por Jorge de Souza | set 23, 2020
Em 28 junho de 1943, quando o pesqueiro carioca Changri-Lá partiu do porto do Rio de Janeiro para mais uma habitual temporada de pesca na região de Cabo Frio, o Brasil já estava em guerra contra a Alemanha nazista havia quase um ano.
Mas, exceto pelos costumeiros pedidos da Marinha do Brasil para que os pescadores ficassem atentos a eventuais aparições de submarinos nazista na costa brasileira, e comunicassem o fato às capitanias, não havia motivos para preocupações. Afinal, o Changri-Lá era um simples barco de pesca, com casco de madeira de menos de 10 metros de comprimento, que mais parecia uma canoa e não oferecia o menor risco – ou interesse – aos inimigos. Pelo menos era o que todo mundo achava.
A começar, pela própria tripulação do barco, todos humildes pescadores. Por conta do mar agitado, a travessia até a Região dos Lagos, no litoral norte do estado, foi bem lenta e cansativa, o que levou o mestre do pesqueiro, José da Costa Marques, a fazer uma parada não prevista em Arraial do Cabo, a fim de esperar que o tempo melhorasse.
Uma semana depois, em 4 de julho, o Changri-Lá partiu novamente, acrescido de mais quatro pescadores locais, que substituíram um dos tripulantes, Gabriel Soares Cardoso, que desembarcou por ter torcido o tornozelo – e, mais tarde, ele daria graças a Deus por isso. Com nove homens a bordo, mais o filho do mestre, de 17 anos de idade, o Changri-Lá foi para o mar, tomou o rumo de um famoso pesqueiro a algumas milhas da costa de Cabo Frio, e por lá ficou até o dia 22, quando tudo aconteceu.
Naquele dia, os infelizes pescadores viram um grande submarino emergir bem perto deles e, sem nenhum aviso, abrir fogo. Primeiro, com uma metralhadora. Depois, com um canhão de 105 milímetros, que foi disparado sete vezes contra o indefeso barco brasileiro. Era o U-199, um submarino alemão comandado pelo tenente Hans Werner Kraus, à época com apenas 28 anos de idade.
Os dez pescadores foram fuzilados e afundaram junto com o barco. Seus corpos jamais foram encontrados. Como, naquela época, as comunicações no mar eram precárias, sobretudo em um simples barco de pesca, ninguém ficou sabendo do ocorrido. Só quando pedaços do barco começaram a chegar às praias da região (entre eles, um pedaço de madeira estranhamento chamuscado) é que ficou claro que o Changri-Lá havia afundado.
Mas isso foi creditado a alguma tempestade, ou ao mar revolto, como registrado pela própria Capitania no precário inquérito aberto, que sequer se atentou aos detalhes revelados pelos restos do barco, que, durante dias, foram dar nas praias da região. Como aquele pedaço de madeira chamuscada, claro sinal de que não havia sido um simples naufrágio.
Também foi ignorada a informação de que um submarino alemão fora visto na entrada da Baía de Guanabara dias antes do desaparecimento do pesqueiro. Por fim, a Capitania dos Portos concluiu que o desaparecimento do Changri-Lá e seus dez ocupantes fora uma tragédia natural gerada pelo mar, e a decisão aceita, com resignação, pelos familiares das vítimas – entre elas, a esposa do mestre do barco, que perdeu marido e filho.
Um ano depois, o processo foi arquivado pelo Tribunal Marítimo do Rio de Janeiro e esquecido. Quando isso aconteceu, o próprio submarino que causara o desaparecimento do Changri-Lá, sem que ninguém soubesse disso, também já havia deixado de existir, bem como a maior parte dos seus tripulantes.
Em 31 de julho de 1943, menos de dez dias após mandar pelos ares o pesqueiro brasileiro e todos os seus ocupantes, o U-199 foi detectado, bombardeado e afundado por um avião da Força Aérea Brasileira, logo após ter feito outra vítima em águas brasileiras, o cargueiro inglês Henzada.
O submarino afundou em menos de três minutos, mas 12 dos seus 61 tripulantes sobreviveram, entre eles o próprio comandante Kraus, graças aos botes infláveis que o próprio avião que os atacou lançou ao mar – um gesto de humanidade que os pobres pescadores brasileiros do Changri-Lá não tiveram direito.
Em seguida, os alemães foram resgatados e enviados aos Estados Unidos, como presos de guerra. E foi lá que Hans Werner Kraus confessou o ataque ao pesqueiro brasileiro, durante um interrogatório, justificando o ato com dois argumentos: o de que precisava aferir e calibrar os armamentos do submarino, que, recém-lançado ao mar, ainda não havia feito nenhuma vítima, e, ao mesmo tempo, impedir que os pescadores comunicassem a presença de um submarino alemão em águas cariocas, como sabiam que as autoridades brasileiras haviam pedido que todos os navegantes da região fizessem.
Mas a confissão dos alemães ficou confinada nos arquivos dos Estados Unidos e jamais foi comunicada ao governo brasileiro, que continuou aceitando a tese de que o Changri-Lá afundara por obra da natureza. Contribui para a confusão o fato de o comandante do submarino ter classificado o barco brasileiro no seu depoimento como sendo um “veleiro”, e não um barco de pesca, já que havia uma vela claramente visível no convés.
