O injustiçado encantador de orcas selvagens

O injustiçado encantador de orcas selvagens

Oito anos atrás, quando o filme O Farol das Orcas foi lançado, o biólogo marinho argentino Roberto Bubas, que sempre preferiu ser chamado apenas de Beto, viu sua vida virar de cabeça para baixo.

De repente, aquele discreto e quase recluso fiscal de uma reserva marinha na Patagônia, sul da Argentina, que até então se dedicava a proteção e estudo comportamental de um grupo de orcas que frequentavam a área onde ele atuava, virou personagem de filme.

E sua vida foi parar nas telas do mundo inteiro.

Desde então, Beto Bubas perdeu não só a tranquilidade, como, também, a companhia das baleias que tanto amava.

Transferido para outro posto na região, mas um local onde as orcas não frequentam, Bubas, por muito pouco, não perdeu também o emprego, fruto da perseguição e ciumeira profissional que passou a ser vítima, desde que o filme foi lançado.

Hoje, aos 53 anos, mesmo sendo uma reconhecida autoridade no comportamento das orcas, Beto Bubas atua como simples guarda fauna na praia de El Doradillo, na Península Valdés, que, no entanto, não é frequentada por aqueles animais – uma contradição e o mesmo que um especialista em macacos ser mandado para trabalhar no Ártico.

“Prefiro não aparecer mais na mídia”, diz o dedicado biólogo, que passou quase metade da vida acompanhando bem de perto o grupo de orcas que frequentava o mar da reserva onde era o encarregado, e onde acontecia um fenômeno raro, que justamente o tornou famoso.

O que tornou Beto Bubas uma quase celebridade mesmo a contragosto foi um fenômeno natural que, até hoje, só acontece na praia onde ele atuava como fiscal, antes de ser transferido: a captura de filhotes de lobos e leões marinhos pelas orcas através de uma técnica de caça até então inédita.

Em vez de aguardar que as presas saiam da segurança da areia para atacá-las no mar, as orcas de Chubut desenvolveram a técnica de avançar fulminantemente em direção à praia, abocanhando os filhotes na beira d´água.

A estratégia exige extrema coordenação por parte das orcas, que precisam voltar para o mar antes que as marolas geradas pelo seu próprio avanço em direção a areia recuem, sob o risco de ficarem encalhadas.

E foi isso que Bubas passou a estudar – e documentar – quando assumiu o posto.

Mas o que nem ele nem ninguém imaginava era que essa proximidade acabaria por criar um vínculo inédito entre o biólogo e aquele grupo de orcas selvagens.

Com o tempo, Bubas foi ficando cada vez mais íntimo e aceito pelas orcas, animais que, embora inteligentíssimos, estão entre os mais poderosos e violentos dos mares.

Tanto que as orcas costumam ser chamadas de “baleias assassinas”, embora isso embuta um duplo erro.

Primeiro, porque elas não são baleias e sim parentes distantes dos golfinhos.

E segundo porque, longe de serem “assassinas”, tratam-se apenas de estupendos predadores.

Munido de uma gaita, que tocava na beira d´água, Bubas passou a se aproximar das orcas sempre que elas apareciam na praia.

Ao ouvirem o som do instrumento, os animais respondiam trazendo tufos de algas para a beira da praia, para que o biólogo os arremessasse de volta ao mar, como quem brinca com uma bola.

Logo, passaram a se deixar tocar por Bubas, que, com isso, se tornou o único homem a interagir dessa forma com orcas não domesticadas.

Com isso, ele passou a ter a oportunidade de estudar o comportamento daqueles temidos animais de maneira privilegiada.

Desta inédita proximidade, resultou um livro e um documentário mundial feito pela National Geographic, que acabaria por desencadear o filme que mudaria a vida do biólogo para sempre.

O filme O Farol das Orcas, ainda hoje disponível na Netflix, não trata apenas da incrível relação do biólogo argentino com aquele grupo de orcas, mas sim o improvável interesse que aquela amizade despertou em menino argentino autista surdo e mudo, chamado Agustin, que, até então, jamais havia demonstrado interesse por nada.

