A incrível Galinha que deu a volta ao mundo navegando, agora partirá de novo

A incrível Galinha que deu a volta ao mundo navegando, agora partirá de novo

De acordo com as estatísticas, mais da metade da população mundial possui algum animal de estimação.

O velejador francês Guirec Soudée, de 25 anos, é um deles.

Só que, ao contrário da esmagadora maioria dos habitantes do planeta, o bichinho que ele tem não é um gato nem um cachorro: é uma galinha – que Guirec batizou de Monique.

Não seria nada excepcional, não fosse o local onde Guirec (sempre com Monique ao seu lado) passa a maior parte do tempo: dentro de um barco, navegando mundo afora.

Só ele e a galinha.

“Conheci Monique quando fiz uma escala com meu barco nas Ilhas Canárias, a caminho do Caribe, cinco anos atrás. Ela era jovem, saudável, bonita e conclui que seria ótima companhia na viagem, porque galinhas não enjoam, não reclamam e ainda põem ovos, para ajudar no almoço”, diz Guirec, que jura que jamais pensou em transformar a própria companheira de viagem em item do cardápio.

“Todo mundo me falou que não ia dar certo, que ela ia ficar estressada com o balanço do veleiro e pararia de pôr ovos. Mas, que nada. Logo na primeira noite da travessia, ela botou um ovo e, depois, não parou mais. Foram 25 ovos em 28 dias no Atlântico”.

Agora, após cinco anos seguidos no mar (sempre ao lado de Monique, que só desembarca para passear e, se possível, ciscar um pouco em terra firme), Guirec está preparando sua próxima longa travessia – que, segundo ele, será ainda mais longa e difícil do que a primeira.

“Quero voltar para as regiões polares, mas ainda estou planejando o roteiro, que só deve começar no final do ano que vem. Mas uma coisa é certa: seja para onde for, Monique vai junto”, garante Guirec, que pretende colocar sua galinha, novamente, numa fria.

Literalmente.

Na primeira viagem, Guirec e Monique deram simplesmente a volta ao mundo, no sentido Norte/Sul, e visitaram os dois pontos mais gelados do planeta: os polos Sul e Norte.

Ou seja, o Ártico e a Antártica.

Na ocasião, eles partiram do Caribe, subiram até o Ártico (onde, entre outras façanhas, passaram quatro meses trancados no mar congelado da Groenlândia, vivendo basicamente só de arroz e milho, respectivamente), atravessaram para o outro lado do continente americano e desceram até a Antártica, onde passaram uma nova temporada de meses seguidos no gelo, antes de retornarem à Europa, o que só aconteceu cinco anos depois do primeiro encontro entre o velejador francês e aquela galinha sortuda – possivelmente, a ave mais viajada do mundo.

No momento, os dois estão na casa de Guirec, numa pequena ilha na Bretanha, ele finalizando um documentário sobre a longa viagem que fizeram, ela cacarejando no jardim e catando minhocas, enquanto aguarda a hora de embarcar de novo.

“A Monique é muito aventureira”, garante o francês. “Já andou de trenó na neve, navegou em prancha de stand up e foi a primeira galinha que se tem notícia a atravessar a Passagem Noroeste, que une o Atlântico ao Pacífico pelo Ártico, e chegar viva do outro lado, escapando da panela”, brinca o francês,

“É, também, a única galinha do mundo que sabe velejar, ou, pelo menos, que não sai cacarejando histericamente quando o barco inclina. E adora sentir o vento balançando suas penas, além de gostar tanto de peixe quanto de milho”, diz o exótico velejador, que passou a usar a galinha como sua principal ferramenta de marketing pessoal.

O barco/casa de Guirec e Monique é um veleiro de 32 pés, que ele comprou quando tinha apenas 20 anos de idade, mas planos já maduros de sair navegando pelo mundo – a princípio, sozinho.

A galinha mudou isso. “A gente se dá muito bem e ela não reclama de nada. Nem da falta de poleiros no barco”, diz, rindo.

Segundo Guirec, Monique tem cerca de sete anos de idade e, como toda galinha, pode viver até os 15, “se ninguém devorá-la antes disso, claro”.

Mas não será ele que irá fazer isso.

“Ainda temos muito o que explorar juntos. Adoro aventuras e ela, também”, diz o francês.

