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Mesmo nos dias de hoje, garrafas lançadas ao mar com mensagens dentro delas não são nada raras.
Quase sempre as mensagens resumem-se a simples saudações e o inevitável pedido de contato para quem a encontrar, como uma forma primitiva de Facebook.
Mas nada se compara ao que havia na garrafa que a policial americana Paula Pendleton encontrou numa praia da Flórida, nos Estados Unidos, em setembro de 2019.
Dentro dela, havia um punhado de cinzas de um corpo humano, acompanhada de um bilhete, que explicava o macabro conteúdo da garrafa.
“Esta garrafa contém as cinzas do meu filho Brian, que morreu inesperadamente no dia 9 de março de 2019. Ele sonhava viajar pelo mundo. Então, eu o envio para a sua última aventura”, dizia a mensagem, assinada pela americana Darlene Mullins, mãe do jovem finado.
Aquela história havia começado dias antes, quando Darlene, junto com a neta Peyton, de 14 anos, filha de Brian, decidiu dar um destino incomum a uma parte das cinzas do corpo do filho, morto de ataque cardíaco quando tinha apenas 39 anos.
Ela separou alguns grãos das cinzas para pôr num pingente no colar que sempre usava, e colocou outro punhado na garrafa, juntamente com o bilhete e quatro cédulas de um dólar, “para pagar a despesa telefônica de quem a encontrasse”, pedindo que, além de um contato, a garrafa fosse novamente lançada ao mar, “para seguir sua viagem”.
Pois foi o que fez a policial Paula Pendleton.
Depois de ligar para Darlene e relatar o achado, ela convenceu o capitão de um barco a levar a garrafa até quase o meio do Golfo do México e lá, novamente, depositá-la no mar.
“Meu filho Brian sempre quis conhecer o mundo, mas jamais saiu de nossa pequena cidade, no Texas. Ele, agora, fará isso por um prazo indeterminado”, explicou Darlene, que até pensou em usar uma garrafa plástica, para evitar que ela quebrasse em eventuais choques com rochas ou navios, mas mudou de ideia, para “não poluir o mar”.
Assim sendo, é bem possível que os restos mortais de Brian Mullins estejam navegando até hoje, em algum ponto do Atlântico.
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Sete anos atrás, os paulistas Priscila Lima Silva e Cláudio Diniz se conheceram e começaram a namorar.
Ele era dono de uma pequena confecção e ela trabalhava num escritório, ambos em São Paulo.
Mas a vida corrida e complicada da metrópole não agradava nenhum dos dois.
Foi quando Claudio, que havia sido criado em estreita sintonia com o mar, propôs a namorada que juntassem as economias, comprassem um veleiro e fossem morar nele, tal qual costumava ver na internet o que outros casais haviam feito.
Para surpresa dele, Priscila, que nada sabia sobre barcos e até enjoava com facilidade, topou na hora.
“Sempre gostei de viajar e a ideia de morar numa ´casa´ capaz de se movimentar me agradou, embora eu nunca tivesse pensado em viver num barco”, lembra Priscila, que, até então, levava uma típica vida de jovem assalariada de classe média, em São Paulo.
E assim eles fizeram. Três anos atrás.
Ainda como namorados, Priscila, hoje com 37 anos, e Claudio, com 42, foram viver a bordo do veleiro Beijupirá III, um espaçoso barco com casco de madeira, construído 15 anos atrás, que eles compraram com o dinheiro que haviam juntado.
E, no início de junho do ano passado, partiram, junto com outros veleiros, rumo ao Nordeste brasileiro.
Foi quando eles deixaram de ser namorados, para, durante a própria viagem, se tornarem noivos e, agora, casados – sem praticamente sair do barco.
O pedido de casamento aconteceu durante a escala do grupo no arquipélago dos Abrolhos, no litoral sul da Bahia, e pegou até a própria Priscila de surpresa.
“A gente havia convidado alguns amigos de outros barcos para beliscar no nosso, quando o Claudio, que não tinha me dito nada, fez o pedido, na frente de todo mundo. Foi uma grande surpresa, porque, como já morávamos juntos no barco, achei que jamais haveria casamento. Mas, depois, também houve. Em Fernando de Noronha”.
