O dia em que um tenso conflito no mar terminou em naufrágio

O dia em que um tenso conflito no mar terminou em naufrágio

Há anos, um tenso conflito acontece ao longo da grande faixa limite do mar territorial da Argentina.

De um lado, estão centenas de barcos pesqueiros – chineses, na sua maioria.

Do outro, alguns poucos navios de patrulha da Prefectura (uma espécie de Guarda Costeira) Argentina.

E a razão do embate é a pesca ilegal de uma espécie de lula, que só existe ali.

Tal qual lobos à espreita da presa, os pesqueiros infratores ficam brincando de gato e rato com a fiscalização argentina, parados rentes à linha imaginária que separa o mar territorial daquele país das chamadas Águas Internacionais, onde os argentinos não podem agir.

Mas, sempre que a fiscalização se afasta, os pesqueiros voltam a invadir o mar argentino e a capturar o precioso molusco.

É uma caçada interminável – quase como tentar enxugar gelo.

Uma guerra que os argentinos tentam combater 24 horas por dia, quase sempre sem nenhum sucesso.

Mas, de vez em quando, conseguem uma vitória.

Foi o que aconteceu na madrugada de 15 de março de 2016, a cerca de 600 quilômetros da costa argentina, mas ainda dentro dos limites do mar territorial do país.

Naquele dia, a habitual perseguição dos navios de patrulha aos barcos infratores terminou da maneira mais radical possível: com o metralhamento e afundamento de um deles: o pesqueiro chinês Lu Yan Yu Yuan 010, que tinha 32 homens a bordo.

Nenhum dos tripulantes nada sofreu no episódio e todos foram resgatados no mar.

Quatro deles, incluindo o comandante do pesqueiro invasor, pela própria tripulação do navio argentino que os atacou, o Prefecto Derbes.

Os restantes, por outros barcos chineses que estavam nas imediações, fazendo a mesma coisa que o Lu Yan Yu Yuan 010 – ou seja, a pesca ilegal.

Mas a ação teve lances de filmes de ação.

Começou com um avião argentino de patrulha localizando o pesqueiro invasor e avisando o comandante do Prefecto Derbes, que estava ali por perto.

Cumprindo o protocolo, o navio alertou o barco, pelo rádio, em inglês e espanhol, de que ele estava atuando em águas da chamada Zona de Exclusão, onde não é permitida a atividade pesqueira de barcos estrangeiros – como se isso fosse algo que os infratores não soubessem.

Como não houve nenhuma resposta, os argentinos passaram a emitir sinais sonoros e luminosos, que significavam a mesma coisa – também ignorados pelos chineses.

A única reação do barco invasor veio em seguida, quando todas as suas luzes foram apagadas, bem como o sinalizador automático da embarcação, e o pesqueiro iniciou a fuga, rumo ao abrigo seguro do outro lado da linha divisória.

Mas não conseguiu chegar lá.

Irritados, os oficiais argentinos, que também já haviam dado ordens para os chineses deterem o movimento a fim de serem abordados, partiram no encalço do barco fugitivo.

A perseguição durou um par de horas, com o navio argentino cada vez mais próximo do Lu Yan Yu Yuan 010, já quase camuflado pela escuridão da noite.

Quando a distância foi reduzida a uma centena de metros, os argentinos passaram a executar disparos intimidatórios com fuzis, visando, no entanto, apenas as partes “neutras” do barco chinês, como a proa, onde não havia pessoas, e antenas, a fim de cortar as comunicações com outros barcos invasores, já que a atuação em grupo é uma maneira que invasores usam para dificultar as ações de repressão.

Como nem assim os chineses diminuíram a marcha, a ordem seguinte foi para substituir os disparos de fuzis por rajadas de metralhadoras, que fizeram um grande estrago no barco – que, por fim, parou.

Mas não por muito tempo.

Logo, o Lu Yan Yu Yuan 010 começou a avançar, de ré, na direção da proa do navio argentino, numa clara intenção de provocar uma colisão.

A batida só não ocorreu porque o Prefecto Derbes foi manobrado rapidamente e escapou a tempo.

Mas, àquelas alturas, já estava claro que aquele embate, desta vez, não terminaria bem.

Como, de fato, não terminou.

Após a frustrada tentativa de provocar a colisão entre os dois barcos (através do choque da popa do Lu Yan Yu Yuan 010 com a proa do Prefecto Derbes, o que, depois, permitiria aos chineses alegar que a batida havia sido provocada pelo navio argentino, e não o contrário), o pesqueiro começou a adernar, num claro sinal de que estava prestes a afundar.

Quando a água atingiu a altura do convés, o comandante do pesqueiro e seus 31 subordinados embarcaram em pequenos botes e foram para o mar, de onde foram resgatados em seguida.

Dali, o capitão chinês seguiu direto para a prisão, onde ficou até o caso se tornar uma questão, também, diplomática, porque a China passou a alegar que o Lu Yan Yu Yuan 010 afundara em consequência de ter sido intencionalmente metralhado pelos argentinos.

Já o comandante do Prefecto Derbes negou com veemência, porque os disparos que autorizara não seriam suficientes para afundar um barco com casco de aço de 66 metros de comprimento, sobretudo porque foram feitos sempre acima da linha d´água.

