As muitas histórias da lendária Ilha dos Gatos

As muitas histórias da lendária Ilha dos Gatos

Reza a lenda que, na década de 1950, o bilionário americano Nelson Rockfeller, que chegaria a ser vice-presidente dos Estados Unidos, passou a procurar um lugar para se abrigar no caso de um eventual conflito nuclear global.

E teria escolhido — vejam só — uma pequena ilha no litoral norte de São Paulo: a Ilha dos Gatos, bem diante de Boiçucanga, que, por sua vez, na época, não passava de um povoado ignorado até pelos mapas.

A ilha, em seguida, ganhou uma casa, que tinha até biblioteca.

Mentira?

Só em parte…

A tal intrigante casa na Ilha dos Gatos existiu de fato, como comprovam as suas ruínas, no topo da ilha, hoje envolvidas pela mata.

Mas ela jamais pertenceu a Rockfeller.

Pelo menos não ao famoso figurão, que jamais esteve lá.

Já a sua filha…

Daisy Rockfeller, filha do famoso bilionário, foi casada com o americano Richard Aldricht, que tinha negócios no Brasil.

E foi para Aldricht que o arquiteto Julian Penrose construiu aquela casa na Ilha dos Gatos, que, no entanto, pouco foi usada pelo casal — e jamais visitada pelo famoso sogro de Aldricht.

Quem usou de fato a casa durante algum tempo foi o próprio arquiteto Penrose, que acabaria virando principal personagem de uma história que ganhou contornos ainda mais instigantes quando um acidente ao desembarcar na própria ilha lhe custou a vida: o barco virou e ele foi prensado entre o casco e as pedras da praia – uma ironia, já que para construir a casa, Penrose havia retirado muitas pedras de lá.

Após o trágico episódio, a ilha foi abandonada pela família Penrose, bem como por todos os outros envolvidos na sua curiosa história.

Até que, anos depois, o paulista Caio Rodrigues Rego passou a tomar conta da ilha, na condição de caseiro, e ali, de certa forma, vive até hoje – sozinho.

“A ilha nada tem de misteriosa ou maldita, como o pessoal fala por aí. Pelo contrário, ela é linda”, diz Caio, que após tanto tempo habitando a Ilha dos Gatos (que, por sinal, jamais teve gato algum – “o nome certo é ‘Ilha do Gato’, por causa do seu formato”, garante Caio), passou a pleitear o direito sobre ela, depois que uma tentativa frustrada de leilão, promovido por um procurador de Aldricht, resultou na volta da ilha à União.

Ele alega, entre outros motivos, que ali nasceu o filho de sua ex-mulher – que, no entanto, não era dele.

“O menino foi fruto do relacionamento da minha ex-mulher, que eu pouco via, porque preferia ficar sozinho na ilha, com um amigo meu, que continuou sendo meu amigo”, explica o antigo caseiro, sem o menor ressentimento.

“Ele nasceu acidentalmente, durante uma visita da minha ex-mulher, e se tornou o único filho legítimo da ilha”, conta Caio.

Mas isso já é outro caso e, pelo menos este, nada tem de lenda.

A Ilha dos Gatos continua rendendo boas histórias.

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Foto Leandro Saadi
André Cavallari, leitor

 

O submarino que testemunhou uma barbárie

O submarino que testemunhou uma barbárie

O dinamarquês Peter Madsen sempre foi um homem estranho, engenhoso e irrequieto.

No início dos anos 2000, em busca de fama, decidiu que construiria um foguete doméstico e quase concluiu a obra.

Só não o fez porque, no meio do caminho, mudou radicalmente de objetivo e passou a construir um submarino.

Em 2008, o engenho ficou pronto.

Era o Nautilus, o maior submarino privado do mundo, com 18 metros de comprimento.

Madsen teve, então, os seus 15 minutos de fama.

Mas nada perto do que aconteceria com ele nove anos depois: um dos mais pavorosos crimes da história recente da Dinamarca – país que é um reino de paz e segurança.

Em 10 de agosto de 2017, a jornalista sueca Kim Wall, embarcou no submarino de Madsen, para fazer uma reportagem sobre a sua criativa máquina.

E nunca mais foi vista com vida.

Tudo o que surgiu da jornalista nas semanas seguintes foram macabros pedaços do seu corpo boiando no mar da Dinamarca dentro de sacos plásticos, que Madsen, após esquartejá-la, dentro do submarino, tentou fazer com que afundassem, colocando pesos nas embalagens.

