O que aconteceu com o velho comandante argentino?

O que aconteceu com o velho comandante argentino?

Na noite de 8 de abril de 2018, um domingo, o telefone tocou na sede do serviço de buscas e salvamentos Salvamar Sueste, da Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro.

Era o mestre do barco pesqueiro Robson III comunicando que havia visto um grande veleiro navegando estranhamente em círculos, nas imediações de Guaratiba, entre Angra dos Reis e o Rio de Janeiro.

O barco tinha as velas arriadas, mas seu motor estava ligado e o leme travado, de forma que ele ficava dando voltas sem parar no mar. Mas o mais intrigante é que, aparentemente, não havia ninguém a bordo.

Começava ali um dos maiores enigmas recentes do mar brasileiro: o desaparecimento, seguido de morte, do experiente comandante argentino Erwin Rosenthal, de 83 anos, único tripulante daquele barco, cujo nome, Misteriosa, ironicamente soava como um prenúncio do que viraria aquele caso – um mistério que, até hoje, não teve todas as respostas.

Na manhã seguinte ao aviso sobre a localização do veleiro à deriva, o navio patrulha Guaporé, da Marinha do Brasil, chegou ao local e constatou que o mestre do barco pesqueiro estava certo: a bordo daquele veleiro, um MacGregor, de 65 pés, com bandeira americana e agora abandonado no meio do mar carioca, não havia nenhum sinal do solitário comandante argentino, conhecido em seu país como “Capitan Erwin”, dono de um currículo com milhares de milhas navegadas. Mas sobravam sinais de que algo de anormal havia acontecido.

O interior do barco estava bagunçado, sujo e remexido – algo incompatível com o lendário jeito metódico do velho capitão. E o cockpit, cheio de pedacinhos de mato seco, desses que grudam na sola dos calçados após uma caminhada na terra – algo ainda mais absurdo em se tratando de um barco no meio do mar.

E mais: havia um botijão cheio de gás de cozinha, desses que usa em casas, não em barcos, no meio da cabine.

E, ao lado dele, um engenhoso aparato explosivo, montado com dois foguetes sinalizadores marítimos e uma garrafinha de álcool, atados a um cabo para acionamento pelo lado de fora do casco.

O objetivo parecia claro: explodir o barco.

Mas, por quê?

E por que ele não chegou a ser acionado, se estava tudo preparado?

Começavam uma série de perguntas sem respostas.

A começar pela mais relevante de todas: que fim teria levado o capitão Erwin?

A princípio, a resposta parecia óbvia.

Com mais de 80 anos de idade e navegando sozinho, como costumeiramente fazia, era fácil imaginar que o velho comandante poderia ter tido um mal súbito ou escorregado e caído ao mar, sendo deixado para trás pelo barco em movimento – tese, no começo, defendida por quase toda a comunidade náutica.

Mas aquele sinistro artefato montado no barco e a firme convicção da família de que o capitão havia sido vítima de assassinato, não de acidente, fizeram todo mundo rever suas teorias. Inclusive a própria polícia.

Restaram, então, duas hipóteses: latrocínio seguido de homicídio ou abandono voluntário do barco.

Ou seja, o próprio capitão poderia ter tramado tudo aquilo, simulando o próprio desaparecimento, seguido da destruição do barco, num típico caso de golpe contra a seguradora.

Mas havia um detalhe: nem ele nem o barco tinham seguro – a única proteção que o veleiro tinha era contra eventuais danos que ele pudesse causar em outros barcos.

Além disso, se tivesse tramado fugir e explodir o barco, por que o comandante argentino teria se dado ao trabalho de comprar, num shopping de Angra de Reis, dias antes de partir, os cremes de beleza que sua mulher pedira por telefone? – e que ela os encontrou ao vistoriar o barco, dias depois de o marido ter desaparecido.

Só estes dois fatos já bastariam para fragilizar a hipótese do sumiço premeditado do capitão, embora outras teorias tenham surgido.

Uma delas pregava a fuga do argentino por questões amorosas e não financeiras, já que o comandante chegou a hospedar em seu barco uma uruguaia durante a longa parada que fizera em Angra do Reis.

Mas a função dela teria sido apenas cuidar do veleiro enquanto ele viajava para Buenos Aires, justamente para o aniversário da esposa.

Na volta, a uruguaia teria ido embora.

Contudo, o fato decisivo que colocou por água abaixo a tese de fuga proposital do comandante veio dias depois.

Na noite de 4 de maio, quase um mês depois do aparecimento do barco vazio, um corpo do sexo masculino, sem cabeça, faltando outras partes do corpo e em adiantado estado de putrefação, foi encontrado, boiando, nas imediações da Ilha Grande.

Pelo seu estado, não havia como ser identificado, razão pela qual a polícia pediu um exame de DNA à família do argentino.

O exame ainda estava sendo processado quando, uma semana depois, outro corpo parcialmente mutilado apareceu boiando na mesma região.

Mas com dois diferenciais que logo fizeram a polícia e a família abrir mão de investigar o primeiro cadáver: o novo corpo tinha arcada dentária, um dos mais eficazes meios de identificar uma pessoa, e, mais relevante ainda, uma bermuda branca, de tecido resistente à água, idêntica a que Erwin possuía.

