A grande vantagem de morar no mar, em tempos de coronavuris

Neste momento, enquanto alguns bilhões de pessoas no mundo inteiro estão confinadas em suas casas, privadas de se movimentarem e sentindo os desconfortos do isolamento social e a insegurança gerada pelo risco da contaminação pelo Covid-19, um grupo de brasileiros não mudou em praticamente nada a sua rotina.

Seguem livres para sair de casa e se divertem em torno dela, com a certeza e a tranquilidade de que, mesmo fazendo isso, não correm risco de contrair o vírus.

Porque o local onde eles vivem é praticamente imune ao avanço do coronavírus.

Eles moram no mar, onde, pela própria característica do ambiente e completa escassez de pessoas, o vírus não consegue se espalhar.

E suas casas são barcos, que podem, inclusive, mudar de lugar, se surgir algum risco de o vírus chegar até lá.

“Nesse momento, estamos mais seguros do que qualquer brasileiro que viva em terra firme”, diz, com explícito alívio, o paulista Wladimir Popoff, que mora com a mulher, Rosane, em um veleiro, que geralmente fica ancorado perto das ilhas desertas da região de Paraty.

“Aqui, onde estamos, não há nenhum outro ser humano num raio de cinco quilômetros. E, se a gente quiser, dá para mudar a nossa ´casa` para ainda mais longe”, diz Wladimir, que se sente especialmente aliviado porque, tanto ele quanto a mulher, que já passaram dos 60 anos de idade, fazem parte do chamado “grupo de risco“ do vírus.

“Estamos naturalmente protegidos pelo mar”, diz Wladimir. “Só lamentamos não poder trazer para cá também os nossos parentes idosos, porque o espaço no barco é limitado”.

“Quem mora em um barco está menos preocupado, porque sabe que, se precisar, tem como escapar das áreas de contaminação, levando a casa junto”, diz a ex-enfermeira Guta Favarato, que, junto com o marido, mora em um veleiro. “Basta levantar âncora e ir para um local mais seguro, pelo menos por um tempo”.

O mesmo alívio de Wladimir, Rosane e Guta está sendo sentido, neste momento, por todas as pessoas que resolveram trocar uma casa por um barco e a vida em terra firme pelo mar.

Como o também casal Alcides Falanghe e Tatiana Zanardi, que, dez anos atrás, trocaram um apartamento em São Paulo por um veleiro no Caribe, no qual hoje moram e ganham a vida, recebendo e levando turistas brasileiros para passear nas Ilhas Virgens Britânicas.

“Quem mora num barco já vive um tipo de isolamento natural, porque não há nem vizinhos assim tão perto. Portanto, para nós, não mudou nada. Exceto a preocupação com os familiares, no Brasil”, diz Alcides, que é mergulhador e segue sua rotina diária sem nenhum contratempo, inclusive mergulhando no mar em torno do seu barco-casa. “Temos sorte de estar nessa situação”, admite.

Mas, com base na experiência adquirida pela estreita convivência do casal no pequeno espaço de um barco, a mulher de Alcides, a chefe de cozinha Tatiana, tem um conselho a dar às famílias, que, por conta da recomendação dos órgãos de saúde, agora tenderão a ficar os próximos dias confinadas, dia e noite, dentro de casa.

“É preciso ficar atento, também, à saúde mental das pessoas, porque nem sempre é fácil dividir o mesmo espaço com mais gente, o tempo todo”, diz Tatiana, com a autoridade de quem vive nos poucos metros quadrados do seu barco com o marido, há uma década. “Depois de certo tempo, a convivência tão estreita – e, ainda por cima, obrigatória – tende a deteriorar as relações familiares”, adverte.

“O segredo é fazer do limão uma limonada, e aproveitar o confinamento para pôr o papo em dia com a família, por exemplo,” aconselha Tatiana. “Quando o espaço é limitado e precisa ser compartilhado, é preciso haver tolerância e bom humor, porque não existe a válvula de escape de ir para as ruas, por exemplo. Por isso, quem mora num barco não briga, porque não tem espaço nem para evitar encontrar o outro dentro de ‘casa'”, brinca.

“Quem vive cercado pelo mar está, por si só, afastado das demais pessoas, portanto com menos chances de contrair o vírus nesse momento”, diz outro veterano no assunto, o velejador ítalo-brasileiro Elio Somaschini, de 71 anos, que já morou durante anos em veleiros e, neste momento, está na França.

Mas, ele acrescente. “Cedo ou tarde, todos irão pegar esse vírus, porque vai virar mais um tipo de resfriado. Mesmo quem vive no mar. O negócio é tentar fazer o vírus se espalhar o mais lentamente possível, para dar tempo de surgirem remédios, e o organismo humano criar anticorpos. Poucos morrem de gripe hoje em dia, mas muitos já morreram no passado, quando também foi epidemia”, analisa o experiente navegador.