Primeiro surgiu o torso, sem cabeça nem membros, e com perfurações nas costas para que o ar retido dentro dos pulmões da vítima não o fizesse flutuar – além de diversos esfaqueamentos na genitália.

Depois, a cabeça e as pernas, seguida pelos dois braços.

Preso imediatamente, Madsen, a princípio, negou o crime, dizendo que havia desembarcado a jornalista no mesmo dia da reportagem.

Mas, depois, admitiu que ela havia morrido a bordo, mas por conta de um acidente com a escotilha de acesso do submarino, que havia caído sobre sua cabeça.

Mais tarde, ele mudou novamente a versão do acidente para intoxicação por monóxido de carbono na cabine, enquanto ele pilotava o submarino no topo da torre.

Por fim, admitiu ter decapitado, esquartejado e atirado os restos da vítima ao mar – mas não a matado.

Claro que não convenceu ninguém.

A pavorosa história do genial (afinal, não é todo mundo que conseguiria construir um foguete e um submarino em casa), mas desequilibrado Madsen naquele dia ainda incluiu uma tentativa de suicídio, através do naufrágio proposital do próprio submarino.

Mas, na última hora, após já ter aberto algumas válvulas do casco, ele se arrependeu do gesto e pediu socorro a Guarda Costeira dinamarquesa, que o resgatou e, mais tarde, também ergueu o próprio submarino do fundo da baía de Koge – mas já sem nenhum sinal da jornalista.

Ao ser questionado sobre o motivo do naufrágio, Madsen respondeu com outra de suas mentiras: disse que, após desembarcar a jornalista num restaurante à beira-mar em Copenhagem, enfrentou problemas nos tanques de lastro.

O que, de fato, aconteceu dentro daquele submarino (se violência sexual, sadismo, acidente seguido de ocultação de cadáver ou pura e simples execução, movida pela mente doentia de Madsen) só mesmo ele poderia dizer.

Mas não disse.

Nem mesmo após ser condenado a prisão perpétua, num julgamento que comoveu a Dinamarca, em 2018.

Já o Nautilus, depois de transformado em peça de processo criminal, foi abandonado em um terreno da polícia de Copenhagem e continua lá até hoje, como única testemunha de um crime mais que bárbaro.

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A incrível história dos sete jovens que “morreram” no mar mas voltaram à vida

A incrível história dos sete jovens que “morreram” no mar mas voltaram à vida

Fazia bastante frio na manhã de 11 de fevereiro de 2011, quando um grupo de 13 alunos de uma escola da Dinamarca, com idades em torno dos 15 anos, saiu para remar nas águas do fiorde Praesto com um barco fino e comprido, usado para treinamento coletivo, na companhia de dois professores.

O objetivo era quebrar o recorde de outra escola, naquela mesma travessia. Mas o que eles acabariam batendo seria outro recorde muito mais impressionante: o da mais extraordinária ressuscitação de vítimas de hipotermia que se tem notícia.

Por volta das 11h30 daquela manhã, quando o vento aumentou ainda mais de intensidade, o barco perdeu estabilidade e virou, lançando na água seus 15 ocupantes – nem todos equipados com coletes salva-vidas.

Imediatamente, um dos professores deu ordem para que todos os alunos nadassem na direção da margem, que ficava a algumas centenas de metros de distância.

Como era inverno, a temperatura da água não passava dos dois graus centígrados e havia, inclusive, blocos de gelo boiando na superfície. Nadar, portanto, era a melhor maneira de tentar manter o corpo levemente aquecido, através do esforço físico.

Nem todos, porém, conseguiram fazer isso. Sete alunos e um dos professores ficaram trancados debaixo do barco emborcado. E inertes, na água congelante.

O primeiro aluno, uma menina chamada Katrina, só conseguiu chegar na margem do fiorde mais de uma hora depois, em estado de choque e pálida feito um cadáver – mas viva. E ainda teve que caminhar por uma floresta, até dar em uma estrada, onde pediu ajuda.

O socorro chegou rápido, de helicóptero, a tempo de recolher outros seis sobreviventes, incluindo o professor que dera a ordem de nadar a qualquer custo. Restavam, porém, oito pessoas desaparecidas.

Sete delas, todos jovens alunos, foram encontrados em seguida, debaixo do barco emborcado, sem sinais vitais, mas boiando, graças aos coletes salva-vidas. Já o segundo professor, o único do grupo que estava sem colete no instante do acidente, não.

Seu corpo só seria encontrado um mês e meio depois, congelado e em um estado não muito diferente dos outros sete estudantes resgatados debaixo do barco – todos, também, aparentemente mortos.