A suspeita, jamais comprovada, mas amplamente aceita até hoje, é que, para incriminar mundialmente os argentinos por ação belicosa e forçar a diminuição do patrulhamento na região através da pressão mundial, os tripulantes do Lu Yan Yu Yuan 010 tenham aberto propositalmente as válvulas do casco do seu próprio barco e o deixado encher de água, antes de abandoná-lo – razão pela qual todos se salvaram, já que tiveram tempo suficiente para preparar a própria evacuação.

Se foi realmente isso o que aconteceu, só mesmo os 32 tripulantes do Lu Yan Yu Yuan 010 saberiam responder.

Mas, como bons infratores, eles jamais se manifestaram.

E a guerra pela captura da cobiçada lula argentina segue até hoje.

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O surpreendente desfecho da mais longa perseguição no mar

O surpreendente desfecho da mais longa perseguição no mar

Dezembro de 2014.

Havia três dias que o barco Bob Barker, da ONG ambientalista Sea Shepherd, capitaneado pelo sueco Peter Hammarsfedt, vasculhava uma gigantesca área remota do mar da Antártica, na altura da Austrália, em busca de sua presa.

Até que surgiram três pontinhos no radar da embarcação.

Dois eram claramente icebergs.

Mas o terceiro, se movimentava.

Só podia ser ele, naqueles confins do mar antártico.

E era.

O Thunder, um navio pesqueiro com bandeira da Nigéria, que estava entre os mais procurados do mundo por praticar impunemente a pesca ilegal – aquela que desrespeita os limites das espécies e cuja quantidade nunca é declarada às autoridades.

Ele era comandado pelo chileno Luis Cataldo e tinha outros 40 tripulantes de diferentes nacionalidades a bordo – mas nenhum nigeriano, já que usava a chamada “bandeira de conveniência”, que confere “nacionalidade” a qualquer embarcação mediante apenas pagamento.

Tanto que, sistematicamente, o Thunder mudava de bandeira, e seu nome sequer era pintado no casco, resumindo-se a placas, que podiam ser facilmente substituídas por outas, com outro nome.

Tampouco ninguém sabia quem era o dono do barco.

Apenas que o que ele fazia era ilegal.

Há meses, o Thunder vinha sendo monitorado pela Sea Shepherd, já que as autoridades pouco faziam para detê-lo.

Mas sempre escapava.

Desta vez, porém, poderia ser diferente.

Eufórico com a descoberta da presa, o capitão Hammarsfedt convocou o outro barco da entidade, o Sam Simon, que estava na região pelo mesmo motivo, para juntar-se ao cerco do arredio fugitivo.

E ele chegou rápido.

Ao avistarem o Thunder, a primeira providência foi fotografá-lo.

Mas não para comprovar que estivesse pescando – algo que, em tese, não feria lei alguma, já que o barco estava em Águas Internacionais, que não pertencem nenhum país.

Mas sim para tentar descobrir, pela altura da linha d´água no seu casco, quanto de combustível ele ainda poderia ter nos tanques.

A informação era fundamental para estimar a autonomia do pesqueiro e, portanto, sua capacidade de fugir, como das vezes anteriores.

E foi, novamente, o que ele fez.

Ao ser contatado, via rádio, pelo capitão Hammarsfedt e dele receber ordem de parar as máquinas para ser abordado, já que havia uma ordem de arrestamento do Thunder expedida pela Interpol, o comandante do Thunder respondeu apenas que a Sea Shepherd não tinha autoridade legal para detê-lo.

E era verdade.

A entidade não era Polícia e não podia sair confiscando barcos infratores.

Feito isso, Cataldo desligou o AIS do seu barco, um equipamento de identificação automática de embarcações, acelerou e penetrou no labirinto de blocos de gelo da Antártica, sendo, no entanto, seguido bem de perto pelos dois barcos da Sea Shepherd.

Uma perseguição que mais parecia uma escolta – o perseguido sendo seguido, a pouca distância, pelos seus perseguidores, que, no entanto, legalmente nada podiam fazer para detê-lo.

A estratégia de Hammarsfedt passou a ser apenas a de seguir o barco infrator, até que a Interpol pudesse entrar em ação ou acabasse o combustível do Thunder – os dois barcos da Sea Shepherd não padeciam tanto desse problema, porque seus tanques eram enormes, justamente para ter grande autonomia no mar, durante as ações que faziam.

Já que Hammarsfedt não podia impedir Cataldo de seguir adiante, iria escoltá-lo, fosse para onde fosse, pelo tempo que durasse o combustível do pesqueiro.

Era o início de uma das mais longas perseguições marítimas da História recente.

Durante intermináveis 110 dias, quase quatro meses, os dois barcos da Sea Shepherd seguiram o Thunder a pouca distância, monitorando todos os seus movimentos.

Que não foram poucos.

Das águas antárticas, o pesqueiro adentrou o Pacífico, cruzou o Atlântico e penetrou no Índico, antes de dar meia-volta e retornar ao oceano anterior, numa jornada de mais de 11 000 milhas náuticas – uma patética perseguição entre gato e rato, onde ambos sabiam muito bem onde o outro estava.

Sempre que Cataldo parava para pescar, os dois barcos da Sea Shepherd também paravam.

Mas ficavam apenas observando, em busca de novas provas que incriminassem ainda mais o pesqueiro.

Em uma dessas ocasiões, rolos de fumaça passaram a ser emanados do convés do Thunder.

Como fazia com frequência, Hammarsfedt pegou o rádio, chamou o capitão chileno e perguntou sobre a origem do fogo.