Juntos, Guirec e sua galinha também já lançaram três livros sobre as travessias marítimas da improvável dupla: “O mundo segundo Monique”, “A fabulosa história de Guirec e Monique”, e o infantil “A galinha que deu a volta ao mundo”.

E alimentam, diariamente, uma legião de fãs nas redes sociais.

Os dois têm mais de 130 mil seguidores no Facebook, outra metade disso no Instagram, vídeos que, vira e mexe, viralizam no Youtube, e tornaram-se conhecidos no mundo inteiro, o que levou o francês a vislumbrar um meio de ganhar dinheiro com palestras – nas quais, obviamente, a galinha vai junto.

“Quem me conhece, sabe que eu nunca fui totalmente normal”, diz o francês, com total sinceridade.

E nem Monique discorda disso.

Os italianos que atravessaram o Atlântico com dois carros flutuantes

Os italianos que atravessaram o Atlântico com dois carros flutuantes

Na década de 1950, o australiano Ben Carlin assombrou o mundo ao cruzar oceanos inteiros – e, por fim, dar a volta ao planeta – navegando com um simples jipe anfíbio, da Segunda Guerra Mundial.

50 anos depois, em 2000, dois jovens italianos, Marco Amoretti, então com 24 anos, e seu amigo, Marcolino de Candia, de 21, repetiram parcialmente o feito dele, mas de uma maneira ainda mais original: atravessaram o Atlântico, das Ilhas Canárias ao Caribe, “velejando” com dois velhos automóveis convencionais, adaptados para flutuar.

Os carros não eram propriamente anfíbios e sim meros objetos flutuantes, já que não tinham motor e só se movimentavam, tanto na água quanto na terra, quando impulsionados pelo vento – ou seja, eram carros que “velejavam”, tanto no mar quanto no asfalto.

Em terra firme, o único meio de propulsão dos dois exóticos veículos, um Ford Taurus 1981 e uma perua Volkswagen Passat 1987, ambos comprados como sucata num ferro-velho, eram paragliders, que, içados as alturas e presos aos veículos através de cabos, movimentavam os carros para onde o vento apontasse – uma mera brincadeira, já que ninguém poderia se locomover assim.

Quer dizer, quase ninguém, exceto o pai de um deles, que foi quem inspirou aquela ousada travessia oceânica.

Mas os ventos não foram o principal meio de locomoção daqueles dois curiosos automóveis flutuantes e seus intrépidos ocupantes, e sim as correntes marítimas predominantes naquela parte do Atlântico.

Foram elas que empurraram os dois bizarros carros/barcos durante todo o percurso, de 3 100 milhas náuticas de mar aberto, que eles cumpriram ao longo de quatro meses, praticamente à deriva, já que os dois automóveis também não tinham lemes, nem nenhum tipo de controle de rumo.

A esperança é que apenas as correntes marítimas conduzissem os dois até o outro lado do oceano, como já haviam feito, no passado, outros aventureiros.

Um deles foi o médico francês Alain Bombard, que, em 1952, também cruzou das Ilhas Canárias para o Caribe com um bote inflável sem nenhum tipo de propulsão e sem água nem comida.

Foi ele que inspirou o pai de Marco, o aventureiro nato Giorgio Amoretti, autor de façanhas fantásticas na terra (como dar meia volta ao mundo com uma Lambretta), na água e no ar, a fazer o mesmo com um automóvel, já que com um barco seria óbvio demais.

Primeiro, Giorgio preencheu o interior dos dois carros com blocos de poliuretano, para que não afundassem.

Depois, adaptou um bote de borracha na capota de cada automóvel, cobriu-os com uma barraca de camping e transformou aquele insólito espaço numa espécie de cabine, onde eles ficariam, durante toda a travessia.

Apenas a “cozinha” (não mais que um fogareiro, no qual esquentariam a comida desidratada que levariam na viagem, reforçada por um ou outro peixe que eventualmente pescassem) e a dispensa ficavam dentro do carro, que era acessado através de um buraco na capota e no fundo do bote.

O plano inicial de Giorgio era fazer a travessia com seus três filhos, Fábio, Mauro e o caçula, Marco, razão pela qual ele preparou dois automóveis.

Mas, na última hora, a descoberta de um câncer em estágio já avançado, tirou Giorgio da viagem.

Seus três filhos, no entanto, mais o amigo Marcolino, foram em frente. Mas não por muito tempo.

Fábio e Mauro não suportaram o desconforto e desistiram da travessia logo após a partida, vítimas de terríveis enjoos, já que os automóveis balançavam o tempo todo.

