por Jorge de Souza | out 24, 2021
Dez anos atrás, em novembro de 2012, o barco australiano de pesquisas R/V Southern Surveyor fazia um estudo sobre placas tectônicas entre a costa leste da Austrália e a Nova Caledônia, quando um detalhe chamou a atenção dos cientistas a bordo.
Embora os mapas do Serviço Geral de Batimetria dos Oceanos, uma entidade reconhecida até pela Unesco, indicassem a existência de uma ilha com 60 km2 naquela região, as cartas náuticas usadas pelo capitão do barco mostravam apenas água, e mais nada.
Intrigados, eles, então, resolveram consultar as imagens do Google Earth na Internet e ficaram ainda mais confusos.
No mesmo local onde o Serviço de Batimetria dos Oceanos exibia claramente uma ilha, identificada como Ilha Sandy (“Arenosa”, em português), e as cartas náuticas do barco exibiam apenas o mar a perder de vista, as imagens do Google Earth mostravam uma intrigante mancha negra, com o mesmo formato da suposta ilha, como se ela tivesse sido apagada da imagem original.
E foi isso mesmo que aconteceu, como os atônitos cientistas descobririam ao rumar para o tal ponto indicado nos dois mapas e constatar que não lá havia ilha alguma – embora o Serviço de Batimetria afirmasse que “sim”, e o Google Earth sugerisse um desconcertante “talvez tenha havido”.
Como uma ilha do tamanho de Manhattan, em Nova York, poderia ter desaparecido?
Como uma imagem de satélite podia ter mostrado algo que não existia?
Como confiáveis mapas podiam exibir tamanha discrepância?
Todas as perguntas convergiam para a mesma resposta: a Ilha Sandy jamais existiu
Naquele dia, a principal descoberta dos pesquisadores do R/V Southern Surveyor foi a “não descoberta” de uma ilha que boa parte do mundo julgava que existia.
Foi a partir daquela inequívoca constatação que começou o escândalo da “ilha que nunca existiu” – e que colocou o Google Earth numa saia justa danada.
Como explicar aquele constrangedor borrão no exato ponto onde alguns mapas indicavam haver uma ilha e a tripulação do barco australiano provou que não havia nada?
Como uma ilha inexistente poderia aparecer em uma imagem supostamente de satélite?
A única explicação possível é que se tratava um erro absurdo: a existência, em mapas e até nas imagens do Google Earth, de uma ilha que não existia. E isso em pleno Século 21!
O Google se esquivou como pode.
“Imagens do Google Earth provém de uma série de provedores e plataformas”, dizia o site da empresa, sem maiores detalhes – como se a polêmica tivesse sido gerada a partir de um mapa desenhado por mãos humanas, sabidamente falíveis, e não por imagens de satélites supostamente fidedignas ao que existe de fato no planeta.
Mesmo assim, o episódio ganhou o apoio de alguns especialistas, apesar da perplexidade geral dos cientistas.
“Os oceanos são gigantescos e, certamente, nós ainda não sabemos tudo sobre eles. E é por isso que ainda existem navios de pesquisa”, desconversou o oceanógrafo e cartógrafo americano David Titley, ao ser consultado sobre o constrangedor assunto.
Houve também quem lembrasse de uma antiga prática dos velhos cartógrafos, a de incluir algo fictício ou deliberadamente errado nos mapas a fim de desmascarar quem os copiasse, para justificar a presença de uma ilha onde não havia nada.
Neste caso, a armadilha teria se perpetuado nos mais diferentes mapas, e se transformado em uma “verdade”.
Mas o Serviço de Batimetria dos Oceanos e o Google não foram as únicas entidades que caíram na farsa.
Desde que fora “descoberta”, em 1876, pela tripulação de um certo barco baleeiro chamado Velocity, a “existência” da Ilha Sandy (que, depois, seria erroneamente confundida com outra ilha do mesmo nome, na mesma região – e esta real -, descoberta pelo lendário capitão James Cook, em 1774, o que pode ter gerado boa parte da confusão), passou a constar nos mais diferentes mapas, dando ênfase a patética lambança cartográfica.
No início do século 20, a “ilha invisível”, “ilha fantasma” ou “ilha que nunca houve”, como a Ilha Sandy passou a ser jocosamente apelidada após ser desmascarada a mentira geográfica, aparecia em todos os mapas da região, a começar pelas respeitadas cartas marítimas dos almirantados da Alemanha e da Inglaterra, que, na época, balizavam a navegação mundial.