Quem também pensa dessa forma é o casal Adriano Plotzki e Aline Sena, que moram em um veleiro há cinco anos, e até criaram um canal no YouTube, o Hashtag Sal, dedicado a quem, como eles, tem o mar como endereço.

“A gente sabe que, em algum momento, o vírus vai chegar até nós, mesmo passando temporadas isolados no mar”, diz Aline. “Mas também sabemos que, por enquanto, durante essa pandemia, podemos nos afastar da costa e, ao mesmo tempo em que nos protegemos, ajudamos a não disseminar ainda mais o vírus entre as pessoas”, analisa.

“De certa forma, quem mora no mar já vive um tipo de confinamento voluntário”, completa Adriano.

Essa opinião é compartilhada por dez em cada dez pessoas que optaram por morar em um barco, em vez de uma casa.

“É nessas horas que a gente vê as vantagens de ser um pouco mais autossustentável”, avalia a gaúcha Gergia Spiandorello, que junto com o marido, Diego, também mora em um veleiro, que, no momento, está nas distantes ilhas da Polinésia Francesa.

“Nesse instante, o nosso barco é o melhor lugar do mundo onde poderíamos estar”, diz Georgia. “Ainda mais na Polinésia Francesa, que, de tão isolada, mais parece que está em outro planeta”.

E ela completa: “Quem mora em um barco já está acostumado a não ter muito contato com outras pessoas e a prever recursos para ficar muito tempo vivendo no mar. Portanto, um isolamento se torna bem menos complicado”.

“Só não saímos ainda do apartamento e mudamos para o barco, porque ele ainda não está cem por cento pronto. Mas, diante desse quadro, não descarto essa possibilidade”, diz o capixaba Felipe Tessarolo, que junto com a mulher, a bióloga Giovanna, comprou um pequeno veleiro, no final do ano passado, com planos em transformá-lo na nova casa da família, que incluiu um enteado.

O barco, que ele mesmo está reformando nas horas de folga, está ancorado bem diante de Vitória, onde eles moram, em um apartamento alugado. Mas, como fica no mar, e não nas ruas, é bem menos suscetível ao contato com o vírus. “É o nosso plano de fuga”, diz Felipe.

Mesmo quem não pode sair do barco está se sentindo mais protegido dentro dele. É o caso do casal também gaúcho Bruna Sobé e Jairo Machado, cujo veleiro, no qual moram há oito anos, está retido em uma marina de Ushuaia, na Argentina, que fechou todos os seus portos, no início da semana.

“Não podemos sair daqui, mas ainda é mil vezes melhor estar no barco do que na cidade, onde, inclusive, ninguém pode sair de casa. Estamos presos na marina, mas de certa forma aliviados, porque, como ela está fechada, ninguém chega até o nosso barco”.

“De certa forma, estamos ´ilhados`, mas, ainda assim, em bem melhor situação do que se estivéssemos trancados em um apartamento ou morando numa cidade”, completa a mineira Christina Amaral, cujo barco também está retido na mesma marina em Ushuaia.

Em melhor situação está quem ergueu velas e saiu para o mar, antes de os confinamentos nos portos de diversos países serem decretados.

Como aconteceu com a família brasileira Quaresma Gandelman, pai, mãe e filho, de 12 anos de idade, que moram no veleiro Plancton, e estão navegando com sua casa-móvel entre as ilhas do Caribe.

“Saímos da Martinica um dia antes de fecharem o porto e, agora, estamos avançando, bem devagar, rumo a qualquer outra ilha onde seja mais seguro ancorar”, explica Cecília Quaresma, que é professora formada e transformou o barco-casa da família também em escola, para que o filho Igor siga estudando durante a viagem.

“Estamos tranquilos por estarmos protegidos contra o vírus no mar, e por termos estoque de alimento para ficar meses no barco, se necessário”, diz Cecília, que brinca: “Aqui, nem a escola do Igor parou”.

Ela, no entanto, tem acompanhado as notícias pela internet e teme pelos seus familiares. “De vez em quando, também somos tomados pela ´pandemia do pânico´, mesmo sabendo que estamos seguros no barco”, admite.

Já outra família que vive a bordo de um veleiro, os argentinos Juan Dorda, Constanza Coll e o filho Ulisses, de apenas dois anos, que estão há meses ancorados na Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro, onde a rotina de passeios diários pelas praias desertas da ilha não foi alterada, tem outra preocupação nesse momento, embora compartilhem da mesma sensação de segurança, justamente por morarem em um barco: Constanza está no sétimo mês de gravidez e o plano original era ter o bebê em um hospital da região.

