A incrível passageira que jamais desembarcava

A incrível passageira que jamais desembarcava

Até a metade do século 20, quando os aviões passaram a tomar o lugar dos navios, os transatlânticos eram bem mais do que simples meios de transporte para longas viagens.

Eram, também, oportunidades para seus privilegiados passageiros desfrutarem o glamour dos grandes cruzeiros.

Um destes sofisticados navios de passageiros, talvez o mais grandioso dos anos pós guerra, foi o Caronia, um luxuoso transatlântico inglês, lançado em 1947 pela empresa Cunard, com a missão de atender a rota mais exigente da época, entre a Europa e os Estados Unidos.

Entre outros ineditismos, o Caronia foi o primeiro navio a oferecer uma piscina permanente, todas as acomodações eram de primeira classe, oferecia atendimento personalizado de um tripulante para cada passageiro, além de água quente nas torneiras e — supremo conforto — banheiros privativos em todas as cabines.

O objetivo era que ele virasse uma extensão das mansões dos seus passageiros.

E pelo menos um deles levou isso ao pé da letra: a milionária americana Clara Macbeth, que decidiu morar no navio.

Solitária e muito rica, ela trocou seu luxuoso apartamento na Quinta Avenida, em Nova York, por uma suíte bem lado elevador do Caronia (outra quase novidade na época), através do qual subia diretamente ao restaurante, sem precisar sequer caminhar.

Lá, sentava-se sempre a mesma mesa, e, em seguida, retornava a sua cabine.

Raramente passeava pelo navio, que, no entanto, transformara em sua casa.

Mesmo assim, Miss Macbeth conhecia o Caronia melhor do que qualquer marinheiro, já que viveu nele por 15 longos e consecutivos anos, emendando um cruzeiro no outro, sem desembarcar em porto algum.

Foi a mais longa permanência de um passageiro em um navio que se tem notícia.

Só com passagens, ela gastou cerca de 20 milhões de dólares, em dinheiro de hoje.

Miss Macbeth só retornava ao seu apartamento quando o Caronia era levado para o estaleiro, para manutenção e reparos.

Mas, tão logo ele voltasse à água, reembarcava.

E sempre na mesma cabine e na mesma mesa no restaurante.

Estima-se que ela tenha dado o equivalente uma dúzia de voltas ao redor do mundo, sem sair do navio – e de ter somado mais horas de navegação do que os seus próprios comandantes do Caronia.

Não era mais considerada uma passageira.

Era uma residente.

A primeira do gênero.

E, como tal, com direito a regalias, como um convite especial para o mais exclusivo cruzeiro que o Caronia realizou, em 1953, para a posse da Rainha Elizabeth, na Inglaterra – e nem assim ela desembarcou.

Mas tamanha fidelidade de uma passageira para lá de especial não foi suficiente para salvar o navio da bancarrota.

Nos anos de 1960, com a popularização dos aviões a jato, os transatlânticos perderam a primazia nos transportes de pessoas, a Cunard entrou em séria crise financeira e decidiu vender o Caronia.

Mas isso só aconteceu depois que Miss Macbeth, já bastante doente, foi obrigada a abandonar a vida a bordo e voltar a viver em Nova York.

Uma década depois, o empresário americano que comprou o Caronia resolveu aposentá-lo de vez e pôs à venda, através de um leilão em Nova York, todo o mobiliário do navio.

Quem arrematou parte dos móveis foi um comerciante interessado em abrir um restaurante na cidade.

Em 1974, o estabelecimento foi inaugurado na Quinta Avenida – bem em frente ao apartamento de Clara Macbeth.

Mas ela não chegou a frequentar o restaurante, nem testemunhou o triste fim do seu querido navio.

Poucos meses antes de o Caronia ser desmanchado – e quando já havia até mudado de nome -, Miss Macbeth embarcou em sua derradeira viagem, e não mais a bordo do navio que tanto amava.

Já a sua mesa, continuou lá, no restaurante, à sua espera.