Também constava nas plantas oceânicas do conceituado Instituto Britânico de Oceanografia, que serviam de base para outras tantas cartas náuticas, e nos mapas da prestigiada National Geographic Society, uma espécie de Bíblia geográfica do planeta, antes da era dos satélites.
E continuou assim por mais de um século.
Em 1982, a fictícia Ilha Sandy ainda constava nos mapas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, embora a Marinha da França já a tivesse removido, sem muito alarde, do seu departamento de hidrocartografia desde 1974, quando um voo de reconhecimento mostrou que no local indicado como sendo o da duvidosa ilha só existia o mar aberto, e com profundidades que passavam dos 1 300 metros – impossível, portanto, haver ou ter havido uma ilha ali.
Imediatamente, o Instituto Britânico de Oceanografia emitiu uma discreta errata (nenhum órgão queria alardear publicamente o erro grosseiro) e outros mapas passaram a classificar a suposta ilha com a sigla “ED”, de “existence doubtful” (“existência duvidosa”, em português).
Mas foi só quando os pesquisadores australianos constataram in loco que não havia nada no local onde a Ilha Sandy deveria estar, que a National Geographic Society e o Google a apagaram dos seus mapas.
E isso aconteceu menos de nove anos atrás.
De acordo com a crença mundial, a Ilha Sandy, que teria cerca de 25 quilômetros de extensão por cinco de largura, portanto, não tão pequena assim, ficava no nordeste do Mar de Coral, entre as ilhas (reais) de Chesterfield e Nereus, a meio caminho entre a Austrália e o território francês da Nova Caledônia, numa área particularmente remota do Pacífico Sul.
Mas, como ficaria inquestionavelmente provado, nas suas coordenadas indicadas nos mapas (19.22S e 159.93E) só havia água.
E nenhum sinal de que ali, algum dia, teria existido uma ilha.
Ilhas que surgem ou desaparecem não são obras de ficção.
A História e a geografia registram alguns casos, sempre ligados a fenômenos naturais, como erupções de vulcões e erosões causadas pelo mar.
Em pelo menos um caso, o da efêmera Ilha Sabrina, no Arquipélago dos Açores, aconteceram as duas coisas.
Em junho de 1811, a ilha surgiu do nada, a partir de uma erupção submarina, mas apenas três meses depois, desapareceu por completo, dissolvida pelo mar.
Mesmo assim, chegou a ser pleiteada pelos ingleses como um “novo território descoberto”, apesar de ficar em águas portuguesas – uma interessante história verídica, que pode ser conferida clicando aqui.
Contudo, nada disso aconteceu com a fictícia Ilha Sandy, embora ela tenha feito parte da cartografia mundial durante mais de um século.
A tese mais provável – e aceita pela ciência – para explicar a “existência” da Ilha Sandy no passado é que o que os tripulantes do baleeiro Velocity avistaram, em 1876, teria sido uma fenomenal aglomeração de pedra-pomes no mar, um tipo de rocha vulcânica que flutua, gerada por alguma erupção na região, que, quando vista de longe, poderia ter dado a impressão de ser terra firme.
Para reforçar esta tese, mais tarde, descobriu-se que havia um vulcão submerso adormecido no local onde até o Google dizia que a Ilha Sandy estava.
Mas não a própria ilha.
Foi um vexame generalizado, que entrou para a história do mundo da cartografia.
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Rondon de Castro, leitor
“Leiam. É muito bom!”
André Cavallari, leitor
por Jorge de Souza | out 7, 2021
A America´s Cup, a regata mais famosa do mundo e também a mais antiga competição ainda em disputa entre todos os esportes, foi assim batizada por causa de um barco: o iate americano America, cuja história foi realmente digna de tal homenagem.
Ele foi construído em 1851, nos Estados Unidos, como uma prova de que os americanos já eram capazes de fazer barcos tão bons e velozes quanto os dos colonizadores ingleses.
Quando ficou pronto, o America logo cruzou o Atlântico, para participar de uma competição contra 17 barcos ingleses, na própria Inglaterra – foi, também, o primeiro barco a atravessar um oceano com o único objetivo de participar de uma regata.