Uma rápida consulta à dentista do argentino, em Buenos Aires, que fez a comparação da imagem da arcada dentária com os registros do seu paciente, comprovou que se tratava, de fato, do corpo de Erwin, já bastante deteriorado pelo tempo que passou em contato com a água salgada – restava-lhe apenas parte do esqueleto (pés, por exemplo, não haviam mais), com alguns ossos unidos apenas por fiapos de tecido.

Recolhida por pescadores, a ossada foi entregue à polícia, que, um mês depois, liberou os restos mortais do velejador argentino para a família enterrá-los em Buenos Aires, sem, no entanto, conduzir uma perícia mais apurada sobre a causa da morte – nem tampouco se empenhou em buscar outras respostas.

O velho comandante estava morto – disso não restavam dúvidas. Restava saber como e por que ele havia morrido?

E, acima de tudo, já que a hipótese de queda acidental no mar estava descartada, quem o havia matado?

A alternativa mais provável passou a ser a de roubo seguido de morte, num típico caso de latrocínio, crime que, no mar, costuma ganhar um termo mais romantizado: pirataria.

Mas que ladrão se daria ao trabalho de montar todo aquele complexo sistema para explodir o barco?

Não seria bem mais fácil simplesmente afundá-lo?

Para a primeira dúvida, a causa da morte, o estado em que o corpo foi encontrado não permitiu, segundo a polícia, uma conclusão precisa – até porque, dentro do falido sistema policial do Rio de Janeiro, nem mesmo uma autópsia chegou a ser feita.

Aparentemente, não havia sinal de disparo de arma de fogo nos ossos encontrados, embora faltassem alguns deles.

Mas a ausência dos pés da vítima permitia supor que o comandante poderia ter sido atirado ao mar ainda vivo, amarrado a um peso ou âncora, o que explicaria a demora para o aparecimento do corpo – que só teria subido à superfície após o apodrecimento dos membros inferiores.

Mas, bem mais revelador do que este detalhe foi o local onde os restos do corpo foram encontrados: nas proximidades da Ilha das Palmas, bem diante da enseada com mesmo nome, na Ilha Grande – mesmo local onde toda aquela estranha história começara, cinco semanas antes.

Em 28 de março de 2018, o veleiro Misteriosa, como de hábito com apenas o velho capitão Erwin a bordo, entrou na Enseada das Palmas, após uma longa temporada ancorado em Angra dos Reis.

Ali, o comandante argentino reencontrou um conhecido, o navegador austríaco Johann Pauer, que também vivia sozinho num barco, o trimarã Pollen, que já estava no Brasil havia um tempo.

Johann ajudaria Erwin a revisar o veleiro para mais uma etapa da longa travessia que o Misteriosa vinha fazendo, desde o Uruguai até o Panamá, onde seria vendido ou usado para fazer charters. O próximo destino do roteiro seria Búzios, no litoral do Rio de Janeiro, onde, então sim, outro tripulante, igualmente argentino, se juntaria ao velho capitão, para ajudar na travessia até o Caribe.

Mas o Misteriosa não foi além de Guaratiba, a pouco mais de 30 milhas da Ilha Grande, onde foi encontrado vazio e à deriva. O que aconteceu? Ninguém nunca soube ao certo.

A própria história do veleiro Misteriosa é um caso à parte.

Comprado tempos antes por um endividado empresário argentino, chamado Carlos Martinez Uria, o barco passou oito anos retido na Argentina por ter vindo do exterior em situação irregular.

Depois, foi levado para o Uruguai, onde só fez acumular dívidas numa marina.

Foi quando entrou nessa história o capitão Erwin, que conhecia Carlos, e lhe fez uma proposta: pagaria as dívidas do veleiro na marina, reformaria o barco e o levaria para o Panamá, onde ele seria vendido ou usado para fazer passeios com turistas, recuperando assim o dinheiro de ambos.

Carlos concordou e o velho capitão, depois de gastar cerca de 25 mil dólares para regularizar o barco, partiu, em agosto de 2017, rumo ao Brasil.

Aqui, foi pingando ao longo da costa, até que chegou a Angra do Reis, onde o Misteriosa passou praticamente o verão inteiro de 2018.

Até que, no final de março, retomou a viagem ao Caribe. Mas, antes, fez aquela escala na Enseada das Palmas.

A última da vida do capitão Erwin.

Lá, o Misteriosa ficou fundeado uma semana, ao lado do barco de Johann.

Motor, gerador, bombas, tudo fora checado, como ele informara a esposa, por telefone, numa das várias ligações que fizeram um para o outro.

Numa delas, Erwin informara que comprara uma arma e que Johann, que tinha experiência no assunto, o ensinaria a usá-la (mais tarde, após o sumiço do argentino, ao perguntar ao austríaco sobre a arma que o marido havia comprado, a esposa de Erwin garantiu que Johann respondera que nada sabia sobre isso).

A permanência do barco do comandante argentino na Enseada das Palmas teria durado, segundo Johann, sabidamente a última pessoa que esteve com ele, até as primeiras horas da manhã de 7 de abril, um sábado.

Por volta das cinco da manhã daquele dia, ele teria se despedido do austríaco pelo rádio e partido.

Também segundo Johann, dez ou quinze minutos depois, outro barco, um jamais identificado catamarã, com cerca de 60 pés de comprimento, que havia chegado à Enseada das Palmas apenas na noite anterior (daí não ter sido identificado, por conta da escuridão, como explicaria, depois, o austríaco), partiu também.

E, segundo Johann, no mesmo rumo do veleiro do argentino.