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A intrigante história do mais famoso mistério do mar

A intrigante história do mais famoso mistério do mar

Não há enigma mais intrigante nos mares do planeta do que o destino que tiveram os tripulantes do barco americano Mary Celeste, encontrado à deriva, sem ninguém a bordo, mas em perfeito estado, no meio do Atlântico, em dezembro de 1872.

Quando ele partiu de Nova York, rumo a Gênova, na Itália, levava uma carga de mais de mil barris de álcool e dez pessoas a bordo, incluindo a família (mulher e uma filha pequena) do seu comandante, Benjamin Briggs, um experiente capitão. Mas jamais apareceu sobrevivente ou corpo algum dos seus ocupantes.

É praticamente certo que eles tenham abandonado o barco, já que a única coisa que não estava a bordo era o bote salva-vidas e alguns instrumentos de navegação.

Mas, por que teriam feito isso se, mesmo ao ser encontrado, o Mary Celeste ainda estava em condições de navegar?

E por que trocar um barco grande e seguro por um bote pequeno e arriscado em pleno oceano?

As perguntas sempre foram bem mais numerosas do que as respostas neste caso realmente intrigante e que desafia os velhos marinheiros há quase um século e meio.

Muitas teorias já foram desenvolvidas, mas jamais houve uma explicação conclusiva para o que teria acontecido a bordo do Mary Celeste, entre os dias 24 de novembro (data do último registro no seu diário de bordo, após ele passar ao largo de uma das ilhas dos Açores) e 5 de dezembro de 1872, quando foi localizado por outro barco, o Dei Gratia, que fazia a mesma rota.

E, muito provavelmente, jamais se saberá.

O que se sabe de concreto é que o Mary Celeste partiu de Nova York em 7 de novembro e, a julgar pelos registros no seu livro de bordo, vinha fazendo uma viagem tão tranquila quanto o estado do mar à sua volta.

Até que foi encontrado boiando vazio, com quase todas as velas arriadas, mas em perfeito estado e sem nenhum sinal aparente de problema, exceto alguns detalhes intrigantes.

Um deles é que a carga de álcool estava praticamente intacta, mas nove barris jaziam vazios – teriam vazados ou sido consumidos?

Outro detalhe é que havia água e comida em boa quantidade – por que trocar um barco abastecido por um simples bote no deserto de um oceano?

Todos os pertences dos ocupantes também permaneciam a bordo, o que significa que eles teriam partido às pressas – mas, por qual motivo?

E as velas quase todas recolhidas também indicavam que o Mary Celeste fora propositalmente parado no meio do mar, possivelmente para que os ocupantes desembarcassem – mas por que a tripulação abandonaria um barco que ainda podia navegar?

Também havia um pouco de água empoçada dentro dos porões, mas poderia ser obra da chuva ou mesmo do mar, depois que o barco ficou à deriva.

E havia também um cabo partido, boiando na popa do barco, como se tivesse rompido ao rebocar algo – seria o bote salva-vidas levando os ocupantes a reboque?

Neste caso, o que de tão grave teria acontecendo no Mary Celeste a ponto de ninguém poder permanecer a bordo?

Cada uma destas perguntas gerou uma tese diferente para tentar explicar um mistério que, até hoje, não tem solução.

Uma delas pregava que o capitão Briggs fora vítima de um motim a bordo.

Ao repreender a tripulação, que estaria bebendo parte da carga (daí os barris vazios de álcool), ele teria sido morto e atirado ao mar, junto com a mulher e a filha.

Em seguida, temendo serem descobertos, os amotinados teriam abandonado o barco, com o bote, mas acabaram engolidos pelo mar, mais tarde.

Contra esta teoria, pesa o fato de que não havia sinais de violência a bordo, mas nem isso pode ser garantido.

Outra tese apregoou um simples ataque de pirataria e – quem sabe? – vindo do próprio barco que supostamente “encontrara” o Mary Celeste, o Dei Gratia.