Levado pelos pais para ver de perto a relação entre Bubas e as orcas, Agustin passou uma temporada com o biólogo e, a partir de então, seu desenvolvimento social decolou.

Hoje, aos 31 anos, Agustin leva uma vida praticamente normal, tem namorada, usa a linguagem de sinais para se comunicar e é artista plástico.

A partir de outro livro escrito por Bubas sobre o caso do menino (e os poderes terapêuticos que as orcas, tal qual os golfinhos, exercem em crianças especiais), o diretor espanhol Gerardo Olivares resolveu filmar O Farol das Orcas, que teve o ator argentino Joaquín Furiel no papel do biólogo.

A relação de Beto Bubas com os animais de Chubut, que durou mais de 15 anos, também lhe rendeu o do apelido de “Encantador de Orcas”, título que ele nunca apreciou muito.

“Eram apenas oito orcas, cinco delas fêmeas, as quais cabiam a missão de ensinar seus filhotes a caçar lobos daquela maneira, o que não acontece em nenhuma outra praia do mundo. Se elas morressem, o ensinamento desse tipo de caça também acabaria, e era isso que eu queria proteger”, disse, certa vez, Bubas, ao explicar o motivo do seu relacionamento estreito com aqueles animais.

Hoje, ainda alheio a fama e recluso em sua função de monitorar outros animais que não mais aquelas orcas, o biólogo argentino Beto Bubas amarga outro sentimento: a simples saudade delas.

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O casal que trocou apartamento por um barco e foi ganhar a vida no Caribe

O casal que trocou apartamento por um barco e foi ganhar a vida no Caribe

Certo dia, dez anos atrás, o fotógrafo submarino Alcides Falanghe, então com 52 anos, casado pela segunda vez com a também paulistana Tatiana Zanardi, dois filhos já criados e editor de uma revista especializada em mergulho, acordou para ir trabalhar, como sempre fazia, mas parou diante do espelho do banheiro e ficou olhando fixamente para si mesmo.

Em seguida, num impulso, pegou o batom da esposa e escreveu a frase “Mudar de vida!” no próprio espelho, para que, todo dia, ao acordar, ele lesse a mensagem e tomasse uma iniciativa – que, desde o início, teve o apoio da esposa, também insatisfeita com a vida bem classe média que os dois levavam em São Paulo.

Mas custou ainda um par de anos até que Alcides, finalmente, tomasse coragem para romper as amarras do emprego, da segurança financeira, da confortável, porém infeliz, rotina e de tudo o prendia o casal àquele tipo de vida, na maior metrópole do país.

Quando, porém, isso aconteceu, o resto foi muito rápido.

Alcides largou o emprego, bem como a mulher, que vinha acumulando uma série de aborrecimentos no trabalho, e os dois imediatamente puseram à venda o apartamento onde viviam (único bem que eles tinham), bem como tudo o que havia nele, além do carro da família.

Com o dinheiro arrecadado, compraram duas passagens para Miami, com um só objetivo. Viver na América? Não. Morar num barco. E não nos Estados Unidos.

“Como eu era mergulhador e minha mulher sempre mergulhava comigo, já tínhamos ido ao Caribe. E era para lá que nós queríamos voltar. Mas, agora, para viver no mar, transformando um barco na nossa nova casa”, recorda Alcides, que, no entanto, tinha um grande problema pela frente: ele não sabia navegar. O jeito foi aprender em seguida.

Em Miami, onde o preço dos barcos é bem mais em conta do que no Brasil, eles compraram um veleiro usado, com o exato dinheiro da venda do apartamento.

Não sobrou nada, mas, tudo bem: a partir de então, o objetivo deles seria mesmo viver com pouco dinheiro – mas no Caribe, vagando de ilha em ilha pelo tempo que quiserem, já que, uma vez com o barco, sempre estariam “em casa”.

E tem sido assim até hoje, dez anos depois daquela radical mudança de vida – que eles jamais se arrependeram.

