No final da manhã de 11 de outubro de 1885, um garoto caminhava pelas areias da então deserta praia Summer, na cidade de Christchurch, na Nova Zelândia, quando viu uma pilha de roupas, com um relógio e uma corrente de pescoço, com uma medalha na qual estava gravada as iniciais “A.H”, como se o dono daqueles objetos tivesse entrado no mar, para nadar.
Mas ele olhou ao redor, e não viu ninguém na água.
Intrigado, o menino avisou a Polícia, que rapidamente identificou a quem pertencia aqueles objetos: Arthur Howard, um funcionário da ferrovia local, que, a caminho da praia, fizera questão de comentar com algumas pessoas que iria nadar.
A Polícia, então, foi até a casa de Howard e confirmou com sua esposa, Sarah, que o marido “acordara cedo, dizendo que ia à praia, antes de trabalhar”.
Com base nisso, os policiais deram a triste notícia à jovem viúva: Howard havia desaparecido no mar.
Possivelmente, morrido afogado.
Durante dias, a Polícia vasculhou o mar da região, em busca de pistas ou do corpo do ferroviário.
Mas nada encontrou.
Exceto que ele, estranhamente, havia feito três seguros de vida, nomeando como única beneficiária a sua esposa – que, àquelas alturas, já havia entrado com os pedidos de indenização.
As seguradoras, no entanto, negaram os pagamentos, sob a alegação de que só fariam isso depois que a Polícia – que já suspeitava de algum tipo de fraude – confirmasse a morte do segurado.
O passo seguinte de Sarah foi publicar um anúncio no jornal da cidade, oferecendo uma pequena recompensa em dinheiro, para quem achasse “o corpo do marido, ou parte dele”.
Mas ninguém apareceu com nada que comprovasse a morte de Howard, e o caso caiu em um quase esquecimento.
Dois meses depois, no entanto, um homem chegou à delegacia de Polícia de Christchurch com algo enrolado em um pano.
Era uma mão humana, que ele alegara ter encontrado na beira da praia Summer – a mesma na qual Arthur Howard “desaparecera”, tempos antes.
E o membro continha um anel, também gravado com as iniciais “A.H.”.
A Polícia voltou à casa do ferroviário e indagou Sarah se ele usava um anel no dia do seu “desaparecimento”, o que ela não mencionara antes.
Ela disse que “sim”, mas que “esquecera” de contar isso.
Após ver o membro decepado – o que comprovava a morte do marido –, Sarah confirmou que aquela mão era de Howard.
Mas não era.
Ao mesmo tempo em que um joalheiro consultado pela Polícia afirmava que aquela gravação existente no anel era “recente” e “feita por um amador”, um perito legista ia mais longe e garantia que aquela mão jamais poderia ser a de Howard – porque era uma mão feminina.
A Polícia, cada vez mais confusa, foi atrás do homem que dizia ter achado a tal mão na beira da praia, e após um longo interrogatório, ele admitiu que mentira: o membro lhe fora entregue por um homem não identificado, que dissera que havia uma recompensa para quem o entregasse à Polícia.
Mas ele não queria fazer, por ser “uma pessoa influente na sociedade local”.
Atraído pela oferta de um dinheiro fácil, o homem foi a delegacia, mentiu, e, em vez da recompensa – um disfarce para convencer as seguradoras sobre a morte de Howard -, acabou preso, por falso testemunho.
Em seguida, o próprio Howard foi preso, ao ser encontrado, com nome falso, nas ruas de Wellington, capital da Nova Zelândia.
Bem como sua mulher, por cumplicidade criminosa.
Mas, e aquela mão?
A quem ela pertencera?
Como tanto Howard quanto Sarah se recusaram a contar sobre a origem daquele membro decepado, a Polícia seguiu investigando, e chegou a testemunhas que contaram ter visto Howard no funeral de uma moradora de uma cidade vizinha a Christchurch, chamada Helen Rayner, que havia morrido pouco antes do “desaparecimento” do ferroviário na praia.
A dedução foi que ele teria se aproveitado do enterro recente da mulher para decepar a mão do cadáver. Apesar dos protestos de familiares, o corpo de Helen Rayner foi exumado e – surpresa! – continha as duas mãos.
Ainda mais desorientada, a Polícia passou a desenterrar outros cadáveres mais ou menos recentes, em busca da dona daquele misterioso membro amputado.
Mas não achou nada.
Tampouco Howard e Sarah mudaram sua decisão de não revelar a quem aquela mão pertencera.
Consta que Howard só dividiu a identidade da única vítima daquele caso – a dona da tal mão misteriosa, que, no entanto, já estava morta quando teve o membro decepado – com o juiz que condenou o casal a uma branda pena de dois anos de prisão.
A razão para uma pena tão pequena para algo de tamanha repercussão foi que aquele crime, que parecia envolver a morte de alguém, não passara de uma engenhosa tentativa do velho golpe do seguro.
Que quase deu certo.
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