Se houve alguma relação direta entre a partida quase simultânea dos dois barcos, jamais se soube.

Até porque o suposto catamarã nunca foi identificado, nem sequer teve sua existência confirmada pelas autoridades, que tampouco se empenharam em localizá-lo.

Quando, no final do dia seguinte, o Misteriosa apareceu à deriva, com a cabine remexida e acrescida de um botijão doméstico de gás de cozinha, exibindo intrigantes restos de mato seco no convés e um engenhoso aparato montado para supostamente fazê-lo ir pelos ares, a primeira pessoa a ser contatada pelos familiares de Erwin e por alguns amigos que ele fizera em Angra dos Reis foi Johann, o último a estar com o argentino.

A todos, o austríaco contou sobre o tal catamarã que teria partido da enseada logo após a saída do Misteriosa, mas que só ele teria visto.

E sempre completava com o comentário de que “todo mundo sabia que Erwin navegava sozinho e que estava indo para fora do país, com um grande veleiro estrangeiro”, como forma de alimentar as suspeitas de um ato de pirataria, nada raro na região, por sinal.

De fato, não era segredo para ninguém que, a despeito da idade avançada e do porte avantajado do barco no qual navegava, o capitão Erwin preferia navegar em solitário, o que o tornava uma presa relativamente fácil.

Ele também não escondia de ninguém que estava rumando para o Caribe, portanto, uma longa viagem, que exigia recursos, bons equipamentos no barco e, obviamente, algum dinheiro a bordo.

E, ainda por cima, conduzia um veleiro vistoso, de bom porte e com bandeira americana – uma tentação para qualquer ladrão.

Mas, desde então, o que aconteceu com o velho capitão não passa de especulação.

Uma das teses mais defendidas na época pregava que o barco teria sido abordado no mar por bandidos, que teriam rendido o comandante argentino e desviado o veleiro para algum ponto de terra firme, entre a Ilha Grande e Guaratiba – muito possivelmente, a Baía de Sepetiba, repleta de ilhas e margens desertas, onde esconder um barco não é tarefa difícil.

Ali, o interior do veleiro teria sido revirado, em busca de dinheiro e objetos de valor, o que explicaria a bagunça na cabine e os intrigantes tufos de vegetação seca no cockpit, trazidos de terra-firme pelo entra e sai dos bandidos no barco.

Quando, dias depois, o veleiro foi vistoriado pela família de Erwin, esposa e filho deram falta dos dois celulares do comandante, um telefone móvel marítimo, o rádio VHF do barco, todo o dinheiro que havia na carteira dele, alguns cartões de crédito e o seu passaporte mais recente.

Mas, estranhamente, os dois computadores portáteis, onde o metódico capitão registrava todas as rotas que fazia, permaneciam no barco, algo inexplicável em se tratando de ladrões.

Além disso, havia outro fato ainda mais intrigante ligado aos dois computadores: neles, a última rota registrada do Misteriosa era a da chegada do barco à Enseada das Palmas, mais de uma semana antes.

Por que o zeloso capitão, que gravava até os mínimos percursos, como o de Angra dos Reis à vizinha Ilha Grande, não teria traçado a longa rota que faria até Búzios?

A menos que a nova rota tivesse sido propositalmente apagada por quem invadiu o barco, para não deixar pistas sobre por onde o veleiro passara após sair da Ilha Grande – outro procedimento altamente improvável no caso de simples ladrões.

Não teria sido mais fácil simplesmente dar um fim nos computadores?

Por que deixá-los no barco?

Pela teoria da simples pirataria, o capitão teria sido morto (propositalmente ou por acidente, talvez ao reagir ao assalto, já que tinha temperamento forte) não dentro do barco, já que não foram encontrados vestígios de sangue no veleiro abandonado, mas sim em terra-firme, o que explicaria o sumiço do corpo e os vestígios de vegetação no convés.

Também ali o barco teria ficado um bom tempo, no mínimo, um dia inteiro, já que o veleiro teoricamente partira da Enseadas das Palmas nas primeiras horas da manhã do dia 7 de abril e só foi encontrado na noite do dia seguinte, portanto, mais de 40 horas depois, algo inexplicável para um percurso que, em circunstâncias normais, não consumiria mais que cinco ou seis horas de navegação.

Só mesmo uma longa parada do barco em algum ponto da região justificaria tal descompasso de horários.

Ainda de acordo com a tese da pirataria, também em terra-firme o barco teria sido preparado para explodir, mais tarde, no mar, ajudando assim a despistar o desaparecimento do argentino.

Isso explicaria a inclusão daquele botijão de gás a bordo e a delicada montagem do sistema de disparo de dois foguetes sinalizadores marítimos dentro da cabine, uma operação bem mais fácil de executada com o barco parado ou ancorado do que balançando no mar – e uma operação complexa demais para ser planejada e executada por simples ladrões sem conhecimento náutico, o que pressupõe que quem preparou o sistema tinha, no mínimo, alguma noção sobre barcos.

A começar pela própria opção dos pirotécnicos marítimos como detonadores de uma explosão.

Que, por fim, não aconteceu.

Mas – de novo – por quê?

Por que o disparador não foi acionado?

Uma das explicações para isso poderia estar no fato de que, por ser fim de semana, período de intenso movimento de barcos na região, alguma embarcação poderia ter se aproximado e intimidado a ação.