“Mas, agora, com essa corrida aos hospitais, que tende a gerar o caos, estamos começando a achar que pode ser mais seguro ter o bebê no próprio barco, como já nos sugeriram fazer”, cogita Constanza.

Que completa: “Não quero que meu bebê nasça em um ambiente de risco. Sei que fazer um parto em um veleiro não é o ideal, mas, no mar, pelo menos não há vírus”.

O barco-escola que um casal montou para o filho, enquanto navegam no Caribe

O barco-escola que um casal montou para o filho, enquanto navegam no Caribe

Tal qual milhões de crianças brasileiras, o menino Igor Quaresma Gandelman, de 12 anos, recentemente voltou às aulas.

Mas sua escola é diferente de todas as outras, porque fica no próprio barco onde ele vive, com o pai e a mãe – que também é a sua professora.

Neste momento, a curiosa casa-escola flutuante de Igor está no Caribe, já que a família está fazendo uma longa viagem, de ilha em ilha.

Mas nem por isso ele deixará de ir à escola.

Porque ela vai junto com o barco, para onde ele for.

“O Igor nasceu e cresceu no nosso veleiro, que sempre foi a nossa casa. Então, nada mais natural do que também estudar nele, já que sou professora formada”, diz a mãe do garoto, Cecília Quaresma, de 47 anos, que se divide entre as funções de mãe, velejadora e professora no barco-casa da família, que neste instante está na Ilha de Grenada, no Caribe, a caminho de outras ilhas.

Quase todos os dias, sempre que as condições do mar permitem, Igor senta-se na cabine do barco, transformada em sala de aula, e aprende coisas durante cerca de duas horas.

O método de ensino é o mesmo das escolas que seguem a pedagogia Waldorf, que pratica o desenvolvimento físico, espiritual, intelectual e artístico dos alunos através de atividades muitas vezes lúdicas, como cantos, poesias e pinturas, na qual sua mãe é formada.

O método Waldorf, que não segue livros didáticos, também dá grande autonomia aos professores para determinar o currículo e metodologia de ensino aos alunos, o que, no caso de Igor, é um facilitador e tanto.

“Por morar num barco, o Igor vive situações que as crianças de escolas convencionais não conseguem experimentar”, analisa a mãe-professora, que, todas as manhãs, prepara cuidadosamente cada aula que irá dar, enquanto medita, olhando para o mar.

“A vida num barco é muito rica em experiências e a metodologia Waldorf consiste, basicamente, em despertar nas crianças o interesse em aprender, o que gera um casamento perfeito. Hoje, o Igor aprende mais no barco do que numa sala de aula convencional”, diz Cecília, que garante dormir tranquila quanto a educação do filho. “Até porque conheço bem a professora dele”, brinca.

As aulas a bordo começam com uma simples saudação de “bom dia”, diante de uma lousa adaptada na cabine do barco.

“A saudação formal é o divisor de águas para o Igor. Ela sinaliza que, dali em diante, não sou mais a mãe e sim a professora, e ele entende isso claramente. Mas o aprendizado continua mesmo quando a aula acaba, porque, como viajamos com o barco, ele vai aprendendo sobre geografia e diferentes culturas na prática, já que vive isso de fato”.

O pai de Igor, o ex-advogado Fábio Galdelman, de 46 anos, que 18 anos atrás largou tudo e foi viver no veleiro que ele construiu a duras penas (e que, depois, com o casamento com Cecília e o nascimento de Igor, virou a casa da família), também ajuda no aprendizado do filho, ministrando aulas de inglês, trabalhos manuais e navegação, “que ele já domina feito um adulto, porque vive isso desde pequenininho”, explica.

“Nossa dedicação ao aprendizado do Igor é total e integral, já que, de certa forma, ele ´mora` na própria escola”, diz a mãe-professora. “E é uma sala de aula de um só aluno, o que gera uma dedicação do professor e um poder de absorção muito maior”, analisa.

“Pela metodologia Waldorf, no próximo período, que será o sétimo ano, o Igor terá que aprender sobre a Era dos Descobrimentos, e, para isso, nada melhor do que estar num barco, certo?”, diz Cecília, que só se preocupa com a  ausência de outras crianças na “escola” do filho.

Para compensar isso, o casal organiza roteiros com diversas paradas, para que Igor tenha contato com crianças nos lugares por onde o barco passa. E, uma vez em terra firma, organizam muitos passeios e atividades, para estimular a socialização do menino, que diz adorar a vida que leva.