Como ambos faziam a mesma rota, o Dei Gratia teria perseguido o Mary Celeste e o atacado, para que sua tripulação recebesse o dinheiro pago a quem encontrasse um barco “abandonado”, conforme as regras da época.

Esta foi a principal teoria do inquérito que se seguiu ao mistério.

Tanto que capitão do Dei Gratia, que rebocou o Mary Celeste até o porto de Gibraltar, como forma de pleitear o prêmio, só recebeu um sexto do valor do resgate, mesmo tendo sido absolvido por falta de provas.

Por outro lado, o capitão do Dei Gratia e Briggs eram tão amigos que até jantaram juntos, na véspera da partida do Mary Celeste.

Teria ele tido coragem de trair o amigo?

Já as demais teorias de pirataria logo foram descartadas, porque tanto a carga quanto os pertences estavam intactos.

Mas há uma terceira hipótese e ela estaria ligada a um eventual risco de explosão a bordo do Mary Celeste: uma onda teria derrubado alguns tonéis de álcool (os tais barris vazios) e o vazamento do líquido inflamável colocara em pânico a tripulação, que, precipitadamente, julgou que o barco explodiria e o abandonou – o que explicaria o cabo partido na popa do Mary Celeste.

Ele teria sido usado para manter o bote salva-vidas atado ao barco, com todos os tripulantes, mas rompera (ou soltara…), fazendo com que o Mary Celeste fosse embora (já que, na pressa, nem todas as velas foram arriadas) e o bote, sem remos, não pudesse mais alcançá-lo.

É uma hipótese bem plausível.

Mas, desde aquela época, impossível de ser comprovada.

O mistério do Mary Celeste logo correu toda a Europa e até inspirou o escritor escocês Artur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, a fantasiar ainda mais a história, transformando-a na de um “navio-fantasma”.

Era o que faltava para o mais famoso enigma dos oceanos virar, também, lenda.

A lenda do barco sem ninguém a bordo.

Nos anos seguintes, o verdadeiro Mary Celeste mudou várias vezes de dono e de nome, porque ninguém queria navegar num barco tido como “maldito”.

Até que, em 1885, foi comprado por um comandante falido, que decidiu afundá-lo de propósito, para receber o dinheiro do seguro.

E assim ele o fez, em algum ponto desconhecido do Caribe.

Por mais de um século, nem o derradeiro paradeiro do Mary Celeste foi sabido.

Até que, em 2001, uma expedição financiada pelo escritor de aventuras Clive Cussler garantiu ter localizado seus restos, afundados na costa do Haiti.

Mas o Caribe tem tantos naufrágios que a informação foi contestada e jamais comprovada.

Nem isso se soube sobre o destino daquele misterioso barco.

A história do Mary Celeste jamais teve (ou terá…) um final.

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O obstinado caçador de um tesouro jamais encontrado

O obstinado caçador de um tesouro jamais encontrado

Entre as muitas histórias de supostos tesouros que teriam sido escondidos no litoral brasileiro, nenhuma é mais famosa – nem devotou tanto empenho em encontrá-lo – do que a que envolve o Saco do Sombrio, na ilha de Ilhabela, no litoral de São Paulo.

Sobretudo por um obstinado aventureiro: o engenheiro belga, radicado no Brasil, Paul Ferdinand Thiry.

Durante 40 anos, de 1939 até morrer, em 1979, Thiry pesquisou, estudou e escarafunchou, sozinho, uma das partes mais inóspita da maior ilha do litoral paulista, em busca da solução de um enigma, que, segundo ele, levaria a um tesouro ali escondido na primeira metade do século 19.

Mas Thiry morreu sem encontrá-lo, embora tenha descoberto uma intrigante série de marcos esculpidos nas pedras, que só poderiam ter sido feitos por mãos humanas.

E quem faria aquelas marcas se não fosse para indicar algo?

Thiry jamais teve dúvidas disso.

Se a busca por um tesouro em tempos modernos soa infantil demais para ser real, aquela desconcertante série de marcos encontrados por Thiry sempre deixaram encafifados até os céticos.