Mas Marco e Marcolino, não!

Eles seguiram adiante, cada um em um automóvel (mas unidos por um cabo, para não se desagarrarem na imensidão do oceano) e, contrariando todas as expectativas, quatro meses depois, chegaram do outro lado do Atlântico, a mais de 5 000 quilômetros de distância – um feito tão impressionante quanto ignorado até hoje, já que, na época, praticamente ninguém ficou sabendo.

Na água, os dois carros boiavam parcialmente submersos e mais pareciam vítimas de uma enchente.

Mas não afundavam.

E embora fossem automóveis, não se locomoviam a motor e sim a vela, já que não haveria como transportar tanto combustível para a travessia de um oceano inteiro – nem tampouco eles saberiam como transformar um motor terrestre em marítimo.

Um conjunto de velas caseiras presas a uma espécie de andaime, fixado na capota dos veículos, davam aos dois automóveis a aparência de balsas de náufragos, mas impulsionavam os dois carros, sempre que os ventos aumentavam.

No entanto, o principal meio de locomoção daqueles dois esquisitos veículos e seus intrépidos ocupantes foram as correntes marítimas, que atravessam incessantemente das Ilhas Canárias ao Caribe – até porque seus curiosos veículos não tinham volante nem leme e avançavam apenas para onde o mar os levasse.

No caminho, sempre que cruzavam com algum navio, os italianos mandavam mensagens, pelo rádio, pedindo informação sobre a sua localização – como quem para o carro na beira da estrada para perguntar o caminho.

Quando isso acontecia, explicavam que estavam a bordo de dois automóveis, deixando os marinheiros do outro lado intrigados – e como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

E assim eles fizeram.

Até que, 119 depois de terem partido das Ilhas Canárias, Marco e Marcolino tocaram as Antilhas, no Caribe, onde foram recebidos com um misto de curiosidade e perplexidade.

De lá, Marco ligou para casa, a fim de contar a boa nova ao pai.

Foi quando ele ficou sabendo que Giorgio havia morrido dias antes, sem ver a odisseia que ele havia planejado se tornar realidade.

Desde então, Marco Amoretti busca apoio para transformar a estripulia dele e do amigo Marcolino em um filme ou documentário.

“Quero homenagear meu pai”, diz o italiano, que hoje vive Gênova e segue navegando com curiosos automóveis flutuantes.

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Cruzar o Pacífico: o novo objetivo do homem que atravessou o Atlântico à deriva, dentro de um barril

Cruzar o Pacífico: o novo objetivo do homem que atravessou o Atlântico à deriva, dentro de um barril

Em abril deste ano, o aventureiro francês Jean Jacques Savin conseguiu realizar uma das travessias mais improváveis da História.

Ele atravessou o Atlântico, das Ilhas Canárias ao Caribe, totalmente à deriva, dentro de uma espécie de barril, que ele mesmo construiu, sem velas, nem motor nem nenhum tipo de propulsão.

Savin havia partido das Ilhas Canárias no dia 26 de dezembro, planejando chegar do outro lado do oceano em cerca de três meses, levado apenas pelos ventos e correntes marítimas, na mais ousada travessia do Atlântico que se tem notícia.

Levou pouco mais de um mês além disso.

Mas, após 122 dias no mar e mais de 3 000 milhas náuticas percorridas totalmente à deriva, por vontade própria, Savin deu por completada a inédita travessia, ao cruzar com seu barril o Meridiano 65 W, usado para delimitar oficialmente o Mar do Caribe dentro do oceano Atlântico.

Ele, então, fez contato com a Guarda Costeira americana e pediu ajuda, pois temia ser lançado em outras correntes que o levassem na direção norte, para fora do Caribe.

Cinco dias depois, o francês e seu barril foram içados pelo navio petroleiro holandês Kelly Anne e deixado na ilha de St. Eustatios, próxima à Martinica, objetivo final do francês.

De lá, um rebocador conduziu Savin até a possessão francesa, onde ele foi recebido pela mulher, Josyane e por um grupo de amigos.

“Foi uma experiência fantástica”, resumiu Savin numa entrevista ao jornal americano The New York Times, ao desembarcar e abraçar a mulher. “No meio do oceano, sendo levado por ele, você tem a real sensação do que é liberdade. Não há regras nem ninguém dizendo o que você tem que fazer”.