Mas o que nem ele nem os americanos sabiam é que, para ganhar desempenho no mar, os pescadores do litoral norte do Rio de Janeiro tinham o hábito de adaptar uma pequena vela na proa dos seus barcos, o que causou o mal-entendido.
O fato e todos os seus desdobramentos só vieram à tona mais de 50 anos depois, quando, no final da década de 1990, o governo americano liberou a consulta aos arquivos militares da Segunda Guerra Mundial, e um historiador particular, o carioca Elísio Gomes Filho, que já suspeitava que o naufrágio do Changri-Lá poderia ter a ver com o submarino alemão afundado dias depois, resolveu investigar os documentos da época.
Após ler o depoimento/confissão do comandante alemão, Elísio pressionou – e conseguiu – que o Tribunal Marítimo Brasileiro reabrisse o caso. Em 2001, veio a correção e o veredito final: a razão do desaparecimento do Changri-Lá passou a ser o ataque do submarino alemão, e suas dez vítimas ganharam o direito de fazer parte do Panteão dos Heróis, no monumento aos Mortos da Segunda Guerra, no Rio de Janeiro.
Também ganharam um filme documentário sobre o “Caso Changri-Lá”, dez anos depois, e o nome do barco passou a batizar informalmente umas das orlas de Arraial do Cabo.
Só o que ainda não ocorreu foi o reconhecimento oficial de crime de guerra pelo governo alemão, o que, neste momento, os familiares descendentes das vítimas do Changri-Lá tentam na Justiça. Porque, de injustiça, já bastam os mais de 50 anos que o afundamento do Changri-Lá por um submarino alemão da Segunda Guerra Mundial passaram esquecidos.
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por Jorge de Souza | ago 24, 2020
Três anos atrás, quando a maré baixou, a praia de Santos, no litoral de São Paulo, revelou algo semienterrado na areia: uma fileira de intrigantes pontas de madeira, que, logo se concluiu, fazia parte da estrutura de um grande e antigo barco – que, em seguida sumiu, engolida pelo mar, para reaparecer outras tantas vezes depois.
Mas, que barco era aquele?
Começava ali um enigma, que, até hoje, três anos e algumas pesquisas depois, ainda não pode ser respondido com 100% de certeza – embora todas as evidências apontem na direção do mesmo barco: o veleiro-cargueiro inglês Kestrel, que sabidamente encalhou na praia de Santos, em 11 de fevereiro de 1895, e por lá ficou.
“Tenho 80% de convicção de que se trata daquele barco, porque tamanho e localização do encalhe batem. Mas é preciso uma comprovação científica”, diz o pesquisador Sérgio Willians, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e diretor técnico da Fundação Arquivo e Memória da cidade, que baseia sua opinião sobre a identidade do barco graças, também, a um antigo quadro.
A tela, pintada por Benedito Calixto, um dos grandes nomes da pintura brasileira do início do século passado, que viveu parte de sua vida em Santos, mostra um grande veleiro encalhado na beira de uma praia, mas foi erroneamente classificado como sendo o barco Caldbeck, no município vizinho de Praia Grande.
Não era. Após comparar a paisagem ao fundo da tela com a topografia das praias dos dois municípios, Willians concluiu que aquela praia era a de Santos e que o barco retratado, o Kestrel – o mesmo que, tudo indica, agora vem aflorando gradualmente na areia da praia da cidade, 125 anos depois.
“Que o barco do quadro é o Kestrel, não tenho dúvidas, diz o pesquisador Willians. “Mas não posso afirmar com precisão que seja ele que que está enterrado na praia, embora tudo indique que sim”.
A mesma opinião é compartilhada pelo arqueólogo Manoel Gonzalez, do Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas de Santos, que vem acompanhando o surgimento gradual dos escombros desde 2017, quando os restos do barco apareceram nitidamente pela primeira vez na praia.
E ele é ainda mais otimista na identificação do barco.
“Arrisco dizer que há 90% de chances de ser o Kestrel, mas é preciso escavar o local para comprovar isso. E é aí que começam os problemas”, diz Manoel, que, ao mesmo tempo em que vibra com a descoberta de algo tão valioso para um arqueólogo, reconhece que não será nada fácil executar o trabalho.
“O local onde o barco está soterrado é extremamente ingrato, porque passa metade do tempo seco e outra metade debaixo d´água, por conta do sobe e desce das marés”, explica o arqueólogo.
“Seria até mais fácil se ficasse o tempo todo submerso, porque aplicaríamos técnicas de arqueologia submarina. Mas com essa variação abrupta de ambiente, não dá para fazer nem uma coisa nem outra. É preciso, primeiro, construir um grande muro em torno dele, para reter o mar e permitir escavar no seco. E isso custa caro”, completa Gonzalez.
O centro de pesquisas arqueológicas dirigido por Gonzalez orçou em cerca de R$ 2 milhões os recursos necessários para escavar o casco soterrado, que, segundo ele, está afundado três metros na areia, sendo que a maior parte desse dinheiro seria destinada a construção do tal muro para reter o mar em torno do achado.
