A brava xerife do mar que não deixa ninguém entrar no único atol do Brasil

A brava xerife do mar que não deixa ninguém entrar no único atol do Brasil

No meio do mar, a cerca de 270 quilômetros da costa do Rio Grande do Norte, existe um lugar absolutamente lindo: o Atol das Rocas, único atol do Brasil (um tipo de ilha rente ao mar que forma uma espécie de lagoa no meio do oceano) e, também, de todo o Atlântico Sul.

O Atol das Rocas é o que de mais perto o Brasil tem do Taiti. Seu mar é incrivelmente azul e com uma quantidade extraordinária de seres marinhos. Seja na beleza ou na riqueza de sua vida marinha, o Atol das Rocas deixa qualquer ilha do Caribe no chinelo.

Mas convém não se animar. Porque ali ninguém pode entrar. Nem mesmo se aproximar com um barco. E quem trabalha 24 horas por dia para que isso nunca aconteça é Maurizélia de Brito Silva, a “Zélia”, como ela prefere, a mais durona – e abnegada – guardiã das áreas de preservação da costa brasileira.

Ninguém conhece esse naco do território brasileiro com cara de paraíso, mar de aquário e absolutamente ninguém por perto, melhor do que Zélia. E ninguém manda ali mais do que ela.

Desde 1991, quando, aos 26 anos, desembarcou no atol pela primeira vez, levada pelo pai, então encarregado do extinto IBDF – Instituto Brasileiro do Desenvolvimento Florestal, Zélia, hoje com o dobro daquale idade, 53 anos, nunca mais fez outra coisa a não ser tomar conta do Atol da Rocas. Com unhas e dentes.

Seu rigor na hora de defender o atol dos pescadores e invasores em geral lhe rendeu até um apelido: “Xerife do Mar”, que ela muito se orgulha.

Rendeu, também, a admiração de todos os biólogos, pesquisadores e ambientalistas em geral. Ninguém jamais foi tão dedicado a tarefa de proteger um pedacinho do mar brasileiro do que a Xerife Zélia – que segue na ativa até hoje como chefe suprema da Reserva Biológica do Atol das Rocas, não tem planos de se aposentar e aí de quem fizer algo errado lá!

“Mexeu no Atol, mexeu comigo”, diz Zélia. “Tenho autorização para portar arma, mas não uso. Prefiro conversar com os infratores. Mas falo grosso. Sempre”, avisa.

No começo de sua cruzada solitária para proteger o Atol das Rocas, sobretudo da pesca, Zélia cansou de ser ameaçada pelos pescadores.

Cortava redes, mergulhava para soltar os peixes enredados e não se intimidava nem quando os mais agressivos vinham para cima do seu precário bote, às vezes com armas em punho.

“Eu morria de medo, porque, se tomasse um tiro ali, no meio do mar, ninguém jamais ficaria sabendo. Mas não afinava nem desistia. Fingia que tinha coragem e ia pra cima deles. O atol sempre foi a minha vida”, diz.

Até hoje, ninguém pode visitar o Atol das Rocas, que fica a mais de 20 horas de barco da capital do Rio Grande do Norte. Já Zélia vai para lá três ou mais vezes por ano. E, a cada incursão, fica mais de um mês no Atol.

No começo, ia sozinha. “Hoje ficou bem mais fácil encarar a solidão, porque já tem até internet lá. Mas, no começo, eu cheguei a passar fome e sede, quando acabava a água de beber e o gás do fogareiro. Era um sofrimento só. Mas nunca me arrependi”, conta.

“Também nunca comi um peixe tirado do mar do atol. Tem peixe lá que eu acompanho o crescimento há mais de dez anos. Graças a Deus, isso é possível”, vibra a Xerife Zélia. E até os pescadores concordam que, se ela não existisse, o Atol das Rocas há muito teria deixado de ser o que é até hoje.

O Atol das Rocas fica numa posição estratégica de correntes marítimas e é uma espécie de criadouro marinho natural – daí ter virado área de proteção ambiental.

Os peixes gerados lá abastecem toda a região. Mas quem for pego pescando nas imediações do atol vai ter que se entender com Zélia, que está sempre de plantão, na internet, analisando imagens via satélite, ou encarapitada no alto do farol que há no atol, em busca de barcos invasores no horizonte.