Cataldo respondeu que estava apenas incinerando lixo.

Mas a verdade era outra.

O Thunder estava queimando suas gigantescas redes de pesca, algumas com mais de dezenas de quilômetros de extensão.

Ou seja, destruindo provas, já que parecia claro que aquela perseguição não iria terminar sem que eles fossem detidos pela polícia.

Quando o Thunder reentrou no Atlântico e passou a subir a costa africana, Hammarsfedt ficou se perguntando para onde Cataldo seguia.

A resposta veio dias depois, quando o pesqueiro se abrigou no mar territorial da Nigéria, país da bandeira que ostentava, e onde os barcos da Sea Shepherd não poderiam entrar sem autorização.

A suspeita era a de que o Thunder contava com a proteção das autoridades nigerianas, já que nunca ficou claro quem era o dono do barco.

Aquela longa perseguição teria acabado ali, não fosse a resiliência de Hammarsfedt, que ficou parado fora dos limites do mar nigeriano, e uma providencial manobra diplomática: a decisão do governo americano de ameaçar a Nigéria com sanções econômicas, caso a pesca ilegal com barcos sob bandeira daquele país não fosse interrompida.

Os nigerianos seguiram concedendo secretamente bandeiras de conveniência para barcos pesqueiros.

Mas, dadas as dimensões que aquele caso tomara, confiscaram o direito de o Thunder continuar a usá-la – uma maneira de tentar agradar aos americanos e impedir o boicote.

Com isso, o barco de Cataldo se tornou apátrida – uma paria dos mares, sem nenhuma bandeira para protegê-lo.

E foi sob esta situação que ele teve que deixar as águas nigerianas, para ser, novamente, perseguido pelo implacável comandante sueco.

Mas não por muito tempo.

No dia 5 de abril de 2015, três meses e meio após o início daquela perseguição implacável, o capitão Cataldo tomou o rumo de um ponto da costa das Ilhas São Tomé e Príncipe, ainda dentro do Golfo da Guiné, e, sob o olhar atento de Hammarsfedt, parou o seu barco.

Em seguida, pegou o rádio e emitiu um pedido de socorro, alegando que Thunder havia sido abalroado por outra embarcação e que estava afundando – embora não houvesse nenhum outro barco na área, a não ser os dois da Sea Shepherd.

O passo seguinte na encenação criada pelo capitão chileno foi baixar botes salva-vidas ao mar e embarcar com toda a sua tripulação, enquanto o Thunder começava a inclinar, vítima da abertura proposital das válvulas do seu casco pelos próprios tripulantes.

Seguindo o protocolo, coube aos próprios membros da Sea Shepherd resgatar os náufragos, mesmo sabendo que eles deliberadamente haviam promovido o naufrágio do pesqueiro, como forma de ocultar provas sobre a sua atividade criminosa.

O capitão Cataldo foi recolhido pelo próprio comandante sueco e acompanhou, do convés do barco que tanto o perseguira, os últimos suspiros do Thunder, com a proa apontada para o céu, antes de mergulhar para sempre no mar.

Quando isso aconteceu, Cataldo sorriu.

Nada mais poderia seriamente incriminá-lo.

A mais longa perseguição de um barco pesqueiro que se tem notícia terminou com uma simples multa por poluição marinha, por conta do afundamento proposital do Thunder, e brandas penas aos infratores.

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Como as lagostas quase colocaram o Brasil em guerra com a França

Como as lagostas quase colocaram o Brasil em guerra com a França

Na década de 1960, a pesca da lagosta no litoral do Nordeste brasileiro gerou uma séria crise diplomática entre Brasil e França e quase culminou em ações bélicas entre os dois países, no que ficou conhecido como a Guerra da Lagosta – que, de guerra mesmo, felizmente, não teve nada, a não ser ameaças dos dois lados.

Tudo começou quando barcos lagosteiros franceses passaram a frequentar o litoral de Pernambuco em busca do cobiçado crustáceo, amparados por autorizações concedidas pelo governo brasileiro para realizar “pesquisas pesqueiras” no nosso litoral.

Mas, ao constatar que os barcos estavam apenas capturando lagostas, a licença foi cancelada.

Os barcos franceses, no entanto, não desistiram da empreitada e um deles foi apreendido pela corveta brasileira Ipiranga, deflagrando um conflito que chegou a ter momentos cômicos.

Um deles foi quando o governo francês tentou alegar que as lagostas não poderiam “pertencer ao território brasileiro”, como o Brasil alegava, pois se tratavam de “uma espécie de peixe” e, “como peixes, podiam nadar livremente por todos os oceanos”.

Já o governo brasileiro respondeu citando que, pela Convenção de Genebra, todos os recursos submarinos pertencem ao país mais próximo deles e que, de mais a mais, lagostas eram “crustáceos e não “peixes”, portanto não nadavam.

O fato gerou um famoso e bem-humorado comentário do oceanógrafo Paulo de Castro Moreira da Silva, que ironizou os franceses, dizendo: “Se a lagosta for um peixe, porque se desloca dando saltos na água, então os cangurus são aves, já que pulam no ar”.

Além do abuso de vir pescar em águas brasileiras tão próximas da costa, os franceses ainda usavam nas suas operações de captura da lagosta redes de arrasto, então já proibidas no Brasil, o que gerou ainda mais conflito.