“Eu ia esperar chegarmos em Noronha para pedir a Priscila em casamento. Mas, na parada em Abrolhos, o astral da viagem estava tão legal, que resolvi antecipar”, explicou Claudio, emocionado. “Daí, em vez de noivar, resolvi casar na ilha e foi melhor ainda. Mas só conseguimos isso graças ao barco, que levou a gente até a ilha sem nenhum custo, já que veleiros são movidos pelo vento e vento é de graça”.
A cerimônia do casamento, bem simples e meramente simbólica, sequer teve padre. Uma amiga do casal disse apenas algumas palavras bonitas diante da capelinha da ilha (que, inclusive, estava fechada), e de um grupo de amigos que o casal fez desde que foram viver no mar.
Desde que decidiram mudar de vida e trocar o apartamento alugado em São Paulo por um veleiro usado em Paraty, Claudio e Priscila vivem do dinheiro que conseguem ganhar hospedando pessoas e as levando para velejar, negócio que, no meio náutico, é conhecido como “charter”.
A própria viagem para Noronha foi custeada pelos dez hóspedes que eles tiveram a bordo, durante a última Refeno, a famosa regata anual que acontece de Recife até a ilha.
“Somos uma espécie de pousada flutuante, com a vantagem de que ela se movimenta e a paisagem vai mudando para os hóspedes. Sem falar que a piscina é gigantesca”, brinca Priscila, que acrescenta: “A gente faz tantos novos amigos com os charters, que, às vezes, nem parece trabalho”.
Quando não estão navegando, Priscila e Claudio ficam em Paraty, de onde partem os charters que eles vendem, a um preço médio de R$ 3 000 o fim de semana, para quatro pessoas.
“Agora, o nosso objetivo é juntar um dinheirinho para tentar subir com o barco até o Caribe”, diz Priscila.
“Viajar é bom demais e é melhor ainda quando a nossa casa vai junto”, completa.

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O motor do pesqueiro Água do Rio Negro, um barco de madeira com 17 metros de comprimento e nove homens a bordo, pipocou, falhou, engasgou e, por fim, parou. No meio do oceano. O diagnóstico veio rápido: a bomba injetora de combustível não funcionava mais. Havia duas bombas reservas a bordo. Mas, na ânsia de trocá-la rapidamente, porque o mar estava grosso, quebrou o suporte que a apoiava ao motor. Agora, não havia jeito: seria preciso esperar pelo socorro, no dia seguinte.
O pesqueiro Água do Rio Negro ficou, então, à deriva, num mar cada vez mais revolto. Era o começo de uma impressionante história, em setembro de 2011, envolvendo o pescador potiguar Francisco Januário, o Zabóia, um dos tripulantes daquele barco avariado. Mas nem nos seus piores pesadelos aquele velho pescador, de 61 anos, conseguiria imaginar o que o aguardaria nos setes dias seguintes. A pior das agonias para quem vive no mar ainda estava por vir. E veio. Horas depois.
Rapaz, você não acha que devia amarrar isso? Se ficar solto, pode cair no mar…” . Foi dito e feito. Ao entardecer daquele sábado de mar mexido e motor morto, uma onda mais forte inclinou o Água do Rio Negro mais do que o habitual e a caixa da balsa salva-vidas, aquela que, um dia antes, ainda no porto, Francisco sugerira ser amarrada ao teto da casaria, despencou feito uma pedra no mar.
“Eu vou buscar!”, avisou ele, quando percebeu que nenhum dos companheiros estava disposto a cair no mar. Pegou uma boia e uma linha grossa de náilon, deu três nós atando uma coisa à outra, e se jogou na água, na direção da balsa, que se afastava rapidamente, por causa da correnteza. Não devia ter feito isso. Mas, na hora, Francisco lembrou que, três dias antes, o Água do Rio Negro voltara ao porto fazendo água e, se acontecesse aquilo de novo, era bom ter uma balsa daquelas por perto. Ele mal sabia o quanto dependeria daquela balsa nos próximos sete dias…
Francisco nadou apenas 20 metros e cansou. O mar estava forte demais. Gritou para ser puxado de volta, pela linha de náilon. Os companheiros puxaram. Mas os nós desataram. “O que é que eu fiz!”, pensou, enquanto tentava, em vão, dar braçadas contra a correnteza. Até que parou de nadar. Não adiantava gastar energias. Gritou para alguém vir buscá-lo. Ninguém se ofereceu. O máximo que fizeram foi atirar outra boia na água. Que a correnteza levou para longe. Tentaram de novo. Nada. Daquele jeito, Francisco não seria salvo. E não foi mesmo.
