina, para tentar aliviar a sede no mar.

Mesmo assim, Pinard mostrou-se severo e implacável com seus homens.

Doze dias depois, o grupo finalmente atingiu a então deserta costa da Austrália, onde parou em busca de água e comida.

Após encontrar o que buscava, Pinard voltou para o mar.

Mas, no caminho, o grupo foi recolhido por um barco que passava, e levado para Sydney.

Lá, após um bom tempo descansando, Pinard convenceu o capitão da fragata inglesa Styx a navegar até o local do naufrágio do St. Paul, a fim de resgatar os chineses.

Em 5 janeiro do ano seguinte, 77 dias após ter partido, Pinard retornou ao local onde havia deixado os chineses, mas só para constatar que um massacre havia sido perpetuado.

Dos 327 chineses que haviam sido deixados na ilha, restavam apenas cinco – e todos já em poder dos canibais da ilha principal, que, ao verem a chegada da fragata, fugiram para as montanhas, levando junto quatro deles.

Apenas um chinês sobreviveu e coube a ele contar o que havia acontecido.

Após a partida de Pinard, os selvagens atacaram a ilha onde eles estavam, mas, ao contrário do esperado, não mataram ninguém.

Ao contrário, levaram água e comida para os chineses, e assim continuaram fazendo, por dias a fio.

Até que, ao ver que os chineses já haviam recuperado a saúde e o peso, passaram a transportá-los para a ilha principal, em pequenos grupos.

Mas com um único objetivo: devorá-los.

Tal qual gado em processo de engorda, os chineses foram sendo paulatinamente transformados em comida, pelos nativos canibais.

A notícia chocou a Austrália e a Europa, mas não causou grande comoção no capitão Pinard, cujo histórico incluiu outro caso de abandono de subordinados, naquele mesmo episódio.

Após deixar os chineses entregues à própria sorte numa região repleta de seres primitivos e cruzar para a Austrália, Pinard também abandonou, numa parte erma da costa australiana, o seu jovem camareiro, um francês chamado Narcisse Pelletier, de apenas 14 anos de idade, que acabou sendo adotado por uma família de aborígenes e ali viveu por 17 anos, até ser resgatado por outro barco.

Mas essa já é outra história…

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André Cavallari, leitor

“Livro fantástico, mais que recomendado”
Márcio Bortolusso, documentarista e explorador

Caiu do navio e ninguém viu. Mas o azarado virou sortudo

Caiu do navio e ninguém viu. Mas o azarado virou sortudo

Aconteceu em abril de 2003, durante um desses alegres cruzeiros pelo Caribe, repletos de bebidas e folias.

Tim Sears, um americano de 31 anos, embarcou com um amigo para uma semana de diversões a bordo do transatlântico Carnival Celebration, que seguia para a Ilha de Cozumel, no México, quando, na noite do quinto dia de viagem, caiu no mar de uma maneira que, até hoje, nem ele sabe explicar.

Inexplicável também foi a sorte que ele teve de sobreviver a um tipo de acidente que costuma ser fatal em praticamente 100% dos casos – especialmente quando ninguém a bordo percebe a queda, como foi o caso.

Tudo o que Sears recordou, depois, é que ele havia passado o dia inteiro bebendo muito, e que, à noite, depois de dançar um pouco (e beber ainda mais), resolveu sair para procurar o amigo, no cassino.

Daí para a frente, mais nada.

Quando ele deu por si, estava no meio do mar, só de cueca e camiseta, e sem o navio por perto.

O mais provável é que Sears tenha sido vítima de um apagão, causado pelo excesso de álcool, e caído da varanda de sua cabine, o que por si só representava um quase milagre de sobrevivência, porque o Celebration tinha a altura equivalente a um prédio de dez andares.

Porém, mais incrível do que a queda sem sequelas foi Sears escapar com vida do infortúnio de ficar boiando no mar por horas a fio, já que ninguém no navio percebeu sua ausência até o dia seguinte, quando o navio ancorou na ilha mexicana e o amigo, finalmente, deu por falta dele.