Ou que algo tenha dado errado na operação, já que o veleiro foi mantido em movimento, talvez para ajudar o autor do disparo a se afastar mais rapidamente do casco prestes a explodir.

Mas quem teria feito aquela frustrada tentativa de mandar o barco pelos ares?

Se é que o objetivo era, de fato, explodir o veleiro…

Esta foi outra tese que chegou a ser ventilada na ocasião: a de que o capitão poderia ter sido vítima de interesses comerciais para que não prosseguisse viagem, já que o veleiro poderia ser vendido ali mesmo, em Angra dos Reis – como, de fato, foi tentado durante meses a fio, após a morte do argentino.

Mas, premido pela necessidade de tirar o barco do país, pois o prazo de permanência do Misteriosa em águas brasileiras estava se esgotando, e temendo não receber o dinheiro que empenhara na regularização do veleiro, Erwin teria decidido seguir em frente, “mesmo a contragosto”, segundo sua esposa, “porque o barco vinha demandando mais despesas do que ele imaginara”.

O argentino teria chegado a discutir com o dono do veleiro sobre esta questão financeira e dito que só devolveria o barco quando recebesse a sua parte.

Por esta teoria, Erwin teria sido seguido ao partir Enseada das Palmas (talvez, pelo tal misterioso catamarã que o austríaco Johann garante ter visto), interceptado no mar logo em seguida, e ali sido entregue à própria sorte, no fundo do mar.

O passo seguinte seria “simular” a fuga do capitão, criando o “cenário” para a explosão do veleiro, mas sem executá-la, já que o objetivo era, acima de tudo, poupar o barco – que, por fim, acabaria mesmo sendo devolvido ao seu proprietário dias após o ocorrido.

Isso, na hipótese de o velho capitão ter chegado a sair da Enseada das Palmas…

O fato de os restos do seu corpo terem sido encontrados bem diante da mesma enseada (e não próximos ao local onde o veleiro foi achado, ou no caminho para lá) sugere que, talvez, o desafortunado Erwin não tenha sequer partido nas primeiras horas daquela manhã de abril, como garantiu Johann.

Ou, então, que fora atacado imediatamente após isso, pelo misterioso catamarã, que, também, só o austríaco disse ter visto.

Só uma destas duas hipóteses explicaria o surgimento, naquela baía isenta de correntezas, de um corpo que tivesse passado mais de um mês preso ao fundo do mar.

O mais provável é que o crime tenha sido cometido enquanto o Misteriosa ainda estava placidamente ancorado na Enseada das Palmas, ao lado do barco do austríaco – que, por essas e outras, passaria da condição de testemunha para a de eventual suspeito.

Pelo mesmo raciocínio, após o argentino ter sido executado, seu barco teria sido levado pelo próprio executor para longe dali, preparado para explodir e abandonado no mar, enquanto o autor escapava no bote do próprio veleiro – que não foi encontrado junto com o Misteriosa, nem jamais localizado. Imaginativo demais para ser verdade?

Não quando se analisam todos os detalhes deste caso realmente enigmático.

Contribuiu para estas dúvidas a inépcia das autoridades e a forma lenta e desastrada das investigações deste caso – que, a bem da verdade, jamais foi corretamente investigado.

Embora tenha sido informada sobre o aparecimento do veleiro na noite de domingo, a Marinha só enviou uma patrulha ao local na manhã seguinte – tempo mais que suficiente para outras pessoas, eventualmente, terem abordado o barco à deriva, alterando o cenário ou retirando coisas de dentro dele, comprometendo as investigações.

Além disso, após ser rebocado pela Marinha, diversas pessoas tiveram acesso ao interior do veleiro antes que peritos fossem chamados, o que inviabilizou, por exemplo, a coleta de impressões digitais na cabine, sobretudo no botijão de gás e nos explosivos, que, possivelmente, as tinham.

Quando os peritos (da polícia e da própria Marinha) chegaram, até o convés do veleiro já não estava com tantos restos de mato seco quanto antes.

E quando a família do comandante teve acesso ao barco, ele já estava limpo, arrumado e até liberado pelas autoridades para devolução ao seu proprietário, o que, para a esposa de Erwin, soou como negligência na apuração dos fatos.

Para completar o cenário desanimador, semanas depois, a Polícia Federal, que também vistoriara o barco, informou ao Consulado Argentino que, apesar de o caso envolver o desaparecimento de um estrangeiro em território brasileiro, “não ficara comprovado nenhum indício de prática de delito que justificasse a investigação por aquela instituição”.

E este quadro não mudou nem quando foi comprovada a morte do velho capitão, nem o envolvimento anterior do austríaco Johann com a própria Polícia Federal.

Em 31 de agosto de 2017, oito meses antes do início do caso Erwin, o barco de Johann Dorfbauer fora vistoriado pela Polícia Federal em uma marina de Paraty, a partir de suspeitas de que poderia conter algo ilícito – sobretudo drogas, já que a polícia desconfiava do eventual envolvimento do austríaco com o tráfico internacional.

Em vez de entorpecentes, no entanto, os agentes encontraram um pequeno arsenal bélico, com 2 600 cartuchos de munição e três armas, para as quais Johann não tinha registros, sendo uma delas de uso restrito.

O fato gerou um inquérito e a proibição de Johann se afastar da região, enquanto ele não fosse concluído – o que austríaco cumpriu por mais de um ano.