Segundo o belga, o que ele procurava no isolado saco do Sombrio, na parte mais erma da ilha – e que permanece assim até hoje -, era nada menos que parte do lendário Tesouro de Lima, tirado pelos espanhóis da América do Sul, em 1821.

A hipótese defendida por Thiry era a de que a tripulação do navio que transportava aquelas riquezas teria se apoderado da carga e a escondido em uma ilha da costa brasileira, que ele nunca duvidou que fosse Ilhabela – embora, por aqui, a história tenha se tornado mais conhecida como o Tesouro da Trindade, em alusão a mais remota ilha do litoral brasileiro, o que Thiry sempre discordou com veemência.

Thiry era um jovem engenheiro que trabalhava nas obras de saneamento no Rio de Janeiro, quando leu uma reportagem sobre o tal Tesouro da Trindade. E ficou fascinado.

A aventura estava no seu sangue.

Seu pai, que o trouxera para trabalhar no Brasil, fora o primeiro homem a escalar o morro do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, durante estudos para implantação dos bondinhos.

Mas Thiry também era meticuloso e disciplinado. Além de muito inteligente e quase matemático.

Durante dez anos, ele pesquisou a fundo aquela história.

Mas ficou particularmente intrigado porque, em alguns papéis, a identificação da suposta ilha aparecia como “chamada Trindade”.

Aquele “chamada Trindade” o deixou intrigado.

Se a ilha fosse realmente a de Trindade, por que não chama-la pelo próprio nome?

A menos que a ilha fosse outra…

Partindo dessa premissa, Thiry passou a procurar outras ilhas na costa brasileira que tivessem as mesmas características.

Entre elas, “uma grande baía abrigada, cascatas e montanhas”, segundo um dos documentos que ele pesquisou.

Thiry concentrou-se particularmente na figura geométrica, em forma de trapézio, que decorava um mapa da tal ilha.

Ele também continha uma enigmática inscrição, com traços que lembravam letras, números e desenhos, que, quando lidos rapidamente, davam a entender a palavra “G-Bay”.

Seria uma abreviatura de “Baía Grande”, quando traduzida para o português?

Para ele, que já havia intuído que a menção a Trindade poderia ser um mero disfarce, parecia claro que havia um enigma – inclusive matemático, a julgar pelo tal trapézio desenhado – a ser decifrado.

E começou a fazer cálculos aleatórios.

Num deles, pegou a distância que separa a Ilha de Trindade do continente brasileiro, 647 milhas náuticas, e a converteu em arcos, sendo que cada arco corresponderia a um minuto nas coordenadas de um mapa da costa brasileira.

O resultado apontou para uma região repleta de ilhas e isso passou a fazer algum sentido.

Depois, intuiu que as cifras dos tesouros mencionados em alguns documentos, “entre 3 e 5 milhões”, também pudessem significar outra coisa que não valores, e conjecturou que os números “3” e “5” poderiam ter a ver com a localização da ilha.

Em seguida, olhando atentamente para o tal desenho “G-Bay” estilizado em um dos mapas, ele visualizou, nos traços rebuscados da letra “B”, quatro números disfarçados: “2”, “3”, “5” e “2”, respectivamente. E se eles indicassem uma coordenada?

Quem sabe 23º52´?

Thiry pegou um mapa e, exatamente naquelas coordenadas, apareceu Ilhabela.

E aquela ilha também tinha um formato que lembrava vagamente um trapézio.

E também uma grande baía, chamada Castelhanos, nome que obviamente tinha tudo a ver com espanhóis.

Também possuia grandes morros e cachoeiras.

Para Thiry, eram coincidências demais para serem apenas isso.

Mas, a princípio, só ele acreditou que tudo aquilo fazia algum sentido.

Como Thiry não tinha recursos para bancar uma expedição exploratória, pediu ajuda a Marinha do Brasil.

E conseguiu.