No entanto, barcos com problemas são permitidos e até auxiliados, na medida do possível. Já pesqueiros viraram raridades na área. Depois que Zélia assumiu, ninguém mais pesca na área do atol.

Zélia admite que, se não tivesse tido pulso forte desde o princípio, a fauna marinha do atol já estaria seriamente comprometida. Mas diz que fez isso movida, sobretudo, pelo idealismo.

“Um dia, eu decidi que ia cuidar do Atol como se ele fosse meu. Fiz até empréstimo no banco para pagar, do meu bolso, as despesas das viagens para lá. Hoje, quando vejo como aumentou a quantidade de peixes, lagostas, tartarugas e tubarões nas piscinas do Atol, vejo como tudo valeu a pena”.

O Atol das Rocas não é para todo mundo não apenas na questão jurídica – já que, pela lei, reservas biológicas têm acesso totalmente proibido. Embora lindo, o atol em si é bem inóspito.

A vida no pedaço menos conhecido da costa do Brasil é dura. Bem dura. A começar pelo fato de que o Atol das Rocas, embora cercado de mar por todos os lados, não tem água potável.

É preciso trazer água doce do continente ou torcer para chover. Banho? Só de água salgada. E banheiro é o próprio mar – até hoje.

“No começo era bem pior”, consola-se Zélia. “Vivi quase três anos dentro de uma barraca de camping, enxotando baratas e escorpiões, porque a Reserva não tinha sequer uma sede. Hoje, está bem melhor. Mesmo assim, são poucos os pesquisadores que aguentam ficar lá um mês inteiro, até o barco vir buscá-los de volta”.

Velejadores, de vez em quando, aparecem. E, quando isso acontece, Zélia vai até o barco, explica que pode ancorar ali, mas pergunta se está tudo bem a bordo. Se estiver, manda o pessoal embora. É a sua obrigação.

Zélia chegou a cursar Ciências Sociais e Biologia, mas não terminou nenhuma das duas faculdades, porque faltava demais as aulas, por causa justamente do Atol. “Acabei me formando em ´atologia´”, brinca.

O prêmio, para ela o maior de todos, foi ter sido homenageada pelos pesquisadores, que colocaram o seu nome em duas novas espécies já encontradas no Atol. “Quando eu não estiver mais aqui, ainda assim ficará algo meu lá”, diz, orgulhosa.

No Brasil, a dedicação da Xerife do Mar só tem paralelo com a de outra abnegada brasileira, a arqueóloga Niède Guidon, que também tem dedicado sua vida ao estudo de pinturas rupestres no interior do Piauí, que retratam o passado do povo brasileiro – e ambas têm o mesmo comportamento firme e irredutível quando se trata de proteger o território no qual dedicaram a vida inteira.

Não por acaso, ambas foram premiadas. A arqueóloga com uma comenda da Unesco e Zélia com um prêmio dado aos brasileiros que fazem diferença na transformação do mundo.

Nos Estados Unidos, contudo, a história da ambientalista potiguar encontra paralelo em outra heroína do mar, embora em outro sentido.

No final do século 19, a americana Ida Lewis tornou-se não apenas a mais jovem faroleira da História, com apenas 16 anos de idade, como foi a primeira mulher a receber a mais alta condecoração do Congresso Americano, além de ter sido eleita “A Mais Brava Mulher da América”, pelos resgastes que promoveu no mar, com um simples barco a remo – uma história igualmente extraordinária, que pode ser conferida neste site, clicando aqui.

O patético naufrágio do submarino brasileiro

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Escada com 15 metros de altura, pouquíssimo espaço e nenhum conforto. Como é navegar em um submarino

Escada com 15 metros de altura, pouquíssimo espaço e nenhum conforto. Como é navegar em um submarino

Você se enfia numa escotilha pouco maior do que uma privada, olha para baixo e vê um apertado tubo vertical, que desce a perder de vista e mais parece um poço. Pelo menos, a altura é de um poço de verdade: 15 metros, o mesmo que um prédio de cinco andares.

 

A escadinha também não ajuda muito. É estreita, não permite dobrar as pernas e os ombros vão raspando nas laterais do cilindro de aço. Um ser mais rechonchudo certamente entalaria. Um mais medroso, nem tentaria. Ao descer, a impressão é que se você soltar as mãos da escadinha, que mais parece coisa de alpinista, despencará lá embaixo – e cairá mesmo.