Para piorar, logo anoiteceu. E começou a chover. O Água do Rio Negro foi se tornando uma luzinha cada vez mais distante aos olhos de Francisco. No barco, ninguém mais o enxergava. Francisco foi dado como, irremediavelmente, perdido. Ninguém aguentaria mais que uma noite num mar daqueles. Foi a sua “primeira morte” — e outras seis, entre acontecimentos e decepções, ainda viriam. O velho pescador entregou seu destino a Deus. Seria como Ele quisesse. Resignado, agarrou-se à boia e ficou à espera de algo. Que nem ele sabia o quê.
Uma hora depois, sentiu câimbra nas pernas e ficou ainda mais imóvel, no sobe e desce das ondas. Numa dessas subidas, viu algo branco boiando perto dele. Era a tal caixa da balsa salva-vida, que caíra do barco — a mesma que gerara tudo aquilo. “Tentei pegar a balsa e, agora, ela é que vem me pegar”, pensou, com ironia.
Nadou como pôde e tentou agarrar a caixa — uma espécie de tambor, com uma balsa inflável dentro. Conseguiu. Mas ela estava lacrada por duas cintas de náilon. Passou um par de horas tentando rompe-las, com as unhas. Ficou com os dedos em carne-viva. Quando, finalmente, destravou a caixa, uma balsa salva-vidas dobrada pulou de dentro dela. Aleluia! Era tudo o que um náufrago naquela situação queria! Mas nem deu tempo de respirar aliviado. Com o peso da lona vazia, a balsa afundou feito uma âncora.
Francisco ficou só com a tampa e um pedaço de cabo boiando. Agarrou o cabo e puxou, tentado trazer a balsa de volta à superfície. Conseguiu bem mais do que isso. A corda acionava o disparador e a balsa subiu já inflada. Só que pela metade, porque o cabo estrangulava a passagem do ar. Paciência. Era melhor ter meia balsa do que nada. Passou o resto da noite agarrado ao pedaço que flutuava. Quando amanhecesse, tentaria dar um jeito naquilo. Pegou o cabo e se amarrou nele. Se morresse, pelo menos, um dia, alguém acharia o seu corpo, pensou.
Com a luz do dia, Francisco conseguiu fazer a balsa inflar direito. E descobriu que, debaixo dela, havia uma espécie de mochila, com água e comida — quando tudo parecia perdido, surgia uma nova luz no fim do túnel. Não era muito, é verdade, mas o suficiente para encher de esperanças quem até então não tinha nenhuma.
Entre outras coisas, havia, na mochila, cinco foguetes de sinalização, uma caneca para esgotar a água que entrasse na balsa (que, por causa das ondas, vivia inundada), um apito, dois remos e, mais importante que tudo: oito pacotes de ração, com seis tabletes cada, e dez de água, cada um com dez saquinhos de 50 mililitros. Francisco lembrou de um velho curso que fizera na Marinha, que mandava economizar recursos, e decidiu que só comeria e beberia um daqueles por dia. Assim, não morreria nem de fome nem de sede. Pelo menos por uns dez dias.
Enquanto fazia contas, ele viu um barco pesqueiro parado, não muito distante. Era a primeira de uma série de embarcações que ele avistaria nos próximos dias, sem, contudo, ser visto por nenhuma delas. Tentou identificar algum movimento a bordo. Nada. Os pescadores deviam estar dormindo, depois de uma noite inteira pescando. Tentou remar para se aproximar, mas a correnteza era contrária. Pensou em disparar um dos foguetes, mas concluiu que todos deveriam ser de luz, não de som, portanto, de dia, pouco ajudariam. Resignado, decidiu esperar outra oportunidade. E a correnteza o afastou do barco.