Quando foram retirados da água, duas horas após o acidente, os corações daqueles sete jovens não mais batiam, eles não respiravam e a temperatura dos seus corpos estava abaixo dos 17 graus. Estavam, portanto, clinicamente mortos. Mas não era bem assim.

Como eles não tinham se afogado, graças aos coletes salva-vidas, havia uma chance remota de que aquela hipotermia severa pudesse ter “desativado” o organismo, diminuindo o metabolismo ao mínimo, a fim de preservar os órgãos vitais, o que já havia acontecido antes com um ou outro náufrago em águas congelantes – embora fosse pouco provável que todos tivessem tido aquela rara sorte.

Transportados às pressas para um hospital em Copenhagen, os médicos começaram, então, um delicado processo para tentar trazer os alunos de volta à vida, através do aquecimento gradual do sangue nos seus corpos. A cada dez minutos, era aumentado um grau na temperatura corporal, num lento, gradual e angustiante processo.

A tentativa foi acompanhada, com aflição e sofrimento, pelo país inteiro, e com certa incredulidade pelos leigos. Mas os médicos acreditavam que a ressuscitação poderia ser bem-sucedida, pelo menos em algumas das vítimas. Até porque era a única coisa que eles podiam tentar.

Quatro horas depois – e seis após o acidente -, o coração de um daqueles sete jovens voltou a bater. Em seguida, o de outro. E de um terceiro, seguido por outro, outro, outro e mais outro – um a um, mas quase ao mesmo tempo, todos aqueles sete adolescentes, que já haviam sido dados como mortos, foram abrindo os olhos.

E sem sequer sequelas neurológicas, embora, sem oxigenação, morram cerca de dois milhões de neurônios por minuto no corpo humano.

Dias depois, eles já estavam de volta às suas casas, com uma extraordinária história para contar: a de como voltaram à vida, no maior e mais emocionante processo de ressuscitação coletiva que já se viu nos mares.

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A curiosa vida do pirata que não era o que parecia ser

As espadas dos dois piratas zuniam freneticamente no ar, enquanto um tentava atacar o outro e determinar a sorte daquele duelo, que ficava cada vez mais feroz.

Até que, num lance inesperado, um dos duelantes rasgou a própria roupa e exibiu o peito nu ao adversário.

Surpreso com o que viu, o oponente ficou sem ação e foi imediatamente abatido pelo pirata da camisa rasgada – àquele que, ao fazer isso, deixara à mostra nada menos que um par de seios…

O truque de mostrar o peito nu para desconcertar os oponentes entrou para a história como uma espécie de marca registrada da inglesa Mary Read, a mais famosa e ardilosa corsária dos anais da pirataria.

E ajudou a rechear ainda mais a sua curiosa trajetória.

Desde pequena, Mary Read, nascida na Inglaterra, em 1685, habitou-se a usar roupas masculinas e a se portar como um menino, porque sua mãe a forçava a fazer isso.

Viúva de um marinheiro inglês que foi para o mar e nunca mais voltou, deixando-a com um filho doente, que logo morreria, a mãe de Mary, que tivera a menina após a partida do marido, como consequência de uma aventura extraconjugal, teve a ideia de fantasiar a menina de menino e fazê-la passar pelo filho morto, a fim de pedir ajuda financeira a sogra, que jamais havia visto o neto.

Deu certo e Mary cresceu habituada aos trajes e trejeitos masculinos, para manter a farsa.

Já adulta, depois de uma frustrada tentativa de emprego como babá, decidiu retomar o disfarce e se alistou no exército, omitindo, contudo, o seu sexo.

Foi aceita e nunca descoberta.

Até que, um dia, se apaixonou por um soldado e revelou seu segredo.

Os dois, então, desertaram e abriram uma taverna na Inglaterra, que logo passou a ser muito frequentada, porque todos queriam conhecer “a mulher que enganara o exército”.

Mas a alegria durou pouco.

Logo, o marido de Mary adoeceu e morreu.

Sem conseguir manter sozinha o negócio, ela fechou a taverna, voltou a usar roupas masculinas e se alistou, como “marinheiro”, num barco mercante holandês, que estava de partida para o Caribe.

Mas, no meio do caminho, o barco foi atacado pelo lendário pirata inglês “Calico” Jack Rackham e Mary, por ser “um inglês”, como ele, foi poupada – mas transformada também em pirata.

Só que ninguém sabia sobre a sua verdadeira identidade.