Para sobreviver – e bem – o casal passou a hospedar turistas brasileiros que buscavam conhecer o Caribe da maneira mais original possível.

Ou seja, a bordo de um barco, parando em algumas das praias mais bonitas do mundo – serviço que, no meio náutico, é conhecido como “charter”.

O negócio deu tão certo que, atualmente, eles têm até lista de espera para os chaters que promovem, feitas através do site do casal, o www.oceaneyesexperience.com e do Facebook.

Uma semana no barco do casal, com tudo incluído, inclusive as refeições (e até curso gratuito de navegação a vela que Alcides costuma dar para quem quer aprender a velejar durante os próprios passeios, enquanto Tatiana cuida das refeições, já que é uma chef de cozinha), custa o equivalente a R$ 8 500 por pessoa, no caso de serem mais de duas ou uma família – ou R$ 24 000 o casal, se não houver mais pessoas viajando junto.

“Não é caro, porque só um bom hotel no Caribe já custa quase isso por semana, sem falar nas refeições, que custam outro tanto”, defendem Alcides e Tatiana, que de tanto receber brasileiros no seu barco se tornaram anfitriões de primeira. E amigos de todos os clientes, até hoje.

“O pessoal adora ouvir a nossa história, porque sempre fomos assalariados e sem dinheiro sobrando para nada. Mas, agora, vivemos exatamente onde eles passam férias e num barco, o que é o sonho de muita gente”, diz Alcides, mais que satisfeito. “Conseguimos o que queríamos, mas, para isso, foi preciso ter coragem de mudar totalmente de vida, o que não é fácil”, reconhece.

Atualmente, eles têm como “endereço” uma estupenda baía numa das ilhas que compõe as Ilhas Virgens Britânicas, bem no centro do Caribe.

É lá que o barco-casa do casal um confortável catamarã com quatro quartos (que custou o mesmo que um apartamento de apenas dois em São Paulo…) fica ancorado, quando eles não estão levando brasileiros para navegar por algumas das ilhas mais bonitas da região.

Quando isso acontece, o casal, que vai junto no barco, cuida de tudo. Até de assumir as funções de intérprete nas ilhas. “As pessoas não precisam nem saber falar inglês, porque nossos cruzeiros são 100% em português”, brinca Alcides, que é o capitão do barco.

“No Caribe, você atravessa de barco de uma ilha para outra em menos de uma hora. Não dá nem tempo de enjoar”, diz o brasileiro.

Alcides e Tatiana não são os únicos, muito menos os primeiros, a trocar a vida na cidade grande por um barco no mar. Muitos já fizeram isso – clique aqui e conheça outra história exemplar desse tipo. Mas poucos de maneira tão radical.

“Em geral, as pessoas levam décadas acalentando o sonho de viver num barco, ou passam a vida inteira sem realizá-lo. Nós não. Foi meio de sopetão. E olha que não sabíamos nada sobre barcos, apenas gostávamos do mar”, conta Alcides, que hoje não se imagina levando outra vida.

“Até aqui, nenhum dos nossos clientes se arrependeu de trocar um quarto de hotel por uma cabine no nosso barco”, diz o brasileiro, feliz, orgulhoso e sem nenhuma saudade dos tempos em que a rotina do casal era apenas trabalhar, dormir, acordar e começar tudo de novo, na eterna correria de São Paulo

A cidade que adotou como símbolo os golfinhos que ajudam os pescadores

A cidade de Laguna, no litoral sul de Santa Catarina, é particularmente famosa pelo seu animado Carnaval, por ter servido para demarcar um dos extremos do histórico Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e Espanha no passado, e por ter sido berço de Anita Garibaldi, mulher do revolucionário Giuseppe Garibaldi, com quem lutou pela independência do Sul do Brasil.

Mas o que realmente mais orgulha Laguna são os golfinhos (lá chamados de “botos”) que habitam o canal que liga a cidade ao mar.

E por um motivo especial: eles são os únicos do Brasil (e um dos poucos no mundo) que interagem intensivamente com os pescadores, ajudando-os a pescar.