O mais curioso, no entanto, é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo.

O barril no qual ele fez a insólita travessia não passava de uma espécie de rolha, com três metros de comprimento por dois de diâmetro, com uma cama, uma pia (com água dessalinizada, extraída do mar), um fogareiro, um assento e um compartimento para guardar comida desidratada e mais nada.

Além disso, Savin fez a viagem sozinho, sem nenhuma companhia. “Nem caberia outra pessoa no barril”, explicou, bem-humorado, ao partir das Ilhas Canárias, sob a descrença de muitas pessoas.

“Não serei o capitão de um barco e sim um simples passageiro do mar. Ele me levará para onde quiser”, disse Savin, ao partir. E assim ele o fez.

No navio que resgatou o francês, antes que seu barril errante tomasse outro rumo ou se esborrachasse nas pedras de alguma ilha, Savin tomou o primeiro banho em mais de quatro meses e, quando perguntado sobre o que gostaria de comer, pediu apenas dois ovos fritos.

Na ocasião, ele também comentou que o melhor momento da travessia foi quando, após 62 dias no mar, foi socorrido pelo navio americano Ronald Brown que lhe forneceu comida e frutas, quando Savin percebeu que não conseguiria completar a jornada nos três meses que havia planejado.

“Os primeiros passos no convés do navio foram bem difíceis”, recorda, rindo. “Eu parecia bêbado. Não conseguia andar em linha reta e precisei da ajuda de dois homens para subir as escadas e conversar com o comandante. Eu, praticamente, precisei reaprender a caminhar”.

Apesar da extensão da jornada e da dieta à base apenas de comida desidratada e peixe fresco (quando conseguia capturar algum), Savin perdeu apenas quatro quilos durante a travessia. “Ele chegou bem de saúde, mas, mesmo assim, sugeri que fizesse um checkup completo”, disse um dos amigos que foram recepcioná-lo na Martinica, o médico francês Pierre Galzot.

Durante a jornada, Savin cruzou com outros navios, mas nem todos de maneira tão tranquila. “Por duas vezes, quase fui atropelado por eles. Um deles só me viu porque eu disparei foguetes sinalizadores quando ele já estava prestes a passar por cima do meu barril”, recorda.

Mesmo assim, Savin garante que em momento algum pensou em desistir da sua louca travessia.

Também garante que não sentiu medo nem solidão. “Eu queria justamente ficar sozinho”, explicou. “A solidão me faz bem, me faz permanecer ativo e jovem”, disse o dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível – ou seja, sendo levado pelo próprio oceano.

“Aproveitei a viagem para escrever um livro sobre a travessia, que sairá em breve. Também li bastante, incluindo uma versão compacta da Bíblia, porque para lê-la inteira eu precisaria ter atravessado um oceano maior que o Atlântico”, brincou. “Na verdade, o tempo passou bem rápido”, completou.

A inspiração para a inédita travessia de Savin veio da ousadia de outro francês, o médico Alain Bombard, que, em 1952, também cruzou o Atlântico sozinho com um bote de borracha, sem água nem comida a bordo. Ele sobreviveu bebendo água do mar e comendo apenas os peixes crus que capturava. A experiência rendeu um livro, chamado Náufrago Voluntário, e fama mundial a Bombard, que, desde então, virou ídolo de Savin.

“Eu era garoto quando li o livro que ele escreveu e aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Virou o meu sonho fazer algo igual, e, agora, eu fiz”, disse, feliz, o septuagenário francês.

Sonho realizado?

Sim, mas, agora, Savin tem outros mais.

Ele quer atravessar o Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, à nado e, se conseguir patrocinadores, também cruzar à deriva, com um barril do mesmo tipo, o maior oceano do mundo, o Pacífico, algo igualmente jamais tentado.

“Deve levar uns seis meses”, estima. “Mas o mar exige paciência”.

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Sete meses à deriva no mar e dividindo o pouco que tinha com um gato

Sete meses à deriva no mar e dividindo o pouco que tinha com um gato

O Natal de 2017 foi o melhor da vida do polonês Zbigniew Reket, então com 54 anos.

Naquele 25 de dezembro, ele foi finalmente resgatado no mar, depois de passar sete meses à deriva no Oceano Índico, na companhia apenas de um gato – que também sobreviveu àquele calvário.

O drama do polonês começou quando, ao partir das Ilhas Comores, rumo a África do Sul, de onde pretendia seguir viagem para a sua terra natal, ele viu seu precário barco se desmantelar no mar.

