O tesouro no mar que todos sabem onde está

O tesouro no mar que todos sabem onde está

Em dezembro de 1941, o Japão invadiu invadir as Filipinas, por conta da Segunda Guerra Mundial.

Pouco antes disso, já antevendo o ataque, o governo dos Estados Unidos, aliado dos filipinos, decidiu escoar parte do tesouro das Filipinas, da capital Manila para uma ilhota próxima, onde os americanos mantinham uma base, chamada Corregidor.

Foram cerca de 350 toneladas de metais preciosos (prata, principalmente), avaliadas, então, em cerca de 50 milhões de dólares.

Com isso, a tal ilhota ficou entupida de prata, o que também representava um risco para os filipinos.

Foi quando os americanos decidiram enviar secretamente um submarino para lá, o Trout, para retirar parte daquela valiosa “carga”.

Ele voltou com duas toneladas em barras de ouro e 18 toneladas em moedas de prata.

Mesmo assim, muito pouco.

E ainda restaram mais de 300 toneladas de metais preciosos na ilha.

O que fazer com todo aquele ouro e prata praticamente à mostra?

Como esconder tamanho volume de preciosidades dos inimigos japoneses, já tão próximos dali?

A solução foi como a de um folhetim de piratas: afundar tudo no mar, para, depois, quando a guerra terminasse, resgatar.

E assim foi feito.

O esconderijo escolhido foi uma parte de fundo arenoso da baía, com cerca de 40 metros de profundidade, bem próxima à ilha.

Os metais foram colocados em caixas e nada menos que 2 632 delas foram depositadas no fundo do mar, ao cabo de nove viagens secretas.

A operação veio na hora exata.

Dias depois, a base de Corregidor foi tomada pelos japoneses e todos os soldados americanos foram presos, na própria ilha.

Entre eles, meia dúzia de mergulhadores da Marinha dos Estados Unidos, que, mais tarde, desempenhariam papel crucial nessa história.

Logo após a invasão da ilha, os ja­po­ne­ses fi­caram sa­ben­do, atra­vés de es­pi­õ­es, do tal te­sou­ro afun­da­do.

Mas co­mo eram do Exér­ci­to (e não da Ma­ri­nha, corporação que eles pre­fe­riam man­ter dis­tân­cia, por pu­ro or­gu­lho — e, também, porque pre­ten­diam do­ar o te­sou­ro filipino ao Im­pe­ra­dor japonês em no­me do Exér­ci­to e não da Ma­ri­nha), não havia ne­nhum mer­gu­lha­dor entre os invasores nipônicos.

Eles de­ci­diram, en­tão, re­cru­tar mer­gu­lha­do­res fi­li­pi­nos para a missão de recolher as caixas do fundo do mar.

E os que não acei­tas­sem a mis­são, se­ri­am pre­sos.

Dos oi­to mergulhadores filipinos re­cru­ta­dos, to­dos acos­tu­ma­dos ao mer­gu­lho li­vre, não ao uso de cilindros de ar-com­pri­mi­do, três mor­reram logo no início da operação, ví­ti­mas de des­com­pres­sõ­es mal fei­tas – porque, como os japoneses não sabiam exatamente em qual ponto da baía estava o tesouro, era preciso, primeiro, achá-lo.

Assustados, os outros cinco mergulhadores filipinos abandonaram o trabalho e preferiram ser presos a morrer, como os seus companheiros.

Foi quando o co­ro­nel japonês Aki­do, res­pon­sá­vel pe­la mis­são de res­ga­te, che­gou a uma con­clu­são ló­gi­ca: se fo­ram os ame­ri­ca­nos que jo­ga­ram o te­sou­ro no mar, seriam eles que iriam ti­rá-lo de lá!

Novamente, ele “re­cru­tou” aju­da ex­ter­na.

Só que, des­ta vez, dos pró­pri­os ame­ri­ca­nos que eles haviam sido feito prisioneiros.