Mary identificou-se rapidamente com a vida errante dos corsários e acabou por se tornar um dos mais terríveis personagens da pirataria do século XVIII.

Mas sempre usando nomes masculinos, já que sua real identidade foi mantida em sigilo durante a maior parte da vida.

Até que ela novamente se apaixonou.

E, desta vez, por um dos piratas do seu próprio barco.

Só que – surpresa! – o tal pirata era outra mulher também disfarçada de homem, chamada Anne Bonny.

Quando Mary decidiu revelar seu amor e sua identidade ao amante, foi surpreendida pela mesma revelação, vinda do lado contrário.

As duas, então, tornaram-se amigas.

Mas mantiveram os disfarces.

Tempos depois, Mary se apaixonou uma vez mais, por outro tripulante.

Mas ele tinha um desafeto a bordo e ela, para defender o amado (que também não sabia que ela era uma mulher), o desafiou para um duelo.

Foi quando, durante o embate, ao ver que estava em desvantagem, pela primeira vez usou o truque de rasgar a blusa para desnortear o adversário.

A partir daí, o gesto virou o seu mais famoso símbolo.

Mary Read e Anne Bonny eram mais corajosas do que qualquer homem da tripulação de Calico Jack e só usavam a feminilidade quando lhes era favorável.

Foi assim, por exemplo, que as duas escaparam de ser condenadas à morte, quando foram capturadas pelos militares.

Ao serem levadas diante do juiz para decretação da pena, não só revelaram seus verdadeiros sexos como anunciaram estarem grávidas, o que, pelas leis da época, adiava as execuções, até o nascimento dos bebês.

Tanto Mary quanto Anne tiveram seus filhos (duas meninas) na cadeia, mas, ao que consta, nenhuma das duas chegou a ser executada.

Na hipótese mais aceita, Mary teria morrido de febre, ainda no cárcere, em 18 de dezembro de 1720, e Anne escapado da forca graças aos subornos feitos por seu pai aos soldados.

Mas há controvérsias.

Como toda boa história, esta aqui também tem um final duvidoso.

Segundo outra versão, Mary Read não teria morrido e sim fugido da prisão, fingindo-se de morta dentro de uma mortalha.

E, anos depois, após recuperar a filha que teve no cárcere, reencontrada a amiga, em Louisiana, nos Estados Unidos, onde viveram juntas e criaram as meninas, como dedicadas mães de família – e longe dos disfarces masculinos.

Se foi isso ou não o que aconteceu, ninguém sabe.

Mas a saga de Mary Read como a mais famosa pirata da história jamais foi contestada.

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A tragédia do veleiro que desapareceu com quatro argentinos

A tragédia do veleiro que desapareceu com quatro argentinos

Em agosto de 2014, uma notícia sensibilizou brasileiros e argentinos: o veleiro de bandeira argentina Tunante II (algo como “Vigarista”, em português), se encontrava à deriva, a cerca de 300 quilômetros da costa do Rio Grande do Sul, depois de capotar, perder o leme, o mastro e qualquer outro meio de locomoção, durante a mais violenta tempestade que assolou a região naquele ano – um ciclone extra-tropical, que, durante vários dias, tornou a navegação entre o Brasil e a Argentina uma espécie de inferno líquido.

A bordo do barco, que vinha de Buenos Aires para o Rio de Janeiro, em um cruzeiro de férias, estavam quatro tripulantes, todos argentinos e com relativa experiência de mar: os médicos Jorge Benozzi, dono do veleiro e oftalmologista reconhecido mundialmente pelo descobrimento de um tratamento inovador para uma anomalia na visão chamada presbiopia, e Alejandro Vernero, cardiologista, ambos de 62 anos, o amigo de infância dos dois Horacio Morales, de 63, e o cunhado de Jorge, Mauro Cappuccio, de 35, o mais jovem de todos.

Nunca mais nenhum deles foi visto.

Tampouco o barco, que desapareceu por completo, depois ter sido avistado por um navio sacudindo freneticamente em meio a ondas de dez metros de altura e ventos que passavam dos 120 km/h.

Teria sido apenas mais triste lápide na história do sempre temeroso mar do litoral do Rio Grande do Sul não fosse a exposição – e proporção – que o fato tomou, depois que as famílias dos quatro velejadores se recusaram a aceitar a provável morte do grupo e passaram a usar a internet para pesquisar, com a ajuda de um batalhão de voluntários, a imensidão do mar.