Quando recobrou os sentidos, após a queda do navio, Sears saiu nadando sem rumo, o que fez praticamente a noite inteira.

Quando o dia amanheceu, ele continuou nadando, embora não avistasse terra firme alguma por perto.

Até que, por volta do meio-dia, Sears viu um navio vindo, mais ou menos, na sua direção e juntou forças para nadar ainda mais rápido.

Minutos depois, ao se aproximar do navio em movimento, tentou o impossível: gritar para que alguém o ouvisse.

E não é que isso aconteceu?

Um dos tripulantes do cargueiro Eny estava passando pelo convés justamente naquele instante, quando ouviu os berros e localizou o americano na água.

Sears foi resgatado, após passar 14 horas no mar.

Praticamente no mesmo instante em que sua ausência foi, finalmente, percebida no navio do qual despencara.

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O tentador naufrágio dos 5 000 carros

O tentador naufrágio dos 5 000 carros

Durante um bom tempo, ao longo da primavera de 1988, a principal distração dos frequentadores da Praia da Madalena, no litoral norte de Portugal, foi sentar-se na areia e ficar admirando o enorme casco do cargueiro japonês (mas com bandeira panamenha e tripulação sul-coreana) Reijin, tombado bem diante da praia.

O navio era tão grande que praticamente impedia a visão da linha horizonte. Não havia como ignorar aquele gigante de aço deitado a míseros metros da areia, e pequenas multidões passavam o dia apreciando aquela insólita paisagem.

Mas, bem mais interessante do que o encalhe em si, era o que havia à mostra no convés do navio semiafundado: automóveis. Centenas de automóveis zero quilômetro.

Cerca de 5 000 novíssimos carros da marca Toyota jaziam à mostra, sendo borrifados, dia e noite, pela água salgada. Uma desejada e valiosa carga, sendo paulatinamente deteriorada pelas ondas da praia.

Alguns banhistas mais ousados chegavam a nadar até o monstruoso casco adernado, em busca de algum suvenir ou – quem sabe? – um acessório possível de retirar dos automóveis prestes a serem engolidos pelo mar.

Durante meses, a Praia da Margarida, que nunca fora muito popular entre os moradores da vizinha cidade do Porto, tornou-se atração turística de primeira grandeza na região. E tudo por conta da pitoresca carga daquele navio, logo apelidado de “Titanic dos Carros”.

O que causou tudo aquilo foi a incompetência da tripulação sul-coreana, que, após desembarcar cerca de 200 automóveis no porto de Leixões, vizinho à praia, não tomou o devido cuidado de compensar o peso extraído do navio completando os seus tanques de lastro.

A consequente má distribuição do peso a bordo desestabilizou o Reijin, que acabou tombando nas ondulações do rumo (também equivocado) que tomou ao sair do porto: em vez de rumar para o mar aberto, o navio avançou paralelo à costa, onde as ondas são sempre mais vigorosas.

Era madrugada do dia 26 de abril quando o costado de bombordo do Reijin inclinou e encostou no mar, incapaz de retornar à posição original.

Em seguida, o navio foi arrastado pela ondulações até a orla, onde as pedras da Praia da Margarida celaram de vez o seu destino,.

Dos 22 tripulantes que havia a bordo, um morreu e outro desapareceu no episódio.

E, embora ainda novo (fora lançado apenas um ano antes e aquela travessia, do Japão até a Europa, era a sua primeira grande viagem), o Reijin foi dado como perdido.

Bem como sua cobiçada carga de automóveis, que virou pura tentação para a vizinhança da praia.

Nos meses subsequentes, para frustração geral da plateia, milhares de carcaças de carros jamais utilizados foram retiradas do navio encalhado e, mais tarde junto com ele próprio, afundadas num ponto a 40 milhas da costa, o que transformou o local em um dos maiores ferros-velhos submersos do planeta.

Nenhum automóvel foi salvo, muito menos resgatado pelos ambiciosos moradores da região.

Aos esperançosos banhistas da Praia da Margarida só restaram pedaços de ferro carcomido do navio e um ou outro acessório encharcado daqueles 5 000 automóveis trazido pelo mar.