Lá chegando, não fez por menos e venceu a prova, fato que acabou gerando um comentário que entrou para a história.
Quando a rainha inglesa Victoria, que estava presente ao evento, perguntou a um súdito qual barco havia chegado em segundo lugar, atrás do veleiro americano, ouviu, respeitosamente, que “naquela competição, não havia segundo colocado” – porque só a vitória importava.
A partir de então, em homenagem ao feito daquele veleiro vindo de uma ex-colonia inglesa, a mais lendária das regatas passou a ser chamada de “America´s Cup” e começou a ser disputada a cada quatro anos.
E, fazendo jus ao nome da própria competição, o domínio americano na America´s Cup durou longos 130 anos, até ser quebrado pelo veleiro australiano Australia III, em 1983.
Já o barco que deu origem a esta hegemonia centenária teve um destino bem mais curto – e um fim inglório.
Depois daquela surpreendente vitória na Inglaterra, o America foi vendido a um milionário inglês, que o rebatizou Camilla.
Em seguida, o barco passou pelas mãos de outros donos europeus, até retornar aos Estados Unidos, às vésperas da Guerra Civil americana.
Ao chegar, foi requisitado pelos Confederados para atuar no conflito e teve o seu nome novamente alterado, desta vez para Memphis.
Por conta da sua incrível capacidade de velejar rápido, foi transformado em barco de interceptação de embarcações que supriam os inimigos da União com armamentos e mantimentos.
Mas, quando os Confederados se viram cercados, o destino do America acabou sendo selado.
Para não cair nas mãos dos inimigos, o outrora garboso veleiro foi propositalmente afundado, em 1862, em um canal, nos arredores de Jacksonville, no norte da Florida.
E ali ficou por mais de um ano, até ser localizado, no fundo do canal, mas ainda em bom estado, por um pesquisador das tropas da União.
O America, então, foi recuperado, voltou a navegar com o seu nome original, mas passou a combater do outro lado do conflito.
Quando a Guerra Civil terminou, passou a ser usado como barco de treinamento da Academia Naval de Annapolis.
Mas, seis anos depois, em 1870, voltou a disputar a copa que ele mesmo criara, terminando em quarto lugar – nada mal para um barco com já quase 20 anos de uso e tantos contratempos no currículo, inclusive um completo naufrágio.
Depois disso, o America foi vendido ao general americano Benjamin Butler, que o usou como iate particular, por outros 20 anos.
Em 1893, com a morte do general, o histórico veleiro foi arrematado por um comitê de restauração da história americana e novamente entregue a Academia de Annapolis.
Lá, foi reformado, restaurado e colocado em exposição permanente, como reconhecimento por aquela histórica vitória contra os ingleses, décadas antes.
E assim o veleiro ficou por muitos anos, até que, em 1942, com o início da Segunda Guerra Mundial, foi retirado da água e levado para um galpão da academia, a fim de não correr nenhum risco.
Mas, ironicamente, foi justamente ali, na pseudo segurança de um depósito, que o America encontrou o seu final inglório.
Durante uma tempestade, em 29 de março daquele ano, o teto do galpão desabou, despedaçando o barco que, de certa forma, simbolizava o próprio orgulho americano.
Ficou, no entanto, o legado da America´s Cup, a mais famosa competição de barcos a vela do mundo, que é disputada até hoje.
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por Jorge de Souza | out 1, 2021
No início de maio, a informação dada pela Marinha da Indonésia de que o afundamento do submarino KRI Nanggala-402, no dia 21 de abril deste ano, com 53 homens a bordo, pode ter sido causado por um fenômeno natural chamado “onda interna solitária”, deixou a imensa maioria das pessoas do planeta intrigadas.
E perplexas.
Até então, praticamente ninguém fora do meio científico tinha ouvido falar de tal tipo de onda submersa.
No entanto, mesmo quem nunca pôs os pés em submarino, mas já voou de avião, muito possivelmente já sentiu algo bem parecido, sob outro nome: turbulência.
“Ondas internas” são uma espécie de turbulência no fundo do mar. Só que, dependendo da região e da topografia do leito marinho, elas se tornam bem mais intensas do que uma simples turbulência no ar.
E são bem mais comuns do que se possa imaginar.
O princípio das ondas submarinas é o mesmo das correntes de ar.
No céu, quando o vento passa sobre uma colina íngreme, o ar é empurrado para cima, em um movimento contrário ao da gravidade.