A busca pelo Tunante II, que, na ocasião, ganhou site próprio na internet, campanhas emocionantes nas tevês da Argentina, página no Facebook e uma legião de voluntários vasculhando, dia e noite, diante de seus computadores, uma área do tamanho do Nordeste brasileiro, foi uma das maiores mobilizações da história da internet na Argentina.

Mas não mudou em nada o triste destino daqueles quatro argentinos, que nunca mais seriam vistos.

Tudo começou em 22 de agosto de 2014, quando, sob o comando do famoso oftalmologista Jorge Benozzi, o grupo partiu de San Fernando, nos arredores de Buenos Aires, para a tão aguardada velejada até o Rio de Janeiro.

A previsão era fazer a travessia em 20 dias (razão pela qual eles levam mantimentos para um mês), sem escalas, e deixar o barco em águas brasileiras, até as próximas férias do grupo.

As passagens de volta, de avião, já estavam compradas e eles tinham data certa para retornar à Argentina. Daí a decisão de partir naquela noite mesmo, uma sexta-feira, apesar da previsão de uma violenta frente fria que se aproxima da costa argentina.

O plano era avançar na frente da tormenta e até se beneficiar dos ventos periféricos gerados por ela, a fim de aumentar a velocidade do barco, um veleiro semi-novo, de 41 pés de comprimento.

A bordo, entre outros equipamentos, havia quatro GPS, dois telefones via satélite, uma balsa salva-vidas e um pequeno dessalinizador, capaz de transformar água do mar em potável.

Mas o Tunante II não tinha aparelho localizador Epirb, que emite sinais intermitentes sobre a posição do barco para outras embarcações, nem gerador ou placas solares para abastecer as baterias de bordo, quando o motor não estivesse em uso.

Na partida, o grupo, sorridente, posou para uma foto no píer de San Fernando, que viria a se tornar a última imagem que as famílias teriam deles. E a esposa do comandante Jorge se despediu do marido com um protocolar pedido: “Cuidem-se!”. Em seguida, os quatro amigos partiram, rumo ao Brasil.

Os ventos pré-tormenta, de fato, ajudaram na rápida travessia do Rio da Prata. Na manhã seguinte, o Tunante II já navegava diante de Montevidéu e seguiu avançando, velozmente, pela costa do Uruguai.

Mas os ventos logo aumentaram tanto de intensidade que provocaram o rompimento de um dos cabos de sustentação do mastro. Eles, então, decidiram fazer uma parada, não prevista, na marina da cidade de La Paloma, no Uruguai, a fim de reparar o problema. Lá, contudo, não conseguiram outro cabo e decidiram apenas soldá-lo.

Depois do conserto, o comandante Jorge Benozzi decidiu partir rapidamente. A tormenta, já então classificada como um ciclone extra tropical, algo um tanto raro na região, se aproximava furiosamente. O objetivo era voltar para o mar antes que o veleiro ficasse retido na marina.

Naquela mesma noite, sob ventos já beirando os 100 km/h nas rajadas, eles partiram – com um dos estais do mastro remendado e a intensidade do vento aumentando a cada instante. Perto dali, o ciclone já erguia ondas de oito metros de altura.

Durante todo o dia seguinte, os tripulantes do Tunante II sofreram com o mar cada vez mais grosso. Sem conseguiu manter a rota desejada, junto a costa, eles decidiram se afastar cada vez mais dela.

Era uma atitude prudente, porque evitava o risco de o veleiro ser atirado nas praias pelos fortes ventos.

Mas, por outro lado, quanto mais se afastavam da costa, mais dificultavam um eventual resgate.

Como ficaria tragicamente claro dias depois.

No início da tarde do dia seguinte, 25 de agosto, o telefone do filho do tripulante Alejandro Vernero tocou, em Buenos Aires.

Era o seu pai, comunicando que o grupo estava bem, mas em meio a uma violentíssima tempestade, que fizera o barco capotar, perder o mastro, o leme, o motor e até as baterias para recarregar o telefone via satélite no qual ele falava – e que estava prestes a ficar mudo.

O tripulante passou as coordenadas de onde o barco estava (cerca de 300 quilômetros mar adentro, na altura da cidade gaúcha de Rio Grande) e pediu ao filho que avisasse as autoridades.

Naquele mesmo dia, diversas outras ligações foram feitas para as outras famílias dos quatro tripulantes, sempre atualizando a posição do barco e pedindo ajuda. Mas, estranhamente, nenhum pedido de socorro foi feito pelo rádio do Tunante II a nenhum barco que porventura estivesse na área.