“Nós não queríamos esperar até que o Igor crescesse para poder viajar pelo mundo”, explica Cecília. “Ao contrário, queríamos que ele aprendesse coisas na prática desde pequeno, daí a decisão de sair navegando ainda durante o período escolar. De certa forma, viajamos por causa dele, embora isso faça bem para todos nós, e mantenha a família ainda mais unida”.

O barco-casa-escola de Igor é um veleiro de pouco mais de 13 metros de comprimento, com três quartos, sala, cozinha e banheiro, com casco bem resistente e construído com capacidade para fazer longas viagens, como a que a família está fazendo agora.

Não há um roteiro rígido, mas o plano inicial é, após passar meses visitando as ilhas do Caribe, cruzar o oceano Atlântico até a Europa, para, depois, retornar ao Brasil, “talvez no final do ano que vem, se o dinheiro aguentar até lá”, diz o casal, que, para se manter, leva turistas para passear no seu barco nos lugares por onde passa, atividade que no meio náutico é conhecida como “charter”, e faz pequenos serviços de manutenção e reparos em outros barcos.

“A gente se vira para ganhar algum dinheiro, mas, ao menos, não gastamos com escola e ainda sabemos que o Igor está tendo um bom aprendizado”, diz Cecília, que se diz “totalmente tranquila” quanto a educação do filho. “O que ele aprende nas aulas no barco é acima do que aprenderia numa escola convencional”, garante.

Os Gandelman não são a única família com filhos pequenos que optaram por morar num barco – embora o mais comum sejam casais viverem dessa forma.

Mas, no Brasil, talvez sejam os únicos a montarem uma escola de fato a bordo de um barco. Uma escola sem uniforme, mas com metodologia e professora habilitada para isso.

“O Igor está tendo um ótimo aprendizado e isso, no futuro, vai render grandes frutos”, garante a mãe-professora-navegadora Cecília.

Gostou desta história?

Ela faz parte do livro HISTÓRIAS DO MAR – 200 CASOS VERÍDICOS DE FAÇANHAS, DRAMAS, AVENTURAS E ODISSEIAS NOS OCEANOS, que por ser comprado clicando aqui, pelo preço promocional de R$ 49, com envio gratuito;

A mais estranha das garrafas com mensagens lançadas ao mar

A mais estranha das garrafas com mensagens lançadas ao mar

Mesmo nos dias de hoje, garrafas lançadas ao mar com mensagens dentro delas não são nada raras.

Quase sempre as mensagens resumem-se a simples saudações e o inevitável pedido de contato para quem a encontrar, como uma forma primitiva de Facebook.

Mas nada se compara ao que havia na garrafa que a policial americana Paula Pendleton encontrou numa praia da Flórida, nos Estados Unidos, em setembro de 2019.

Dentro dela, havia um punhado de cinzas de um corpo humano, acompanhada de um bilhete, que explicava o macabro conteúdo da garrafa.

“Esta garrafa contém as cinzas do meu filho Brian, que morreu inesperadamente no dia 9 de março de 2019. Ele sonhava viajar pelo mundo. Então, eu o envio para a sua última aventura”, dizia a mensagem, assinada pela americana Darlene Mullins, mãe do jovem finado.

Aquela história havia começado dias antes, quando Darlene, junto com a neta Peyton, de 14 anos, filha de Brian, decidiu dar um destino incomum a uma parte das cinzas do corpo do filho, morto de ataque cardíaco quando tinha apenas 39 anos.

Ela separou alguns grãos das cinzas para pôr num pingente no colar que sempre usava, e colocou outro punhado na garrafa, juntamente com o bilhete e quatro cédulas de um dólar, “para pagar a despesa telefônica de quem a encontrasse”, pedindo que, além de um contato, a garrafa fosse novamente lançada ao mar, “para seguir sua viagem”.

Pois foi o que fez a policial Paula Pendleton.

Depois de ligar para Darlene e relatar o achado, ela convenceu o capitão de um barco a levar a garrafa até quase o meio do Golfo do México e lá, novamente, depositá-la no mar.

“Meu filho Brian sempre quis conhecer o mundo, mas jamais saiu de nossa pequena cidade, no Texas. Ele, agora, fará isso por um prazo indeterminado”, explicou Darlene, que até pensou em usar uma garrafa plástica, para evitar que ela quebrasse em eventuais choques com rochas ou navios, mas mudou de ideia, para “não poluir o mar”.

Assim sendo, é bem possível que os restos mortais de Brian Mullins estejam navegando até hoje, em algum ponto do Atlântico.

Gostou desta história?

Ela faz parte do livro HISTÓRIAS DO MAR – 200 CASOS VERÍDICOS DE FAÇANHAS, DRAMAS, AVENTURAS E ODISSEIAS NOS OCEANOS, que por ser comprado clicando aqui, pelo preço promocional de R$ 49, com envio gratuito;

Caro leitor,

Histórias do Mar é um site gratuito.