Para eles, o sonho de ter um carro zero quilômetros de graça também morreu na praia.

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O ermitão que passou 15 anos sozinho numa ilha deserta e fez história

O ermitão que passou 15 anos sozinho numa ilha deserta e fez história

Exatos 50 anos atrás, a vontade de viver uma vida simples e em paz com natureza numa ilha deserta, levou o neozelandês Thomas Neale a se transformar, por livre e espontânea vontade, em uma espécie de Robinson Crusoé de carne e osso – um tipo de “náufrago voluntário”, que acabaria se tornando bastante famoso na região do Pacífico Sul, nos anos de 1970.

Tudo começou 30 anos antes, quando Tom Neale conheceu o escritor e aventureiro americano Robert Frisbie, que lhe contou sobre um paraíso que conhecera tempos antes: o deserto atol Suvarov, a noroeste das Ilhas Cook, no sul do Pacífico.

Neale jamais havia ouvido falar daquele lugar, mas ficou fascinado com a descrição minuciosa que o amigo lhe fez do local: “18 ilhotas  com vegetação cor de esmeralda, em torno de uma lagoa incrivelmente azul”, resumiu o escritor, que finalizou com uma frase que soou como música nos ouvidos do neozelandês, já farto da vida sem graça que levava: “É o lugar mais lindo da Terra”.

A partir daquele dia, ir para Suvarov e viver da maneira mais natural possível passou a ser único objetivo na vida de Neale, já então com mais de 40 anos de idade.

Mas foi só em junho de 1945, quando Neale trabalhava em um barco de carga, que ele, finalmente, conheceu Suvarov, depois de convencer o comandante do barco a desviar a rota até lá.

E o que ele viu o convenceu de vez: aquele era o lugar onde queria viver. E sozinho, já que o atol, além de isolado, era desabitado.

A ilha principal tinha apenas um casebre abandonado, onde, no passado, haviam vivido alguns guardas que cuidavam do atol.

Mas ele conclui que aquilo era tudo o que precisava.

Ao retornar, Neale pediu autorização ao governo das Ilhas Cook, a quem o atol pertencia, para viver lá.

Mas teve que esperar sete anos para ter seu pedido aceito.

Quando isso aconteceu, ele convenceu o dono de um barco a levá-lo até Suvarov e por lá ficou – sozinho, como queria, e com o mínimo de recursos, porque o objetivo era viver apenas com o que a ilha oferecia.

Tom Neale chegou a recusar a companhia de uma mulher, que se ofereceu para viver com ele na ilha, porque tudo o que queria era o completo isolamento.

Além de realizar o sonho de ter sua própria ilha.
Quando Neale chegou à Suvarov, sua primeira providência foi tirar toda a roupa e passar a viver nu.

Em seguida, saiu para capturar o almoço, o que ali era fácil.

As águas azuis da lagoa de Suvarov eram um autêntico aquário, repletas de peixes, caranguejos e lagostas – que ele capturava facilmente, com as próprias mãos.

Como não tinha como estocar comida, capturava apenas o que iria comer, com a certeza de que peixes e frutos do mar jamais lhe faltariam.

Em terra-firme, Neale criou uma horta, com algumas sementes que havia trazido, e passou também a se alimentar com ovos de aves marinhas e de algumas galinhas que os antigos guardas haviam deixado na ilha.

Em questão de meses, já estava totalmente adaptado à vida solitária no seu paraíso particular.

Os primeiros visitantes só apareceram dez meses depois.

Era um casal de velejadores americanos, que ficaram surpresos em encontrar aquele ser civilizado em solitário naquela ilha deserta.

Preocupados, tentaram persuadir Neale a voltar à civilização.

Mas ele disse “não!” – aquela ilha era tudo o que ele queria ter na vida, e, agora, ele tinha.

Dias depois, o casal partiu, mas passou a propagar para o resto do mundo a existência do “Eremita de Suvarov”, como Neale passou a ser conhecido.