E foi aí que en­traram em cena àqueles seis mer­gu­lha­do­res americanos: Mor­ris So­lo­mon, Paul Mann, Vir­gil Sau­ers, Wally Bar­ton, Alan Stan­ley e Ed­gar Mor­se, to­dos tam­bém en­vol­vi­dos na ope­ra­ção de es­con­de­r o te­sou­ro, se­ma­nas an­tes.

— Te­nho bo­as no­tí­ci­as pa­ra vo­cês —, anun­ci­ou, sor­ri­den­te e num in­glês per­fei­to, o co­ro­nel ja­po­nês, ao en­con­trar-se pe­la pri­mei­ra vez com os seis mer­gu­lha­do­res-prisioneiros.

A par­tir de ago­ra, vo­cês es­ta­rão li­vres da pri­são e com direito a muitas regalias.

Des­de que nos aju­dem a lim­par al­guns “des­tro­ços” do fundo do mar, que es­tão atra­pa­lhan­do a nos­sa na­ve­ga­ção.

Tra­ta­va-se, ob­vi­a­men­te, de uma men­ti­ra.

E os mer­gu­lha­do­res sabi­am dis­so.

Mas, fa­zer o quê quan­do se es­tá nas mãos do ini­mi­go?

To­dos os seis acei­ta­ram a mis­são e, au­to­ma­ti­ca­men­te, tor­na­ram-se “VIPs”- ou “Very Im­por­tant Pri­si­o­ners”, como brincariam, depois, os sobreviventes.

Mas os mergulhadores americanos só aceitaram a missão porque já haviam tra­ça­do seus próprios pla­nos.

Eles se be­ne­fi­ci­a­ri­am dos con­for­tos ofe­re­ci­dos pe­los ja­po­ne­ses (uma balsa com cabines no lugar de celas, co­mi­das e be­bi­das à von­ta­de, etc), mas sa­bo­ta­ri­am pelo menos par­ci­al­men­te a mis­são, tra­ba­lhan­do len­ta­men­te e des­vi­an­do par­te do res­ga­te pa­ra os co­le­gas pre­sos em Cor­re­gi­dor, de for­ma que eles pu­des­sem usar a pra­ta e o ouro pa­ra su­bor­nar os car­cei­rei­ros e, num pla­no mais am­plo, fi­nan­ci­ar a guer­ri­lha fi­li­pi­na con­tra os pró­pri­os in­va­so­res ja­po­ne­ses.

Uma en­ge­nho­sa vin­gan­ça si­len­ci­o­sa.

A dú­vi­da era co­mo eles fa­ri­am che­gar uma parte do tesouro até os co­le­gas pre­sos?

A res­pos­ta es­ta­va nos carregadores fi­li­pi­nos, que es­ta­vam dis­pos­tos a aju­dar a desviar par­te dos car­re­ga­men­tos, des­de que ficassem com uma parcela deles.

Mesmo assim, co­mo os seis americanos fa­ri­am pa­ra es­con­der a maior parte do tesouro roubado dos ja­po­ne­ses bem diante deles?

Simples: en­fi­an­do mo­e­das e barras de ouro den­tro das roupas de mer­gu­lho e, de­pois, trans­fe­rin­do-as pa­ra sa­co­las submersas, pre­sas no fun­do da bal­sa, fei­to ca­bi­des sub­ma­ri­nos.

Co­mo a bal­sa, que ficava ancorada no meio da baía, era pe­ri­o­di­ca­men­te vi­si­ta­da por “pes­ca­do­res” fi­li­pi­nos (na verdade, guerrilheiros disfarçados de pescadores), bas­ta­ria esconder as cestas no meio dos pei­xes e ir transferindo a prata, aos poucos, para os prisioneiros na ilha.

A vi­gi­lân­cia ja­po­ne­sa era in­ten­sa.

Mas in­ca­paz de de­tec­tar a frau­de.

Em­bo­ra suspeitasse que ela exis­tia.