No dia seguinte, o terceiro no mar, nada menos que três outros pesqueiros apareceram diante dele. Mas, de novo, nenhum o viu na água. Quando o primeiro surgiu, não muito distante, Francisco improvisou uma bandeira, com a camiseta na ponta do remo. Foi ignorado e o barco passou rápido. No segundo, decidiu tentar um dos foguetes, mas ele não subiu. E o terceiro barco passou tão perto que ele resolveu usar o apito. Soprou o máximo que pode e um sujeito botou a cara para fora da cabine, olhou para os lados e voltou para dentro, possivelmente pensando ter imaginado coisas. Desanimado, Francisco deitou no fundo encharcado da balsa.
Enquanto isso, longe dali, em Natal, no Rio Grande do Norte, sua família recebia uma estranha visita. Era o mestre do barco Água do Rio Negro, que vinha dar uma triste notícia: Francisco estava morto. Era a “segunda morte” anunciada do velho pescador, que, naquela noite, muito por pouco, não cumpriu mesmo a fatídica previsão: numa onda mais forte, sua balsa virou.
A capotagem custou-lhe meia hora de esforço para desvirá-la os dois remos, a caneca, um foguete e alguns saquinhos de água e ração, que o mar levou. Tudo o que ele não comera nem bebera para economizar, perdera em segundos. Mas, por sorte, a mochila com o resto da água e da comida, que estava bem amarrada à balsa, ficou. Mas as provisões diminuíram. E, junto com elas, também a expectativa de quantos dias mais ele suportaria aquele suplício.
Ao amanhecer, surgiu outra esperança: um navio vinha na sua direção. E tão perto que Francisco até viu duas pessoas conversando, na proa. Animado, gritou, acenou, pegou um foguete e disparou. Mas o artefato, de novo, não funcionou. E, até que ele buscasse outro foguete na mochila, o navio passou. Lá se ia mais uma vida. Ele recostou como pôde na balsa inundada e adormeceu. Pela primeira vez, desde que caíra no mar. três dias antes.
Naquele dia, em Recife, a Marinha dava por encerrada as buscas do náufrago e Francisco era oficializado como morto. Um documento para expedição do atestado de óbito seria entregue a família em três dias. Francisco, mais uma vez, “morria”. Agora, até no papel. Só a família — e ele — não acreditava nisso.
A quarta-feira terminou como começou: sem nenhum fato novo que alimentasse a esperança de um resgate. Na balsa precária, o tempo não passava. Francisco varava dias e noites vasculhando o mar, à procura de algum barco no horizonte, e pulando, o tempo todo, de um lado para outro, para a balsa não virar. O mar continuava grosso, mas, pelo menos, o tempo melhorara. Agora, fazia sol. Muito sol. Sol demais. E esse passou a ser um novo problema: o da insolação.
À deriva, Francisco sequer sabia em qual ponto do litoral estava. Feito um joão-bobo no mar, era levado pra lá e pra cá pelos ventos caprichosos do Nordeste brasileiro. De manhã, o vento empurrava a balsa para o alto-mar. À tarde, o aproximava, de novo, da terra firme.
Mas, naquele dia, ele viu algo diferente no mar: uma plataforma de petróleo surgiu bem na direção que o vento soprava. E continuou se aproximando, nas horas seguintes. Francisco rezava. E ela foi chegando, chegando, chegando, até que, quando sua balsa já deveria estar quase ao alcance dos olhos dos trabalhadores da plataforma, o vento mudou e começou a soprar ao contrário. E lá se foi mais uma chance de salvação.
Vagando ao sabor dos ventos, Francisco alternava doses diárias de decepção e esperança. De vez em quando, à noite, via um brilho mais intenso no horizonte. Era alguma cidade que passava. Ele ficava tentando adivinhar qual seria. Mas não era fácil, porque ele não enxergava a costa. Quando julgou passar por Natal, já estava além de Fortaleza. E ainda havia muito mar pela frente até o final da sua história.