Talvez, porque o veleiro argentino já estivesse sem baterias para alimentar o rádio.

Ou porque o casco já estivesse parcialmente inundado, o que explicaria a estranha “perda” do motor, avisada por Alejandro ao filho, embora nenhuma entrada de água a bordo tenha sido mencionada.

Imediatamente, os familiares acionaram a Marinha do Brasil, que, sabendo das terríveis condições do mar na região, despachou o rebocador de alto-mar Tritão para lá.

Mas, como o socorro partiu da cidade catarinense de Itajaí (e não de Rio Grande, bem mais perto, mas cujo porto já estava fechado por conta da tempestade), levou três dias para atingir o local.

Quando o rebocador brasileiro chegou, outro navio, o cargueiro norueguês Seije, já havia avistado o Tunante II, à deriva.

Mas, com o ciclone no seu ponto máximo, gerando ventos de até 130 km/h e ondas acima dos dez metros, o enorme navio nada pode fazer.

Se aproximar do pequeno barco, naquelas condições de mar, seria o mesmo que atropelá-lo.

Assim sendo, o cargueiro se limitou a ficar observando a distância o pequeno barco sacudindo feito uma rolha dentro de uma máquina de lavar roupas. E tentando – em vão – um contato pelo rádio.

Com a chegada da noite, o navio perdeu o contato visual com o veleiro. Seu comandante decidiu, então, reportar o encontro as autoridades e seguir em frente.

Naquela mesma noite, os argentinos fizeram a última chamada telefônica para os seus familiares.

E disseram ter visto as luzes do navio. Que, no entanto, já não estava mais lá.

Na manhã do dia seguinte, uma nova tentativa de ligação telefônica partiu do Tunante II e foi detectada pela empresa dona do serviço de telefonia via satélite.

Mas a carga da bateria do aparelho já estava tão fraca que a chamada não se completou.

Foi a última tentativa de contato do grupo com o mundo externo.

Mas deixou os familiares dos tripulantes animados.

Afinal, o pior da tempestade já passara e aquela tentativa de chamada era prova de que o barco resistira a tormenta e que eles estavam vivos.

Outros navios e aviões da Marinha do Brasil e da Argentina rumaram para o suposto local onde o Tunante II estava.

Mas, tal qual aconteceu com o rebocador Tritão, não encontraram nenhum sinal do barco.

Começava a longa – muito longa – angústia das famílias das vítimas.

No dia 30 de agosto, não havia mais tempestades na região, mas as condições do mar ainda dificultavam as buscas do Tunante II.

Aflitas, as famílias decidiram, então, recorrer à internet e as redes sociais para buscar ajuda para tentar localizar o veleiro.

E descobriram um site, o Tomnod, que divulgava imagens colhidas por satélites de toda a superfície terrestre.

Inclusive dos mares.

O passo seguinte foi convocar uma legião de voluntários na Argentina para vasculhar cada metro quadrado da área onde se imaginava estar o barco, através das telas dos seus computadores domésticos.

Deram início, assim, a uma das mais frenéticas e extraordinárias buscas virtuais da história da internet.

Comovidos com o drama daqueles quatro conterrâneos à deriva em algum ponto entre a costa do Uruguai e do Rio Grande do Sul, mais de 30 000 argentinos (e outros tantos estrangeiros, que aderiram a causa) passaram a ficar dias e noites com os olhos grudados nos monitores de seus computadores, em busca de algum sinal do Tunante II nas nem sempre nítidas imagens dos satélites.

A área era enorme.

Quase do tamanho do Nordeste brasileiro.

Mas todos queriam ajudar a encontrar o veleiro dos argentinos.

Mesmo quem não tinha a menor ideia de como era um veleiro, ainda mais visto de cima.

A campanha virou comoção nacional na Argentina e pressionou às autoridades a intensificar ainda mais as buscas.

No Brasil, outros dois navios e um avião foram mandados para reforçar as equipes, além de ter sido emitido alerta a todas as embarcações que navegavam na região.

Além do cargueiro norueguês que vira o veleiro, havia oito outros navios cruzando o litoral sul do Rio Grande do Sul naquela ocasião.

Mas a consulta foi em vão.

Nenhum deles viu nenhum sinal do barco desaparecido.

As famílias, no entanto, seguiram otimistas.

Lideradas pelas filhas de três dos quatro tripulantes, classificavam as chances de o barco ser encontrado pela força-tarefa dos voluntários nas telas dos computadores como “enormes”.

Mas não era o que pensavam as Marinhas do Brasil e da Argentina.