Logo, outras pessoas queriam conhecê-lo.

Mas só meses depois, outro barco, com dois jovens velejadores, parou na ilha. E eles foram a salvação de Neale.

Diz antes, o neozelandês havia trincado uma das vértebras da coluna e estava imobilizado no casebre, sem conseguir sequer sair para buscar comida.

Os velejadores comunicaram o fato às autoridades das Ilhas Cook, que enviou um barco para buscar Neale.

Mas, irritados, cassaram a sua licença de permanência na ilha.

Neale levou mais seis anos para conseguir uma nova autorização.

Nesse intervalo, conheceu uma mulher, se apaixonou, casou e teve dois filhos.

Mas não era isso o que Neale queria para sua vida – e sim voltar para a ilha.

Em março de 1960, ele conseguiu nova autorização para viver em Suvarov e partiu de novo, deixando para trás, sem maiores remorsos, a família.

Lá chegando, encontrou um bilhete, deixado por um navegador que passara pela ilha, juntamente com uma cédula de 20 dólares.

Era o pagamento pelas verduras e galinhas que o visitante havia consumido.

Neale jogou o dinheiro fora. Ali, ele nada valia.

A segunda permanência de Neale em Suvarov durou três anos e terminou quando o movimento no atol começou a crescer, por conta da própria fama que ele ganhara mundo afora.

Todos queriam visita-lo. Sobretudo repórteres.

Além disso, outras ilhotas de Suvarov passaram a ser freqüentadas por pescadores e caçadores de pérolas, o que roubou de vez a paz do neozelandês.

Desgostoso, Neale decidiu ir embora.

Embarcou em um dos barcos que passou pela ilha e foi viver na capital das Ilhas Cook, onde decidiu escrever um livro sobre sua experiência solitária.

Mas, enquanto escrevia, começou a sentir saudades da vida que levava.

E decidiu retornar à Suvarov, pela terceira vez, novamente sozinho.

Desta vez, apesar da idade já avançada, Neale ficou dez anos isolado na ilha, recebendo apenas uma ou outra visita esporádica.

Mas passou a receber cartas do mundo inteiro, que, duas vezes por ano, eram deixadas na ilha por um barco do governo, que trazia de volta as respostas das cartas anteriores, que Neale escrevia, uma a uma.

Neale tornou-se um daqueles seres exóticos do planeta.

E tamanha popularidade acabou de vez com a sua privacidade.

Para completar o cenário, no início de 1977, Neale passou a sofrer de frequentes dores no estômago e pediu ajuda, quando já somava 75 anos de idade.

Um barco, então, o levou para um hospital, de onde ele nunca mais saiu.

Tom Neale morreu em 30 de novembro daquele ano, e seu corpo, contrariando o bom senso, foi sepultado em um banal cemitério da capital das Ilhas Cook – e não na ilha que tanto amava e onde passou 15 anos de sua vida em solitário.

Anos depois, em Suvarov, foi colocada apenas uma placa, dizendo que ali ele “vivera o seu sonho”.

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Náufraga de quatro patas: a cadela que viveu meses numa ilha deserta

Náufraga de quatro patas: a cadela que viveu meses numa ilha deserta

Era apenas mais um passeio de barco do casal Jan e Dave Griffith, pelo litoral de Queensland, na Austrália, quando o inesperado aconteceu: uma onda mais forte da tempestade que se aproximava estourou sobre a lancha e arrastou para o mar o terceiro ocupante do barco: a cadelinha Sophie, que sempre ia com seus donos para o mar.

Apesar da tormenta chegando, o casal vasculhou a área durante um bom tempo, em busca da cachorrinha perdida. Mas não encontraram nem sinal do animal no mar. Resignados, voltaram para casa e tentaram esquecer o triste episódio.

Cinco meses depois, os parcos habitantes das remotas Ilhas St. Bees, na região da Grande Barreira de Corais, começaram a estranhar o surgimento de várias carcaças de filhotes de cabras mortas e chamaram a polícia florestal, pensando se tratar de algum animal selvagem.