No auge da crise, a França chegou a mandar um navio de guerra, o Tartu, para as proximidades da costa do Nordeste, com a tarefa de proteger os barcos pesqueiros franceses.

Já o Brasil respondeu enviando diversos navios da Marinha, além de aviões militares para a região.

O embate virou, então, um teatro de ameaças e intimidações mútuas, enquanto, nos bastidores, os diplomatas tentavam chegar a um acordo pacífico.

As discussões duraram meses, até que, em 10 de março de 1963, a França finalmente concordou em retirar o seu navio militar das águas brasileiras, bem como os barcos pesqueiros que vinham sendo protegidos por ele.

O Brasil, então pode dizer que vencera a “Guerra da Lagosta”, e, com base no episódio, tratou de proteger melhor o seu mar, dali em diante.

Um ano depois, o governo brasileiro estendeu os limites do mar territorial do país, das então apenas 12 para 200 milhas da costa, o que vigora até hoje.

Foi o que de melhor a Guerra da Lagosta deixou para os brasileiros.

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O encouraçado brasileiro que foi engolido pelo Atlântico

O encouraçado brasileiro que foi engolido pelo Atlântico

No início do século passado, a Marinha do Brasil era considerada uma potência no continente sul-americano, pelos bons navios que possuía.

Um deles era o encouraçado São Paulo, de 20 000 toneladas, construído sob encomenda, na Inglaterra, e com um prestigioso histórico na corporação.

Logo na sua viagem inaugural, rumo ao Brasil, em 1910, coube a ele trazer o então presidente do país, Hermes da Fonseca, e, mais tarde, também os restos mortais do Imperador Dom Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina – além de ter participado da Revolta das Chibatas, movimento deflagrado pelos marinheiros contra o fim dos maus tratos e castigos físicos na Marinha Brasileira, e de ter atuado, como fortaleza flutuante na proteção ao porto de Recife, durante a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, após quase meio século de serviços prestados, o então já defasado encouraçado estava obsoleto e ultrapassado.

Mas ainda em relativo bom estado, como mostrou sua última grande revisão, em 1948, quando foi colocado em dique seco e constatado que seu casco, de fundo duplo, permanecia intacto.

Como, no entanto, sua capacidade de navegação já estava limitada, o encouraçado São Paulo foi colocado à venda, e logo atraiu o interesse dos próprios ingleses, mas com outro objetivo: transformá-lo em sucata, já que nos anos pós-guerra a Europa sofria carência e escassez de aço.

O negócio foi fechado e ficou acertado que a empresa inglesa que comprara o navio enviaria dois rebocadores ao Brasil, para buscá-lo.

À Marinha do Brasil, que já vinha sucateando o encouraçado para manter funcionando as demais embarcações da corporação, restou apenas acabar de depenar o navio, retirando todos os seus equipamentos, inclusive portas estanques, caldeiras (que alimentavam a sua propulsão, ainda a vapor), e todos os armamentos, cujos vãos e orifícios no casco foram tapados com pranchas de madeira.

Mesmo assim, o serviço atrasou.

Quando dois rebocadores ingleses, o Bustler e Dexterous, chegaram ao Rio de Janeiro para recolher o navio, ele ainda não estava pronto para a sua derradeira viagem – e que seria a última de fato, porque o encouraçado São Paulo jamais chegaria à Inglaterra.

Com o passar dos dias, os comandantes dos dois rebocadores começaram a ficar aflitos com aquele atraso.

Eles pretendiam fazer a travessia, que prometia ser bem lenta, dado o tamanho da embarcação a ser rebocada, antes que começasse a temporada de tempestades de inverno no Atlântico Norte, o que geralmente acontecia a partir de novembro.

Sabiam também que não seria nada fácil rebocar um pesado encouraçado em mares agitados.

E passaram a pressionar os oficiais brasileiros encarregados da preparação do barco, estes sim habituados a um costumeiro atraso.

Até que, em 20 de setembro de 1951, bem mais tarde do que os comandantes ingleses desejavam, o encouraçado São Paulo ficou pronto e deixou o porto do Rio de Janeiro, puxado pelos dois rebocadores.

Dentro dele, iam oito tripulantes da equipe inglesa, encarregados de monitorar o comportamento do navio inerte durante a travessia.

As informações entre as equipes eram passadas através de um rádio portátil, já que o equipamento original do navio também havia sido retirado.

Por outro lado, foram embarcados dois pequenos barcos de apoio, coletes salva-vidas e duas dúzias de foguetes sinalizadores, para o caso de alguma emergência a bordo do navio a reboque.

Por muito pouco, a tripulação do São Paulo não ganhou também a companhia de uma família inglesa, pai, mãe e filho, desejosa de retornar ao seu país, mas sem recursos para comprar passagens.

Em troca da viagem, eles haviam proposto trabalhar a bordo, especialmente a mulher, que se ofereceu para a ser cozinheira do navio.

Mas, ao examinar o interior totalmente depenado do São Paulo, ela mesma mudou de ideia.

Foi a melhor decisão da sua vida, como ficaria tragicamente comprovado semanas depois.

O reboque do encouraçado foi feito através de dois longos e grossos cabos, cada um com 30 centímetros de espessura, e a velocidade do comboio, por questões de segurança, não passava dos cinco nós.

Tão lento que o comboio levou um mês e meio para atingir a metade do caminho, nas proximidades do arquipélago dos Açores.