Após 15 dias vasculhando em vão o mar, as duas entidades decidiram suspender as buscas.

Para elas, não havia mais o que procurar.

Àquelas alturas, o veleiro argentino já estaria no fundo do mar e seus tripulantes, mortos.

Na Argentina, a gritaria contra a medida foi geral.

Produzido pelos familiares das vítimas, que se recusavam a abandonar seus entes queridos, um emocionante comercial de televisão foi ao ar em todo o país, com o bordão “Vamos buscá-los!”.

Nas buscas nas imagens dos satélites, qualquer mancha de espuma de ondas era analisada como se fosse o barco desaparecido.

Um abaixo-assinado pedindo a retomada das buscas colheu 30 000 assinaturas, em poucos dias.
O argumento foi o mesmo das autoridades, só que ao contrário: “se nenhum vestígio do barco foi encontrado, é porque o Tunante II ainda flutuava”.
“Se o barco tivesse afundado”, argumentavam os familiares, “vestígios flutuando na água teriam sido encontrados”.

O raciocínio fazia algum sentido.
Mas ignorava o fato de a história estar repleta de casos de navios inteiros que desapareceram sem deixar um único colete salva-vidas na superfície.
A imensidão do mar é muito maior do que se possa imaginar.
Ao mesmo tempo, alguns comentários mais realistas passaram a ser postados na página do Facebook criada pelos familiares dos desaparecidos.
Mas, para não desanimar os voluntários da insana busca doméstica nas imagens de satélite, os comentários não otimistas eram tirados do ar.

Para as famílias, era preciso manter intactas as esperanças e exigir das autoridades a retomada das buscas.
E quem não faria isso se estivesse no lugar delas?
Pressionadas pela opinião pública, as Marinhas do Brasil e da Argentina emitiram, então, um comunicado conjunto, afirmando que só retomariam as buscas se surgirem indícios de que o barco não houvesse afundado.
E eles surgiram. Quase um mês depois do desaparecimento do Tunante II.

Em 29 de setembro, duas semanas depois de os órgãos de busca terem dado o caso do Tunante II como encerrado, o incansável batalhão de fuçadores de imagens de satélites, que ia de oceanógrafos a dedicadas donas de casa, tratou de provar que, talvez, as duas Marinhas estivessem erradas.

Uma intrigante imagem colhida em um site da empresa InfoSat mostrava um veleiro com características semelhantes ao Tunante II boiando no oceano, a cerca de 400 quilômetros da costa de Santa Catarina.
Consultado, o projetista do barco ponderou que, pela imagem (distante e nada clara), “poderia ser o veleiro desaparecido” – mas sem muita convicção disso.

De maneira precipitada, a filha de um dos tripulantes logo anunciou no Facebook que o veleiro fora encontrado!
Mas, neste caso, prudentemente o comentário foi logo retirado.
Era preciso, primeiro, ir até o local para confirmar sua autenticidade.
E, antes disso, convencer as autoridades a reiniciarem as buscas.
Foi o que foi feito.

Em 9 de outubro, parentes dos desaparecidos viajaram até Porto Alegre e convenceram a Marinha do Brasil a reiniciar as buscas, com base naquela imagem não muito clara.
Mas havia outro problema: as imagens dos satélites chegavam à internet com atraso.
Às vezes, de dias inteiros.

Portanto, até que um barco ou avião chegasse ao local onde o suposto Tunante II estava, o barco, fosse ele qual fosse, já estaria longe.
E foi o que aconteceu.

Mesmo calculando a deriva de um barco nas correntes marítimas predominantes na região, nada foi encontrado.
Talvez porque, com o casco cheio d´água e bem mais pesado, o suposto veleiro dos argentinos não tenha se deslocado tanto quanto o estimado.
Ou, talvez, porque não era ele mesmo.

A Marinha do Brasil divulgou, então, um novo comunicado, afirmando que, na data da imagem, havia nada menos que 32 embarcações navegando na área indicada e que nenhuma delas avistou o tal barco.
Em seguida, suspendeu a operação.
Desta vez, de vez.

Mas nem assim as famílias dos argentinos sossegaram.
Juntaram dinheiro, fretaram um avião e foram sobrevoar a região, por conta própria.

O aparelho, com as três filhas dos tripulantes desaparecidos a bordo, rastreou o mar por mais de 1 500 quilômetros.
Mas não encontrou nada. 
Na volta, o grupo reconheceu a dificuldade que era visualizar um pequeno barco lá do alto.
Mas disse, também, que tampouco viu nenhum dos “32 navios” que a Marinha do Brasil afirmara que estavam na região – ignorando, contudo, o fato de que, entre a data da captura da imagem e a do vôo, nove dias haviam se passado.