Mas, ao ser superado o obstáculo, a gravidade volta a agir e o movimento torna-se inverso, acelerando o ar para baixo.
É o que acontece também no mar.
“Ondas internas” ocorrem quando os movimentos mais intensos das marés passam por grandes obstáculos no fundo do mar.
Mas só ganham dimensões realmente relevantes quando isso acontece em áreas onde há grande variação na densidade da água (leia-se temperatura e salinidade), entre a superfície e as partes mais profundas.
Quando essa “turbulência submarina” rompe a divisão das águas com diferentes densidades, surge uma “onda interna”.
E quando essa onda se superpõe a outras, acumulando toda a energia em uma só onda, que gera um fortíssimo movimento circular submerso, surge uma onda solitária interna – que é bem mais forte do que as ondas internas convencionais.
Ao que tudo indica, foi o que atingiu o submarino indonésio, que foi encontrado quatro dias depois, no fundo do estreito da ilha de Bali.
No mesmo dia e horário em que o submarino indonésio desapareceu dos sonares, um satélite meteorológico japonês havia detectado a presença de movimentos de ondas internas na região onde ocorreu a tragédia.
Não era, contudo, nenhum fato raro, porque toda aquela região, com intenso fluxo de água entre os oceanos Pacífico e Índico, e fundo marinho bastante acidentado, sempre foi propícia a formação desse tipo de ondulações desse tipo – que, por sinal, em menor escala, frequência e intensidade, acontece em todos os mares do mundo.
Ali, no entanto, o fenômeno é particularmente bem mais comum e intenso, fruto da combinação de grandes marés com altas montanhas submersas, que potencializam os efeitos das “ondas internas”.
“O mar da Indonésia concentra cerca de dez por cento das marés mais enérgicas do planeta”, atesta a oceanógrafa Bernadette Sloyan, do Instituto Oceânico e Atmosférico do Austrália, que fica ali perto.
“E isso gera constantes instabilidades entre a superfície e as partes mais profundas, por conta das diferentes densidades em diferentes camadas de água”.
Na região, o fenômeno costuma ocorrer mais de uma vez por mês.
E, para azar dos submarinistas indonésios do KRI Nanggala-402, pode ter ocorrido justamente quando eles estavam submergindo, não permitido uma reação a tempo.
Quando muito intensa, uma onda solitária interna, que cumpre movimentos circulares, leva para o fundo tudo o que encontra pela frente.
Uma delas pode ter provocado a descida acelerada e descontrolada do submarino, fazendo-o submergir muito mais do que poderia, o que gerou o colapso da sua estrutura, pelo aumento da pressão no fundo do mar.
Ao serem encontrados, os destroços do submarino indonésio estavam fragmentados em três partes, a 853 metros de profundidade – bem mais fundo do que ele fora projetado para suportar.
Embora esse possa não ter sido o único motivo (geralmente, grandes acidentes são causados por uma fatal combinação de erros ou fatores), é, até hoje, o que melhor explicou o naufrágio do KRI Nanggala-402, já que, segundo a Marinha da Indonésia, ao submergir, ele não mostrou nenhum indício de perda de energia ou pane elétrica a bordo, como inicialmente havia sido apontado como sendo a causa do desastre.
Na ocasião, as autoridades também negaram que o acidente pudesse ter sido consequência da idade avançada do submarino, que fora construído 40 anos antes, ou com a precariedade na sua manutenção, já que a última grande revisão pela qual ele passou aconteceu em 2012.
Embora o motivo oficial do acidente permaneça incerto até hoje, tudo indica que a participação de uma gigantesca onda solitária interna tenha sido determinante naquela tragédia.
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por Jorge de Souza | set 30, 2021
Quando um violento tsunami atingiu a Indonésia, em 2004, um barco de 25 metros de comprimento, levado pela inundação, foi parar em cima da casa da indonésia Fauziah Basyariah, na região de Banda Aceh, uma das mais afetadas pela tragédia.
Mas o que poderia ser o prenúncio de outra tragédia (o desmoronamento da casa causado pelo peso do barco) acabou sendo a salvação de Fauziah, da sua família e de um grupo de vizinhos, que ali haviam buscado abrigo contra a inundação – um total de 59 pessoas.