E foi quando tudo aconteceu.

Até então, a viagem vinha sendo lenta, mas tranquila.

Mas, naquelas alturas do calendário, início de novembro, as condições climáticas no Atlântico Norte já haviam mudado bastante.

A suavidade do outono dera lugar às primeiras tempestades de inverno, e uma delas, bem mais forte que as anteriores, atingiu o comboio no início da tarde de 6 de novembro de 1951.

Rapidamente, a visibilidade foi piorando na mesma proporção em que as ondas aumentavam de tamanho.

E a operação de reboque foi ficando cada vez mais difícil, com o grande navio oscilando muito e dando apavorantes trancos nos cabos.

O São Paulo estava perto de ficar incontrolável.

No final da tarde daquele dia, quando já não era mais possível ver o encouraçado, por conta das altas ondas e da baixa visibilidade, os comandantes dos rebocadores fizeram contato, pelo rádio, com a tripulação do São Paulo, para saber como estava a situação a bordo.

Do navio a reboque, os oito homens relataram o desconforto gerado pela grande instabilidade do casco, comportamento que nem o enchimento dos tanques de lastro, para evitar que o navio balançasse excessivamente na viagem, conseguiu atenuar.

Foi a última vez que se teve notícias deles.

Em seguida, as condições de navegação pioraram ainda mais e os dois rebocadores passaram a ter extrema dificuldade em manter esticados os cabos que os atavam ao navio – sem falar no risco de uma colisão entre as embarcações.

Os trancos e solavancos eram apavorantes e começaram a causar danos em um dos rebocadores, o Dexterous.

Temendo o pior, o comandante do rebocador danificado mandou soltar o cabo do reboque.

Se não fizesse isso, havia o risco de o rebocador passar a ser puxado pelo encouraçado, em vez de puxá-lo.

E o resultado, muito provavelmente, seria o seu naufrágio.

Só que, ao soltar o seu cabo, toda a tensão foi transferida para o do outro rebocador – que, não suportou e rompeu.

Era o que faltava para selar o destino do encouraçado São Paulo.

Ele agora estava à deriva, descontrolado, entregue à própria sorte na tempestade e sem nenhum meio de propulsão capaz de permitir abordar as ondas com alguma segurança.

Era o seu fim.

O que exatamente aconteceu, nunca se soube nem jamais será sabido – porque tudo desapareceu no mar.

Quase que instantaneamente, aquele grande e poderoso navio foi engolido pelas ondas, ao que tudo indica numa só talagada, sumindo da superfície como num passe de mágica, levando junto os seus oito infelizes ocupantes.

Quando o comandante do Dexterous pegou o rádio para avisar os colegas do encouraçado sobre a decisão de soltar o cabo, já não houve resposta do outro lado.

Mas ele só compreendeu o por que daquele silêncio quando o comandante do outro rebocador o avisou, também pelo rádio, que o seu cabo havia rompido.

A explicação, então, só poderia estar na pior das hipóteses: o encouraçado havia afundado.

Imediatamente, o navio desapareceu dos radares dos dois rebocadores.

No mesmo instante, eles iniciariam as buscas, apesar do mar em fúria e do estado precário de um deles.

Do Dexterous e do Bustler foram disparados foguetes, na esperança que os tripulantes do navio respondessem da mesma maneira, com os sinalizadores que os havia a bordo.

Mas não houve nenhuma resposta.

Os dois rebocadores passaram a noite navegando em círculos, buscando algum sinal ou vestígio do São Paulo na superfície.

Nada encontraram.

Nem mesmo uma simples rolha que pudesse ter escapado de afundar junto com o navio – talvez, porque, como o encouraçado havia sido totalmente depenado antes da viagem, não houvesse mesmo muito o que se desprender dele.

Com a ajuda de aviões das Forças Aéreas da Inglaterra, Estados Unidos e Portugal, as buscas continuaram por mais uma semana.

Até que todos tiveram que admitir o improvável: mesmo tendo 17 compartimentos estanques, cujas funções eram justamente impedir naufrágios fulminantes, o encouraçado São Paulo havia sido tragado pelo mar, de uma só vez, como uma simples canoa.

O mais provável é que ele tenha adernado em demasia ao ser atingindo pelas ondas, após perder sua ligação com os rebocadores, e tombado, inundado, capotado e mergulhado.

Tudo isso em questão de minutos.

Mas, como um navio de 150 metros de comprimento poderia ter sido engolido inteiro em tão pouco tempo?

Para tentar responder esta pergunta, um inquérito foi instalado na Inglaterra e, três anos depois, o comandante do rebocador Dexterous foi levado a julgamento.

Pesava sobre ele a acusação de, ao tomar a decisão de soltar o cabo que atava o navio ao seu rebocador, ter entregue à própria sorte os oito tripulantes do São Paulo.

Os familiares das vítimas cobravam justiça e a investigação decidiu recuar no tempo, até quando o encouraçado ainda estava no Brasil, sendo preparado para a viagem.

Naquela ocasião, a decisão de extrair as portas estanques dos deques e tapar os orifícios dos armamentos no casco com meras placas de madeira chamou a atenção dos investigadores, que concluíram que as duas coisas poderiam ter contribuído para a inundação acelerada do navio.