Não cobramos nada para compartilhar nossas histórias.

Mas agradecemos se clicar em um dos anúncios, caso o conteúdo lhe interesse.

Cada clique nos rende centavos, que ajudam a manter o trabalho de publicar novas histórias.

Agradecemos, também, se compartilhá-las nas redes sociais.

Nosso muito obrigado

O estranho caso da Praia do Hermenegildo

O estranho caso da Praia do Hermenegildo

No final da década de 1970, o Brasil ainda vivia resquícios dos anos de chumbo da ditadura militar e praticamente desconhecia a expressão “crime ambiental”.

Foi nesse período que estas duas situações (ditadura e meio ambiente) se encontraram, depois que um estranho caso, nunca oficialmente explicado, aconteceu na Praia do Hermenegildo, no litoral do Rio Grande do Sul, em 31 de março de 1978.

Naquela data, quatro dias após uma violenta ressaca atingir a costa uruguaia e todo o litoral do extremo sul do Brasil, a Praia do Hermenegildo, no município de Santa Vitória do Palmar, praticamente na fronteira com o Uruguai, amanheceu com um forte cheiro vindo do mar e uma quantidade impressionante de peixes mortos.

Até cachorros e cavalos, que estavam na beira da praia, ficaram intoxicados.

A população local se assustou.

Mas, para as autoridades, tudo não passava de um fenômeno natural chamado “Maré Vermelha” – uma proliferação exagerada de algas marinhas, que libera toxinas e “sufoca” o mar, gerando mortandade de peixes, além de tingir as águas com um tom avermelhado.

O fenômeno já havia acontecido na região. Mas não com aquela intensidade.

Naquela manhã, as águas da Praia do Hermenegildo pareciam cobertas por uma película avermelhada, que desprendia fortes odores e dificultava a respiração das pessoas.

Estudiosos e alguns precursores do ambientalismo brasileiro começaram a chegar ao litoral gaúcho, para analisar o caso.

E um deles resolveu investigar a fundo a questão. Mas em outro sentido.

O historiador local Péricles Azambuja desconfiou que aquilo que estava acontecendo na praia poderia ser consequência de um vazamento de produtos químicos de algum navio em alto mar e resolveu checar.

Também conferiu os naufrágios recentes na região.

E foi assim que ele chegou ao Taquari, um cargueiro do Lloyd Brasileiro que deixara o porto do Rio de Janeiro com destino a Montevidéu, em 1971, levando uma carga de “produtos químicos” não especificados, da empresa Dow Química.

Ao atingir a região do Cabo Apolônio, na costa uruguaia, mas a apenas cerca de apenas 100 quilômetros da Praia do Hermenegildo, o Taquari encalhou e foi abandonado, com sua carga nos porões.

Apesar do incidente ter acontecido sete anos antes, havia um detalhe intrigante também revelado pela pesquisa do historiador: durante aquela mesma ressaca que atingira a Praia do Hermenegildo, dias antes de o mar se tornar quase tóxico, o casco do Taquari havia se partido em dois e despejando seu misterioso conteúdo no vizinho mar uruguaio.

Coincidência?

Não para o pesquisador, que começou a defender a tese de que o que havia acontecido naquela praia gaúcha não era um fenômeno natural e sim consequência do derramamento da suspeita carga do navio brasileiro abandonado na costa uruguaia.

Ao tomarem conhecimento do fato, outros pesquisadores aderiram a tese de que as correntes marinhas poderiam ter levado resíduos da misteriosa carga do Taquari até aquela praia.

Começou uma pressão para que a empresa dona da carga do navio, a poderosa multinacional Dow Química, divulgasse o que ele transportava.

A empresa negou categoricamente que a carga do Taquari fosse tóxica, mas estranhamente pediu que eventuais barris que fossem dar nas praias não fossem abertos.

O que eles continham?

Jamais se soube.

Até porque nenhum deles foi recuperado inteiro.

As suspeitas aumentaram ainda mais quando alguém lembrou que o então todo poderoso ministro da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, era um ex-diretor da Dow Química, justamente na época em que o Taquari encalhara, o que poderia explicar a insistência do governo brasileiro em atribuir a culpa pelo que acontecera na Praia do Hermenegildo a um simples fenômeno natural, em vez de analisá-lo com mais profundidade.

Na época, ainda sob fortes resquícios militares no país, os ambientalistas não tinham nenhuma voz ativa, nem sequer o termo “ecologia” era conhecido.

Por isso, o governo limitou-se a emitir um documento, batizado de “Livro Branco”, no qual reafirmava que tudo não passara de uma ação da natureza.