 

Vencido o primeiro desafio, vem outro: a claustrofobia. Um submarino é um tubulão de aço tão hermeticamente fechado quanto um cofre. E tão apertado quanto um ônibus lotado. A bordo, não há espaço sobrando para nada. Tudo é compactamente encaixado e todos os espaços são milimetricamente aproveitados.

 

Também para economizar espaço, quase tudo a bordo tem mais de uma função. A mesa de refeições vira maca, se necessário, já que o refeitório é, também, enfermaria. Nem seria tão estranho assim se o ambiente não ficasse bem aos lados dos torpedos – sim, torpedos, porque todo submarino é, acima de tudo, uma nave de guerra. Mesmo que não exista combate algum à vista.

 

Submarinos são as embarcações menos conhecidas pelas pessoas, no mundo inteiro. A começar pelo fato de que foram feitos justamente para não serem vistos.

 

Mesmo assim são considerados “barcos” (ou “navios”, como preferem chamar os seus tripulantes), embora feitos para afundar em vez de flutuar. Só quando um submarino desaparece debaixo d´água é que ele começa, de fato, a cumprir o seu papel de navegar escondido. É uma máquina assustadora e fascinante, ao mesmo tempo.

 

– Quando vamos afundar? – fui logo perguntando ao comandante, tão logo embarquei.

– Espero que nunca – ele respondeu, enigmático.

 

É que a pergunta foi formulada errada. Submarinos não “afundam” – eles “submergem”. Quando um submarino “afunda”, é o fim. Como qualquer barco.

 

Foi minha primeira lição a bordo. A segunda é que, dentro de um submarino, tudo é tão apertado quanto a tal escadinha de acesso às entranhas daquele monstro fechado de aço.

 

Como os espaços são pra lá de acanhados, os esbarrões a bordo são inevitáveis, o que implica em permanentes pedidos de desculpas, especialmente quando a vítima é o comandante, que ali não tem como manter o habitual distanciamento dos seus subordinados – em um submarino não há espaço sequer para muita hierarquia.

 

Para complicar ainda mais a locomoção interna, as paredes são revestidas com um mar de válvulas, registros, manômetros e tubos salientes, capazes de dilacerar ombros e canelas de qualquer tripulante mais estabanado.

 

Há válvulas e registros em profusão até ao lado do vaso sanitário – um só para todo o submarino, por sinal, embora ele abrigue mais de 30 homens, muitas vezes por dias a fio. Não existe convivência mais intensa e estreita. Literalmente.

 

O piso (convés?) fica sobre nada menos que 480 baterias elétricas, cada uma com meia tonelada de peso, que são as responsáveis pela movimentação do hélice – sim um submarino é um barco elétrico, embora também possua motor a diesel, mas apenas para recarregar as próprias baterias.

 

Quando é preciso ligá-lo, o submarino sobe e lança uma espécie de tubo na superfície, por onde saem os gases do escapamento. Outro tubo, chamado de ”snorkel”, é responsável por sugar ar fresco lá de fora para renovar o oxigênio a bordo. De tempos em tempos, é preciso fazer as duas coisas. Mas nem para isso ele precisa emergir.

 

Submarinos existem desde o final do século 19 (o primeiro da Marinha do Brasil foi de 1910!), mas são raramente vistos, por razões óbvias. Na América do Sul, o Brasil tem a maior frota: apenas seis, incluindo o que Riachuelo, que foi lançado recentemente e ainda nem navegou.

 

Por isso, a súbita aparição no mar de um submarino é sempre um misto de susto e surpresa – como um monstro marinho que emerge das profundezas. Ou uma espécie de nave às avessas, que vem do fundo do mar em vez do espaço. Ninguém fica indiferente frente a um submarino.

 

Por isso, quase ninguém sabe nada sobre estes incríveis ”navios”, feitos para navegar onde nenhum barco convencional gostaria de estar – debaixo d´água. Eu era um deles.

 

Enquanto era assolado por dúvidas mundanas (será que no fundo do mar pega celular?; será que eu deveria ter vestido máscara e pé de pato?; e se alguém soltar um pum lá dentro?), fui descendo a tal escadinha, até que pisei num corredor igualmente apertado, que era a síntese do próprio submarino, o Tupi, um dos mais veteranos da Marinha Brasileira – porque, a bordo, não existe muito mais do que aquele simples corredor.