A quinta-feira amanheceu promissora, porque Francisco avistara outro navio. Pegou mais um foguete, esperou ele se aproximar bastante e disparou. Só que ao contrário, de cabeça para baixo. Na ânsia de ser salvo, não percebeu o erro grosseiro. Pior: queimou a mão e só não tacou fogo na própria balsa, porque ela estava cheia d’água. Na confusão, o navio foi embora. Só restaram mais dois foguetes. E bem poucas esperanças.
Aquela foi a primeira decepção do dia. Mas não a única. À tarde, outro navio surgiu no horizonte. E ainda mais alinhado com a balsa. Tão certeiro que Francisco traçou um plano mirabolante: se o foguete não funcionasse, ele tentaria bater com algo no próprio casco do navio, para fazer barulho. Pegou o pequeno cilindro de ar comprimido que inflara a balsa e ficou esperando o gigante. Bem diante dele. O pior que poderia acontecer era ele ser atropelado. Mas, naquela situação, que diferença isso faria?
Segurou firme o penúltimo foguete que tinha e, quando a proa do cargueiro alinhou com seu corpo, disparou. Mais uma vez, o foguete não funcionou. Rapidamente, agarrou o cilindro e se preparou para o plano B. Mas, no último instante, o navio mudou de curso. E passou a alguns metros de distância dele. Pela primeira vez, Francisco sentiu vontade de chorar. Mas nem isso podia, porque precisava poupar líquidos no organismo. Ele já mal urinava. Estava ressecando por dentro, lentamente.
Naquele dia, sua família recebeu outra chocante notícia: o corpo de um homem havia aparecido, morto, numa praia perto de Natal. Os filhos seguiram para lá. A missa, pedindo ajuda ao pai, já encomendada, foi cancelada às pressas. Talvez, tivesse que virar outro tipo de missa, a de sétimo dia. O tal corpo já estava no necrotério. Pediram para um funcionário identificá-lo. Só queriam saber se o defunto tinha todos os dedos da mão direita, porque, na de Francisco, faltava um dedo. O funcionário voltou com a notícia. O de lá tinha. Não era Francisco. Foi mais uma “morte” não consolidada.
Mas, naquele dia, o que estava ruim ficou pior ainda para Francisco: a balsa virou, de novo, no início da noite, e ele só conseguiu desvirá-la na manhã seguinte. Passou a noite inteira agarrado ao fundo emborcado, tentando endireitá-lo. Só parava para respirar e buscar alguma energia onde não mais hávia. Achou que não aguentaria e morreria — seria, então, a sua “sétima” e definitiva “morte”. Mas, quando o sábado amanheceu, ele ainda estava vivo. Ainda que com menos víveres, porque, na capotagem, perdera mais pacotes de ração e água . Agora, o que lhe restara só daria para mais dois dias. Depois disso, só Deus saberia.
Francisco estava tão esgotado pelo esforço da noite que precisava comer algo. Abriu um tablete de ração e olhou, indiferente, para o mar ao redor. Foi quando ele viu um barco se aproximando e desovando, com boias, o que pareciam ser armadilhas para lagostas. Pensou: se ele está deixando as armadilhas é porque, depois, voltará para buscá-las. E decidiu: ficaria agarrado a uma daquelas boias, até que isso acontecesse. Mesmo que levasse dias. Era sua melhor alternativa. Na verdade, única, porque o barco já seguia em frente, desovando mais armadilhas.
Francisco tentou se aproximar, usando as mãos como remos. Quando chegou perto de uma das boias, se atirou na água e saiu nadando, levando a balsa a reboque, amarrada ao pé. Depois de um minuto assim, estava quase morto de cansaço. Voltou para a balsa e se atirou, prostrado, no fundo encharcado. Será que aquele suplício nunca acabaria?
Foi quando, ao longe, o lagosteiro começou a retornar. Francisco ficou olhando, porque já sofrera tantas decepções que era melhor não alimentar esperanças. Mas o que ele não sabia era que, a bordo do tal barco, o mestre Eduardo Januário (coincidentemente mesmo sobrenome dele) já tinha visto a sua balsa, embora a julgasse vazia, porque a avistara justamente quando Francisco caiu na água, para tentar nadar até a boia.