Embora altamente questionável, foi a primeira vez que o governo brasileiro deu alguma satisfação a povo sobre algo ligado ao meio ambiente.

Contudo, dez anos depois, ainda insatisfeita com aquela versão oficial para o que ficou conhecido como o “Caso do Hermenegildo”, a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul promoveu uma série de debates a respeito do tema.

Ouviu políticos, moradores do Hermenegildo e ambientalistas, então já reconhecidos como tal, e concluiu que houve mesmo um fenômeno natural naquela praia, naquele dia, como demonstraram claros indícios da chamada Maré Vermelha.

Mas concomitantemente ao vazamento do que quer que houvesse dentro do casco rompido do navio – uma perversa coincidência, já que um fenômeno natural acabou servindo para ocultar e mascarar um crime ambiental.

O governo, então, respirou aliviado.

Mas, a mesma sorte não tiveram os peixes e os animais da Praia do Hermenegildo naquele dia.

Gostou desta história?

Ela faz parte do livro HISTÓRIAS DO MAR – 200 CASOS VERÍDICOS DE FAÇANHAS, DRAMAS, AVENTURAS E ODISSEIAS NOS OCEANOS, que por ser comprado clicando aqui, por R$ 49, com envio gratuito;

 

Caro leitor,

Histórias do Mar é um site gratuito.

Não cobramos nada para compartilhar nossas histórias.

Mas agradecemos se clicar em um dos anúncios, caso o conteúdo lhe interesse.

Cada clique nos rende centavos, que ajudam a manter o trabalho de publicar novas histórias.

Agradecemos, também, se compartilhá-las nas redes sociais.

Nosso muito obrigado

 

O estranho caso da Praia do Hermenegildo

No final da década de 1970, o Brasil ainda vivia resquícios dos anos de chumbo da ditadura militar e praticamente desconhecia a expressão “crime ambiental”. Foi nesse período que estas duas situações (ditadura e meio ambiente) se encontraram, depois que um estranho...

ler mais

A incrível Galinha que deu a volta ao mundo navegando, agora partirá de novo

A incrível Galinha que deu a volta ao mundo navegando, agora partirá de novo

De acordo com as estatísticas, mais da metade da população mundial possui algum animal de estimação.

O velejador francês Guirec Soudée, de 25 anos, é um deles.

Só que, ao contrário da esmagadora maioria dos habitantes do planeta, o bichinho que ele tem não é um gato nem um cachorro: é uma galinha – que Guirec batizou de Monique.

Não seria nada excepcional, não fosse o local onde Guirec (sempre com Monique ao seu lado) passa a maior parte do tempo: dentro de um barco, navegando mundo afora.

Só ele e a galinha.

“Conheci Monique quando fiz uma escala com meu barco nas Ilhas Canárias, a caminho do Caribe, cinco anos atrás. Ela era jovem, saudável, bonita e conclui que seria ótima companhia na viagem, porque galinhas não enjoam, não reclamam e ainda põem ovos, para ajudar no almoço”, diz Guirec, que jura que jamais pensou em transformar a própria companheira de viagem em item do cardápio.

“Todo mundo me falou que não ia dar certo, que ela ia ficar estressada com o balanço do veleiro e pararia de pôr ovos. Mas, que nada. Logo na primeira noite da travessia, ela botou um ovo e, depois, não parou mais. Foram 25 ovos em 28 dias no Atlântico”.

Agora, após cinco anos seguidos no mar (sempre ao lado de Monique, que só desembarca para passear e, se possível, ciscar um pouco em terra firme), Guirec está preparando sua próxima longa travessia – que, segundo ele, será ainda mais longa e difícil do que a primeira.

“Quero voltar para as regiões polares, mas ainda estou planejando o roteiro, que só deve começar no final do ano que vem. Mas uma coisa é certa: seja para onde for, Monique vai junto”, garante Guirec, que pretende colocar sua galinha, novamente, numa fria.

Literalmente.

Na primeira viagem, Guirec e Monique deram simplesmente a volta ao mundo, no sentido Norte/Sul, e visitaram os dois pontos mais gelados do planeta: os polos Sul e Norte.

Ou seja, o Ártico e a Antártica.

Na ocasião, eles partiram do Caribe, subiram até o Ártico (onde, entre outras façanhas, passaram quatro meses trancados no mar congelado da Groenlândia, vivendo basicamente só de arroz e milho, respectivamente), atravessaram para o outro lado do continente americano e desceram até a Antártica, onde passaram uma nova temporada de meses seguidos no gelo, antes de retornarem à Europa, o que só aconteceu cinco anos depois do primeiro encontro entre o velejador francês e aquela galinha sortuda – possivelmente, a ave mais viajada do mundo.