 

Uma vez dentro dele, tanto faz se há sol ou chuva na superfície, se é dia ou noite, se a região é feia ou bonita ou se o mar está bom ou ruim. A bordo, o ambiente nunca muda. É tranquilo, silencioso e sem visibilidade alguma.

 

Quem está dentro de um submarino não enxerga nada do mundo exterior, porque, afinal, não existem janelinhas. Só o periscópio que, por sinal, é sensacional. Você ficaria surpreso com o extraordinário alcance daquele pirolitinho na superfície do mar. Dá para ver até a cor da camisa dos pescadores num barco a quilômetros de distância.

 

Mesmo assim, a pilotagem de um submarino é sempre feita apenas por instrumentos, como um avião em dia de mau tempo. Aliás, a analogia com os aviões é pertinente, porque embora transitem num ambiente diametralmente oposto ao das aeronaves, os submarinos estão muito mais próximos da concepção de um Boeing do que um navio convencional.

 

Tem, por exemplo, manche (ou joystick) em vez de timão, necessidade de controlar também o “movimento vertical”, que nenhum navio exige, e, se alguém enjoar, tampouco dá para ir lá fora “tomar um ar fresco”.

 

Diante do piloto (que, num submarino, é chamado de “piloto” mesmo) há uma tela que vai exibindo, em números, o rumo a seguir, informação que é passada, também, em voz alta, de um tripulante para outro, com dois detalhes: todas as ordens são repetidas duas vezes (“Emergir!”, “Emergir!”, por exemplo) e quem as recebe repete uma vez mais (“Emergir!”), para deixar claro que entendeu o comando.

 

A navegação também é acompanhada à moda antiga, com lápis, réguas e compassos, riscados sobre uma carta náutica em papel, para o caso de alguma pane elétrica nos instrumentos de navegação.

 

Precisão é tudo em um submarino. Segurança, também. Ninguém a bordo confia apenas na tecnologia. A atmosfera na sala de comando é de filme de 007, com homens monitorando os instrumentos a todo o instante, sob alarmantes luzes vermelhas iluminando o ambiente. Você se sente como num filme de ação. Ou de terror, para os claustrofóbicos.

 

Depois de visitar a tal sala de comando (que é apenas uma extensão do tal corredor que sintetiza o barco inteiro, caminhei (meia dúzia de passos, não mais que isso) até a “praça de armas”, como é chamada a única área “social” de um submarino – que, por sua vez, não passa de um cubículo com a tal mesa-maca ao lado dos torpedos.

 

Ali, naquele dia, dois marinheiros relaxavam assistindo a um filme na televisão, enquanto aguardavam os seus turnos de trabalho. Ao lado, outro dormia num beliche quase nada mais largo do que ele próprio. E, da cozinha, vinha um cheiro gostoso de comida feita na hora. Ou seja, um ambiente tipicamente familiar. Só que 20 metros debaixo d´água.

 

É uma sensação esquisita saber que você está debaixo d´água e que ela está, o tempo todo, tentando entrar onde você está. Eu tentava não pensar muito nisso, determinado a desembarcar tão seco quando quanto embarquei naquele submarino, porque, se isso acontecesse, era um sinal inequívoco de que o passeio fora bem-sucedido.

 

Até que vi um marinheiro passar, um tanto apressado, com um balde nas mãos. “Êpa!”, pensei. Seria um vazamento? Um furo no casco? Uma escotilha mal fechada (sim, já aconteceu no passado e com um submarino da própria Marinha do Brasil, que afundou pateticamente junto ao cais, por uma falha no sistema hidráulico – clique aqui para ler esta história também).

 

Mas não era nada disso. Era apenas o chuveiro do banheiro que pingava. Respirei aliviado. Mas só até concluir que, para sair dali, teria que vencer os mesmos 15 metros de altura daquela escadinha suicida que tive que enfrentar na chegada. E, de novo, foi uma experiência sinistra.

 

Voltar ao mundo real da superfície foi a pior parte daquele passeio, de resto, inesquecível.