Não fosse pela curiosidade e pela possibilidade de recuperar um “bote desgarrado”, que valeria algum dinheiro, o lagosteiro jamais teria retornado. Mas, quando se aproximou, achou algo bem mais valioso do que uma balsa de borracha. Achou Francisco, clamando por auxílio.
“Fique tranquilo, você está salvo!”, disse o lagosteiro, depois de ouvir os apelos de Francisco. Nem precisava. Bastaria olhar para ver que ali estava um homem já quase à beira da morte. Quando subiu a bordo, sete dias depois de ter se atirado ao mar, Francisco estava seis quilos mais magro, tinha as pernas inchadas e a pele torrada e rachada. Mas, contrariando todas as evidências, estava vivo. Mesmo depois de, por várias vezes, ter “morrido”. Ou quase isso.
Do barco, o lagosteiro passou um rádio e mandou avisar a família do náufrago. Os filhos saíram correndo, para encontrá-lo, numa praia do Ceará. Os vizinhos foram enchendo a rua. Quando Francisco voltou para casa, até o trânsito tinha sido interrompido. Foi saudado como autor de um milagre: o de ter sobrevivido várias vezes a morte e provado que não são só os gatos que têm sete vidas.
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Oito anos atrás, quando o filme O Farol das Orcas foi lançado, o biólogo marinho argentino Roberto Bubas, que sempre preferiu ser chamado apenas de Beto, viu sua vida virar de cabeça para baixo.
De repente, aquele discreto e quase recluso fiscal de uma reserva marinha na Patagônia, sul da Argentina, que até então se dedicava a proteção e estudo comportamental de um grupo de orcas que frequentavam a área onde ele atuava, virou personagem de filme.
E sua vida foi parar nas telas do mundo inteiro.
Desde então, Beto Bubas perdeu não só a tranquilidade, como, também, a companhia das baleias que tanto amava.
Transferido para outro posto na região, mas um local onde as orcas não frequentam, Bubas, por muito pouco, não perdeu também o emprego, fruto da perseguição e ciumeira profissional que passou a ser vítima, desde que o filme foi lançado.
Hoje, aos 53 anos, mesmo sendo uma reconhecida autoridade no comportamento das orcas, Beto Bubas atua como simples guarda fauna na praia de El Doradillo, na Península Valdés, que, no entanto, não é frequentada por aqueles animais – uma contradição e o mesmo que um especialista em macacos ser mandado para trabalhar no Ártico.
“Prefiro não aparecer mais na mídia”, diz o dedicado biólogo, que passou quase metade da vida acompanhando bem de perto o grupo de orcas que frequentava o mar da reserva onde era o encarregado, e onde acontecia um fenômeno raro, que justamente o tornou famoso.
O que tornou Beto Bubas uma quase celebridade mesmo a contragosto foi um fenômeno natural que, até hoje, só acontece na praia onde ele atuava como fiscal, antes de ser transferido: a captura de filhotes de lobos e leões marinhos pelas orcas através de uma técnica de caça até então inédita.
Em vez de aguardar que as presas saiam da segurança da areia para atacá-las no mar, as orcas de Chubut desenvolveram a técnica de avançar fulminantemente em direção à praia, abocanhando os filhotes na beira d´água.
A estratégia exige extrema coordenação por parte das orcas, que precisam voltar para o mar antes que as marolas geradas pelo seu próprio avanço em direção a areia recuem, sob o risco de ficarem encalhadas.
E foi isso que Bubas passou a estudar – e documentar – quando assumiu o posto.
Mas o que nem ele nem ninguém imaginava era que essa proximidade acabaria por criar um vínculo inédito entre o biólogo e aquele grupo de orcas selvagens.
Com o tempo, Bubas foi ficando cada vez mais íntimo e aceito pelas orcas, animais que, embora inteligentíssimos, estão entre os mais poderosos e violentos dos mares.
Tanto que as orcas costumam ser chamadas de “baleias assassinas”, embora isso embuta um duplo erro.
Primeiro, porque elas não são baleias e sim parentes distantes dos golfinhos.
E segundo porque, longe de serem “assassinas”, tratam-se apenas de estupendos predadores.
Munido de uma gaita, que tocava na beira d´água, Bubas passou a se aproximar das orcas sempre que elas apareciam na praia.