Primeiro, quebrou o mastro – que ele havia improvisado. Depois, soltou o leme. Por fim, pifou o motor, que Reket usava para recarregar as baterias do rádio – que, com isso, também parou de funcionar.

Havia, porém, uma explicação para tantos problemas: o barco de Reket não era propriamente um barco convencionl.

Muito menos um veleiro, embarcação bem mais adequada para longas travessias, como a que ele pretendia fazer.

O barco do polonês não passava de um velho bote salva-vidas de grandes navios, desses que são usados em operações de abandono no mar, que ele havia comprado no maior desmanche de navios do mundo, nas praias de Alang, na Índia – onde um cargueiro inteiro desaparece em questão de dias, nas mãos do formigueiro humano de trabalhadores indianos.

O plano de Reket, que não tinha dinheiro para comprar um barco de verdade (daí ter ido até lá, para ver o que conseguia arrematar), era adaptar aquele salva-vidas, que custara uma micharia, já que seria transformado em sucata, para que pudesse navegar movido pelos ventos – o que, no entanto, não deu certo, porque, logo no início da viagem, caiu o mastro.

Quando isso aconteceu, Reket não pode contar com o motor para retornar, porque ele também parou de funcionar.

E foi assim que começou o seu martírio de sete meses à deriva no Índico, ao lado apenas do seu gato de estimação.

Durante todo esse tempo, o polonês disse ter visto vários navios, mas não tinha como fazer contato – porque, sem motor para carregar as baterias, não tinha rádio.

Também avistou terra firme diversas vezes, mas, sem leme, não conseguia fazer o barco chegar até lá.

Até que, naquele dia de Natal, veio o presente que ele jamais esquecerá: o resgate, feito por um barco de passeio, que se aproximou para ver aquela estranha embarcação, quando navegava nas imediações das Ilhas Reunião.

Ao ser resgatado, Reket foi recebido com certa incredulidade, dado a façanha que ele dizia ter realizado.

Contou, também, que sobreviveu graças a água da chuva que coletava, dos peixes que, eventualmente, capturava, e da ração de meio pacote de macarrão japonês por dia, que era tudo o que restava no barco – e que ele ainda dividia com o gato.

Mas a fome do polonês (e do gato) contou a seu favor e logo o polonês passou a ser reconhecido como um náufrago de verdade. Que, em momento algum, pensou em transformar em comida o seu companheiro de infortúnio.

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Foto: Reprodução Getty

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O novo desafio do homem que achou o Titanic: encontrar, no mar, os restos do avião de Amelia Earhart

O novo desafio do homem que achou o Titanic: encontrar, no mar, os restos do avião de Amelia Earhart

Após um mês e meio de buscas com avançados meios de rastreamento submarino, não deu em nada a expedição promovida pelo famoso pesquisador americano Robert Ballard, o homem que achou o Titanic no fundo do Atlântico, para tentar encontrar os restos do avião da lendária aviadora Amelia Earhart, que desapareceu em algum ponto do Oceano Pacífico, durante a primeira tentativa de uma mulher de dar a volta ao mundo voando, 82 anos atrás.

Mesmo usando um moderno navio de pesquisas, equipado com dois mini submarinos capazes de descer a grandes profundidades, tudo o que a expedição de Ballard encontrou no entorno do esquecido atol de Nikumaroro, na parte central do Pacífico Sul, foram restos de um velho naufrágio, uma antiga garrafa de refrigerante e dois chapéus carcomidos pelo tempo – e nenhum deles relacionados com a famosa aviadora, misteriosamente desaparecida em 1937, juntamente com seu companheiro de voo, o navegador Fred Noonan.

Mas nem assim Ballard, um especialista em procurar agulhas em palheiros dentro dos oceanos (ele também achou o mais famoso navio alemão afundado na Segunda Guerra Mundial, o couraçado Bismarck, 30 anos atrás), desistiu de ideia de encontrar os restos do avião Lockheed Electra da americana e, com isso, desvendar um dos maiores mistérios do último século: onde  – e como – morreu Amelia Earhart?

“Já sabemos onde o avião ´não` está”, disse Ballard, espertamente, ao retornar da fracassada expedição, que ele, no entanto, considera apenas o primeiro passo efetivo nas buscas do avião desaparecido. “Para achar o Titanic, foram preciso quatro expedições e, numa delas, não achamos o navio por míseros metros de distância”, disse ele, recentemente, ao jornal The New York Times.