Até que, cinco meses após o desaparecimento do argentino, e quatro da confirmação da sua morte, a polícia de Angra dos Reis, resolveu, finalmente, ouvir o testemunho de Johann, o que deveria ter feito desde o princípio.

Uma intimação neste sentido foi emitida, mas nem chegou a ser entregue – porque, coincidência ou não, na mesma época, o austríaco desapareceu da região.

A despeito da obrigatoriedade de permanecer na área por conta do inquérito sobre as armas, Johann desativou os dois celulares que possuía, levantou âncora e partiu, com rumo ignorado.

Não comunicou sua partida à Capitania dos Portos, como determina a lei no caso de barcos com bandeira estrangeira, e nunca mais o seu trimarã foi visto nas águas da baía de Ilha Grande, que ele, até então, tinha como “endereço”.

Durante semanas, o paradeiro de Johann se tornou desconhecido.

Nem sua advogada sabia dizer onde ele estava.

Até que um curioso veleiro com três cascos e um exótico mastro giratório, sistema conhecido como Aerorig, também utilizado por Amyr Klink em um dos seus barcos, chegou à distante vila de Jericoacoara, no litoral do Ceará, a quase 4 000 quilômetros de Angra dos Reis.

Era o trimarã Pollen, com Johann a bordo, a caminho do Caribe, como ele contou, despreocupadamente, a uma das moradoras da vila.

Ali, Johann ficou três dias, descansando da longa travessia e se preparando para o trecho seguinte, que o levaria para fora do país.

Alertada, a polícia do Ceará nada fez de imediato para deter o austríaco enquanto ele estava ancorado em Jericoacoara e, quando resolveu agir, o barco já havia partido.

Foi a última vez que Johann foi visto no litoral brasileiro.

Se fugia ou apenas navegava, indiferente ao fato de estar sendo procurado pela polícia, só mesmo ele poderia dizer.

E como não disse, a morte do velho capitão argentino acabou se transformando em apenas mais um caso inexplicado de homicídio em território brasileiro.

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VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE ESTE LIVRO


Sensacional! Difícil parar de ler”.
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“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor

Os pescadores brasileiros que viraram vítimas de um submarino alemão na Segunda Guerra Mundial

Os pescadores brasileiros que viraram vítimas de um submarino alemão na Segunda Guerra Mundial

Quando o barco pesqueiro brasileiro Changri-Lá partiu do porto do Rio de Janeiro para mais uma habitual temporada de pesca na região de Cabo Frio, em 28 junho de 1943, o Brasil já estava em guerra contra a Alemanha nazista havia quase um ano.

Mas, exceto pelos costumeiros pedidos da Marinha para que os pescadores ficassem atentos a eventuais aparições de submarinos nazista na costa brasileira – e comunicassem o fato às capitanias -, não havia motivos para preocupações.

Afinal, o Changri-Lá era um simples barco de pesca, com casco de madeira de menos de 10 metros de comprimento, que não oferecia o menor risco – ou interesse – aos inimigos.

Pelo menos era o que todo mundo pensava.

A começar, pela própria tripulação do barco, todos humildes pescadores.

Por conta do mar agitado, a travessia até a Região dos Lagos, no litoral norte do Rio de Janeiro, foi lenta e cansativa, o que levou o mestre do pesqueiro, José da Costa Marques, a fazer uma parada não prevista em Arraial do Cabo, a fim de esperar que o tempo melhorasse.

Uma semana depois, em 4 de julho, o Changri-Lá partiu novamente, acrescido de mais quatro pescadores locais, que substituíram um dos tripulantes, Gabriel Soares Cardoso, que desembarcou por ter torcido o tornozelo – e, mais tarde, ele daria graças a Deus por isso.

Com nove homens a bordo, mais o filho do mestre, de 17 anos de idade, o Changri-Lá foi para o mar, tomou o rumo de um famoso pesqueiro da região, a algumas milhas da costa, e por lá ficou, até o dia 22, quando tudo aconteceu.

Naquele dia, os infelizes pescadores viram um grande submarino emergir bem ao lado deles e, sem nenhum aviso, abrir fogo.

Primeiro, com uma metralhadora.

Depois, com um canhão de 105 milímetros, que foi disparado sete vezes contra o indefeso pesqueiro.

Era o U-199, um submarino alemão comandado pelo tenente Hans Werner Kraus, à época com apenas 28 anos de idade.

Os dez pescadores foram sumariamente fuzilados e afundaram junto com o barco.

Seus corpos jamais foram encontrados.

Como, naquela época, as comunicações no mar eram bem precárias, especialmente em um simples barco de pesca, ninguém em terra firme ficou sabendo do ocorrido.

Só quando pedaços do barco começaram a chegar às praias da região (entre eles, restos de madeira estranhamento chamuscados) é que ficou claro que o Changri-Lá havia afundado.

Mas isso foi creditado a alguma tempestade, ou ao mar revolto, como registrado pela própria Capitania dos Portos da região no precário inquérito aberto, que sequer se atentou aos detalhes dos escombros, que continuaram chegando às praias da região.

Como aquele pedaço de madeira chamuscada, sinal claro de que não havia sido um simples naufrágio.

O inquérito, que também ignorou que um submarino alemão fora visto na entrada da Baía de Guanabara dias antes do desaparecimento do pesqueiro, concluiu que o sumiço do Changri-Lá e seus dez ocupantes fora uma tragédia natural gerada pelo mar, e a decisão foi aceita, com resignação, pelos familiares das vítimas – entre elas, a esposa do mestre do barco, que perdeu marido e filho.