O pro­ble­ma é que os ja­po­ne­ses não fa­zi­am idéia de quan­ta pra­ta e ouro ha­via no fun­do da baía, nem o grau de di­fi­cul­da­de em res­ga­tá-la.

Com is­so, eram obri­ga­dos a en­go­lir o que os ame­ri­ca­nos di­zi­am. Vir­gil Sau­ers, o pri­mei­ro ame­ri­ca­no a mer­gu­lhar, vol­tou à su­per­fí­cie fa­lan­do em “pés­si­ma vi­si­bi­li­da­de”, “cor­ren­tes for­tís­si­mas” e “di­fi­cul­da­des em en­con­trar as cai­xas”, quan­do, na ver­da­de, elas es­ta­vam or­dei­ra­men­te em­pi­lha­das uma so­bre as ou­tras, na for­ma de du­as enor­mes pi­râ­mi­des sub­ma­ri­nas.

Já o se­gun­do mer­gu­lha­dor, Moe So­lo­mon, vol­tou com uma cai­xa se­mi­des­tru­í­da (que ele mes­mo ar­re­ben­ta­ra no fundo, pa­ra co­lher as pri­mei­ras mo­e­das do desvio) e a usou pa­ra jus­ti­fi­car as tais “di­fi­cul­da­des do res­ga­te”.

— As cai­xas apo­dre­ce­ram e es­pa­lha­ram as mo­e­das na areia. Fui obri­ga­do a ca­tar uma por uma — disse, justificando assim a demora e a suposta complexidade da operação.

A par­tir daí, o objetivo passou a ser o de tra­zer pa­ra os ja­po­ne­ses ape­nas o mí­ni­mo ne­ces­sá­rio pa­ra man­tê-los na mis­são – que, obviamente, era vis­ta com óti­mos olhos pe­lo go­ver­no ame­ri­ca­no.

Afi­nal, em ple­na guer­ra, aque­les mer­gu­lha­do­res es­ta­vam rou­ban­do os ja­po­ne­ses bem de­bai­xo dos na­ri­zes de­lês, e, ain­da por ci­ma, pa­tro­ci­nan­do a con­tra-guer­ri­lha fi­li­pi­na.

Mas, in­sa­tis­fei­tos com a bai­xa pro­du­ti­vi­da­de, os ja­po­ne­ses recrutaram mais três mergulhadores ame­ri­ca­nos: Harry An­der­son, Bob She­ats e Ge­or­ge Chop­chick.

A rou­ba­lhei­ra, contudo, só au­men­tou.

Ir­ri­ta­do, o co­ro­nel Aki­do or­de­nou que a bal­sa dos mer­gu­lha­do­res mu­das­se pa­ra um pon­to pró­xi­mo a ba­se ja­po­ne­sa, de for­ma que o mo­vi­men­to dos ame­ri­ca­nos pu­des­se ser me­lhor con­tro­la­do.

A de­ci­são tra­zia um pro­ble­ma real, porque decretaria o fim da to­tal pri­va­ci­da­de dos mergulhadores pa­ra es­con­der as ces­tas car­re­ga­das sob o cas­co da bal­sa.

Mas, num gol­pe de sor­te, no dia da mu­dan­ça um tu­fão atin­giu a Baía de Ma­ni­la e qua­se ar­re­mes­sou a balsa rebocada de en­con­tro ao pí­er da ba­se ja­po­ne­sa.

As­sus­ta­dos, os ofi­ci­ais japonses voltaram atrás e de­vol­ve­ram a bal­sa ao seu an­co­ra­dou­ro ori­gi­nal.

Entretanto, iro­ni­ca­men­te, a mes­ma tempestade que salvou os mer­gu­lha­do­res de um des­mas­ca­ra­men­to qua­se cer­to, ar­re­ben­tou as ces­tas pen­du­ra­das de­bai­xo do cas­co e levou mu­i­tas mo­e­das de prata pa­ra a cos­ta, on­de fo­ram fla­gra­das pe­los ja­po­ne­ses, nos di­as subsequentes.