Sim, era um animal que vinha causando as mortes daquelas cabras, mas ele não nada tinha de selvagem – tinha, apenas, fome. Era a cadelinha Sophie, tentando sobreviver naquela ilha quase deserta, feito uma versão canina de Robinson Crusoé. Facilmente capturada, ela foi despachada para o continente.

Por uma dessas artimanhas do destino, a notícia de que um cachorro havia sido encontrado numa ilha onde não existiam cães chegou aos ouvidos do ainda triste casal Jan e Dave. Mesmo sabendo que não poderia ser Sophie, já que as Ilhas St. Bees ficam a mais de dez quilômetros do local onde a onda invadiu o barco naquele dia de mar violento, os Griffith foram até o local onde estava o animal, para conhecer “A Fera da Ilha”, como aquela cadelinha passou a ser jocosamente chamada. E deram de cara com a dócil Sophie, logo transformada em heroína náutica, assim que sua história foi contada.

O que mais impressionou o casal e os australianos em geral não foi nem o fato de Sophie ter conseguido nadar tanto no mar turbulento, nem de ter conseguido (sabe-se lá como?) avançar na direção de uma ilha que sequer era visível no local do acidente – mas sim ter sobrevivido aos tubarões, que infestam as águas da região.

Para um predador de olfato extraordinário, como é o tubarão, o cheiro forte de um cachorro molhado tem o mesmo atrativo de um churrasco. Mesmo assim, nada aconteceu com Sophie, que, além de sortuda, virou uma espécie de símbolo da sobrevivência no mar, mesmo sendo um animal com patas em vez de nadadeiras.

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O navio que decidiu o destino dos seus tripulantes

O navio que decidiu o destino dos seus tripulantes

O porto de Hamburgo estava particularmente agitado na manhã de 21 de julho de 1939. Entusiasmados com a boa performance da economia alemã, depois da crise desencadeada com o fim da Primeira Guerra, e embalados pelo forte sentimento nacionalista que tomava conta do país nos dias que antecederam o início de um novo conflito mundial, mais de uma centena de passageiros preparava-se para embarcar em um longo cruzeiro de ida e volta à África, a bordo de um dos melhores transatlânticos alemães da época: o Windhuk (“Canto do Vento”, em alemão). O navio era tão luxuoso que tinha uma tripulação quase duas vezes maior do que o número de passageiros: 250 tripulantes, quase todos tão alemães quanto o próprio comandante, Wilhelm Brauer.

A viagem estava prevista para durar 60 dias, com escalas em diversos países da Europa antes de descer até Moçambique, de onde o navio regressaria ao mesmo porto da Alemanha. Mas o Windhuk jamais voltou – embora nenhuma tragédia tenha acontecido naquela viagem. Ao contrário, ela teve um final feliz para todos os tripulantes do navio, mesmo tendo o Windhuk ido parar do outro lado do Atlântico, no porto brasileiro de Santos, cinco meses depois.

Quando, em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invadiu a Polonia, dando início a Segunda Guerra, o Windhuk estava tranquilamente atracado no porto da Cidade do Cabo, na África do Sul, com seus passageiros aproveitando as mordomias de bordo, que incluiam uma requintada gastronomia. Mas a ordem era clara: o Windhuk deveria sair imediatamente daquela então colonia inglesa e retornar à Alemanha. Avisados, quase todos os passageiros decidiram desembarcar ali mesmo, ficando a bordo apenas os tripulantes – exceto um deles, que havia saído para passear em terra-firme no seu dia de folga e não conseguiu voltar para o navio a tempo

Às 22 horas do mesmo dia, o navio saiu do porto às pressas e com pouco combustível, o que levou o comandante Brauer a optar por navegar só até a cidade de Lobito, na costa da atual Angola, que nada tinha a ver com o conflito. Ali, ele esperava abastecer o navio e seguir viagem para a Alemanha.