O fenômeno acontece mais ou menos assim.

Quando os cardumes de peixes entram no canal, os botos os empurram para a margem, onde estão os pescadores, com suas redes.

Em seguida, dão um sinal com o corpo para os pescadores e ficam aguardando os arremessos das tarrafas sobre os peixes, porque sabem que assim será bem mais fácil capturar um ou outro para eles próprios.

Com as redes vindo por cima e pelos lados, só resta aos peixes tentar fugir por baixo delas – justamente onde ficam os golfinhos, esperando.

Eles também penetram por baixo das redes, abocanham os peixes, giram o corpo e caem fora, antes que as tarrafas desçam totalmente.

A cada tarrafada, cada boto captura, ao menos, um peixe. E os pescadores, quase sempre, vários.

É um trabalho conjunto, solidário e extraordinário, porque os dois lados saem ganhando. No Brasil, o canal de Laguna é o único local onde o fenômeno acontece.

“Ninguém ensinou os botos a fazerem isso”, explica o ex-pescador, hoje fotógrafo, Ronaldo Amboni, nascido e criado em Laguna. “Eles aprenderam sozinhos e foram passando essa técnica de pai para filho. Acho até que foram eles que nos ensinaram a pescar assim”, brinca.

Mesmo penetrando perigosamente debaixo das redes, nunca aconteceram acidentes com os botos de Laguna. Nenhum deles jamais ficou preso nas tarrafas dos pescadores, porque o sincronismo entre as duas partes é perfeito.

O trabalho de um depende do outro, e gera um formidável espetáculo de interação entre homens e animais, que há muito tempo virou a principal atração da cidade.

Tanto que, anos atrás, os botos foram declarados como Patrimônio Municipal da cidade. E passaram a ser protegidos por lei.

Hoje, imagens dos alegres cetáceos decoram quase tudo em Laguna e viraram símbolo informal da cidade.

Em Laguna, os “botos pescadores”, como são chamados os golfinhos na cidade, formam uma colônia com cerca de 50 animais, de três grupos familiares, dos quais mais da metade interage diariamente com os pescadores, ajudando-os a encherem suas redes.

A primeira lição que os filhotes recebem das mães é a de como ´trabalhar’ com os pescadores, porque isso garantirá a alimentação deles. No entanto, eles são animais livres, que vão para onde quiserem – mas preferem não sair do canal de Laguna, porque estão habituados a capturar peixes com a ajuda dos pescadores.

A estratégia de pesca dos golfinhos de Laguna muda conforme o dia.

Como são animais muito inteligentes e com grande capacidade de comunicação, eles combinam entre si como irão atacar os cardumes e avisam isso aos pescadores, através de movimentos na superfície.

Cada golfinho dá o aviso de maneira diferente e cabe aos pescadores interpretar os sinais e jogar a rede no instante certo.

Ao fazerem isso, produzem movimentos na água que mais parecem balés sincronizados.

E quando a sintonia é perfeita, o que geralmente acontece, é peixe na certa, tanto para eles quanto para os pescadores.

Em Laguna, ninguém precisa de parque aquático para ver um golfinho dando piruetas bem de perto. Por isso, viraram a principal atração da cidade.

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Rio ou lago? Afinal, o que é o Guaíba?

Rio ou lago? Afinal, o que é o Guaíba?

Nenhum carioca tem dúvidas de que o mar que banha a parte central da cidade do Rio de Janeiro é uma baía – a Baía de Guanabara.

Também nenhum morador de Brasília duvida que a imensa concentração de água que dá contornos ainda mais bonitos à capital do Brasil seja um lago – o Paranoá.

Já os habitantes de Porto Alegre não sabem ao certo como chamar o principal cartão-postal da cidade: o Guaíba – que para alguns é rio; para outros, lago.

E essa polêmica já dura décadas.