Pi­or ainda: de­mo­liu as pi­lhas de cai­xas sub­mer­sas e es­pa­lhou boa par­te do ouro e pra­ta no fun­do da baía, tornando – agora, sim – bem difícil a sua localização e resgate.

Era o co­me­ço do fim des­ta his­tó­ria.

Mas iní­cio de uma len­da que perdura até hoje: a do te­sou­ro perdido da Baía de Ma­ni­la.

Con­ven­ci­dos de que re­al­men­te es­ta­vam sen­do pas­sa­dos pa­ra trás, os ja­po­ne­ses re­sol­ve­ram man­dar to­dos os mergulhadores de vol­ta à pri­são (on­de, por sinal, fo­ram re­ce­bi­dos co­mo he­róis pelos colegas) e con­tra­ta­ram outros, de ou­tras re­giões das Filipinas, pa­ra con­ti­nu­ar o res­ga­te.

Mas os da­nos do tu­fão nas cai­xas ha­viam si­do gran­des e, por is­so, a re­cu­pe­ra­ção da pra­ta, tor­nou-se re­al­men­te di­fí­cil.

Até o fi­nal da guer­ra, os ja­po­ne­ses con­se­gui­ram re­cu­pe­rar per­to de 200 to­ne­la­das de mo­e­das.

Uma for­tu­na pa­ra os pa­drõ­es da épo­ca, mas, ain­da as­sim, me­nos da me­ta­de do to­tal do te­sou­ro ori­gi­nal.

Quando a guerra acabou, con­for­me o com­bi­na­do, os ame­ri­ca­nos vol­ta­ram pa­ra tentar recuperar pelo menos parte da for­tu­na dos fi­li­pi­nos do fundo do mar.

Mas, por causa do rebuliço causado pelo tufão no leito marinho, só con­se­gui­ram achar uma mínima par­te mais.

No to­tal, apenas três quartos da for­tu­na fi­li­pi­na foi retirada de dentro d´água – seja pelos americanos ou pelos japoneses.

O res­tan­te con­ti­nuou – e continua, até hoje! – afun­da­do e escondido em algum ponto da lama do fundo da baía.

Anos de­pois, o go­ver­no fi­li­pi­no re­a­li­zou novas bus­cas, mas de­sis­tiu de­pois de con­clu­ir que gas­ta­ria mais nas ope­ra­coes de res­ga­te do que o valor do próprio ouro e prata.

Com isso, per­mi­tiu o iní­cio de uma atividade turística curiosa: a “ca­ça ao te­sou­ro”, nas águas pró­xi­mas a Cor­re­gi­dor – que existe até hoje.

De lá pa­ra cá, de vez em quan­do, um turista-mer­gu­lha­dor vol­ta com uma mo­e­di­nha nas mãos.

Su­põe-se que ain­da ha­ja cer­ca de três mi­lhõ­es de­las espalhadas por lá.

Mas é certo que a maior parte jamais será encontrada.

Gostou desta história?

Ela faz parte dos livros HISTÓRIAS DO MAR – 200 CASOS VERÍDICOS DE FAÇANHAS, DRAMAS, AVENTURAS E ODISSEIAS NOS OCEANOS, cujo VOLUME 3 e acaba de ser lançado e pode ser comprado CLICANDO AQUI, com ENVIO GRÁTIS, 

Clique aqui para ler outras histórias

VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE OS LIVROS HISTÓRIAS DO MAR


Sensacional! Difícil parar de ler”.
Amyr Klink, navegador

“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor

 

 

 

 

 

Tragédia em uma lagoa urbana

Tragédia em uma lagoa urbana

Era dia de festa em João Pessoa. Naquele 24 de agosto de 1975, um domingo ensolarado, o Dia do Soldado estava sendo comemorado com uma concorrida exposição de armas, fotos, carros de combates e alguns canhões, no principal ponto da capital paraibana, a lagoa Solon de Lucena, bem no centro da cidade.