Mas, no precário porto angolano, o Windhuk teve que esperar dois longos meses até que conseguisse um pouco mais de combustível e pudesse voltar ao mar. Confinados no navio, os tripulantes do Windhuk, inocentes garçons, camareiros, engenheiros e marinheiros, todos civis em nada envolvidos com a guerra, não faziam a menor ideia do que se passava na distante Europa. Tampouco o que o destino lhes reservaria dali em diante. Só restava esperar e torcer para que o navio conseguisse, finalmente, partir.

Cinco deles não suportaram a angústia da espera e traçaram um plano para voltar para casa por conta própria, com um dos barcos salva-vidas do navio. Certa noite, colocaram o bote na água e partiram a remo. Dois meses e meio depois – e após receberem a ajuda de um navio português que lhe forneceu mantimentos no meio do caminho -, o grupo foi dar numa praia das distantes Ilhas Canárias, num feito e tanto.

Já o comandante do Windhuk tinha outras preocupações além da fuga de tripulantes e da carência de suprimentos, inclusive comida para tanta gente a bordo, durante tanto tempo: ele não sabia como driblar os navios ingleses que já patrulhavam trechos da costa africana.

No início de novembro, depois de conseguir um pouco de combustível, surgiu uma brecha na patrulha dos ingleses. O Windhuk, então, partiu ainda mais escondido do que da primeira vez, juntamente com outro navio alemão, o Adolf Woermann, que também aguardava uma chance de escapar do cerco dos ingleses aquartelado naquele porto angolano. A bordo, não havia comida suficiente para toda a tripulação na longa a viagem que o Windhuk faria (uma ironia num navio famoso justamente por sua gastronomia), nem tampouco era garantido que o combustível desse para chegar a Alemanha.

Mesmo assim, o comandante Brauer mandou soltar as amarras, apagar todas as luzes do navio e ganhou o mar, seguido pelo Adolf Woermann, que, no entanto, não foi longe. Descoberto pelos ingleses, o outro navio alemão foi atacado e afundado logo após sair de Angola. Já o Windhuk seguiu em frente. Mas nem o seu comandante sabia exatamente para onde. Importante era escapar do cerco.

No afã de driblar os ingleses, o Windhuk navegou em linha reta Atlântico adentro, saindo da rota natural para a Europa e alongando a distância até a Alemanha – um grande problema frente a questão do combustível. Seria, portanto, necessário parar em outro porto, para reabastecer. Mas, qual, se os ingleses patrulhavam praticamente toda a costa africana? Foi quando Brauer teve a ideia de seguir em frente, cruzar todo o oceano e buscar recursos em algum país sul-americano, todos ainda neutros na guerra.

A fim de evitar as rotas mais usadas pelos navios, o comandante do Windhuk decidiu navegar bem mais ao sul do que o habitual. E quase foi parar nas ilhas Malvinas. O acréscimo extra no percurso tornou o nível do combustível ainda mais crítico.

Para economizar, o Windhuk passou a se arrastar no mar, a míseros seis nós de velocidade, quando tinha capacidade de navegar três vezes mais rápido do que isso, em velocidade de cruzeiro. Além disso, para escapar o mais rápido possível da crítica área da costa africana, ele chegou a navegar a 22 nós de velocidade, o que sugou sobremaneira os seus tanques.

A bordo do Windhuk, a situação dos tripulantes era angustiante. Eles não tinham comida, nem destino fixo, tampouco sabiam se o combustível daria para chegar a algum porto seguro. Gastavam os dias vendo o mar passar, lentamente, sob o casco, sem saber para onde estavam indo. Nem o comandante Brauer arriscava um palpite mais certeiro sobre para qual porto seguir. Sem muita convicção, acabou optando por rumar para Baia Blanca, na costa da Argentina.

Mas, para complicar ainda mais as coisas, foi informado dos ataques que o couraçado alemão Graf Spee vinha sofrendo na região e resolveu evitá-la. Foi quando o porto de Santos, na costa brasileira, surgiu como a melhor opção.