 

Foto: Mozart Latorre

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Levado pelo mar: o francês que está cruzando o Atlântico à deriva, dentro de um barril

Levado pelo mar: o francês que está cruzando o Atlântico à deriva, dentro de um barril

Neste exato momento, em algum ponto quase no meio do Atlântico, um homem está tentando atravessar o segundo maior oceano do planeta de uma maneira inédita e insólita: dentro de uma espécie de barril – uma cápsula feita de material resistente, mas sem velas, nem motor nem nenhum tipo de propulsão, que avança empurrada apenas pelo vento e pelas correntezas.

Loucura? Não é o que pensa o navegador e aventureiro francês Jean-Jacques Savin, dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível. Ou seja, sendo levado pelo próprio oceano, dentro de uma espécie de gigantesca rolha, sem nenhum tipo do comando ou controle.

“Não serei o capitão de um barco e sim um simples passageiro do oceano. Ele me levará para onde quiser”, disse Savin ao partir das Ilhas Canárias, no último dia 26 de dezembro (portanto exatos dois meses atrás) rumo ao Caribe, onde ele pretende chegar dentro de mais dois meses – ou mais, se as correntes marítimas que estão empurrando o seu barril não ajudarem.

“Não sei onde vou chegar, mas deve ser em Barbados ou Martinica”, arrisca o francês, que, para isso, escolheu uma região onde as correntes marítimas são favoráveis e cruzam de um lado a outro do oceano, embora ventos contrários e mudanças de correntezas sejam sempre possíveis.

“Até aqui, está indo tudo bem”, diz Savin, que se comunica quase que diariamente com o mundo exterior através da sua página no Facebook, graças aos equipamentos eletrônicos (alimentados por uma placa de energia solar) que há no seu barril de fibra de vidro, que ele mesmo construiu e que batizou com um nome bem-humorado: OFNI – iniciais de “Objeto Flutuante Não Identificado”, uma brincadeira com os OVNIs do espaço.

“Meu OFNI tem capacidade para suportar ondas e até eventuais choques com baleias”, garante. No começo, no entanto, o francês enjoou bastante, pelos constantes balanços do seu exótico “barco”, que vai para onde o mar – e só o mar! – quiser.

O mais curioso, no entanto, é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo. Ele é ex-paraquedista, ex-piloto de aviões, ex-guarda de parques de animais selvagens na África e também tri-atleta, e já atravessou o Atlântico navegando quatro vezes – mas, até aqui, sempre com barcos convencionais.

Empurrado apenas pelos ventos e correntes marítimas, Savin tem avançado a uma velocidade média de apenas 2 ou 3 km/h (menos do que uma pessoa caminhando) e assim pretende chegar ao Caribe, a 4 500 quilômetros de distância.

Mas ele não tem pressa, até porque, mesmo que quisesse, nada poderia fazer para acelerar sua jornada. “Passo o tempo lendo, escrevendo, pescando, checando o barril e lançando marcos na água, para ajudar uma instituição oceanógrafa a analisar as correntes marítimas”, diz. “De vez em quando, também me exercito, nadando ao lado do barril, mas preso a ele por uma corda”.

Quando a natureza ajuda, o francês consegue avançar quase 100 quilômetros por dia, embora nem sempre na direção desejada.

No início da jornada, seu barril foi empurrado pelas ondas e pelo mau tempo na direção norte, contrária ao seu objetivo. Mas, depois, retomou sozinho o rumo do Caribe. “No começo, a navegação não foi boa, mas o que isso importa? Eu não podia mesmo dar meia-volta”, disse bem-humorado.

Nos últimos dias, Savin voltou a viver o drama de ver seu barco-barril ser levado para o lado contrário e, depois, ainda ficou navegando em círculos, sem sair do lugar. Mas, uma vez mais, após alguns dias de retrocesso, retomou o rumo do Caribe.

Outro susto aconteceu na semana passada, quando dois navios passaram bem próximos de Savin. Um deles, tão perto que o francês conseguiu avistar um homem no convés – embora o seu barril não tenha sido visto pelo navio.

Só quando Savin, temendo ser atropelado, chamou o navio pelo rádio é que o comandante do cargueiro tomou conhecimento dele. Em seguida, os dois conversaram por alguns minutos, antes que o sinal de rádio sumisse. “Aquela breve conversa com outro ser humano, no meio do oceano, me deixou emocionado”, escreveu Savin no Facebook. Na véspera, ele havia visto baleias nas proximidades do seu curioso “barco”.