Mas a atração que mais interessava as pessoas, sobretudo as crianças, era a oportunidade de dar uma volta na lagoa na balsa que o Exército também levara para a festa, o que gerou uma longa fila de espera, o dia inteiro.

Mas, no final de tarde, já quase anoitecendo, a festa estava por terminar e os soldados encarregados de organizar o embarque dos passageiros na balsa, que não passava de uma chata de transporte de carga, avisaram que aquela seria a última viagem.

O comunicado gerou um frenesi entre quem estava esperando na fila a vez de navegar na lagoa, ao redor da fonte luminosa, passeio que não durava mais que 15 minutos.

Depois daquela última partida, só no ano seguinte, quando houvesse outra festa do Dia do Soldado.

Ao ouvir o aviso, a multidão abandonou a fila ordeira e todos correram para garantir um lugar na balsa, a despeito das tentativas frustradas dos soldados de colocar alguma ordem no embarque caótico.

Só parou de entrar gente quando não cabia mais ninguém naquele pranchão flutuante, que era operado por um piloto igualmente espremido na popa.

Embarcaram perto de 200 pessoas, embora a capacidade da balsa fosse para pouco mais de 50.

E nenhuma delas com colete salva-vidas.

Menos de três minutos após partir, quando a balsa superlotada ainda estava a cerca de 50 metros da margem, as pessoas em volta da lagoa notaram que o piso da embarcação estava estranhamente se aproximando da superfície da água. Lentamente, centímetro a centímetro, a balsa estava cedendo ao peso exagerado, até que os pés dos ocupantes começaram a ficar molhados.

Em seguida, submersos.

E aquele amontoado de gente seguiu afundando gradualmente, em câmera lenta, sem que nada fosse feito, apesar da proximidade com a margem da lagoa – que, no entanto, era bem profunda naquele trecho.

Só quando a água subiu até quase os joelhos, e os pais começaram a erguer as crianças sobre as cabeças, é que começou o alvoroço.

E, com ele, o pânico, que fez muita gente cair na água, empurrada pelos outros.

Como ninguém vestia colete salva-vidas e muitos não sabiam nadar, a começar pelas crianças, que eram quase maioria no barco, a tragédia começou a se delinear.

Quem permaneceu na balsa semi-submersa, tentava se manter sobre o casco, que sumia sob os seus pés.

E os que já estavam na água, agarravam-se mutuamente, na desesperada luta pela sobrevivência.

Com isso, um afogava o outro.

O cenário era desesperador e acompanhado com aflição por todos que estavam na margem, assistindo, atônitos, aquele trágico espetáculo – um dramático naufrágio com plateia e endereço: altura da rua Padre Meira, na parte mais profunda da lagoa, que ali chegava aos cinco metros.

Quem passava de carro pelas ruas que contornavam a lagoa, parava para acompanhar o drama das vítimas, embora pouquíssimos tenham entrado na água para ajudá-las.

A exceção foi o sargento Reginaldo Calixto, que aproveitara o seu dia de folga para ir à festa, e caminhava na calçada que circundava a lagoa quando ouviu a gritaria.

Sem pensar duas vezes, se jogou na água e começou a puxar quem via pela frente.

Mas, logo agarrados por todos os lados pelos náufragos desesperados, acabou também sucumbindo naquele absurdo naufrágio, que matou até quem não estava na balsa.

Outro herói do dia foi o radialista Gilvan de Brito, que também estava na lagoa passeando com a família.

Ao ver a balsa afundando, ele correu no sentido oposto ao da lagoa.

Mas por um bom motivo: foi para a rádio na qual trabalhava, a Tabajara, a poucas quadras de distância, interrompeu a transmissão de uma partida de futebol, anunciou a tragédia e convocou todas as pessoas “que soubessem nadar” para ajudar.

Rapidamente, voluntários começaram a chegar, muitos a pé, porque moravam nas ruas que rodeavam a lagoa, trazendo tudo o que pudesse flutuar – boias, galões, pedaços de pau.

Minutos depois, chegou também o Corpo de Bombeiros, que também ouvira a notícia dada pelo radialista.