Também deduziram que colaborou bastante para a tragédia o fato de a preparação do encouraçado ter atrasado, o que impediu que os comandantes dos rebocadores fizessem a travessia no período desejado, antes que começassem as tormentas de inverno, embora eles também tivessem falhado ao não adiar a viagem – o que, no entanto, traria sérios prejuízos financeiros a empresa que comprara o navio.

Quanto a decisão do comandante do Dexterous de soltar o cabo do reboque (que ele alegou só ter feito por temer o seu próprio naufrágio e por acreditar que um navio com aquele porte sobreviveria a tempestade, mesmo se ficasse à deriva), o júri não viu nada de irregular no procedimento e definiu que, “do contrário, a tragédia teria sido maior ainda”.

Por fim, o julgamento inocentou o comandante acusado e, depois de puxar as orelhas dos responsáveis brasileiros pela preparação do navio, concluiu que o que efetivamente levou o encouraçado ao naufrágio foi a sua incapacidade de realizar manobras num mar que exigia isso, acima de tudo.

Ninguém foi punido pela morte dos oito infelizes ocupantes do encouraçado São Paulo.

Nem lá, nem aqui.

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13 meses à deriva no mar e vivo! A inacreditável saga de um recordista da sobrevivência

13 meses à deriva no mar e vivo! A inacreditável saga de um recordista da sobrevivência

Na noite de 29 de janeiro de 2014, um homem barbudo, semi-nu e oscilando entre a euforia e o desespero, foi dar numa praia deserta do esquecido atol de Ebon, nas remotas Ilhas Marshall, num trecho particularmente ermo do oceano Pacífico.

E chegou contando uma história extraordinária: a de que cruzara o maior dos oceanos à deriva, sem água nem comida, levado apenas pelas correntes marítimas, a bordo de um barco que não passava de uma canoa de fibra de vidro, depois que o motor quebrou, na costa do México, a mais de 10 000 quilômetros dali, quase do outro lado do mundo.

Ele dizia que passara mais de um ano boiando no mar e sobrevivera graças a carne e o sangue de peixes, aves e tartarugas, que foi capturando pelo caminho.

Quando não chovia, aplacava a sede bebendo a própria urina.

E para se proteger do sol e das intempéries, passara a maior parte daqueles mais de 400 dias no mar curvado dentro de uma grande caixa de isopor, único abrigo que seu barco oferecia.

Nunca ninguém sobrevivera tanto na vastidão de um oceano, muito menos sem nenhum recurso, como aquele homem, o pescador salvadorenho Jose Alvarenga, dizia ter feito.

Uma história tão inacreditável de resistência e sobrevivência que muitos não acreditaram mesmo.

Até porque ela envolvia algo pior ainda: a morte de seu companheiro de infortúnio, após quatro meses de privações no oceano, o que lhe rendeu insinuações até de canibalismo, já que ele chegara em ótimo estado para quem passara tanto tempo de privações, naquela situação.

Para alimentar ainda mais as dúvidas, Jose passou um bom tempo sem revelar maiores detalhes da sua saga, o que só concordou em fazer seis meses depois, quando há muito já havia virado herói ou farsante.

E o que ele contou deixou o mundo ainda mais emocionado, a começar pela descrição que fez do dia em que o seu pesadelo, por fim, terminou – 13 inacreditáveis meses depois de ter começado.

Tudo aquilo começou um ano e um mês antes, na manhã de 21 de dezembro de 2012, na praia de Paredón, na costa oeste do México.

Naquele dia, o mar não estava bom e uma tormenta se aproximava.

Mesmo assim, Jose, de 36 anos, decidiu sair para pescar tubarões, como sempre fazia.

E chamou um jovem pescador para ir junto: Ezequiel Cordova, de 23 anos.

Os dois pegaram alguns apetrechos (entre eles, uma grande caixa de isopor, para estocar os peixes que capturassem) e partiram.

O barco era um simplório casco aberto de oito metros de comprimento, que não passava de uma grande canoa, sem nenhum conforto ou abrigo.

Apesar do mar grosso, a pescaria foi boa.

Na metade do segundo dia, Jose e Ezequiel já haviam acumulado quase 400 quilos de carne de tubarão a bordo.

Mas as ondas e o vento seguiam aumentando e convenceram a dupla a regressar para a costa.

Jose girou a chave de ignição e tentou dar partida no motor.

Nada.

Tentou de novo e nenhum sinal.

Seguiu tentando – três, quatro, dez, vinte vezes -, até que julgou prudente poupar a bateria para pedir ajuda pelo rádio.

Pegou o aparelho e chamou o responsável pela frota de pescadores, na praia.

Só conseguiu dizer que o motor havia pifado e soltar um palavrão.

A bateria fraca e a grande distância da costa não permitiram mais nada.

Os dois estavam a cerca de 70 quilômetros do litoral, com o tempo piorando a cada instante e, agora, sem rádio nem motor.

Era o começo de um longo – muito longo – calvário, que os levaria a viver a pior privação que um ser humano pode experimentar: a do completo isolamento no mar, sem água nem comida, sequer esperanças de sair vivo daquele suplício.

Durante quatro dias, a tempestade uivou e elevou o mar, sem clemência.

Por isso, as buscas por eles só começaram quando a tempestade perdeu força.

E, quando isso aconteceu, José e seu companheiro já estavam longe, levados pelas ondas e pelos ventos para o pior lado possível: o do mar aberto no Pacífico, o maior de todos os oceanos.

Dali em diante só havia água.

E mais nada.