O barril-navegador de Savin tem três metros de comprimento por 2,10 m de diâmetro, uma cama, uma pia (com água extraída do mar e dessalinizada), um fogareiro, um assento e um compartimento onde ele guarda o estoque de comida liofilizada, um tipo de alimento desidratado, que ele leva em quantidade suficiente para cerca de três meses no mar. Tem, também, uma escotilha de acesso e três janelas, uma delas no fundo do casco, para ele poder observar os peixes que passam.

Eventualmente, ele também pesca, para aumentar o estoque de comida a bordo.

A ideia de Savin de atravessar o oceano totalmente à deriva, dentro de um cilindro fechado, veio de uma velha – e ainda mais insana – maluquice: a de atirar nas Cataratas de Niágara, a mais famosa cachoeira dos Estados Unidos, dentro de um barril de madeira, algo que, no passado, muitos fizeram e poucos sobreviveram para contar a história.

Mas, até agora, com o septuagenário Savin vem dando tudo certo.

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A heroica faroleira que salvava vidas desde menina

A heroica faroleira que salvava vidas desde menina

A americana Ida Lewis tinha apenas 16 anos de idade quando, em 1857, assumiu o controle do farol de uma pequena ilha na entrada do porto de Newport, no estado de Rhode Island, tornando-se a mais jovem faroleira da História.

Mas não foi isso o que a tornou famosa e sim os salvamentos que ela promoveu, ao longo dos 57 anos em que viveu praticamente sozinha na pequena ilha de Lime Rock, onde ficava o farol sob sua responsabilidade.

O primeiro ato heroico de Ida Lewis aconteceu quando ela ainda tinha 12 anos de idade e havia acabado de se mudar para a ilha do farol com sua mãe e seu pai, então o faroleiro oficial.

Um barco com quatro homens a bordo virou na entrada da baía e Ida, já então uma exímia nadadora e remadora, os resgatou no mar, com a ajuda de seu pai.

O resgate foi feito com o único barco que a família possuía, um pesado bote a remo, que Ida manejava com incrível destreza, nas frequentes travessias até o porto, em busca de suprimentos para a família e para o farol. Nem de longe ele parecia uma criança.

Sua responsabilidade aumentou ainda mais quando, apenas meses após assumir o farol, seu pai sofreu um derrame cerebral e se tornou incapacitado para o trabalho.

Sua mãe, então, assumiu as funções de faroleira, mas não por muito tempo. Vítima de câncer, ela também logo adoeceu e todas as funções do farol passaram a ser desempenhadas por Ida, então apenas uma menina.

Cabia a ela não apenas cuidar da mãe doente e do pai incapaz de se movimentar como, também, fazer as funções de faroleira, repondo duas vezes por noite o óleo que gerava a chama que iluminava o farol, além de escalá-los diversas vezes por dia, em busca de náufragos que precisassem de ajuda na entrada da baía.

Numa dessas ocasiões, protagonizou o feito que a tornaria uma verdadeira heroína e a primeira mulher a receber uma medalha por bravura.

Em 29 de março de 1869, durante uma violenta tempestade de neve, um barco com dois soldados que se dirigiam a um forte nas proximidades capotou, lançando as duas vítimas na água.

Ida, então com 27 anos e já órfã de pai e mãe, viu a cena do alto do farol e imediatamente correu para o bote a remo.

Apesar do frio congelante – e de não ter sequer passado em casa para pegar mais casacos -, ela remou até os náufragos e os recolheu da água, já em estado de quase inconsciência causado pela hipotermia. Ambos sobreviveram, graças a coragem e iniciativa da jovem.

Pelo feito, Ida tornou-se a primeira mulher a receber a Medalha de Honra do Congresso Americano, bem como o título de “A Mais Brava Mulher da América”, honraria que manteve até o fim da vida.

Estima-se que ela tenha salvo 18 vidas enquanto trabalhou como faroleira solitária na ilha Lime Rock, o que fez durante sua ida inteira.

Quando Ida morreu, também de derrame, em 25 de outubro de 1911, aos 69 anos (apenas seis após fazer seu último resgate a remo, aos 63 anos), todos os navios do porto de Newport apitaram, em sua homenagem.

Em seguida, o farol de Lime Rock foi rebatizado com o seu nome, bem como o clube náutico da cidade, que passou a se chamar Ida Lewis Yacht Club – nome que mantém até hoje.