Ao perceber que o barco encalhara exatamente sobre sua casa, já então também tomada pelas águas, ela abriu um buraco no forro de madeira e mandou todos passarem para o telhado e embarcar no próprio barco – que permaneceu milagrosamente “ancorado” no teto da casa até o nível das águas baixaram.
E ali ele ficou até hoje, agora transformado em atração turística na cidade.
Virou a Arca de Noé do tsunami da Indonésia.
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por Jorge de Souza | set 15, 2021
Durante um bom tempo, ao longo da primavera de 1988, a principal distração dos frequentadores da Praia da Madalena, no litoral norte de Portugal, foi sentar-se na areia e ficar admirando o enorme casco do cargueiro japonês (mas com bandeira panamenha e tripulação sul-coreana) Reijin, tombado bem diante da praia.
O navio era tão grande que praticamente impedia a visão da linha horizonte.
Não havia como ignorar aquele gigante de aço deitado a míseros metros da areia, e pequenas multidões passavam o dia apreciando aquela insólita paisagem.
Mas, bem mais interessante do que o encalhe em si, era o que havia à mostra no convés do navio semiafundado: automóveis.
Centenas de automóveis zero quilômetro.
Cerca de 5 000 novíssimos carros da marca Toyota jaziam à mostra, sendo borrifados, dia e noite, pela água salgada.
Uma desejada e valiosa carga, sendo paulatinamente deteriorada pelas ondas da praia.
Alguns banhistas mais ousados chegavam a nadar até o monstruoso casco adernado, em busca de algum suvenir ou – quem sabe? – um acessório possível de retirar dos automóveis prestes a serem engolidos pelo mar.
Durante meses, a Praia da Margarida, que nunca fora muito popular entre os moradores da vizinha cidade do Porto, tornou-se atração turística de primeira grandeza na região.
E tudo por conta da pitoresca carga daquele navio, logo apelidado de “Titanic dos Carros”.
O que causou tudo aquilo foi a incompetência da tripulação sul-coreana, que, após desembarcar cerca de 200 automóveis no porto de Leixões, vizinho à praia, não tomou o devido cuidado de compensar o peso extraído do navio completando os seus tanques de lastro.
A consequente má distribuição do peso a bordo desestabilizou o Reijin, que acabou tombando nas ondulações do rumo (também equivocado) que tomou ao sair do porto: em vez de rumar para o mar aberto, o navio avançou paralelo à costa, onde as ondas são sempre mais vigorosas.
Era madrugada do dia 26 de abril quando o costado de bombordo do Reijin inclinou e encostou no mar, incapaz de retornar à posição original.
Em seguida, o navio foi arrastado pelas ondulações até a orla, onde as pedras da Praia da Margarida selaram de vez o seu destino.
Dos 22 tripulantes que havia a bordo, um morreu e outro desapareceu no episódio.
E, embora ainda novo (fora lançado apenas um ano antes e aquela travessia, do Japão até a Europa, era a sua primeira grande viagem), o Reijin foi dado como perdido.
Bem como sua cobiçada carga de automóveis, que virou pura tentação para a vizinhança da praia.
Nos meses subsequentes, para frustração geral da plateia, milhares de carcaças de carros jamais utilizados foram retiradas do navio encalhado e, mais tarde junto com ele próprio, afundadas num ponto a 40 milhas da costa, o que transformou o local em um dos maiores ferros-velhos submersos do planeta.
Nenhum automóvel foi salvo, muito menos resgatado pelos ambiciosos moradores da região.
Aos esperançosos banhistas da Praia da Margarida só restaram pedaços de ferro carcomido do navio e um ou outro acessório encharcado daqueles 5 000 automóveis trazido pelo mar.
Para eles, o sonho de ter um carro zero quilômetros de graça também morreu na praia.
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por Jorge de Souza | set 10, 2021
Vinte dias atrás, no final da tarde de domingo, 22 de agosto, o casal carioca Cristiane Nogueira da Silva, de 48 anos, e Leonardo Machado de Andrade, de 50, embarcaram na traineira Novo Milênio I, que pertencia a ele, e partiram, só os dois, da Praia da Longa, na Ilha Grande, no litoral sul do Rio de Janeiro, para apreciar o pôr do sol na vizinha Lagoa Verde, a pouco mais de um quilômetro de distância.
E desapareceram – bem como o barco no qual estavam.