O Brasil ainda não havia entrado na guerra e, portanto, era seguro para um navio alemão. Ainda assim, Brauer tomou uma precaução: mandou camuflar o Windhuk com outro nome, outra bandeira e até outra cor no casco, que deixou de ser cinza e virou preto. A pintura, feita com latas de tinta que restavam no porão, aconteceu em pleno mar, durante a própria navegação, e foi uma arriscada epopéia que durou vários dias. Os marinheiros ficavam dependurados sobre a água, com o navio em movimento. Quem caísse estaria perdido, porque o comandante avisara que não haveria como manobrar o navio. Por sorte, ninguém caiu.

O novo nome e a nova “nacionalidade” do Windhuk foi escolhida ao acaso. Como havia alguns asiáticos trabalhando na lavanderia do navio, Brauer optou pelo nome de um navio japonês que costumava visitar o porto para o qual estavam indo, o Santos Maru, e mandou que os tripulantes orientais o escrevessem num pedaço de papel, para ser copiado no casco – bem como a confecção de uma bandeira, algo fácil no caso da japonesa, que se resume a uma bola vermelha sobre fundo branco.

E assim foi feito. Só que os tripulantes eram chineses, não japoneses, e o novo nome do Windhuk acabou escrito com caracteres errados.

Mas ninguém percebeu o erro. Nem mesmo os práticos do porto de Santos, que, ao verem o navio chegando, estranharam apenas o fato de o verdadeiro Santos Maru ter voltado tão rápido, já que havia partido dali dias antes. E, ainda por cima, voltou com duas chaminés em vez de apenas uma.

A confusão foi esclarecida, entre risos e tapinhas nas costas, assim que os funcionários do porto subiram a bordo e deram de cara com uma tripulação de alemães de olhos azuis e não japoneses de olhos puxados. Mas, como o Brasil ainda nada nutria contra a Alemanha, nada aconteceu com eles. Apenas o navio ficou retido, como era praxe nos tempos de guerra. Era o dia 7 de dezembro de 1939 – data que, até hoje, é comemorada pelos descendentes daqueles mais de 200 alemães, que nunca mais quiseram sair do Brasil.

Para os 244 tripulantes do Windhuk, a nova e tranquila vida em Santos passou a ser uma espécie de recompensa pelas privações e temores que passaram durante aquela longa e tensa viagem. Eles ganharam a liberdade de fazer o que bem quisessem, desde que não saíssem do munícipio. Inclusive deixar o navio e ir morar na cidade. Alguns começaram a namorar garotas. Outros se casaram, como os tripulantes Hildegard e August Braak, cuja cerimônia aconteceu no próprio navio e com a presença até do prefeito.

Para os moradores de Santos, aquele grupo de alemães boas-praças nada tinha a ver com as notícias ruins que chegavam da Europa. E não tinham mesmo, porque não passavam de pacíficos marinheiros transformados em vítimas indiretas da guerra. Eles ficaram na cidade por mais de dois anos, em total harmonia com os brasileiros.

A situação só começou a mudar em janeiro de 1942, quando, em resposta ao afundamento de navios brasileiros na costa do Nordeste, o Brasil decretou guerra aos países do Eixo. Imediatamente, todos os tripulantes do Windhuk foram presos, na mesma cidade onde já se sentiam em casa.

Contribuiu também para isso o gesto patriótico de alguns deles, a começar pelo comandante Brauer, de sabotar o próprio navio no porto de Santos. Quando ficaram sabendo que o Windhuk seria confiscado e vendido aos americanos, então já em guerra contra a Alemanha, eles trouxeram sacos de areia, pedra e cimento para dentro do navio e atiraram dentro do seu maquinário, que ficou inutilizado. O objetivo era que o Windhuk não pudesse mais navegar e assim não saísse do Brasil. Mas não foi o que aconteceu.

Rebocado, o navio acabou sendo levado para os Estados Unidos, onde foi recuperado e convertido em navio de combate. Já o destino dos seus tripulantes foi ainda mais improvável.

Depois de passarem uma temporada na Casa de Detenção de Imigrantes, em São Paulo (eles eram tão numerosos que não cabiam na pequena cadeia de Santos), acabaram se transformando nos primeiros ocupantes dos campos de concentração em território brasileiro, aqui chamados de “campos de internação”. E para onde, depois, também foram levados italianos e japoneses.