Começou ainda na colonização da região, mas tomou força quando, em 1982, o governo do estado do Rio Grande do Sul (mais tarde, também seguido pela prefeitura de Porto Alegre), decretou que o Guaíba deveria ser oficialmente chamado de lago nas escolas e documentos oficiais – mas não necessariamente nas ruas, onde para boa parte da população da capital gaúcha o Guaíba continuou sendo o que sempre foi: um rio.

Contudo, estimulados por argumentos tecnicamente convincentes (e outros bem mais discutíveis), parte dos moradores de Porto Alegre também aderiu ao novo topônimo.

E o movimento do rio que virou lago foi ganhando adeptos, até se transformar em mais uma das preferidas discussões entre os porto-alegrenses – que, além de se dividirem entre torcedores do Grêmio e do Internacional, passaram a ter outras duas correntes divergentes: a dos que defendem a tese de lago e os que se recusam a deixar de chamar o Guaíba de rio.

E, ao que tudo indica, tal qual gremistas e colorados, jamais se chegará a um consenso.

“O Guaíba é um lago, porque, entre outras características, não possui margens paralelas e mais de 80% de suas águas ficam retidas”, defende o geólogo Rualdo Menegat, criador do Atlas Ambiental de Porto Alegre, que já se acostumou a ser contestado.

“O Guaíba tem desnível e curso d´água, portanto, é um rio”, diz Pedro Pesce, comodoro do Clube dos Jangadeiros, uma das grandes entidade náutica da cidade.

“Sob o ponto de vista técnico, tenho que concordar com os dois lados”, argumenta, diplomaticamente, o ex-presidente da seccional gaúcha Instituto de Arquitetos do Brasil, Tiago Holzmann. “O Guaíba tem características das duas coisas. É um rio, mas, também, é um lago”, desconversa.

“Não é nem uma coisa nem outra”, garante o velejador Alexandre Paradeda, pondo ainda mais lenha no churrasco do rio que virou lago, ou do lago que sempre foi chamado de rio. “O Guaíba é um estuário, porque é formado por diversos rios que nele deságuam”.

E tome polêmica.

Diante do impasse, muitos propuseram chamá-lo apenas de “Guaíba”, sem “rio” nem “lago”, já que para os porto-alegrenses o quase mar de água doce (mas meio barrenta) que banha a capital gaúcha é quase um membro da família – além de Patrimônio Ambiental da cidade e um ícone tão onipresente na paisagem local quanto a cuia e o chimarrão.

Também houve quem propusesse um referendo popular, uma votação na qual os próprios porto-alegrenses decidiriam como chamar o velho Guaíba, que sempre foi sinônimo da própria cidade.

Mas, como os dois lados, de certa forma, têm razão, acabou virando apenas mais uma interminável discussão, que até hoje embala as rodas de chimarrão.

Bem mais do que uma tola discussão, a polêmica sobre como classificar aquele volume d´água que batizou a própria cidade (a capital gaúcha não se chama “Porto” Alegre por acaso…) esconde outros motivos, muito mais valiosos do que a simples mudança no topônimo do Guaíba.

Por trás da mudança oficial estariam – como sempre, aliás – interesses financeiros, já que, como lago, as restrições ambientais às construções nas margens do Guaíba, uma faixa ultra nobre da cidade, seriam menores e bem mais flexíveis.

Enquanto, nas margens dos rios, as restrições às construções chegam aos 500 metros das margens, nos lagos, elas não passam dos 30 metros.

Daí o interesse na reclassificação do Guaíba – ficaria bem mais fácil erguer obras nas margens do rio que oficialmente passou a ser um lago.

A questão, portanto, não seria apenas de semântica, nem um blá-blá-blá à toa.

Havia grandes interesses envolvidos na mudança.

E é por isso que, até hoje, os porto-alegrenses não sabem ao certo se têm um rio ou um lago.

“A mudança oficial não teve nenhum valor prático, já que o Guaíba continua sendo o que sempre foi. Mas, financeiro, sim. E muito”, explica o advogado gaúcho Ottomar Ellwanger Júnior, que, nas horas vagas, gosta de navegar no que ele, bem como a maioria dos moradores de Porto Alegre, segue chamando de rio. “O motivo da mudança não foi científico. Foi comercial”, resume.