Nove dias depois, o corpo de Cristiane surgiu em uma parte erma da Baía de Mangaratiba, a quilômetros de distância do ponto para o qual supostamente haviam partido, assim como dois itens que pertenciam ao barco, mas em áreas opostas – o que, juntamente com um intrigante foguete sinalizador avistado na região na noite seguinte ao desaparecimento, deu ao caso ares de mistério.
Embora a causa mais provável seja a de um simples naufrágio, outras hipóteses ainda estão sendo consideradas pela polícia.
Ao longo de mais de duas semanas, a Marinha vasculhou toda a região, que é bem grande, já que mais de 50 quilômetros de mar separam a Lagoa Verde da baía da Marambaia, onde o corpo de Cristiane foi encontrado.
E tudo o que foi encontrado foi uma janela e duas boias do barco, boiando no mar.
Só que em locais opostos, o que confundiu ainda mais as buscas pelo barco supostamente afundado.
A janela, segundo a polícia, foi encontrada na Lagoa Verde, na Ilha Grande – um claro indicativo da área onde a traineira teria afundado.
Já as duas boias apareceram na baía de Marambaia, área oposta à da lagoa, mas a mesma onde apareceu o corpo de Cristiane, e aparentemente pelo mesmo motivo: a influência da correnteza, que teria arrastado corpo e boias da Ilha Grande para lá – algo bem comum de acontecer na região.
Para complicar ainda mais as buscas pelo barco, no início da noite do dia seguinte ao desaparecimento do casal, um grupo de amigos filmou o disparo de um foguete sinalizador, equipamento náutico usado para pedir socorro no mar, na região da Marambaia.
Aquele foguete poderia ter sido disparado do barco do casal, como um pedido de socorro.
Embora o autor do vídeo diga que entrou em contato com os Bombeiros para avisar sobre o estranho sinal, aparentemente, na mesma noite, nenhuma busca na região foi feita.
“A polícia só foi para lá dias depois, quando o corpo da Cristiane apareceu”, lamenta a ex-esposa de Leonardo, Vanessa Morett, com que o casal mantinha um bom relacionamento.
No entanto, não há como relacionar o disparo do tal foguete com o barco do casal – pode ter sido um disparo acidental ou brincadeira vinda de outro barco, já que não são raros os donos de embarcações que usam erradamente aquele tipo de sinalizador como foguetes de comemoração.
Além disso, como explicar que a janela do barco tenha sido encontrada a dezenas de quilômetros de lá, na Lagoa Verde, no sentido contrário ao da correnteza?
Ainda assim, a divulgação do foguete sinalizador, que só pipocou nas redes sociais dias depois, levou a polícia e a Marinha a ampliar as buscas pelo barco em muitos quilômetros quadrados, aumentando também as chances de não encontrá-lo – porque, quanto maior for a área, mais difícil fica o trabalho.
“Achar o barco é fundamental”, sempre disse o delegado encarregado do caso, Vilson de Almeida Silva, da 166ª Delegacia Policial de Angra dos Rei. “Só a partir dele será possível entender o que aconteceu com o casal. Se é que o barco afundou de fato…”
Já a segunda dúvida que paira sob a hipótese de naufrágio é por que o corpo de Cristiane não estava com um colete salva-vidas quando foi encontrado, uma vez que vestir este equipamento costuma ser a primeira providência em casos desse tipo – sobretudo para alguém tão atento às questões de segurança, quando a primeira esposa garante que era o ex-marido.
Para reforçar este argumento, uma foto da traineira usada pelo casal mostrava claramente muitos coletes salva-vidas armazenados debaixo da cobertura do convés, além de duas boias salva-vidas penduradas na lateral da cabine – as mesmas que, depois, foram encontradas boiando nas águas da baía de Marambaia.
Por que aqueles equipamentos de segurança não foram usados pelas vítimas no eventual naufrágio?
Uma das hipóteses é que o naufrágio tenha sido tão fulminante que não houve tempo para nada, o que também invalidaria o disparo do tal foguete sinalizador.
Outra, é que as duas boias encontradas no mar tenham se desprendido naturalmente do barco quando ele afundou, já que elas estavam apenas penduradas na lateral da
A possibilidade de haver uma relação direta entre o disparo do foguete sinalizador e o barco do casal, 24 horas depois do desaparecimento deles, só se explicaria se a embarcação tivesse tido algum problema (quebra do motor ou inundação parcial – o que explicaria aquela janela encontrada no mar…), e ficasse à deriva durante toda a noite e também ao longo do dia seguinte inteiro, sendo levada pela correnteza, na direção da baía de Marambaia.