Para piorar a situação, não restara nada dos 400 quilos de peixe que eles haviam pescado, porque a única maneira de evitar que o frágil barco fosse à pique na tormenta foi aliviando o seu peso e atirando ao mar todo o pescado, bem como o material usado para capturá-lo.

Nos primeiros dias, Jose e Ezequiel nada fizeram a não ser olhar para a imensidão do oceano, torcendo por um resgate.

Mas já estavam distantes demais para serem encontrados.

Na sua comunidade de pescadores, já eram dados como mortos.

Pelo menos, de vez em quando, chovia.

E os dois aproveitavam para matar a sede.

Mas, com o passar dos dias, Ezequiel entrou em profunda depressão.

Não queria nem mais beber água da chuva.

Jose, faminto e vendo o estado do amigo, resolveu por em prática algumas saídas para conseguir comida.

Astuto e habilidoso, ele logo aprendeu a capturar, com as duas mãos em forma de concha, peixinhos que acompanhavam o casco na sua lenta deriva.

Aprendeu, também, a agarrar pelas patas as aves que se aproximavam do barco, ficando para isso deitado imóvel no fundo do casco, feito um cadáver.

Com o tempo, além de peixes e aves, ele também desenvolveu técnicas para puxar pequenas tartarugas para dentro do barco, quando elas subiam para respirar.

Tanto pela carne quanto pelo sangue, ambos abundantes em gorduras e proteínas, as tartarugas logo se tornaram a principal fonte de alimento e sobrevivência dos dois pescadores.

Mas, logo, Ezequiel não conseguia mais engolir aquilo. E começou a definhar rapidamente.

No final de janeiro de 2013, já somava um mês que Ezequiel não comida nada.

Seu organismo não aceitava.

Só de sentir o cheiro fétido da carne das tartarugas e das aves, vomitava.

Com isso, se desidratava ainda mais.

Três meses depois, ele morreu, na mais completa inanição.

Até então, Ezequiel era uma valiosa companhia para José – alguém para dividir o medo e a solidão.

De vez em quando, os dois conversavam, para distrair a mente.

À noite, dormiam abraçados, para atenuar o frio, dentro da grande caixa de isopor, único abrigo que tinham.

Jose invariavelmente sonhava com comida e tinha horríveis pesadelos – que, ao acordar, continuavam, porque aquele tormento no mar era real e não apenas um sonho ruim.

Nada poderia ser mais desesperador do que aquele deserto de água salgada ao redor dele.

Dois dias antes de Ezequiel morrer, os dois haviam feito um pacto: se um deles sobrevivesse, contaria aos familiares do outro como foram os seus últimos momentos.

Mas, quando isso aconteceu, José manteve o esquelético cadáver do amigo a bordo por mais quatro dias, na insana esperança de que ele voltasse à vida.

Só então depositou o corpo do companheiro no mar.

Os tubarões deram conta do funeral.

A morte de Ezequiel perturbou Jose profundamente.

Não era apenas a perda de um amigo.

Erro fim do único elo que lhe restava com a humanidade.

Ficou sozinho naquele oceano interminável e isso fez com que passasse a desenvolver pensamentos suicidas.

Mas um pensamento veio à sua mente: era preciso sobreviver àquele tormento, para provar a existência de Deus.

Dias depois, ele avistou um navio no horizonte.

E vinha na sua direção.

Jose começou a gritar e gesticular, agradecendo a Deus.

Mas o navio passou reto – e tão perto, que, do convés, um dos marinheiros chegou a acenar para ele, como que retribuindo àqueles desesperados movimentos de braços.

Não era possível que alguém imaginasse que aquele homem estava ali, no meio do oceano, com um barco que era pouca coisa maior do que um bote, por pura vontade.

Mas foi o que aquele marinheiro deve ter pensado.

Enquanto isso, na distante Praia de Paredón, no litoral mexicano, um grupo de pescadores depositou flores no mar.

Fazia um ano que Jose e Ezequiel haviam sumido.

E mal sabiam eles que Jose ainda estava vivo.

No mar, Jose não sabia onde estava.

Mas sabia que avançava na direção de algum lugar.

Avaliava isso pelas mudanças na posição do sol.

Obsessivamente vasculhava o horizonte, em busca de ilhas e de nuvens, que trouxessem chuvas, para aplacar a sede.

Quando não chovia, como aconteceu durante cerca de três meses seguidos, a única saída era beber a própria urina.

Fez isso várias vezes.

O único consolo é que quase sempre havia o que comer: aves, peixes, tartarugas –

A carne dos bichos fornecia, também, algum tipo de líquido para o organismo.

Jose sorvia o sangue deles como se fosse água cristalina, e tratava de manter o próprio corpo sempre molhado, a fim de evitar a perda de líquidos pela transpiração.

Capturou tantas aves e tartarugas que perdeu a conta.

Peixes também.

Especialmente quando eles eram encurralados pelos tubarões, junto ao casco.

Só era preciso ser rápido, para puxá-los para dentro do barco antes que sua mão virasse comida dos próprios tubarões.

Em certo momento, Jose capturou tantas aves que passou a achar que havia terra firme por perto.

E havia mesmo.

Quando o dia 29 de janeiro de 2014 amanheceu, Jose mirou o horizonte e notou algumas manchas ao longe.

Pareciam coqueiros

E – sim! – eram coqueiros.

De uma ilha ao longe.