Apesar do insucesso da expedição, que quase ninguém acreditava mesmo que pudesse ser bem-sucedida (se não é fácil achar um navio inteiro no fundo do oceano, que dirá restos de um pequeno avião 80 anos depois, que, se caiu mesmo no mar, com certeza se despedaçou), a busca de Ballard pela verdade sobre a morte da mais icônica aviadora da História irá ao ar neste domingo, nas televisões do mundo inteiro, às 22h30, com a apresentação do documentário inédito Expedição Amelia, no canal da National Geographic (no Brasil, exibido pela Fox).

O documentário (clique aqui para assistir ao trailer) mostrará, além da história de Amelia Earhart (que já virou até filme de Hollywood, com Richard Gere no papel do seu atormentado marido), as buscas que Ballard fez, depois de ser convencido pela instituição privada Tighar (iniciais, em inglês, de “Grupo Internacional para Descoberta de Aviões Históricos”), de que a suposta queda do avião aconteceu no atol de Nikumaroro e não nas imediações da ilha Howland, onde Amelia faria uma escala para reabastecimento e onde sempre se acreditou que teria acontecido o acidente – justamente por falta de combustível.

Segundo a Tighar, que já fez mais de uma dúzia de expedições ao atol, uma foto aérea de Nikumaroro, feita por um oficial inglês, em 1940, mostrava um objeto que se assemelhava ao trem de pouso de um Electra nas rochas da costeira da ilha, o que, no entanto, jamais foi comprovado.

Em sua expedição, o próprio Ballard vasculhou o atol em busca da tal peça e tudo o que encontrou foram pedras, que, do alto, poderiam dar a impressão de serem o trem de pouso de um avião. Mas não passavam de rochas.

A equipe do americano também recolheu amostras do solo do local onde havia um antigo acampamento na ilha deserta (que, se supõe, foi feito por algum náufrago, talvez a própria Amelia, caso tenha sobrevivido a queda do avião) e, agora, tentará provar, através de exames de DNA com parentes da aviadora que ainda estão vivos, que ela teria morrido ali e não no mar.

Naquele mesmo acampamento, décadas atrás, foram encontrados 13 ossos humanos, que, no entanto, na época não foram analisados e, com o tempo, acabaram se perdendo em um laboratório das Ilhas Fiji.

Mas, com base em velhas fotografias, pesquisadores concluíram que aquela ossada poderia ter pertencido a uma mulher (coisa rara em se tratando de um náufrago, ainda mais em uma parte tão erma do planeta) e que ela bem poderia ter sido Amelia Earhart – que, neste caso, teria sobrevivido a um pouso de emergência no mar (talvez, seu navegador não), mas morrido como náufraga, numa ilha deserta.

No entanto, pela teoria mais aceita até hoje, Amelia Earhart e seu navegador caíram no mar nas proximidades da Ilha Howland, onde iriam reabastecer para continuar a travessia do Pacífico, e bem perto do navio na Marinha Americana Itasca, que daria apoio, pelo rádio, para que a aviadora encontrasse a pequena ilha na imensidão do oceano.

Naquele dia, 2 de julho de 1937, navio e avião mantiveram contato por um bom tempo, até que Amelia deixou de responder aos chamados do operador de rádio do Itasca, talvez por uma falha no seu equipamento.

Desesperada, a tripulação do Itasca enviou, então, mensagens em código Morse, que foram recebidas mas não respondidas pelo navegador Fred Noonan. E até acionou as chaminés do navio, na esperança de que a fumaça servisse de referência para que a aviadora conseguisse visualizar a ilha. Tudo em vão.

Durante meses, intensas buscas pelos restos do avião nas proximidades da Ilha Howland também não trouxeram nenhum resultado. E foi isso que levou a Tighar – e Ballard – a concentrarem suas pesquisas em outra ilha, a cerca de 600 quilômetros de distância.

“O Atol de Nikumaroro fica na mesma direção que Amelia seguia, só que bem depois da ilha onde ela deveria ter pousado. Ela pode ter passado pela ilha sem tê-la visto e, por isso, seguiu em frente, até ficar sem combustível. Mas, talvez, seu avião não tenha caído e sim feito um pouso de emergência no mar, junto ao atol, daí os ossos encontrados no acampamento”, analisava Ballard, antes de partir para a sua expedição, no último mês de agosto.