No momento, os dois estão na casa de Guirec, numa pequena ilha na Bretanha, ele finalizando um documentário sobre a longa viagem que fizeram, ela cacarejando no jardim e catando minhocas, enquanto aguarda a hora de embarcar de novo.

“A Monique é muito aventureira”, garante o francês. “Já andou de trenó na neve, navegou em prancha de stand up e foi a primeira galinha que se tem notícia a atravessar a Passagem Noroeste, que une o Atlântico ao Pacífico pelo Ártico, e chegar viva do outro lado, escapando da panela”, brinca o francês,

“É, também, a única galinha do mundo que sabe velejar, ou, pelo menos, que não sai cacarejando histericamente quando o barco inclina. E adora sentir o vento balançando suas penas, além de gostar tanto de peixe quanto de milho”, diz o exótico velejador, que passou a usar a galinha como sua principal ferramenta de marketing pessoal.

O barco/casa de Guirec e Monique é um veleiro de 32 pés, que ele comprou quando tinha apenas 20 anos de idade, mas planos já maduros de sair navegando pelo mundo – a princípio, sozinho.

A galinha mudou isso. “A gente se dá muito bem e ela não reclama de nada. Nem da falta de poleiros no barco”, diz, rindo.

Segundo Guirec, Monique tem cerca de sete anos de idade e, como toda galinha, pode viver até os 15, “se ninguém devorá-la antes disso, claro”.

Mas não será ele que irá fazer isso.

“Ainda temos muito o que explorar juntos. Adoro aventuras e ela, também”, diz o francês.

Juntos, Guirec e sua galinha também já lançaram três livros sobre as travessias marítimas da improvável dupla: “O mundo segundo Monique”, “A fabulosa história de Guirec e Monique”, e o infantil “A galinha que deu a volta ao mundo”.

E alimentam, diariamente, uma legião de fãs nas redes sociais.

Os dois têm mais de 130 mil seguidores no Facebook, outra metade disso no Instagram, vídeos que, vira e mexe, viralizam no Youtube, e tornaram-se conhecidos no mundo inteiro, o que levou o francês a vislumbrar um meio de ganhar dinheiro com palestras – nas quais, obviamente, a galinha vai junto.

“Quem me conhece, sabe que eu nunca fui totalmente normal”, diz o francês, com total sinceridade.

E nem Monique discorda disso.

O estranho caso da Praia do Hermenegildo

No final da década de 1970, o Brasil ainda vivia resquícios dos anos de chumbo da ditadura militar e praticamente desconhecia a expressão “crime ambiental”. Foi nesse período que estas duas situações (ditadura e meio ambiente) se encontraram, depois que um estranho...

ler mais

Os italianos que atravessaram o Atlântico com dois carros flutuantes

Os italianos que atravessaram o Atlântico com dois carros flutuantes

Na década de 1950, o australiano Ben Carlin assombrou o mundo ao cruzar oceanos inteiros – e, por fim, dar a volta ao planeta – navegando com um simples jipe anfíbio, da Segunda Guerra Mundial.

50 anos depois, em 2000, dois jovens italianos, Marco Amoretti, então com 24 anos, e seu amigo, Marcolino de Candia, de 21, repetiram parcialmente o feito dele, mas de uma maneira ainda mais original: atravessaram o Atlântico, das Ilhas Canárias ao Caribe, “velejando” com dois velhos automóveis convencionais, adaptados para flutuar.

Os carros não eram propriamente anfíbios e sim meros objetos flutuantes, já que não tinham motor e só se movimentavam, tanto na água quanto na terra, quando impulsionados pelo vento – ou seja, eram carros que “velejavam”, tanto no mar quanto no asfalto.

Em terra firme, o único meio de propulsão dos dois exóticos veículos, um Ford Taurus 1981 e uma perua Volkswagen Passat 1987, ambos comprados como sucata num ferro-velho, eram paragliders, que, içados as alturas e presos aos veículos através de cabos, movimentavam os carros para onde o vento apontasse – uma mera brincadeira, já que ninguém poderia se locomover assim.

Quer dizer, quase ninguém, exceto o pai de um deles, que foi quem inspirou aquela ousada travessia oceânica.

Mas os ventos não foram o principal meio de locomoção daqueles dois curiosos automóveis flutuantes e seus intrépidos ocupantes, e sim as correntes marítimas predominantes naquela parte do Atlântico.

Foram elas que empurraram os dois bizarros carros/barcos durante todo o percurso, de 3 100 milhas náuticas de mar aberto, que eles cumpriram ao longo de quatro meses, praticamente à deriva, já que os dois automóveis também não tinham lemes, nem nenhum tipo de controle de rumo.