No entanto, logo no dia seguinte ao desaparecimento do casal, um helicóptero sobrevoou a região e não encontrou nenhum sinal da traineira – que não poderia ter ido tão longe, em tão pouco tempo, levada apenas pela correnteza.
Além disso, é pouco provável que outro barco não tivesse visto a traineira à deriva, durante todo o dia, em uma das áreas mais movimentadas da região.
A menos que o barco do casal já não estivesse mais na superfície – o que, no entanto, eliminaria de vez a relação dele com aquele foguete, na noite de segunda-feira.
Ou, então, que o foguete não estivesse no barco e sim com um dos náufragos no mar…
Além da hipótese de naufrágio instantâneo, causado por algum acidente – tese defendida pela maioria das pessoas –, também não foi descartada a possibilidade de o casal ter sido vítima de um assalto e roubo do barco no mar, embora o corpo de Cristiane não apresentasse lesões.
Até porque, antes de sair de casa, Leonardo teria confidenciado a um amigo vizinho que, após assistir ao pôr-do-sol, pretendia “namorar” um pouco no barco, ou seja, já na parte da noite.
Isso pode ter deixado o casal desatento, além de levá-los para o interior da cabine, sem, portanto, visão externa de uma eventual movimentação ao redor do barco – situação na qual poderiam ser facilmente dominados por ladrões.
A tese de assalto seguido de latrocínio também explicaria por que o corpo de Cristiane fora encontrado sem um colete salva-vidas, equipamento que o barco tinha em profusão.
Mas é contraditória com as duas boias encontradas no mar – que ladrão lançaria boias para as vítimas que jogara ao mar?
Tão logo o desaparecimento do casal foi noticiado, o filho de Cristiane, Guilherme Brito, recebeu ligações de supostos sequestradores, que diziam estar com as duas vítimas e pediam resgate.
Mas era golpe: bandidos estavam se aproveitando do desespero da família para tentar extorquir dinheiro.
Embora a hipótese de o casal ter sido vítima de assalto, seguido de roubo do barco e arremesso deles ao mar, não tenha sido descartada pela polícia, o surgimento das duas boias enfraqueceu esta tese – e reforçou ainda mais a de um simples naufrágio.
Ou, então, a de um golpe muito bem arquitetado…
Cristiane e Leonardo vinham ensaiando uma reconciliação há tempos, após dois anos separados de uma união que durara mais de oito.
Foi com esse intuito que o casal decidiu passar um fim de semana junto, na mesma na praia onde Leonardo vinha morando, desde que deixara o Rio de Janeiro.
Cristiane veio, então, de Salvador, onde estava morando, para encontrar o ex-companheiro, com quem vinha mantendo um bom relacionamento à distância.
Se algo aconteceu entre eles na noite do desaparecimento, não se sabe.
Mas câmeras de segurança da casa mostraram os dois saindo, para embarcar no barco, no final da tarde do dia em que desapareceram, em perfeita harmonia.
“De jeito algum acredito em crime passional ou feminicídio”, garante a ex-esposa Vanessa. “O Leonardo jamais foi violento”.
Ainda assim, a polícia também não descarta a hipótese de Cristiane ter sido vítima do ex-companheiro.
Segundo esta linha de raciocínio, ele poderia tê-la jogado ao mar antes de fugir com o barco, e simular o naufrágio – neste caso, a janela e as duas boias encontradas no mar fariam parte de uma encenação.
Ou, então, de ter intencionalmente provocado o naufrágio com ela dentro do barco.
Isso explicaria por que o corpo de Leonardo ainda não foi encontrado, bem como o barco – embora, casos desse tipo não sejam nada raro de acontecer no mar.
O fato de os documentos e celular de Leonardo não terem sido encontrados na casa (ao contrário dos de Cristiane), levou a polícia a pedir a quebra do sigilo telefônico e rastreio do aparelho dele.
Mas nada ainda foi provado.
“Não se trata de acusar uma vítima, mas é preciso investigar todas as possibilidades”, argumenta a polícia, que ainda não tem a menor ideia do que realmente aconteceu com o casal, no mar de Angra dos Reis.
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