Ao ouvirem o som do instrumento, os animais respondiam trazendo tufos de algas para a beira da praia, para que o biólogo os arremessasse de volta ao mar, como quem brinca com uma bola.
Logo, passaram a se deixar tocar por Bubas, que, com isso, se tornou o único homem a interagir dessa forma com orcas não domesticadas.
Com isso, ele passou a ter a oportunidade de estudar o comportamento daqueles temidos animais de maneira privilegiada.
Desta inédita proximidade, resultou um livro e um documentário mundial feito pela National Geographic, que acabaria por desencadear o filme que mudaria a vida do biólogo para sempre.
O filme O Farol das Orcas, ainda hoje disponível na Netflix, não trata apenas da incrível relação do biólogo argentino com aquele grupo de orcas, mas sim o improvável interesse que aquela amizade despertou em menino argentino autista surdo e mudo, chamado Agustin, que, até então, jamais havia demonstrado interesse por nada.
Levado pelos pais para ver de perto a relação entre Bubas e as orcas, Agustin passou uma temporada com o biólogo e, a partir de então, seu desenvolvimento social decolou.
Hoje, aos 31 anos, Agustin leva uma vida praticamente normal, tem namorada, usa a linguagem de sinais para se comunicar e é artista plástico.
A partir de outro livro escrito por Bubas sobre o caso do menino (e os poderes terapêuticos que as orcas, tal qual os golfinhos, exercem em crianças especiais), o diretor espanhol Gerardo Olivares resolveu filmar O Farol das Orcas, que teve o ator argentino Joaquín Furiel no papel do biólogo.
A relação de Beto Bubas com os animais de Chubut, que durou mais de 15 anos, também lhe rendeu o do apelido de “Encantador de Orcas”, título que ele nunca apreciou muito.
“Eram apenas oito orcas, cinco delas fêmeas, as quais cabiam a missão de ensinar seus filhotes a caçar lobos daquela maneira, o que não acontece em nenhuma outra praia do mundo. Se elas morressem, o ensinamento desse tipo de caça também acabaria, e era isso que eu queria proteger”, disse, certa vez, Bubas, ao explicar o motivo do seu relacionamento estreito com aqueles animais.
Hoje, ainda alheio a fama e recluso em sua função de monitorar outros animais que não mais aquelas orcas, o biólogo argentino Beto Bubas amarga outro sentimento: a simples saudade delas.
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VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE ESTES LIVROS
“Sensacional! Difícil parar de ler”.
Amyr Klink, navegador
“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor
“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor
“Leiam. É muito bom!”
André Cavallari, leitor
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Certo dia, dez anos atrás, o fotógrafo submarino Alcides Falanghe, então com 52 anos, casado pela segunda vez com a também paulistana Tatiana Zanardi, dois filhos já criados e editor de uma revista especializada em mergulho, acordou para ir trabalhar, como sempre fazia, mas parou diante do espelho do banheiro e ficou olhando fixamente para si mesmo.
Em seguida, num impulso, pegou o batom da esposa e escreveu a frase “Mudar de vida!” no próprio espelho, para que, todo dia, ao acordar, ele lesse a mensagem e tomasse uma iniciativa – que, desde o início, teve o apoio da esposa, também insatisfeita com a vida bem classe média que os dois levavam em São Paulo.
Mas custou ainda um par de anos até que Alcides, finalmente, tomasse coragem para romper as amarras do emprego, da segurança financeira, da confortável, porém infeliz, rotina e de tudo o prendia o casal àquele tipo de vida, na maior metrópole do país.
Quando, porém, isso aconteceu, o resto foi muito rápido.
Alcides largou o emprego, bem como a mulher, que vinha acumulando uma série de aborrecimentos no trabalho, e os dois imediatamente puseram à venda o apartamento onde viviam (único bem que eles tinham), bem como tudo o que havia nele, além do carro da família.
Com o dinheiro arrecadado, compraram duas passagens para Miami, com um só objetivo. Viver na América? Não. Morar num barco. E não nos Estados Unidos.