No ano passado, veio a mais recente homenagem: Ida Lewis tornou-se a primeira mulher a batizar uma alameda no lendário cemitério de Arlington, onde repousam os grandes heróis americanos – embora o seu corpo tenha sido enterrado em Newport, onde virou visita quase obrigatória.

A mais jovem faroleira que se tem notícia foi, acima de tudo, uma grande heroína.

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O primeiro erro foi realizar a operação à noite – e não durante o dia, como recomendado. E o segundo, comandá-la de dentro do próprio submarino, e não de fora, o que tornou impossível monitorar visualmente a linha d´água do casco.

Segundo a Marinha, o problema aconteceu “por uma falha no sistema hidráulico de controle de válvulas”, que fez com que os tanques de lastro não recebessem nenhuma injeção de ar, só de água. Mas foram abertos mais de um tanque ao mesmo tempo, o que também contrariava as normas.

Por fim, o erro mais grave: uma das escotilhas foi deixada aberta, o que fez a água invadir o interior do submarino, quando o peso dos lastros atingiu o limite máximo.

Apesar das dimensões do acidente, não houve vítimas – até porque apenas um metro separava o submarino do cais, e todos os tripulantes só tiveram que dar um passo para atingir a terra-firme. Nem tampouco punição aos envolvidos naquela desastrada operação.

Seis meses depois, após ser içado do fundo do cais, o Tonelero S21 foi desativado e vendido como sucata.

Foto: Poder Naval

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Despencar dentro de um barril. A suicida tradição das Cataratas do Niágara

Despencar dentro de um barril. A suicida tradição das Cataratas do Niágara

Em outubro de 1901, a professora aposentada americana Annie Edson Taylor, então com 63 anos, teve uma ideia insana para ficar rica e famosa: entrar num barril de madeira e se deixar levar pela correnteza até a maior e mais famosa cachoeira dos Estados Unidos, as Cataratas do Niágara, de 50 metros de altura, na fronteira com o Canadá. E foi o que ela fez, depois de fazer um teste, enviando, primeiro, o seu gato. E ambos sobreviveram.

Famosa, aquela aloprada professora, que passou a ser chamada de a “Heroína das Cataratas do Niágara”, realmente ficou – rica, nem um pouco. Mesmo assim, sua estripulia quase suicida deu início a uma verdadeira mania: a de se atirar cachoeira abaixo na quarta maior queda d´água do mundo em volume de água, mais até do que as Cataratas do Iguaçu, só para ver o que acontece.

Até hoje, intencionalmente, 17 malucos já fizeram isso – outros tantos também despencaram de propósito, mas como puro suicídio. Nem todos, porém, tiveram o mesmo sucesso daquela professora pioneira.

O segundo a experimentar a doida sensação de despencar de uma altura de 20 andares sob um turbilhão de toneladas de águas furiosas, o também americano Bobby Leach, até que teve sorte: foi resgatado “apenas” com o maxilar e os dois joelhos quebrados e passou seis meses hospitalizado.

Já, do terceiro, tudo o que se conseguiu recuperar foi seu braço direito, ainda preso às tiras que ele havia instalado dentro do barril para (tentar) se segurar durante a queda. E o seguinte foi ainda pior: o barril de George Stathakis ficou preso atrás da cortina d’água da cascata, girando alucinadamente durante 18 horas, até que seu corpo pode ser recuperado – totalmente triturado.

Desde então, saltar nas Cataratas do Niágara passou a ser crime sujeito a pesada multa, tanto no lado americano quanto no canadense, este o favorito dos candidatos a defuntos, já que tem menos pedras no fundo. Mesmo assim, elas continuaram acontecendo.

Quinze anos atrás, o americano Kirk Jones se atirou na água sem proteção alguma – sequer dentro do icônico barril. E, contrariando todas as probabilidades, também sobreviveu, com apenas algumas costelas quebradas.

Mas a mesma sorte não teve o remador Jesse Sharp, que, depois de ter sido impedido pela família, que chamou a polícia e impediu a tentativa, voltou dez anos depois às Cataratas de Niagara e, desta vez, conseguiu o seu intento: despencou da cachoeira a bordo de um insólito caiaque. Seu corpo jamais foi encontrado.

Foto: Reprodução

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