Seu primeiro impulso foi se atirar no mar e sair nadando.

Mas, com os pés inchados feito bolas de basquete, frito de tanto tempo balançando no mar, achou mais prudente esperar que a correnteza o levasse até lá.

Já era noite quando ele, entre eufórico e esgotado, chegou à praia daquele deserto ilhote, puxando o próprio barco, e desabou na areia, debaixo de um coqueiro.

Jose estava praticamente nu, só com uma esfarrapada cueca – a única peça de roupa que lhe restara.

Mas isso não importava.

Era a primeira vez em mais de um ano, que ele dormiria fora daquela caixa de isopor e sobre terra firme.

Exausto, praticamente desmaiou na areia da praia.

Quando o dia amanheceu, Jose ouviu galos cantando ao longe e pensou ser mais um dos seus frustrantes sonhos.

Mas os galos eram reais e cantavam na ilha vizinha, separada apenas por um estreito canal.

Jose fixou os olhos na direção do som e viu um casal.

Berrou com o que lhe restava de forças nos pulmões e, em seguida, desabou de joelhos na praia.

Não é que Deus o havia salvo?

O casal, único morador do ilhote vizinho, levou Jose para casa, deu-lhe roupas e um pedaço de papel, no qual ele rabiscou palavras desconexas (já que não falavam a mesma língua), mas que já fazia menção ao amigo morto no mar.

Em seguida, o casal foi procurar ajuda.

Cinco dias depois, chegou àquele ilhote das distantes Ilhas Marshall, a mais de 9 000 quilômetros da costa mexicana, uma lancha e levou Jose para a capital.

Antes de partir, ele doou o seu barco ao casal que o resgatara.

Até porque, nunca mais queria vê-lo.

Jose caminhava com dificuldade, porque seus tornozelos estavam flácidos e os pés, inchados.

Mas, no geral, estava em surpreendente bom estado.

Muito mais saudável do que deveria estar um homem que tivesse vivido o que ele dizia ter passado.

E isso despertou suspeitas de que, talvez, a morte do seu amigo não tivesse sido obra da natureza.

Ou, pior ainda, que Jose tivesse cometido canibalismo.

Era o início do segundo tormento na vida do pobre pescador: o da difamação.

Ao chegar a Majuro, Jose se viu cercado de jornalistas ávidos por detalhes que comprovassem aquela saga ou confirmassem a fraude – com ênfase especial na segunda hipótese.

Era difícil acreditar que um ser humano pudesse ter sobrevivido tanto tempo no mar sem nenhum recurso.

As próprias autoridades foram as primeiras a questionar o relato de Jose, dificultado pela barreira da língua.

Ainda fraco e mentalmente confuso (quem se recordaria de datas e eventos em uma situação em que todos os dias eram desesperadamente iguais?), Jose cometeu algumas contradições nos primeiros depoimentos, o que só fez aumentarem as dúvidas sobre a autenticidade da sua história.

Logo virou notícia no mundo inteiro, mas muito mais pela incredulidade do que pelo seu feito extraordinário.

De herói da sobrevivência virou uma espécie de farsante a ser desmascarado.

Jose, então, mudou radicalmente de atitude.

De alguém ansioso para contar o que sofrera, passou a não dizer mais nada.

Só queria voltar para casa e abraçar a mãe – aquelas alturas, tão perplexa quanto o resto do mundo.

Foi o grande erro de Jose.

Ao se negar a contar detalhes sobre o seu calvário, alimentou ainda mais as dúvidas sobre a veracidade da sua história e as circunstâncias da morte de Ezequiel.

Em uma das poucas vezes que quebrou o silêncio, disse apenas: “Deus sabe a verdade. Só Ele estava comigo naquele barco”.

Para ele, isso bastava.

Quando Jose retornou ao seu país natal, teve que ser hospitalizado.

Sofria de dores nas articulações e se sentia fraco, por causa de um parasita que se alojara no seu fígado, de tanto comer carne crua.

“Se tivesse ficado mais um mês no mar, ele teria morrido”, garantiu o médico que o atendeu.

Já a opinião pública ainda se dividia entre os céticos e os que consideravam Jose um fenômeno da sobrevivência.

Ele era, ao mesmo tempo, herói e suspeito.

Aplaudido e ofendido nas ruas.

Logo, porém, ficou claro que sua história era impressionante demais para ter sido inventada por um pescador humilde e praticamente iletrado.

Além disso, a ciência dizia que era perfeitamente possível alguém sobreviver tanto tempo no mar, usando como principal fonte de alimento e hidratação as tartarugas.

E que, graças à Corrente Equatorial Norte, uma espécie de rio que cruza o Pacífico, qualquer coisa lançada ao mar na costa oeste do México inexoravelmente chegaria às Ilhas Marshall, ao cabo de um ou dois anos de deriva.

Batia com o que ele dizia.

Mesmo assim, Jose foi intimado pela Polícia a passar por um detector de mentiras.

O aparelho confirmou que ele dizia a verdade.

Jose, então, fez o que prometera ao amigo morto: foi visitar a mãe de Ezequiel, para contar-lhe tudo.

Na saída, limitou-se a dar uma única resposta aos jornalistas, sobre as insinuações de ter devorado o amigo: “Porque eu faria isso se quase sempre tive comida?”.

E mais não disse.

Para ele, aquele longo pesadelo havia, finalmente, terminado.

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