“Como eu era mergulhador e minha mulher sempre mergulhava comigo, já tínhamos ido ao Caribe. E era para lá que nós queríamos voltar. Mas, agora, para viver no mar, transformando um barco na nossa nova casa”, recorda Alcides, que, no entanto, tinha um grande problema pela frente: ele não sabia navegar. O jeito foi aprender em seguida.
Em Miami, onde o preço dos barcos é bem mais em conta do que no Brasil, eles compraram um veleiro usado, com o exato dinheiro da venda do apartamento.
Não sobrou nada, mas, tudo bem: a partir de então, o objetivo deles seria mesmo viver com pouco dinheiro – mas no Caribe, vagando de ilha em ilha pelo tempo que quiserem, já que, uma vez com o barco, sempre estariam “em casa”.
E tem sido assim até hoje, dez anos depois daquela radical mudança de vida – que eles jamais se arrependeram.
Para sobreviver – e bem – o casal passou a hospedar turistas brasileiros que buscavam conhecer o Caribe da maneira mais original possível.
Ou seja, a bordo de um barco, parando em algumas das praias mais bonitas do mundo – serviço que, no meio náutico, é conhecido como “charter”.
O negócio deu tão certo que, atualmente, eles têm até lista de espera para os chaters que promovem, feitas através do site do casal, o www.oceaneyesexperience.com e do Facebook.
Uma semana no barco do casal, com tudo incluído, inclusive as refeições (e até curso gratuito de navegação a vela que Alcides costuma dar para quem quer aprender a velejar durante os próprios passeios, enquanto Tatiana cuida das refeições, já que é uma chef de cozinha), custa o equivalente a R$ 8 500 por pessoa, no caso de serem mais de duas ou uma família – ou R$ 24 000 o casal, se não houver mais pessoas viajando junto.
“Não é caro, porque só um bom hotel no Caribe já custa quase isso por semana, sem falar nas refeições, que custam outro tanto”, defendem Alcides e Tatiana, que de tanto receber brasileiros no seu barco se tornaram anfitriões de primeira. E amigos de todos os clientes, até hoje.
“O pessoal adora ouvir a nossa história, porque sempre fomos assalariados e sem dinheiro sobrando para nada. Mas, agora, vivemos exatamente onde eles passam férias e num barco, o que é o sonho de muita gente”, diz Alcides, mais que satisfeito. “Conseguimos o que queríamos, mas, para isso, foi preciso ter coragem de mudar totalmente de vida, o que não é fácil”, reconhece.
Atualmente, eles têm como “endereço” uma estupenda baía numa das ilhas que compõe as Ilhas Virgens Britânicas, bem no centro do Caribe.
É lá que o barco-casa do casal um confortável catamarã com quatro quartos (que custou o mesmo que um apartamento de apenas dois em São Paulo…) fica ancorado, quando eles não estão levando brasileiros para navegar por algumas das ilhas mais bonitas da região.
Quando isso acontece, o casal, que vai junto no barco, cuida de tudo. Até de assumir as funções de intérprete nas ilhas. “As pessoas não precisam nem saber falar inglês, porque nossos cruzeiros são 100% em português”, brinca Alcides, que é o capitão do barco.
“No Caribe, você atravessa de barco de uma ilha para outra em menos de uma hora. Não dá nem tempo de enjoar”, diz o brasileiro.
Alcides e Tatiana não são os únicos, muito menos os primeiros, a trocar a vida na cidade grande por um barco no mar. Muitos já fizeram isso – clique aqui e conheça outra história exemplar desse tipo. Mas poucos de maneira tão radical.
“Em geral, as pessoas levam décadas acalentando o sonho de viver num barco, ou passam a vida inteira sem realizá-lo. Nós não. Foi meio de sopetão. E olha que não sabíamos nada sobre barcos, apenas gostávamos do mar”, conta Alcides, que hoje não se imagina levando outra vida.
“Até aqui, nenhum dos nossos clientes se arrependeu de trocar um quarto de hotel por uma cabine no nosso barco”, diz o brasileiro, feliz, orgulhoso e sem nenhuma saudade dos tempos em que a rotina do casal era apenas trabalhar, dormir, acordar e começar tudo de novo, na eterna correria de São Paulo
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