Em 1949, um navio da corporação partiu do Rio de Janeiro, levando Thiry e um grupo de marinheiros, dispostos a pesquisar o Saco do Sombrio.

A base das buscas eram complicados mosaicos de triângulos superpostos, que Thiry desenvolvera a partir das leis da trigonometria, e que aplicaria sobre a geografia da grande baía da ilha.

Para ele, mais excitante do que achar um tesouro era solucionar aquele enigma matemático, que garantia existir por trás daquela história.

A quem duvidasse do seu complexo raciocínio, Thiry apenas dizia que quem não conhecesse matemática a fundo jamais entenderia mesmo.

Para os que acompanhavam o belga naquela expedição, foi preciso boa dose de imaginação e resignação.

Ele estava determinado a provar que aquela era a ilha do tesouro.

Naquela época, o saco do Sombrio não passava de um esquecido portinho de pescadores, onde viviam cinco famílias caiçaras e uma abnegada professora.

Mesmo hoje, não é muito diferente disso.

Uma densa vegetação, repleta de escorpiões, jararacas e outros bichos peçonhentos, cobria a íngreme topografia do lugar, escondendo também sorrateiros abismos, que despencavam direto no mar.

Além disso, a área era enorme e repleta de reentrâncias, que podiam muito bem esconder qualquer coisa.

Buscar um tesouro ali, que nem o próprio Thiry intuía de qual tamanho seria, era como procurar uma conchinha específica em uma praia a perder de vista.

Mas Thiry acreditava que a encontraria.

Mais tarde, após perder a ajuda da Marinha, que se retirou do projeto após o malogro de duas expedições ao local, Thiry, sozinho, conseguiu delimitar a área onde, segundo ele, repousaria o tesouro.

Também traçou um segundo triângulo, bem menor que o primeiro, em cujo centro haveria de haver um marco.

Adivinhação?

Para ele, não.

O que Thiry dizia estar fazendo era pura aplicação da ciência àquela busca meio absurda.

Ele garantia estar empregando as mesmas fórmulas científicas que teriam sido usadas pela mente superior que camuflara aquele tesouro, um século antes, debaixo de complicados enigmas matemáticos, que teriam que ser obrigatoriamente decifrados por quem almejasse encontrá-lo.

Do contrário, restaria apenas contar com a sorte, o que – isto sim! – Thiry pouco acreditava.

Sua principal ferramenta era a sua brilhante capacidade de fazer cálculos matemáticos precisos.

Difícil era acompanhar o seu raciocínio.

E ainda mais acreditar que apenas contas e números pudessem levar a algo de concreto, no meio daquela mata fechada.

Nisso, praticamente ninguém acreditava.

Até que, um dia, coincidência ou não, os cálculos de Thiry o fizeram topar com uma pedra cercada por outras, formando um círculo quase perfeito.

E nela havia três letras esculpidas: um “G”, um “M” e um “J”, além de um visível coração.

Coisa de namorados apaixonados?

Pouco provável naquele fim de mundo ainda selvagem, nos anos 1950.

Até porque, ao lado do tal círculo, havia uma espécie de pirâmide, formada por pedras cuidadosamente empilhadas.

Thiry ficou eufórico.

Para ele, aquele era o marco central do enigma, simbolicamente indicado pelo desenho do coração, “órgão central da vida”, explicou.

A partir dali, segundo ele, surgiriam outros marcos, até dar no tesouro.

E não é que surgiram mesmo, sempre nas interseções dos tais triângulos matemáticos traçados?

No total, ao longo das três décadas que passou fazendo buscas no saco do Sombrio (primeiro, auxiliado por um de seus filhos; depois, por um amigo, o advogado paulista Osmar Soalheiro), Thiry encontrou mais de 20 marcos – para ele, provas cabais de que estava no local certo.

Mas ele não conseguiu avançar na sua busca obstinada.

Em 1979, aos 74 anos de idade, Thiry morreu, ainda cercado pela incredulidade, mas com a admiração dos que o conheceram bem.

Como o próprio Soalheiro, que seguiu adiante com as buscas.