A esperança é que apenas as correntes marítimas conduzissem os dois até o outro lado do oceano, como já haviam feito, no passado, outros aventureiros.

Um deles foi o médico francês Alain Bombard, que, em 1952, também cruzou das Ilhas Canárias para o Caribe com um bote inflável sem nenhum tipo de propulsão e sem água nem comida.

Foi ele que inspirou o pai de Marco, o aventureiro nato Giorgio Amoretti, autor de façanhas fantásticas na terra (como dar meia volta ao mundo com uma Lambretta), na água e no ar, a fazer o mesmo com um automóvel, já que com um barco seria óbvio demais.

Primeiro, Giorgio preencheu o interior dos dois carros com blocos de poliuretano, para que não afundassem.

Depois, adaptou um bote de borracha na capota de cada automóvel, cobriu-os com uma barraca de camping e transformou aquele insólito espaço numa espécie de cabine, onde eles ficariam, durante toda a travessia.

Apenas a “cozinha” (não mais que um fogareiro, no qual esquentariam a comida desidratada que levariam na viagem, reforçada por um ou outro peixe que eventualmente pescassem) e a dispensa ficavam dentro do carro, que era acessado através de um buraco na capota e no fundo do bote.

O plano inicial de Giorgio era fazer a travessia com seus três filhos, Fábio, Mauro e o caçula, Marco, razão pela qual ele preparou dois automóveis.

Mas, na última hora, a descoberta de um câncer em estágio já avançado, tirou Giorgio da viagem.

Seus três filhos, no entanto, mais o amigo Marcolino, foram em frente. Mas não por muito tempo.

Fábio e Mauro não suportaram o desconforto e desistiram da travessia logo após a partida, vítimas de terríveis enjoos, já que os automóveis balançavam o tempo todo.

Mas Marco e Marcolino, não!

Eles seguiram adiante, cada um em um automóvel (mas unidos por um cabo, para não se desagarrarem na imensidão do oceano) e, contrariando todas as expectativas, quatro meses depois, chegaram do outro lado do Atlântico, a mais de 5 000 quilômetros de distância – um feito tão impressionante quanto ignorado até hoje, já que, na época, praticamente ninguém ficou sabendo.

Na água, os dois carros boiavam parcialmente submersos e mais pareciam vítimas de uma enchente.

Mas não afundavam.

E embora fossem automóveis, não se locomoviam a motor e sim a vela, já que não haveria como transportar tanto combustível para a travessia de um oceano inteiro – nem tampouco eles saberiam como transformar um motor terrestre em marítimo.

Um conjunto de velas caseiras presas a uma espécie de andaime, fixado na capota dos veículos, davam aos dois automóveis a aparência de balsas de náufragos, mas impulsionavam os dois carros, sempre que os ventos aumentavam.

No entanto, o principal meio de locomoção daqueles dois esquisitos veículos e seus intrépidos ocupantes foram as correntes marítimas, que atravessam incessantemente das Ilhas Canárias ao Caribe – até porque seus curiosos veículos não tinham volante nem leme e avançavam apenas para onde o mar os levasse.

No caminho, sempre que cruzavam com algum navio, os italianos mandavam mensagens, pelo rádio, pedindo informação sobre a sua localização – como quem para o carro na beira da estrada para perguntar o caminho.

Quando isso acontecia, explicavam que estavam a bordo de dois automóveis, deixando os marinheiros do outro lado intrigados – e como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

E assim eles fizeram.

Até que, 119 depois de terem partido das Ilhas Canárias, Marco e Marcolino tocaram as Antilhas, no Caribe, onde foram recebidos com um misto de curiosidade e perplexidade.

De lá, Marco ligou para casa, a fim de contar a boa nova ao pai.

Foi quando ele ficou sabendo que Giorgio havia morrido dias antes, sem ver a odisseia que ele havia planejado se tornar realidade.

Desde então, Marco Amoretti busca apoio para transformar a estripulia dele e do amigo Marcolino em um filme ou documentário.

“Quero homenagear meu pai”, diz o italiano, que hoje vive Gênova e segue navegando com curiosos automóveis flutuantes.

Gostou desta história?

Ela faz parte do livro HISTÓRIAS DO MAR – 200 CASOS VERÍDICOS DE FAÇANHAS, DRAMAS, AVENTURAS E ODISSEIAS NOS OCEANOS, que por ser comprado clicando aqui (R$ 55,00, com envio gratuito)

 

O estranho caso da Praia do Hermenegildo

No final da década de 1970, o Brasil ainda vivia resquícios dos anos de chumbo da ditadura militar e praticamente desconhecia a expressão “crime ambiental”. Foi nesse período que estas duas situações (ditadura e meio ambiente) se encontraram, depois que um estranho...

ler mais