Mas era tarde demais.

Corpos já flutuavam na lagoa, enquanto pais desesperados buscavam pelos filhos que não conseguiram sair da água.

O Brasil nunca tinha visto nada igual.

Muito menos em uma plácida lagoa urbana de não mais que 500 metros, no centro de uma capital.

O trabalho de busca e resgate dos corpos na água escura da lagoa continuou a noite inteira.

Até porque, como não se sabia quantas pessoas havia na balsa, era impossível saber quantos tinham morrido.

Quando o dia amanheceu, uma multidão ainda maior lotou o perímetro da lagoa, para acompanhar a retirada dos corpos – que eram colocados lado a lado na margem, para serem identificados pelos familiares.

Até o prefeito da cidade foi para lá, prestar solidariedade.

Em dado momento, um sobrevivente do naufrágio, que vagava desorientado pela lagoa desde o acidente, desabou em prantos na calçada.

Estirados no gramado, jaziam os corpos de sua mulher e seus três filhos. Uma cena que se repetiria outras vezes ao longo do dia, já que praticamente só haviam famílias na balsa.

E crianças. Muitas crianças.

No final, a fúnebre contabilidade do desastre somou 35 mortos, incluindo o soldado pelo pilotava a balsa. 29 deles eram crianças.

Foi a maior tragédia da história de João Pessoa, até hoje.

Mas, como o Brasil viva os duros anos da ditadura militar – e a catastrófica festa fora organizada pelo Exército -, o acidente não repercutiu muito fora dali, porque, na época, as notícias eram minimizadas ou simplesmente censuradas.

Tempos depois, o inquérito que investigou o caso apontou o Exército como responsável pelo acidente, por ter permitido o excesso de pessoas na balsa e sem nenhum tipo de proteção.

Mas ninguém foi punido ou sequer rebaixado de cargo.

A única consequência prática foi que, no ano seguinte, não houve comemoração do Dia do Soldado em João Pessoa.

Nem ninguém na cidade sentiu falta disso.

Gostou desta história?

Ela faz parte do NOVO LIVRO HISTÓRIAS DO MAR – VOLUME 3 – 100 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos, que ACABA DE SER LANÇADO, e pode ser comprado com CLICANDO AQUI, com ENVIO GRÁTIS

Clique aqui para ler outras histórias

VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE OS LIVROS HISTÓRIAS DO MAR


Sensacional! Difícil parar de ler”.
Amyr Klink, navegador

“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor

Teria o tesouro deste navio sido encontrado?

Teria o tesouro deste navio sido encontrado?

Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, com a invasão da Polônia pela Alemanha, em 1º de setembro de 1939, o navio cargueiro alemão SS Minden estava iniciando a travessia do Atlântico Sul, entre a Argentina e a África do Sul, bem longe daquele cenário de pré-guerra na Europa.

Mesmo assim, o seu comandante recebeu ordens de retornar à América do Sul e buscar um porto neutro, para que o navio não corresse o risco de ser confiscado. Todos os capitães de embarcações navegando sob bandeira alemã receberam a mesma instrução.

Mas a do comandante do Minden veio acrescida de outra ordem específica: a de que ele rumasse para o porto do Rio de Janeiro, onde o navio receberia um carregamento de resinas, destinado às indústrias alemãs, “entre outras mercadorias” – uma delas, um suposto carregamento de cerca de quatro toneladas de ouro (que, por razões de segurança, não constavam nos manifestos de carga), que seriam transferidas da sede do Banco Germânico, filial brasileira do banco alemão Dresden, para a Alemanha – que, antevendo as extensões do conflito, sabia que necessitaria de recursos para financiá-lo.

Cinco dias depois, após ser abastecido e carregado com as mercadorias (incluindo o suposto ouro do banco alemão), o cargueiro partiu do porto brasileiro, com destino ao seu país de origem. Mas nunca chegou lá.