“Se acharmos vestígios do avião, será uma prova de que Amelia Earhart pode não ter morrido na queda, nem afogada”, dizia, na ocasião, o famoso pesquisador.

Só que Ballard não encontrou nada.

Aviadora mais famosa da História

O que torna o desaparecimento de Amelia Earhart intrigante até hoje é a própria história da aviadora, repleta de feito inéditos.

Mulher muito à frente do seu tempo, ela começou a se interessar pela aviação numa época em que o sonho de praticamente todas as mulheres era apenas casar, ter filhos e se tornar uma exemplar dona de casa.

Em 1920, Amelia aprendeu a pilotar aviões, numa época em que as mulheres sequer dirigiam automóveis. E, menos de oito anos depois, em junho de 1928, conseguiu que fosse incluída na tripulação (junto com dois homens) da equipe que levaria a primeira mulher a fazer a travessia do Atlântico pelos ares.

A travessia foi um sucesso, mas Amelia saiu do avião irritada, porque não lhe foi permitido fazer praticamente nada durante o voo.

“Fui um mero lastro na viagem. Um saco de batatas teria feito a mesma função que eu tive no avião”, resumiu a audaciosa aviadora, que, por isso, tratou de criar o seu próprio projeto: o de ser a primeira mulher a atravessar o Atlântico pilotando sozinha, o que faria quatro anos depois.

O feito transformou Amelia em celebridade, sobretudo entre as mulheres, nos Estados Unidos. E a tornou uma espécie de símbolo da independência feminina.

Embalada, então, pela fama e popularidade, Amelia apresentou um projeto ainda mais ousado: tornar-se a primeira mulher a voar ao redor do mundo pilotando o próprio avião, mas, desta vez, dada a complexidade da viagem, tendo a companhia de um navegador, Fred Noonan.

A dupla partiu da Califórnia em março de 1937, mas não passou da primeira escala, no Havaí, quando uma falha na decolagem causou problemas mecânicos no avião. A travessia for abortada, mas não cancelada.

Três meses depois, Amelia e Fred partiram de novo, com o mesmo Lockheed Electra, mas, desta vez, no rumo oposto, no sentido oeste/leste, a fim de aproveitar os ventos predominantes.

A jornada, que começou em Miami e incluiu até uma escala em Natal, no litoral do Nordeste brasileiro, avançou pela África, Oriente Médio e Ásia, até chegar a Papua Nova Guiné, onde Amelia se preparou para o trecho mais desafiador da viagem: a travessia do Pacífico, o maior oceano do planeta.

Como seu avião não tinha autonomia para uma travessia tão longa, ficou combinado que ela faria uma escala na Ilha Howland, para reabastecer, e que o navio Itasca ficaria nas proximidades, dando apoio pelo rádio e indicando a localização exata da ilha – que, no entanto, jamais foi alcançada pela aviadora.

Nas últimas comunicações por rádio, Amelia reportou que estava com pouco combustível. E, em seguida, começou um desencontro geral de informações entre o navio e o avião, que culminou com um angustiante silêncio.

Se o avião de Amelia Earhart caiu nas proximidades da Ilha Howland, como sempre defenderam as teorias, ou se ela voou a esmo sobre o oceano até acabar a última gota de combustível, como Ballard quer provar, é o grande enigma que restou deste histórico e trágico episódio.

Mas, se depender de Ballard, apesar do fracasso da expedição inicial, a busca pelo avião de Amelia não terminou.

“O desaparecimento de Amelia Earhart é, talvez, o maior enigma não explicado do século passado. E cada vez que uma nova expedição fracassa, aumenta ainda mais o mistério”, disse o pesquisador, acrescentando que fará uma nova tentativa em 2021, quando seu navio voltará a região, para mapeamentos submarinos do Pacífico Sul. Inclusive nas proximidades da Ilha Howland, que Ballard, agora, também não descarta vasculhar.

“Minha mãe adorava Amelia Earhart e, também em homenagem a ela, vou continuar buscando os restos do avião, em outros locais e ocasiões. Aquele avião existiu e seus destroços estão em algum lugar. Não é como a lenda do monstro do lago Loch Ness”, finalizou o pesquisador ao The New York Times, alimentando ainda mais um dos mistérios favoritos dos americanos, até hoje: que fim levou Amelia Earhart?

Foto Nautilus Live/Divulgação