Como argumento para a mudança, o governo gaúcho se baseou em levantamentos técnicos sobre depósitos sedimentares, correntes contrárias e outros aspectos geográficos.

Em seguida, livros escolares foram alterados e as crianças passaram a aprender que seus pais, avós e bisavós sempre estiveram errados: o correto passou a ser chamar o rio de Lago Guaíba.

Só que boa parte dos porto-alegrenses jamais concordou com isso e continuou se referindo ao Guaíba pelo topônimo pelo qual ele sempre foi conhecido – uma canetada não poderia alterar a geografia.

A mudança, além de revoltar os porto-alegrenses mais conservadores (bem como os torcedores colorados – como passar a chamar o estádio Beira-Rio de “Beira-Lago”?), foi solenemente ignorada pelos que sempre consideram o Guaíba um rio, e – bah! – não se fala mais nisso!

Segundo a lógica reinante, o Guaíba só seria um lago se não houvesse uma saída para a Lagoa do Patos, que, por sinal, há quem defenda ser uma “laguna”, já que escoa para o mar – mas isso já é outra polêmica.

“A Lagoa dos Patos também tem entrada e saída de água e não é um rio. Então, porque o Guaíba não pode ser um lago?”, argumentam os defensores da tese de que o célebre rio gaúcho sempre foi chamado de forma errada.

Tempos atrás, até a Marinha do Brasil passou uma saia justa danada ao apresentar aos navegadores da cidade uma nova carta náutica do “Lago” Guaíba.

“Não é lago”, corrigiram os donos de barcos, na cerimônia. “É rio! Lago é uma porção de água cercada de terra por todos os lados e o Guaíba não é assim”.

O oficial encarregado da apresentação ficou sem saber o que dizer.

No festival de teorias, muitos porto-alegrenses preferiram não tomar partido. .

“Ninguém vai deixar de frequentar o Guaíba, ou de admirar com o seu pôr-do-sol magnífico, se ele for lago ou rio”, analisa o empresário gaúcho Waldemar Beer. “Guaíba já diz tudo”, resume.

Já uma professora gaúcha achou uma saída original e divertida para a questão: passou a dizer aos alunos que “o nome do lago é Rio Guaíba” – e agradou os dois lados.

Na duplicidade de opiniões, nem a própria definição da palavra indígena “Guaíba” (“encontro das águas”, em tupi guarani), ajuda, porque serviria para os dois casos.

Também historicamente, o Guaíba já foi grafado como rio e como lago nos antigos mapas.

E assim, quase quatro décadas depois da polêmica (mas tecnicamente embasada) canetada que oficializou a mudança, a dúvida continua.

Rio ou lago?

O que, afinal, é o Guaíba?

 

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O estranho caso da Praia do Hermenegildo

O estranho caso da Praia do Hermenegildo

No final da década de 1970, o Brasil ainda vivia resquícios dos anos de chumbo da ditadura militar e praticamente desconhecia a expressão “crime ambiental”.

Foi nesse período que estas duas situações (ditadura e meio ambiente) se encontraram, depois que um estranho caso, nunca oficialmente explicado, aconteceu na Praia do Hermenegildo, no litoral do Rio Grande do Sul, em 31 de março de 1978.

Naquela data, quatro dias após uma violenta ressaca atingir a costa uruguaia e todo o litoral do extremo sul do Brasil, a Praia do Hermenegildo, no município de Santa Vitória do Palmar, praticamente na fronteira com o Uruguai, amanheceu com um forte cheiro vindo do mar e uma quantidade impressionante de peixes mortos.

Até cachorros e cavalos, que estavam na beira da praia, ficaram intoxicados.

A população local se assustou.

Mas, para as autoridades, tudo não passava de um fenômeno natural chamado “Maré Vermelha” – uma proliferação exagerada de algas marinhas, que libera toxinas e “sufoca” o mar, gerando mortandade de peixes, além de tingir as águas com um tom avermelhado.