A bordo de um trem lacrado e com a patética escolta de soldados fortemente armados, os pacatos tripulantes alemães foram divididos em grupos e mandados para cinco destes campos, todos no interior do estado de São Paulo: Bauru, Ribeirão Preto, Pirassununga, Guaratinguetá e Pindamonhangaba, este o maior do gênero no país. Neles, no entanto, a despeito do trabalho por vezes forçado, seguiram gozando quase a mesma liberdade de antes, já que não representavam perigo algum ao país.

No campo de concentração de Pindamonhangaba, em clima de total camaradagem com os guardas, os marinheiros alemães receberam autorização para construir suas próprias casas, criaram galinhas, ordenharam vacas, jogavam futebol contra times que vinham de fora, assavam pães para vender aos visitantes e até saiam para fazer compras na cidade – ocasião em que chegavam a dividir rodadas de cerveja com os próprios guardas que os vigiavam. Também os músicos da orquestra do navio eram frequentemente convidados para tocar em festas na cidade, e os cozinheiros do Windhuk passaram a preparar jantares sofisticados para os oficiais do próprio campo. De presidiários, eles nada tinham.

Na maior parte do tempo, a vida era tão agradável nos campos de internação que o mesmo casal Hildegard e August, que havia se casado quando o Windhuk estava atracado no porto de Santos, resolveu ter um filho ali mesmo. Nasceu assim Carl Braak, o único brasileiro que veio ao mundo dentro de um campo de concentração.

Hoje, ele é o principal convidado nos encontros anuais que os descendentes dos tripulantes do Windhuk, já que todos já morreram, organizam em um restaurante de São Paulo, que não por acaso leva o mesmo nome do navio, sempre no dia 7 de dezembro, data que ele chegou ao Brasil. O último tripulante morreu em 2015.

Nos campos de internação, onde viveram por mais de três anos, os marinheiros do Windhuk se habituaram ainda mais com a vida no país. Quando a guerra terminou, em 1945, o governo brasileiro, sem saber o que fazer com aquele incômodo grupo, deu a eles duas opções: voltar para a Alemanha, arrasada pela guerra, ou ficar de vez no Brasil, com direito a cidadania. Praticamente todos escolheram a segunda opção. Apesar do sotaque carregado, já eram brasileiros de coração.

Em seguida, eles se espalharam por cidades de São Paulo, Santa Catarina Minas Gerais e Rio de Janeiro, e foram trabalhar em diversas áreas. Um deles, chegou a vice-presidência da Coca-Cola no Brasil. Já Hildegard, mãe de Carl, tornou-se uma das maiores especialistas do país em ortóptica, uma área da oftalmologia que trata de desvios oculares. Muitos, porém, preferiram subir a serra que brotava aos pés do campo de internação de Pindamonhangaba e foram trabalhar, como cozinheiros, no recém-criado Grande Hotel de Campos do Jordão, cidade que, até então, era apenas um centro de tratamento para tuberculosos.

Com a experiência culinária que tinham do navio, os alemães do Windhuk transformaram aquele hotel em um centro de excelência gastronômica e foram praticamente os responsáveis por implantar as bases do que viria a ser a estância turística de Campos do Jordão nos dias de hoje. Outro tripulante, porém, preferiu abrir um bar em São Paulo, batizá-lo com o nome do navio, e passar a reunir os antigos companheiros para relembrar as histórias do passado – o precursor do restaurante Windhuk, onde os seus descendentes se encontram até hoje.

Já o navio deixou de existir há muito tempo. Depois de servir nas guerras do Vietnã e da Coréia, sob bandeira americana e com o nome USS Le Jeune, o ex-Windhuk acabou seus dias num ferro-velho asiático. Mas o seu sino foi preservado e ainda toca, todos os dias, em um quartel de treinamento do exército americano, na Califórnia, onde, no entanto, quase ninguém sabe que o navio de onde ele veio acabou decidindo o improvável destino de mais de 200 alemães, durante a guerra.

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