“Antes de conhecer Thiry, eu também o julgava um maluco” – disse, certa vez, Soalheiro.

“Mas, com o tempo, não só me convenci de que ele era mentalmente sadio, como dono de uma inteligência superior”.

Soalheiro, no entanto, só encontrou mais alguns marcos na mata, embora tenha vasculhado a ilha durante anos a fio, até também morrer, em 2011 – sem encontrar o tal tesouro.

No total, Thiry e Soalheiro perseguiram tesouro do Saco do Sombrio durante meio século.

Nada encontraram, a exceção dos tais intrigantes marcos, que estão lá até hoje.

A hipótese mais provável é que, se algo foi escondido ali, já teria sido recolhido – talvez pela mesma pessoa que o escondeu.

Ou não…

Uma história, portanto, até hoje sem um final.

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O grande fiasco que virou um enorme espetáculo

O grande fiasco que virou um enorme espetáculo

Foi um dos maiores fiascos da história.

Mas acabou rendendo uma das mais interessantes atrações turísticas da Europa.

Em 10 de agosto de 1628, durante a sua própria cerimônia de batismo, o Vasa, um dos maiores navios de guerra até então construídos, adernou e afundou praticamente dentro do porto de Estocolmo, de onde havia partido instantes antes.

Uma multidão assistia ao espetáculo, incluindo o rei sueco Gustavo II, que não só financiara o gigantesco barco, com o qual planejava dominar o mar Báltico e transformar a Suécia numa potência naval, como o projetara.

Aparentemente, o Vasa tinha sérios problemas de estabilidade e, ao inflar as velas, adernou mais do que o desejado, permitindo a entrada de água pelas portinholas dos canhões no casco, que estavam abertas justamente para exibir o seu poderio bélico.

Foi um completo constrangimento e o barco tombou na água, levando para o fundo da baía também 50 dos seus 150 tripulantes.

Nos anos seguintes, a coroa sueca dedicou-se a extrair o máximo de objetos do navio, sobretudo seus valiosos 64 canhões de bronze, o que foi feito com a ajuda de uma revolucionária cápsula em forma de sino, que retinha o ar e assim permitia aos mergulhadores trabalhar debaixo d´água.

Foi a primeira vez que aquela espécie de ancestral dos escafandros foi utilizada e quase todos os canhões foram removidos desta forma.

Mas, com o passar do tempo, o Vasa foi caindo no esquecimento. Até que, 300 anos depois, em 1956, um arqueólogo resolveu retomar a busca do navio no fundo da baía da capital sueca e o encontrou, ainda inteiro.

O fato gerou comoção em todo o país e alavancou um audacioso projeto de resgate do barco.

Mas, como tirar um navio de madeira de 69 metros de comprimento, afundado há três séculos há 30 metros de profundidade, sem destruí-lo?

Diversas propostas foram feitas, inclusive congelá-lo, já que o gelo flutua na água.

Outra alternativa previa enchê-lo com milhares de bolinhas cheias de ar, que, juntas, – quem sabe? – poderiam trazer o barco de volta à superfície.

Mas, no final, prevaleceu o método convencional: passar diversas cintas de aço por baixo do casco e erguê-las lentamente, com a ajuda de guindastes.

Dito assim parece fácil.

Mas foram precisos cinco anos de árduos trabalhos, até que, finalmente, em 24 de abril de 1961, o Vasa voltou a luz do dia, cercado de cuidados especiais, para não se desmantelar em contato com o ar de três séculos depois.

Do fundo do mar, o barco foi levado diretamente para um prédio especialmente construído para recebê-lo, e ali, depois de pouquíssimos trabalhos de restauração, já que o seu estado de conservação era estupendo, graças às águas geladas e com baixa salinidade do Báltico, que impediram a proliferação de fungos na madeira do casco, passou a ser permanentemente exposto no espetacular Museu Vasa, desde então a mais famosa atração turística da capital sueca.

Um final grandioso para uma história que começou como um enorme vexame.

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