Quando navegava a cerca de 190 quilômetros da costa da Islândia, em uma rota propositalmente incomum para os navios que vinham da América do Sul, o Minden foi avistado pelos cruzadores da Marinha Britânica Calypso e Dunedin, e seu capitão recebeu ordens de parar. E parou.

Mas apenas para executar outra ordem que recebera, assim que informou sua base na Alemanha sobre a iminente abordagem dos navios ingleses: a de que afundasse o próprio navio, para que o seu conteúdo não caísse nas mãos do inimigo.

O capitão alemão mandou sua tripulação abrir todas as válvulas do casco e passar para os botes salva-vidas – que, mais tarde, seriam resgatados por um dos próprios cruzadores ingleses. Em seguida, o Minden afundou com toda a sua carga – inclusive aquele suposto carregamento de ouro brasileiro, que a Alemanha não queria que caísse nas mãos dos ingleses.

Consta que a ordem de afundamento teria vindo do próprio Hitler, o que só faria sentido se houvesse realmente algo de muito valioso naquele insignificante navio. Mas, com o desenrolar da guerra e as dimensões mundiais que o conflito foi ganhando, o intrigante naufrágio proposital do Minden logo foi abafado por inúmeros outros casos. Mas não esquecido.

Quase oito décadas depois, com base em documentos da época, uma recém criada empresa inglesa de exploração de naufrágios, a Advanced Marine Services, decidiu trazer o caso novamente à tona, promovendo uma expedição particular para tentar localizar os restos do cargueiro alemão no fundo do mar. E os encontrou, com a ajuda de um navio especial de prospecção, o Seabed Constructor, alugado por cerca de 100 000 dólares ao dia, em abril de 2017, a 2 240 metros de profundidade.

Na época, o achado (do navio, não do seu eventual conteúdo milionário) foi notícia no mundo inteiro. Por dois motivos: a detenção do navio de pesquisa e de toda a sua equipe por não haver uma autorização do governo da Islândia para aquela prospecção em sua zona exclusiva de exploração marítima, e porque aquela custosa operação só se justificaria se houvesse, de fato, algo muito valioso a bordo daquele velho cargueiro – o que a empresa inglesa acreditava ser verdade.

A detenção da equipe pela polícia islandesa durou apenas alguns dias, e a empresa foi autorizada a repetir a operação no ano seguinte, desta vez sob a vigília da Marinha da Islândia.

Em 2018, os técnicos da Advanced Marine voltaram ao local do naufrágio, e, durante três dias, vasculharam, com robôs submarinos, os escombros do navio. Até que o prazo concedido pelo governo islandês se esgotou, ao mesmo tempo em que o mau tempo obrigou a equipe a suspender a varredura que vinha fazendo no interior do Minden, o que implicava, inclusive, em cortar pedaços do casco.

Novamente, a equipe inglesa teve que abandonar a área, desta vez, porém, sem pleitear uma nova expedição. E nunca mais voltou a explorar os restos do SS Minden.

Três anos depois, a Advanced Marine Services (que, se supõe, era apoiada pelo milionário inglês Anthony Clake, suspeito de financiar saques ilegais em diversos naufrágios mundo afora) foi dissolvida e deixou de existir. Mas nunca ficou claro se a empresa foi fechada porque desistira de vez do resgate do eventual ouro que SS Minden transportava (hoje avaliado em algo em superior a 100 milhões de dólares), ou porque já havia atingido o seu objetivo.

Restou apenas um mistério dentro do outro.

Gostou desta história?

Ela faz parte dos livros HISTÓRIAS DO MAR –  CASOS VERÍDICOS DE FAÇANHAS, DRAMAS, AVENTURAS E ODISSEIAS NOS OCEANOS, cujo VOLUME 3 acaba de ser lançado e pode ser comprado com ENVIO GRÁTIS, CLICANDO AQUI.

Clique aqui para ler outras histórias

VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE OS LIVROS HISTÓRIAS DO MAR


Sensacional! Difícil parar de ler”.
Amyr Klink, navegador

“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor