Drama no mar: casal conta como sobreviveu ao naufrágio do barco onde morava

Drama no mar: casal conta como sobreviveu ao naufrágio do barco onde morava

Na madrugada do último dia 5 de agosto, o casal paulista de aposentados Wladimir e Rosane Popoff, de 65 e 62 anos de idade, respectivamente, viveu o segundo grande susto da vida.

O primeiro foi quando, ainda jovem, o então engenheiro Wladimir trabalhava em uma plataforma de petróleo em alto-mar que pegou fogo, e ele escapou por bem pouco.

Traumatizado com o acidente, que por muito pouco não lhe custou a vida, Wladimir, muito mais conhecido pelo apelido Voka, prometeu a si mesmo que, quando se aposentasse, realizaria um velho sonho do casal: venderia a casa de classe média na qual viviam, em São Paulo, comprariam um veleiro e iriam morar nele.

E foi justamente com o barco que virou a sua casa, quando os dois se aposentaram, que veio o segundo grande susto do casal, na madrugada do último dia 5 de agosto.

Quando navegavam entre as cidades de Caravelas e Ilhéus, na costa sul da Bahia, uma rede de pesca não sinalizada enganchou e danificou o casco do veleiro do casal, o veleiro Darwin, de 40 pés de comprimento.

E, horas depois, eles acabaram afundando, a cerca de 7 milhas náuticas do litoral de Porto Seguro.

Wladimir e Rosane foram resgatados por pescadores e nada sofreram, além do susto e de um grande prejuízo – porque o seguro pagará apenas metade do que o barco valia.

Além disso, agora, eles correm o risco de ter um prejuízo ainda maior, porque, pelas regras da Marinha, os donos de embarcações naufragadas são responsáveis por resgatá-las, a fim de não comprometer a navegação nem poluir o meio ambiente – a menos que nem uma coisa nem outra seja afetada.

“Estamos aguardando a decisão de uma empresa especializada se precisaremos ou não tirar o nosso barco do fundo do mar. Tomara que não, porque nem temos dinheiro para pagar pelo serviço”, diz o casal, que, a seguir, conta como tudo aconteceu.

O relato dos náufragos

“Na manhã do dia 4 de agosto, partimos de Caravelas, rumo a Ilhéus, tão logo o dia amanheceu.

Nosso objetivo final da viagem era Recife.

Costumávamos ter hóspedes em cada trecho da travessia.

Mas, desta vez, seríamos só nós dois no barco.

Mais tarde, daríamos graças a Deus por não haver mais ninguém a bordo.

Muitas horas depois, por volta das quatro da tarde, quando estávamos na metade da travessia, navegando na altura de Porto Seguro, vimos uma caixa de isopor boiando no mar, bem na frente do nosso barco.

Era uma espécie de boia, deixada por pescadores – um sinal de que ali havia uma rede de pesca.

Mas, ao contrário do habitual, não havia uma segunda boia indicando onde a rede terminava.

Por precaução, mudamos o rumo do barco e passamos a mais de 100 metros de distância de tal boia.

Não adiantou.

Mesmo passando longe, sentimos um tranco no barco e deduzimos que havíamos enganchado na rede.

Estávamos acostumados a esse tipo de problema – bem frequente na costa brasileira, por sinal.

Bastava parar o barco, soltar a rede e seguir em frente.

Mas aquela rede era diferente.

Em vez de simples cabos de náilon, os dela eram de aço.

E o choque do barco com o metal danificou o mecanismo interno do nosso leme.

Mas só descobriríamos isso horas depois.

E da pior maneira possível.

Quando vimos que era um cabo de aço que sustentava a rede, paramos o barco e examinamos as partes submersas do casco, para ver se algo havia sido afetado.

Aparentemente, estava tudo em ordem.

Não havia vazamentos, nada quebrado e o leme respondia normalmente aos movimentos.

Aliviados, seguimos em frente.

Por mais um bom tempo.

Até que, quatro horas depois, quando já havia escurecido e o mar ganhara muitas ondas desencontradas, uma tampa do assoalho do barco foi arrancada por um jato d´água, vindo da parte de baixo do casco.

Na hora, custamos a entender o que tinha acontecido. Mas pegamos uma lanterna e corremos para ver de onde vinha aquela água.

Era uma rachadura no casco, causada pelo mecanismo do leme, que, já completamente solto, batia furiosamente contra a fibra de vidro.

E logo a rachadura virou um rombo.

E por ele passou a jorrar um turbilhão de água salgada para dentro do barco.

Tentamos conter a inundação, enfiando no buraco a única coisa que estava à mão: um simples casaco.

Mas era impossível conter a enxurrada.

Corremos, então, um para cada lado.

Um para o leme, na esperança que ele ainda funcionasse – único meio que tínhamos para tentar chegar em águas mais rasas e encalhar o barco, antes que ele afundasse – e outro para o rádio, a fim de pedir socorro.

Nem uma coisa nem outra funcionou.

Nenhum barco respondeu aos nossos pedidos de socorro, e, após um tempo, o leme do nosso veleiro passou a girar descontrolado, completamente solto.

Mesmo assim, conseguimos levar o barco para mais perto de terra firme.

Mas, quando ainda faltavam sete milhas, o leme soltou de vez e a inundação se tornou incontrolável.

Ficamos, então, com o barco sendo rapidamente inundado, sem conseguir movimentá-lo e sem ninguém para nos socorrer.

Era o fim.

Hora de abandonar o barco, com tudo o que havia dentro dele – ou seja, a nossa casa inteira -, e tentar salvar nossas vidas.

Na escuridão e com as ondas cada vez mais fortes, só deu tempo de pegar uma mochila que mantínhamos sempre pronta, para situações de emergência, o motorzinho de popa para o bote e um cacho de banana, que estava pendurado do lado de fora do barco.

Elas serviriam de alimento, já que não sabíamos quanto tempo ficaríamos no mar, até sermos resgatados.

Se é que isso aconteceria…

Rapidamente, o mar invadiu todo o barco.

Nossa última imagem foi a do veleiro que nos serviu de casa nos últimos sete anos afundando lentamente, com as luzes ainda acesas – uma terrível sensação de perda.

Não pelo barco em si, mas pelo que ele representava para nós.

O barco era a nossa casa e, também, nossa principal fonte de renda.

De uma só vez, perdemos tudo.

Quando não restava mais nenhuma parte do casco na superfície, olhamos ao redor e não também não vimos nada.

Só a escuridão do mar, permanentemente sacudido pelas ondas.

Estávamos encharcados, levando pancadas de água por todos os lados, e a mais de 12 quilômetros da costa – longe demais para enxergar algo.

Nem mesmo as luzes de Porto Seguro, ao longe.

Quase por instinto, escolhemos uma direção a seguir e ligamos o motorzinho do bote.

Enquanto um chorava, o outro custava a acreditar que aquilo estivesse mesmo acontecendo.

Tempos depois, vimos uma luzinha no mar, que julgamos ser um farol.

Não era.

Era um barco de pescadores.

Nos aproximamos, rapidamente.

Eles estavam dormindo, mas acordaram assustados, com nossos gritos de socorro.

Fomos puxados para dentro do barco e ganhamos camas para descansar.

Eram três da madrugada, estávamos esgotados, mas era impossível pegar no sono.

A imagem do barco inundando e afundando não saia das nossas mentes.

Os pescadores sugeriram interromper a viagem e nos levar direto para Porto Seguro.

Recusamos.

Eles estavam trabalhando e ainda tinham redes a recolher.

Ironicamente, redes de pesca – como as que haviam causado o nosso drama.

Chegamos a Porto Seguro só quando o dia estava amanhecendo e apenas com uma mochila e um cacho de bananas.

Todo o resto das nossas coisas (barco, casa, roupas, pertences, tudo, tudo, tudo) agora jazia no fundo do mar.

E, se depender apenas da nossa vontade, é por lá que devem ficar.

Resgatar o barco custará um valor que não temos mais como pagar.

Perdemos o nosso barco, a nossa casa e o nosso emprego – tudo ao mesmo tempo.

Mas estamos vivos.

E isso não tem preço.

Segue a vida…”

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O pobre velejador que virou múmia no mar

O pobre velejador que virou múmia no mar

Quando, em 2008, o casal de velejadores alemães Claudia e Manfred Fritz Bajorat resolveu se separar, cada um tomou um rumo diferente.

Claudia desembarcou na ilha Martinica e ali ficou, até 2010, quando morreu.

Já Manfred, desgostoso pela perda da companheira, tomou, sozinho, o rumo do mar e, desde 2009, nunca mais foi visto.

Até que, sete anos depois, em 31 de janeiro de 2016, seu veleiro, o Sayo, foi avistado, à deriva e sem mastro, boiando no meio do Pacífico, pela tripulação do barco de competição Lmax Exchange, que participava da regata de volta ao mundo Clipper 2015-2016.

Intrigados com aquele barco avariado e aparentemente abandonado no oceano, a tripulação do Lmax Exchange deu meia volta e resolveu investigar.

Um dos tripulantes mergulhou e foi nadando até o misterioso barco, que, a princípio, pareceu não ter ninguém a bordo.

Mas, ao olhar para dentro da cabine, o que ele viu o deixou perplexo: sentado com o tronco apoiado sobre a mesa de navegação, e o bocal do rádio em uma das mãos, jazia o corpo de Manfred.

E completamente mumificado, sinal de que havia morrido muito tempo antes.

A cena, gravada pelo tripulante que abordou o barco, chocou a tripulação do Lmax Exchange.

Mas, depois de avisar os organizadores da regata (que preferiram não tornar pública a descoberta para não macular a imagem da competição, embora tenham avisado a guarda-costeira americana, já que o Soya boiava a não muita distância da ilha de Guam), o veleiro voltou à prova e deixou o caso nas mãos da polícia.

Que, no entanto, nada fez.

Só um mês depois, o Soya e seu mórbido ocupante foram avistados novamente, desta vez no mar das Filipinas, a muitas milhas do primeiro encontro, por um grupo de pescadores, que redescobriram o corpo petrificado (e incrivelmente bem conservado) do alemão dentro do barco.

E só então o raro caso de mumificação espontânea no mar foi divulgado.

Embora raríssima, a auto-mumificação do corpo do alemão, cuja autópsia revelou morte quase instantânea por ataque cardíaco (estaria ele tentando pedir socorro pelo rádio quando foi fulminado?), teve uma explicação científica: a alta salinidade no interior do barco, que vagava no oceano sabe-se lá há quanto tempo, e o ar excepcionalmente seco no período posterior a morte do alemão teriam conservado o seu cadáver em perfeito estado.

Um cenário pra lá de macabro, mas que mostrou que, apesar de toda a sua água, o mar é capaz de produzir até múmias petrificadas.

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O histórico barco que acabou quando foi resgatado

O histórico barco que acabou quando foi resgatado

Os Grandes Lagos são como uma espécie de mar interior, na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá.

São enormes e frequentemente açoitados por ventos fortes, que erguem vagas inimagináveis para um lago.

Pois foi nesse ambiente muitas vezes hostil que, em junho de 1864, afundou o Alvin Clark, então a maior escuna cargueira da região, depois de tombar durante uma tempestade, bem próximo da margem, na divisa entre os estados americanos de Michigan e Wisconsin.

Dos seus cinco tripulantes (bem menos que o habitual, já que o barco estava retornando de uma viagem e sem carga), três desapareceram nas águas doces e frias dos Grandes Lagos.

Entre eles, o seu comandante.

Foram, no entanto, estas duas características (o frio e a ausência de sal na água) que mantiveram o Alvin Clark perfeitamente conservado no fundo do lago por mais de um século.

Até que, em novembro de 1967, 103 anos após o seu naufrágio, um pescador teve sua rede enganchada em algo no fundo do lago e chamou o mergulhador Frank Hoffmann para soltá-la.

Hoffmann mergulhou e o que descobriu, 30 metros abaixo da superfície, foi uma preciosidade: o enorme casco de madeira da Alvin Clark ainda em perfeito estado, mesmo após tantos anos debaixo d ´água.

Até os dois mastros ainda estavam em pé, como se o barco estivesse na superfície.

Mais tarde, era exatamente isso o que aquele histórico barco voltaria a fazer.

Entusiasmado com o achado, Hoffmann decidiu resgatar a Alvin Clark do fundo do lago.

Nos anos seguintes, fez mais de 3 000 mergulhos no local, e, com a ajuda de amigos, removeu toneladas de lama que prendiam o casco, além de cavar valas por baixo dele, a fim de passar correntes que permitiriam trazer o barco de volta à superfície.

E assim foi feito.

Com pleno sucesso.

Em 1969, o Alvin Clark saiu inteiro do fundo do lago, mais de um século depois de ter afundado.

Um feito e tanto.

O objetivo de Hoffmann era claro: ganhar dinheiro exibindo o barco, nas margens do lago, como uma espécie de museu vivo.

Mas o sonho de fazer fortuna com isso durou pouco.

Passada a novidade, logo os visitantes começaram a minguar, o movimento tornou-se bem menor que o esperado e os parcos recursos auferidos com a venda de ingressos não foram suficientes para garantir a preservação do barco, inadequadamente mantido a céu aberto, sem maiores cuidados.

Em contato direto com o ar, os ventos e as chuvas, o Alvin Clark começou a definhar e apodrecer rapidamente, o que qualquer estagiário em arqueologia sabia que iria acontecer.

Menos Hoffmann.

Desolado, ele passou a beber.

Certo dia, bêbado e com raiva, chegou a tentar colocar fogo no barco, mas foi contido a tempo.

Depois, endividado, vendeu a área onde ficava o Alvin Clark para um empreendedor imobiliário, que, no entanto, só queria saber do terreno na beira do lago.

Para o comprador, aqueles restos de um velho barco na margem não passavam de um estorvo na paisagem e precisavam ser retirados.

E foi o que ele mandou fazer.

O que restava do pobre barco foi destruído por guindastes, a fim de liberar a área.

25 anos depois de voltar à vida, o Alvin Clark morreu de vez, vítima da então falta de legislação para a preservação de naufrágios, o que só passou a existir nos Estados Unidos após aquele episódio e a morte do próprio Hoffmann.

Foi um triste aprendizado.

Se tivesse permanecido submerso ou enviado a um museu especializado, o Alvin Clark hoje seria uma das maiores atrações da arqueologia submarina americana.

Mas acabou aos pedaços, soterrado por uma insólita terraplenagem.

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O francês que atravessou, nadando, o maior lixão dos mares

O francês que atravessou, nadando, o maior lixão dos mares

Em dezembro de 2018, o nadador francês naturalizado americano Ben Lecomte, então com 51 anos, e que já tinha no currículo outras façanhas incríveis, como a travessia do Atlântico também a nado, em 1998, precisou desistir da inédita travessia que vinha fazendo do Oceano Pacífico a nado por um problema que não teve nada a ver com sua capacidade para encarar aquele desafio monumental: seu barco de apoio quebrou e a travessia teve que ser abortada quando ele já havia cumprido dois terços do caminho e se aproximava do Havaí.

Na ocasião, apesar da decepção, o supernadador não saiu da água totalmente frustrado, porque um novo projeto brotara em sua mente, justamente enquanto ele nadava: voltar a nadar no Pacífico, mas numa área específica, a da maior concentração de lixo plástico do mundo, que fica entre o Havaí e a Califórnia, em uma extensão de mais de 500 quilômetros.

“Enquanto eu nadava, vi tanto lixo e plástico no mar que conclui que a melhor maneira de ajudar a chamar a atenção das pessoas para a gravidade dos problemas seria nadar no maior lixão dos mares do planeta”, disse o nadador, na ocasião.

E foi isso o que ele fez.

Em 14 de junho do ano seguinte, 2019, Lecomte partiu do mesmo ponto onde terminou precipitadamente sua épica jornada anterior, para atravessar, a nado, a área que é tida como a de maior concentração de lixo e resíduos plásticos dos oceanos.

O objetivo era sentir o problema, literalmente, na pele.

“Na travessia do Pacífico, eu cansei de esbarrar em peças plásticas na superfície e ver grandes emaranhados de redes de pesca abandonados no meio do mar e foi isso que quis tentar mensurar na prática”, disse Lecomte antes de começar sua bisonha travessia, que foi acompanhada de perto por um barco de apoio, com dez voluntários e pesquisadores a bordo, onde ele descansava após os turnos de horas e mais horas seguidas no mar, nadando.

“Nossa missão não era recolher o lixo, porque para isso seriam necessários navios, mas sim ter uma ideia prática do problema, através de medições da quantidade de micropartículas de plásticos a cada captura que fazemos com uma espécie de rede que levamos no barco”, explicou o nadador.

Entre outros itens absurdos, Lecomte encontrou escovas de dente e tampas de privada no meio do oceano, incontáveis tampinhas de garrafas, um cesto de lavanderia coberto de cracas (sinal de que estava no mar há anos), diversas boias marítimas desgarradas e uma inacreditável quantidade de redes de pesca abandonadas no mar, as chamadas “redes fantasmas”, que mesmo fora de uso continuam capturando e matando peixes e demais seres marinhos que nelas se enroscam.

A equipe também capturou um peixe da espécie dourado, que, ao ser aberto, revelou inúmeros pedacinhos de plástico no estômago – este o maior problema da questão do lixo plástico nos mares, porque os microplásticos são engolidos pelos peixes e tartarugas, que os confundem com comida.

“As peças maiores, como sacolas plásticas e garrafas pets, costumam chocar mais as pessoas, mas são as minúsculas partículas do plástico que já se decompôs na água que representam o verdadeiro risco para a fauna marinha”, explicou na ocasião o supernadador.