Para os familiares, era preciso manter viva as esperanças, a qualquer custo.
Especialmente depois que o primeiro vestígio concreto do barco foi encontrado, três dias depois.

Em 16 de outubro, o mestre do barco pesqueiro catarinense Kopesca I, Vitor Valverde, navegava a cerca de 320 quilômetros da costa de Tramandaí, no Rio Grande do Sul, quando viu algo alaranjado se mexendo na superfície do mar. Intrigado, se aproximou.
Era uma tartaruga, que ficara presa a uma balsa salva-vidas desinflada.

O animal tentava mergulhar, mas a balsa, mesmo murcha, não deixava.
O pescador liberou a tartaruga do seu torturante cativeiro, recolheu a balsa vazia e descobriu, dentro dela, um relevador conjunto de coisas.

Havia uma camisa atada a um remo, a título de bandeirola, um comprimido contra enjoo, uma cédula de peso uruguaio, uma espécie de caderneta já borrada pela água e – prova inequívoca de que a balsa pertencia ao Tunante II – a carteira de identidade de um dos tripulantes do barco, Horacio Morales.

Não restavam dúvidas: pelo menos um dos quatro tripulantes do veleiro argentino usara aquela balsa, que, agora, jazia dramaticamente vazia e sem ter como revelar o que acontecera.

Na Argentina, as famílias dos desaparecidos foram avisadas sobre o achado, mas, apesar das inequívocas evidências, discordaram que ela tivesse sido usada pelos tripulantes do Tunante II.
Basearam o torto raciocínio no fato de que a balsa estava sem o seu forro refletor, feito de tecido prateado e usado para ajudar a sinalizá-la no mar, e concluíram que ele fora retirado para ser usado no veleiro e que a balsa teria solta de propósito, para avisar quem a encontrasse que eles estavam vivos.
Era mais uma interpretação contrária e desesperada dos fatos.
E eles decidiram continuar as buscas. Agora, por terra.

Em novembro, quase três meses após o desaparecimento dos quatro argentinos, um grupo de familiares começou a percorrer o litoral gaúcho e uruguaio, distribuindo panfletos e fazendo contato com pescadores.
O argumento era que, experientes, os velejadores poderiam ter improvisado velas no barco danificado (recurso conhecido como “mastreação de fortuna”, no meio náutico) e estivessem tentando voltar a costa por seus próprios meios.

Além disso, os parentes argumentavam que havia dois médicos a bordo do veleiro, acostumados a lidar com situações de emergência, (sobretudo o cardiologista Alejandro Vernero) e que eles tinham material de pesca que poderiam usar para capturar comida e água abundante, vinda das chuvas.
Mas, em terra firme, não conseguiram nenhuma pista.

Ao mesmo tempo, um velejador argentino, que, embalado pela campanha do “Vamos buscá-los!”, havia partido para procurar sozinho o barco desaparecido, voltou a Buenos Aires sem nenhuma novidade.
E, na internet, a página do grupo começou a perder audiência, apesar de ainda receber propostas fantasiosas.
Uma delas propunha lançar 250 boias no mar, cada uma delas com um celular, para facilitar o contato dos náufragos – sem considerar que, em alto-mar, não há sinal de telefonia.

Em janeiro, a esperança, enfim, arrefeceu.
E até a própria página do grupo no Facebook desapareceu.

Mas, antes disso, os familiares lançaram uma última e desesperada proposta: quem encontrasse o barco, poderia ficar com ele.
Às famílias, só interessam os tripulantes, claro.

Mas, cinco meses depois do desaparecimento do Tunante II, a proposta de recompensa não estimulou mais ninguém a ir para o mar procurar o improvável.
E o caso foi caindo num inevitável esquecimento, enquanto as famílias das vítimas tentavam se conformar com a verdade dos fatos.

Vítimas da própria imprudência (haviam partido com um cabo do mastro remendado, não pouparam a bateria do telefone via satélite quando descobriram que não teriam como recarregá-la, tinham um prazo muito curto para a viagem e, acima de tudo, menosprezaram a intensidade da tempestade que se aproximava, não checando a previsão do tempo com a devida atenção e precaução), Jorge Benozzi, Alejandro Vernero, Horacio Morales e Mauro Cappuccio haviam sido engolidos pelo oceano.

E ponto.

Mas jamais se saberá exatamente como.

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