“Todos os orçamentos que temos para erguer uma contenção contra o mar passam de R$ 1 milhão”, diz o arqueólogo. “Parece um valor absurdo, mas é preciso considerar que estamos falando de construir uma barreira capaz de resistir a força do mar, com três metros de altura e outros três enterrados na areia, para que a água não infiltre também por baixo. Na prática, é como construir uma ilha seca no meio do mar, para que possamos escavar”.
O custo do projeto gerou comentários irônicos dos moradores da cidade, embora Gonzalez garanta que vá tentar buscar os recursos apenas na iniciativa privada.
“R$ 2 milhões para desenterrar lixo na praia? Só pode ser piada!”, escreveu um morador de Santos, quando as primeiras notícias foram divulgadas. “Sai mais barato construir outro barco”, acrescentou outro, dando coro aos indignados com a proposta de gastar tanto dinheiro para escavar os restos do barco.
“Não é nenhuma relíquia bíblica. É apenas um monte de madeira velha. Nada que uma retroescavadeira e algumas caçambas não resolvam”, resumiu outro morador da cidade, embora parte deles vejam a descoberta na praia com bons olhos, “desde que não atrapalhe a rotina dos banhistas na praia”.
Por enquanto, a área em torno dos restos do barco foi apenas cercada, impedindo o acesso de curiosos às vigas de madeira que brotam na areia, e uma câmera de vigilância foi instalada pela Prefeitura da cidade, para monitorar o local.
Além de intimidar atos de vandalismo (“Já vi gente arrancando pedacinhos de madeira para levar para casa como suvenir”, diz, preocupado, o arqueólogo Gonzalez), o monitoramento tenta impedir acidentes com os banhistas na praia, uma vez que muitas partes do casco estão à mostra na areia e, quando a maré sobe, ficam perigosamente submersas.
“Tivemos que implantar câmera de vigilância, dedicar funcionários para monitorá-la e, cada vez que a maré sobe demais, é preciso refazer a cerca em torno do barco”, diz Wagner Ramos, secretário de Serviços Públicos da Prefeitura de Santos, que, a partir de uma decisão do Ministério Público, se tornou responsável pela manutenção e guarda dos escombros.
“E o pior é que isso tende a se tornar um trabalho quase eterno, porque vai levar muito tempo até que algo venha a ser efetivamente feito para remover os restos do barco da praia”, acrescenta o secretário, que até vê certo potencial turístico para a cidade nos restos do barco soterrado na praia, mas desde que ele seja removido de lá.
“O barco teria que ser colocado em outro lugar, o que é igualmente difícil de operacionalizar”, diz o secretário.
Uma das coisas que já se sabe é que o surgimento do barco na praia se tornou um problema para a própria cidade
O primeiro grande afloramento dos escombros do barco, em agosto de 2017, não aconteceu por acaso.
Pouco antes disso, o canal de acesso ao porto de Santos havia sido dragado, o que provocou uma alteração na movimentação das areias nas praias da baía de Santos e fez aflorar os restos do barco.
Hoje, por conta do sobe e desce das marés, os escombros somem e reaparecem na beira da praia duas vezes ao dia. E cada vez mais visíveis.
“Quando começamos a estudar o achado, só as pontas das vigas do casco ficavam à mostra. Hoje, algumas madeiras já estão meio metro acima da areia”, diz o arqueólogo Gonzalez, que brinca. “Se pudéssemos esperar mais um século, talvez a própria natureza se encarregasse de escavar o barco para nós”.
“Agora, porém, é obrigatório preservá-lo, porque, uma vez descoberto, os restos do barco se tornaram um bem com valor histórico e arqueológico que não pode mais ser destruído”, avisa o arqueólogo, que, no entanto, acha que não deve haver nada dentro do casco carcomido pelo tempo.
Após mais de um século soterrado, só deve ter restado a estrutura do casco. Mas isso tem valor arqueológico”, explica.
O Kestrel era um veleiro de transporte de carga, com casco de madeira, três mastros e 60 metros de comprimento, que fazia a rota regular entre a Europa e as Américas.
Na sua última viagem, já havia descarregado no porto de Santos e estava ancorado, enquanto a maior parte da sua tripulação – inclusive o capitão – passeava pela cidade, quando uma tempestade, com fortes ventos, arrastou o barco para a praia.
A bordo, só havia o cozinheiro e dois marinheiros, que, estranhamente, recusaram a ajuda de um rebocador, que veio ajudar a deter o avanço do barco.
Isso, mais tarde, geraria suspeitas de que o encalhe poderia ter sido proposital, para o dono do barco receber o dinheiro do seguro, já que os navios movidos a vapor tinham tornado os veleiros-cargueiros obsoletos.
“Para mim, foi um golpe descarado e o objetivo da tripulação era destruir o barco, tanto que ele estava vazio, sem nenhuma carga”, especula o memorialista Willian. “E isso enriquece ainda mais a história desse barco, se é que o que está na enterrado na praia são mesmo os restos do Kestrel”.
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