Na noite de 13 de janeiro de 2012 (uma sexta-feira 13, o que deixava de ser uma data um tanto temerária para os supersticiosos), o transatlântico Costa Concordia navegava entre os portos italianos de Civitavecchia e Savona, com 3 206 passageiros e 1 023 tripulantes, quando atropelou uma rocha na superfície, ao se aproximar demais da Ilha Giglio, na costa do Mar Tirreno – um erro grosseiro do seu comandante, o italiano Francesco Schettino, que resultou em uma tragédia com mais de três dezenas de mortos.

A rota original do navio previa passar a uma distância segura de cinco milhas náuticas da Ilha, onde vivia um ex-comandante de transatlânticos, já aposentado, que fora mentor de Schettino, no passado.

Mas ele decidiu alterar o rumo, se aproximar da ilha e apitar, para saudar o amigo.

No entanto, um mal entendido na comunicação entre o comandante Schettino e o timoneiro gerou lentidão na manobra, causando a colisão do navio, nas proximidades da ilha.

O Costa Concordia tinha tripulantes de 38 nacionalidades e nem todos dominavam bem o inglês, língua oficial a bordo.

Um deles era o timoneiro indonésio Jacob Rusli Bin, encarregado de dar o rumo ao navio, a partir das ordens vindas de Schettino – que era italiano, portanto, falava inglês com forte sotaque, nem sempre compreendido pelo seu subordinado.

Além disso, o comandante estava um tanto distraído pela presença, na ponte de comando, de sua amante, a dançarina moldava Domnica Cemortan, com que estava tendo um caso amoroso.

A ordem de Schettino para que o navio se aproximasse da Ilha Giglio consistiu em 14 rápidas manobras consecutivas, que o timoneiro não compreendeu bem, pela dificuldade com o idioma – e isso resultou em demora para executá-las.

O último comando feito pelo timoneiro aconteceu apenas dois segundos antes da colisão com a rocha submersa, quando não havia mais tempo de evitá-lo.

A colisão abriu um rasgo de 53 metros de comprimento no casco, que passou a ser inundado rapidamente.

Mesmo assim, Schettino levou inacreditáveis 25 minutos para agir.

E quando o fez, apenas ordenou que o avariado Costa Concordia avançasse na direção da ilha, para que fosse encalhado, a fim de evitar o naufrágio.

Só 1h15 depois do choque, quando diversos compartimentos do navio já estavam inundados, o Costa Concordia estancou nas margens da Ilha Giglio.

E ali começou a inclinar barbaramente, por conta do peso da água que entrava, dificultando a evacuação dos passageiros.

Quando a inclinação passou dos 20 graus, ficou impossível baixar os botes salva-vidas do lado oposto a inclinação do casco, o que limitou ainda mais a operação.

O navio continuou adernando, até atingir 70 graus de inclinação.

Quando isso aconteceu, abandonar as cabines pelos corredores internos tornou-se um drama, situação agravada pelo completo apagão elétrico, que deixou o navio totalmente às escuras, acentuando o pânico.

Era o início da tragédia.

Assim que percebeu as dimensões do desastre, o comandante Schettino, acompanhado pela amante, tratou de abandonar o transatlântico, alegando que “comandaria as ações de abandono a partir de um barco ao lado do navio, para ter melhor noção da operação”.

Mas, em vez disso, ele seguiu direto para a ilha, onde desembarcou e se abrigou em um hotel.

Pouco antes disso, Schettino recebeu uma ligação furiosa do capitão dos portos da região, Gregorio De Falco, cuja fala se tornaria emblemática.

– “Vada a bordo, cazzo” (“Vá a bordo, catso!” – uma expressão-palavrão que se tornaria mundialmente famosa) – ordenou o capitão dos portos.

Nem assim, Schettino voltou para o navio.

A tragédia do Costa Concordia aconteceu apenas três meses antes de se completarem 100 anos do afundamento do Titanic, e ironicamente teve algumas semelhanças com o naufrágio do transatlântico mais famoso da História: também foi causada por uma colisão do navio que resultou em um rasgo na lateral submersa do casco, a inundação alagou mais compartimentos estanques do que o projeto do navio permitia, houve falha gritante da tripulação em não agir rapidamente na evacuação dos passageiros, e o abandono foi caótico, também por falha do comandante.

A contabilidade da evacuação dos passageiros e tripulantes mostrou que, quando não havia mais ninguém apto a abandonar o navio, ainda restavam 32 pessoas a bordo, trancadas nas cabines submersas ou mortas, o que se confirmaria nos dias subsequentes, quando equipes de mergulhadores penetraram no Costa Concordia e encontraram corpos – mas não de todas as vítimas.

Os restos de duas delas só seriam encontrados quando o navio já estava sendo desmanchado.

A ossada do garçom indiano Russel Rebello, que trabalhava a bordo, só foi achada no dia 3 de novembro de 2014 – dois anos e meio depois do desastre -, por operários do estaleiro que desmantelava o transatlântico.

Pouco antes disso, quando o Costa Concordia estava sendo removido da ilha e levado para o desmanche, houve mais uma vítima.

Um mergulhador espanhol que atuava nos trabalhos de remoção do navio, ficou preso nas ferragens e morreu afogado. Foi a 33a vítima fatal do malfado navio.

Quatro dias após a tragédia, o comandante Schettino foi indiciado e preso, em meio a um intenso clamor por justiça.

E ela veio.

Mas, inicialmente, branda demais.

Um ano e meio depois, Schettino foi levado a julgamento, sob as acusações de causar o acidente, abandonar o navio e gerar 32 homicídios culposos, quando não há a intenção de matar.

As famílias das vítimas protestaram, recorreram e um novo julgamento foi feito, em 2015.

Nele, Schettino foi condenado a 16 anos de prisão. Mas entrou com recurso e se manteve em liberdade.

O recurso impetrado pelo comandante Schettino só foi julgado – e negado – em 2017. Na ocasião, a acusação aproveitou para pedir a elevação da pena para 27 anos de prisão.

Mas o tribunal decidiu manter a condenação anterior, de 16 anos.

Na prisão, ele escreveu um livro, que batizou de A Verdade Submersa, no qual se posicionava como um herói, por ter salvo milhares de pessoas ao decidir encalhar o navio na ilha.

Mas só ele acreditou nisso.

Francesco Schettino segue preso na Itália até hoje.

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