Logo no primeiro dia, quando Lecomte ainda nadava em águas havaianas, ele encontrou uma grande rede de pesca abandonada no mar, e a captura de amostra da água revelou 95 partículas de microplásticos em apenas meia hora de coleta – número que, depois, subiria para mais de 500 partículas, na parte mais crítica do chamado “Lixão do Pacífico”.

Segundo pesquisadores, a cada ano, oito milhões de toneladas de lixo plástico vão parar no Oceano Pacífico, levados, sobretudo, pelos rios que nele deságuam.

Mas o que é visto boiando na superfície representa apenas 1% disso.

“99% dos resíduos plásticos que poluem os mares estão submersos ou transformados em micropartículas. O que vemos na superfície é só a pontinha do iceberg”, diz o cientista ambiental Markus Eriksen.

Mesmo assim, o pesquisador é otimista.

“Ainda dá tempo de fazer algo e reverter este quadro. Mas é preciso agir rápido e convencer as pessoas de todo o planeta de que sempre que elas descartam lixo fora dos locais apropriados, ele vai parar no mar, levado pelas enchentes, pelas tubulações e pelos rios. Este hábito precisa mudar”.

Os mais pessimistas, no entanto, veem a questão com outros olhos, bem mais alarmantes.

Segundo eles, em 2050 (portanto, daqui há apenas 29 anos), haverá mais plásticos do que peixes nos oceanos, o que não deixa de ser um exagero.

Mas foi quase isso que o nadador francês encontrou em certos pontos da sua travessia, onde a concentração de lixo era maior que a de cardumes.

“Em certas partes, o mar parecia uma sopa de resíduos plásticos, que não dissolvem tão rápido quanto o restante do lixo. Não passei mais de meia hora na água sem esbarrar em porcarias. E isso a mais de 1 000 quilômetros da costa”, contou o nadador.

A razão pela qual essa monumental quantidade de plástico se concentra naquele ponto específico do Pacífico tem a ver com as correntes marítimas.

Ali, diversas correntes se encontram e ficam dando voltas sem parar, no chamado Giro do Pacífico, uma espécie de corrente marítima circular.

Por conta dessa característica, aquela parte do Pacífico virou uma espécie de gigantesco redemoinho, concentrando a maior parte da sujeira do oceano, sobretudo o plástico, que leva décadas para começar a se degradar na água.

Uma garrafa de plástico lançada ao mar na costa da Califórnia irá chegar ao litoral do Japão, do outro lado do Pacífico, num prazo estimado entre três e cinco anos. E após outro período igual a esse, retornará ao mesmo ponto, dando início a um novo giro.

E assim indefinidamente.

Por ficar eternamente girando no oceano, o ciclo do lixo no Pacífico não termina nunca. E o plástico, que compõe a grande maioria dele, praticamente também não. “O plástico foi feito para desafiar a natureza”, lamenta um ambientalista da equipe de Lecomte.

Esta perversa característica das correntes marítimas da região foi descoberta, por acaso, em 1990, quando um navio deixou cair um container com 65 000 pares de tênis no meio do Pacífico.

Embora o container tenha espalhado sua carga no mar, nenhum tênis jamais chegou à costa, por conta das correntes circulares. E estão lá até hoje.

Segundo a oceanógrafa Sarak Royer, da Universidade do Havaí, plásticos que foram parar no mar quando do início da popularização deste material, na década de 1950, ainda seguem boiando no Pacífico ou (o que é ainda pior) transformados em micropartículas, com efeito letal para alguns seres marinhos.

“É como se o ar que respiramos estivesse impregnado de partículas toxicas”, comparou Lecomte, ao terminar a sua inédita e bizarra jornada, meses depois, na Califórnia.

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Um tesouro que foi parar dentro de outro

Um tesouro que foi parar dentro de outro

Apesar da data, não era nenhuma brincadeira ou mentira.

Em 1º de abril de 2008, quando vasculhavam o fundo de uma antiga lagoa que secara, por conta do recuo do mar, na costa da Namíbia, litoral da África, geólogos da maior empresa de diamantes do mundo, a De Beers, encontraram algo bem mais valioso do que as pedras preciosas que buscavam.

Encontraram os restos de uma caravela portuguesa do século 16, contendo lingotes de cobre, presas de marfim e nada menos que 2 333 moedas de ouro.