Um ano depois, o processo foi arquivado pelo Tribunal Marítimo do Rio de Janeiro e esquecido.

Quando isso aconteceu, o próprio submarino que causara o desaparecimento do Changri-Lá também já havia deixado de existir, bem como a maior parte dos seus tripulantes.

Em 31 de julho de 1943, menos de dez dias após mandar pelos ares o barco de pesca brasileiro e todos os seus ocupantes, o U-199 foi detectado, bombardeado e afundado por um avião da Força Aérea Brasileira, logo após ter feito outra vítima em águas brasileiras, o cargueiro inglês Henzada.

O submarino afundou em menos de três minutos, mas 12 dos seus 61 tripulantes sobreviveram, entre eles o próprio comandante Kraus, graças aos botes infláveis que o próprio avião que os atacou lançou ao mar – um gesto humanitário que os pobres pescadores brasileiros do Changri-Lá não tiveram direito.

Em seguida, os tripulantes sobreviventes do U-199 foram resgatados e enviados aos Estados Unidos, como presos de guerra.

E foi lá que o capitão Hans Werner Kraus confessou o ataque ao pesqueiro brasileiro, durante um interrogatório, justificando o ato com dois argumentos: o de que precisava aferir e calibrar os armamentos do submarino (que, recém-lançado ao mar, ainda não havia feito nenhuma vítima), e, ao mesmo tempo, impedir que os pescadores comunicassem a presença do submarino alemão em águas cariocas, como sabiam que as autoridades brasileiras haviam pedido que todos os navegantes da região fizessem.

Mas a confissão dos alemães ficou confinada nos arquivos dos Estados Unidos e jamais foi comunicada oficialmente ao governo brasileiro, que continuou aceitando a tese de que o Changri-Lá afundara por obra da natureza.

Contribuiu para a confusão o fato de o comandante do submarino ter classificado o barco brasileiro como um “veleiro”, e não um barco de pesca, já que vira uma vela pelo periscópio, antes de atacá-lo.

Mas o que nem ele nem os americanos sabiam é que, para ganhar desempenho no mar, os pescadores do litoral norte do Rio de Janeiro tinham o hábito de adaptar uma vela na proa dos seus barcos, o que causou o mal-entendido.

Este fato e todos os desdobramentos dele só vieram à tona mais de 50 anos depois, quando, no final da década de 1990, o governo americano liberou a consulta aos arquivos militares da Segunda Guerra Mundial, e um historiador particular, o carioca Elísio Gomes Filho, que já suspeitava que o naufrágio do Changri-Lá poderia ter relação com o submarino alemão afundado dias depois, resolveu investigar os documentos da época.

Após ler o depoimento/confissão do comandante alemão, Elísio pressionou – e conseguiu – que o Tribunal Marítimo Brasileiro reabrisse o caso.

Em 2001, veio a correção e o veredito sobre o desaparecimento do pesqueiro foi alterado, para “ato de guerra”.

Suas dez vítimas ganharam também o direito de fazer parte do Panteão dos Heróis, no monumento aos Mortos da Segunda Guerra, no Rio de Janeiro.

Com base na confissão do comandante alemão e na revisão do veredito do Tribunal Marítimo, parentes de algumas das vítimas decidiram processar o governo da Alemanha por crime de guerra, uma ação inédita, que se arrasta até hoje nos corredores da Justiça brasileira.

Porque, para eles, de injustiça, bastaram os mais de 50 anos que o afundamento do Changri-Lá por um submarino alemão passaram esquecidos.

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O cinquentão que trucidou o recorde da volta ao mundo à vela

O cinquentão que trucidou o recorde da volta ao mundo à vela

O americano Dodge Morgan sempre cultivou o sonho de dar a volta ao mundo velejando.

Em 1985, aos 53 anos, depois de ficar rico com uma empresa de detectores de radares, ele decidiu vender o negócio, encomendar um bom barco, que batizou de American Promise, e partir em busca do seu objetivo: tornar-se o homem a dar a volta ao mundo pelo mar mais rápida da História.

Para tanto, Morgan decidiu que navegaria sozinho e não faria nenhuma parada no caminho.

Até então, o recorde do gênero pertencia ao inglês Chay Blyth, que, entre 1970 e 1971, dera a volta ao mundo, também em solitário e sem escalas, em 292 dias, navegando no sentido Leste.

Já Morgan pretendia fazer o mesmo em apenas 180 dias, navegando no sentido oposto, ou seja, Oeste, direção na qual a predominância dos ventos é mais favorável a circum-navegação do planeta.

Mesmo assim, todos duvidaram que ele conseguiria atingir tal marca, porque ela representava 100 dias a menos que o recorde vigente.

Mas, quando Morgan completou sua jornada, na mesma cidade de onde partiu, em novembro de 1985, ele não só trucidou o antigo recorde como rodeou o planeta inteiro em apenas 150 dias, um mês a menos do que ele próprio pretendia, o que o transformou numa espécie de herói da vela americana.

Satisfeito com o seu feito, ele, então, vendeu o barco e comprou uma pequena ilha na costa do Maine, onde viveu, sozinho, até morrer, de câncer, em 2010.

Quando isso aconteceu, o seu espetacular recorde já havia sido pulverizado.

Mas por velejadores bem mais jovens do que o velho e audacioso Dodge Morgan.