O fenômeno já havia acontecido na região. Mas não com aquela intensidade.

Naquela manhã, as águas da Praia do Hermenegildo pareciam cobertas por uma película avermelhada, que desprendia fortes odores e dificultava a respiração das pessoas.

Estudiosos e alguns precursores do ambientalismo brasileiro começaram a chegar ao litoral gaúcho, para analisar o caso.

E um deles resolveu investigar a fundo a questão. Mas em outro sentido.

O historiador local Péricles Azambuja desconfiou que aquilo que estava acontecendo na praia poderia ser consequência de um vazamento de produtos químicos de algum navio em alto mar e resolveu checar.

Também conferiu os naufrágios recentes na região.

E foi assim que ele chegou ao Taquari, um cargueiro do Lloyd Brasileiro que deixara o porto do Rio de Janeiro com destino a Montevidéu, em 1971, levando uma carga de “produtos químicos” não especificados, da empresa Dow Química.

Ao atingir a região do Cabo Apolônio, na costa uruguaia, mas a apenas cerca de apenas 100 quilômetros da Praia do Hermenegildo, o Taquari encalhou e foi abandonado, com sua carga nos porões.

Apesar do incidente ter acontecido sete anos antes, havia um detalhe intrigante também revelado pela pesquisa do historiador: durante aquela mesma ressaca que atingira a Praia do Hermenegildo, dias antes de o mar se tornar quase tóxico, o casco do Taquari havia se partido em dois e despejando seu misterioso conteúdo no vizinho mar uruguaio.

Coincidência?

Não para o pesquisador, que começou a defender a tese de que o que havia acontecido naquela praia gaúcha não era um fenômeno natural e sim consequência do derramamento da suspeita carga do navio brasileiro abandonado na costa uruguaia.

Ao tomarem conhecimento do fato, outros pesquisadores aderiram a tese de que as correntes marinhas poderiam ter levado resíduos da misteriosa carga do Taquari até aquela praia.

Começou uma pressão para que a empresa dona da carga do navio, a poderosa multinacional Dow Química, divulgasse o que ele transportava.

A empresa negou categoricamente que a carga do Taquari fosse tóxica, mas estranhamente pediu que eventuais barris que fossem dar nas praias não fossem abertos.

O que eles continham?

Jamais se soube.

Até porque nenhum deles foi recuperado inteiro.

As suspeitas aumentaram ainda mais quando alguém lembrou que o então todo poderoso ministro da Casa Civil, general Golbery do Couto e Silva, era um ex-diretor da Dow Química, justamente na época em que o Taquari encalhara, o que poderia explicar a insistência do governo brasileiro em atribuir a culpa pelo que acontecera na Praia do Hermenegildo a um simples fenômeno natural, em vez de analisá-lo com mais profundidade.

Na época, ainda sob fortes resquícios militares no país, os ambientalistas não tinham nenhuma voz ativa, nem sequer o termo “ecologia” era conhecido.

Por isso, o governo limitou-se a emitir um documento, batizado de “Livro Branco”, no qual reafirmava que tudo não passara de uma ação da natureza.

Embora altamente questionável, foi a primeira vez que o governo brasileiro deu alguma satisfação a povo sobre algo ligado ao meio ambiente.

Contudo, dez anos depois, ainda insatisfeita com aquela versão oficial para o que ficou conhecido como o “Caso do Hermenegildo”, a Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul promoveu uma série de debates a respeito do tema.

Ouviu políticos, moradores do Hermenegildo e ambientalistas, então já reconhecidos como tal, e concluiu que houve mesmo um fenômeno natural naquela praia, naquele dia, como demonstraram claros indícios da chamada Maré Vermelha.

Mas concomitantemente ao vazamento do que quer que houvesse dentro do casco rompido do navio – uma perversa coincidência, já que um fenômeno natural acabou servindo para ocultar e mascarar um crime ambiental.

O governo, então, respirou aliviado.

Mas, a mesma sorte não tiveram os peixes e os animais da Praia do Hermenegildo naquele dia.

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