E foram as moedas que permitiram identificar a nau como sendo a Bom Jesus, que partira de Lisboa em março de 1533, rumo à Índia, levando bens que seriam trocados por especiarias.

Mas a Bom Jesus, capitaneada por Francisco de Noronha e tripulada por mais 300 homens, entre marinheiros, mercadores, escravos e padres, não passou da costa africana.

Ali, pouco antes de dobrar o Cabo da Boa Esperança, uma provável tempestade atirou a nau na direção da terra firme, onde a Bom Jesus encalhou e ficou, para sempre, caprichosamente dentro dos limites do que viria a se tornar uma das maiores e mais protegidas minas de diamantes do mundo.

Uma nau cheia de moedas de ouro enterrada em uma praia repleta de diamantes, numa região que viria a ser chamada Sperrgebiet, ou “Área Probida”, em alemão, idioma predominante na Namíbia durante muito tempo – não poderia haver local mais seguro para a preservação de um tesouro histórico.

Contribuiu também para a perfeita preservação de boa parte da embarcação portuguesa, que, ao ser escavada, revelou até uma primitiva seringa de metal, usada para injetar mercúrio nos tripulantes contaminados pela sífilis, mas nenhum osso humano, o que permitiu supor que todos teriam escapado com vida, antes de sucumbirem a uma das áreas mais inóspitas da África, o fato de, ao contrário do esperado, seus restos não estarem debaixo d´água e sim soterrados sete metros na areia seca do que se tornaria, com o recuo do mar, uma extensão do grande deserto da Namíbia, que avança até o litoral.

Para os geólogos, que, com a descoberta, passaram a minerar história em vez de diamantes, foi um achado tão surpreendente quanto curioso, já que não precisaram sequer molhar os pés para encontrar a caravela Bom Jesus, cujo destino havia se perdido no grande incêndio de Lisboa, em novembro de 1755.

Em vez de mergulhar, eles apenas cavaram.

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foto: Dieter Noli/Divulgação

Caiu do navio e ninguém viu. Mas o azarado virou sortudo

Caiu do navio e ninguém viu. Mas o azarado virou sortudo

Aconteceu em abril de 2003, durante um desses cruzeiros pelo Caribe, repletos de bebidas e folias.

Tim Sears, um americano de 31 anos, embarcou com um amigo para uma semana de diversões, a caminho da Ilha de Cozumel, no México, quando, na noite do quinto dia de viagem, caiu no mar de uma maneira que ele, até hoje, não sabe explicar.

Inexplicável também foi a sorte que ele teve de sobreviver a um tipo de acidente que costuma ser fatal em 99,9% dos casos, especialmente quando ninguém a bordo vê a queda, como foi o caso.

Tudo o que Sears recorda é que ele havia passado o dia bebendo muito, e que, à noite, depois de dançar um pouco (e beber ainda mais), resolveu procurar o amigo, no cassino.

Daí para a frente, mais nada.

Quando ele deu por si, já estava dentro d´água, só de cueca e camiseta, na escuridão do mar, e sem o navio por perto.

O mais provável é que Sears tenha sido vítima de um apagão, causado pelo excesso de álcool, e despencado da varanda da sua cabine, o que, por si só representava um quase milagre, porque o navio Celebration, no qual ele estava, tinha a altura equivalente a um prédio de dez andares.

Porém, bem mais incrível do que a queda sem sequelas foi Sears escapar com vida daquele infortúnio, porque ninguém no navio sentiu falta dele até o dia seguinte, quando o Celebration ancorou na ilha mexicana e o amigo finalmente percebeu a sua ausência.

Quando recobrou os sentidos, Sears estava no meio do mar, bem distante da costa mais próxima.

Mesmo assim, saiu nadando sem rumo, o que fez praticamente a noite inteira.

Quando o dia amanheceu, Sears continuou nadando.

Até que, por volta do meio-dia, viu um navio vindo, mais ou menos, na sua direção e juntou forças para nadar ainda mais rápido.

Minutos depois, ao se aproximar do navio em movimento, tentou o impossível: gritar para que alguém lá dentro o ouvisse.

E não é que alguém ouviu?

Um dos tripulantes do cargueiro Eny estava passando pelo convés justamente naquele instante, quando ouviu os berros e localizou o americano na água.

Sears foi resgatado, após passar 14 horas no mar.

E praticamente no mesmo instante em que sua falta, por fim, foi dada no navio do qual despecara.

Apesar da sequência de infortúnios, o mínimo que se pode dizer de Tim Sears é que ele, realmente, é um cara de sorte.

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