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“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor

Procuravam um avião, acharam um navio

Procuravam um avião, acharam um navio

Na madrugada de 8 de março de 2014, um avião Boeing 777, da empresa Malaysia Airlines, que fazia o voo MH 370, entre a Kuala Lumpur, na Malásia e Pequim, na China, com 227 passageiros e 12 tripulantes a bordo, desapareceu nas águas do sul do Oceano Índico, a milhares de quilômetros da sua rota original.

O que levou aquele avião a desviar completamente da sua rota e voar sem parar até esgotar o combustível (o que, depois, ficaria comprovado, porque satélites mostraram que mais de duas horas após o horário em que o avião deveria ter pousado na China, ele continuava voando, no rumo oposto, sob a imensidão do oceano, rumo ao fim) é, até hoje, um dos maiores enigmas da história da aviação.

As maiores suspeitas recaíram sobre o comandante da própria aeronave, que poderia ter planejado um doentio suicídio coletivo, ou um autoatentado, a fim de protestar contra o governo malaio.

Mas isso jamais foi comprovado.

Nem jamais será, até porque o avião nunca foi encontrado no fundo do mar – apesar das intensas buscas, que, na época, mobilizaram meio mundo.

Uma das maiores expedições em busca do avião desaparecido aconteceu semanas após a catástrofe, quando uma equipe de resgate especialmente treinada vasculhou com afinco uma área específica – e esquecida – do Índico, onde os satélites registraram os últimos sinais vindos do avião errante, a centenas de quilômetros da costa da Austrália.

Logo nos primeiros dias de buscas, o sonar de um dos barcos da equipe detectou a presença de metais no fundo do mar, a 4 000 metros de profundidade.

A descoberta deixou os pesquisadores animados e um robô submarino desceu para averiguar o que havia naquele local.

E, de fato, havia algo ali.

Mas não os restos do avião e sim um barco afundado, que, pelo estado e tipo de casco, deveria estar submerso há mais de um século.

Que barco fora aquele, já que não havia nenhum registro de naufrágio na região?

Nunca se soube, porque, como o objetivo era encontrar o avião, ninguém aprofundou as pesquisas.

“Foi fascinante achar um navio até então desconhecido no fundo mar, mas não era o que estávamos procurando”, explicou o responsável pela equipe de resgate, justificando porque mandou o robô retornar a superfície sem registrar maiores detalhes da embarcação, e foi em frente, em busca do avião,

Que, por sinal, também não encontrou.

Nem tampouco voltou, depois, para explorar melhor o único achado daquela expedição.

Foi um desperdício de oportunidade.

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André Cavallari, leitor

Drama no mar: casal conta como sobreviveu ao naufrágio do barco onde morava

Drama no mar: casal conta como sobreviveu ao naufrágio do barco onde morava

Na madrugada do último dia 5 de agosto, o casal paulista de aposentados Wladimir e Rosane Popoff, de 65 e 62 anos de idade, respectivamente, viveu o segundo grande susto da vida.

O primeiro foi quando, ainda jovem, o então engenheiro Wladimir trabalhava em uma plataforma de petróleo em alto-mar que pegou fogo, e ele escapou por bem pouco.

Traumatizado com o acidente, que por muito pouco não lhe custou a vida, Wladimir, muito mais conhecido pelo apelido Voka, prometeu a si mesmo que, quando se aposentasse, realizaria um velho sonho do casal: venderia a casa de classe média na qual viviam, em São Paulo, comprariam um veleiro e iriam morar nele.

E foi justamente com o barco que virou a sua casa, quando os dois se aposentaram, que veio o segundo grande susto do casal, na madrugada do último dia 5 de agosto.

Quando navegavam entre as cidades de Caravelas e Ilhéus, na costa sul da Bahia, uma rede de pesca não sinalizada enganchou e danificou o casco do veleiro do casal, o veleiro Darwin, de 40 pés de comprimento.

E, horas depois, eles acabaram afundando, a cerca de 7 milhas náuticas do litoral de Porto Seguro.

Wladimir e Rosane foram resgatados por pescadores e nada sofreram, além do susto e de um grande prejuízo – porque o seguro pagará apenas metade do que o barco valia.

Além disso, agora, eles correm o risco de ter um prejuízo ainda maior, porque, pelas regras da Marinha, os donos de embarcações naufragadas são responsáveis por resgatá-las, a fim de não comprometer a navegação nem poluir o meio ambiente – a menos que nem uma coisa nem outra seja afetada.

“Estamos aguardando a decisão de uma empresa especializada se precisaremos ou não tirar o nosso barco do fundo do mar. Tomara que não, porque nem temos dinheiro para pagar pelo serviço”, diz o casal, que, a seguir, conta como tudo aconteceu.

O relato dos náufragos

“Na manhã do dia 4 de agosto, partimos de Caravelas, rumo a Ilhéus, tão logo o dia amanheceu.

Nosso objetivo final da viagem era Recife.

Costumávamos ter hóspedes em cada trecho da travessia.

Mas, desta vez, seríamos só nós dois no barco.

Mais tarde, daríamos graças a Deus por não haver mais ninguém a bordo.

Muitas horas depois, por volta das quatro da tarde, quando estávamos na metade da travessia, navegando na altura de Porto Seguro, vimos uma caixa de isopor boiando no mar, bem na frente do nosso barco.

Era uma espécie de boia, deixada por pescadores – um sinal de que ali havia uma rede de pesca.

Mas, ao contrário do habitual, não havia uma segunda boia indicando onde a rede terminava.

Por precaução, mudamos o rumo do barco e passamos a mais de 100 metros de distância de tal boia.

Não adiantou.

Mesmo passando longe, sentimos um tranco no barco e deduzimos que havíamos enganchado na rede.

Estávamos acostumados a esse tipo de problema – bem frequente na costa brasileira, por sinal.

Bastava parar o barco, soltar a rede e seguir em frente.

Mas aquela rede era diferente.

Em vez de simples cabos de náilon, os dela eram de aço.

E o choque do barco com o metal danificou o mecanismo interno do nosso leme.

Mas só descobriríamos isso horas depois.

E da pior maneira possível.

Quando vimos que era um cabo de aço que sustentava a rede, paramos o barco e examinamos as partes submersas do casco, para ver se algo havia sido afetado.

Aparentemente, estava tudo em ordem.

Não havia vazamentos, nada quebrado e o leme respondia normalmente aos movimentos.

Aliviados, seguimos em frente.

Por mais um bom tempo.

Até que, quatro horas depois, quando já havia escurecido e o mar ganhara muitas ondas desencontradas, uma tampa do assoalho do barco foi arrancada por um jato d´água, vindo da parte de baixo do casco.

Na hora, custamos a entender o que tinha acontecido. Mas pegamos uma lanterna e corremos para ver de onde vinha aquela água.

Era uma rachadura no casco, causada pelo mecanismo do leme, que, já completamente solto, batia furiosamente contra a fibra de vidro.

E logo a rachadura virou um rombo.

E por ele passou a jorrar um turbilhão de água salgada para dentro do barco.

Tentamos conter a inundação, enfiando no buraco a única coisa que estava à mão: um simples casaco.

Mas era impossível conter a enxurrada.

Corremos, então, um para cada lado.

Um para o leme, na esperança que ele ainda funcionasse – único meio que tínhamos para tentar chegar em águas mais rasas e encalhar o barco, antes que ele afundasse – e outro para o rádio, a fim de pedir socorro.

Nem uma coisa nem outra funcionou.

Nenhum barco respondeu aos nossos pedidos de socorro, e, após um tempo, o leme do nosso veleiro passou a girar descontrolado, completamente solto.

Mesmo assim, conseguimos levar o barco para mais perto de terra firme.

Mas, quando ainda faltavam sete milhas, o leme soltou de vez e a inundação se tornou incontrolável.

Ficamos, então, com o barco sendo rapidamente inundado, sem conseguir movimentá-lo e sem ninguém para nos socorrer.

Era o fim.

Hora de abandonar o barco, com tudo o que havia dentro dele – ou seja, a nossa casa inteira -, e tentar salvar nossas vidas.

Na escuridão e com as ondas cada vez mais fortes, só deu tempo de pegar uma mochila que mantínhamos sempre pronta, para situações de emergência, o motorzinho de popa para o bote e um cacho de banana, que estava pendurado do lado de fora do barco.

Elas serviriam de alimento, já que não sabíamos quanto tempo ficaríamos no mar, até sermos resgatados.

Se é que isso aconteceria…

Rapidamente, o mar invadiu todo o barco.

Nossa última imagem foi a do veleiro que nos serviu de casa nos últimos sete anos afundando lentamente, com as luzes ainda acesas – uma terrível sensação de perda.

Não pelo barco em si, mas pelo que ele representava para nós.

O barco era a nossa casa e, também, nossa principal fonte de renda.

De uma só vez, perdemos tudo.

Quando não restava mais nenhuma parte do casco na superfície, olhamos ao redor e não também não vimos nada.

Só a escuridão do mar, permanentemente sacudido pelas ondas.

Estávamos encharcados, levando pancadas de água por todos os lados, e a mais de 12 quilômetros da costa – longe demais para enxergar algo.

Nem mesmo as luzes de Porto Seguro, ao longe.

Quase por instinto, escolhemos uma direção a seguir e ligamos o motorzinho do bote.

Enquanto um chorava, o outro custava a acreditar que aquilo estivesse mesmo acontecendo.

Tempos depois, vimos uma luzinha no mar, que julgamos ser um farol.

Não era.

Era um barco de pescadores.

Nos aproximamos, rapidamente.

Eles estavam dormindo, mas acordaram assustados, com nossos gritos de socorro.

Fomos puxados para dentro do barco e ganhamos camas para descansar.

Eram três da madrugada, estávamos esgotados, mas era impossível pegar no sono.

A imagem do barco inundando e afundando não saia das nossas mentes.

Os pescadores sugeriram interromper a viagem e nos levar direto para Porto Seguro.

Recusamos.

Eles estavam trabalhando e ainda tinham redes a recolher.

Ironicamente, redes de pesca – como as que haviam causado o nosso drama.

Chegamos a Porto Seguro só quando o dia estava amanhecendo e apenas com uma mochila e um cacho de bananas.

Todo o resto das nossas coisas (barco, casa, roupas, pertences, tudo, tudo, tudo) agora jazia no fundo do mar.

E, se depender apenas da nossa vontade, é por lá que devem ficar.

Resgatar o barco custará um valor que não temos mais como pagar.

Perdemos o nosso barco, a nossa casa e o nosso emprego – tudo ao mesmo tempo.

Mas estamos vivos.

E isso não tem preço.

Segue a vida…”

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