por Jorge de Souza | ago 28, 2025
Em dezembro de 1941, o Japão invadiu invadir as Filipinas, por conta da Segunda Guerra Mundial.
Pouco antes disso, já antevendo o ataque, o governo dos Estados Unidos, aliado dos filipinos, decidiu escoar parte do tesouro das Filipinas, da capital Manila para uma ilhota próxima, onde os americanos mantinham uma base, chamada Corregidor.
Foram cerca de 350 toneladas de metais preciosos (prata, principalmente), avaliadas, então, em cerca de 50 milhões de dólares.
Com isso, a tal ilhota ficou entupida de prata, o que também representava um risco para os filipinos.
Foi quando os americanos decidiram enviar secretamente um submarino para lá, o Trout, para retirar parte daquela valiosa “carga”.
Ele voltou com duas toneladas em barras de ouro e 18 toneladas em moedas de prata.
Mesmo assim, muito pouco.
E ainda restaram mais de 300 toneladas de metais preciosos na ilha.
O que fazer com todo aquele ouro e prata praticamente à mostra?
Como esconder tamanho volume de preciosidades dos inimigos japoneses, já tão próximos dali?
A solução foi como a de um folhetim de piratas: afundar tudo no mar, para, depois, quando a guerra terminasse, resgatar.
E assim foi feito.
O esconderijo escolhido foi uma parte de fundo arenoso da baía, com cerca de 40 metros de profundidade, bem próxima à ilha.
Os metais foram colocados em caixas e nada menos que 2 632 delas foram depositadas no fundo do mar, ao cabo de nove viagens secretas.
A operação veio na hora exata.
Dias depois, a base de Corregidor foi tomada pelos japoneses e todos os soldados americanos foram presos, na própria ilha.
Entre eles, meia dúzia de mergulhadores da Marinha dos Estados Unidos, que, mais tarde, desempenhariam papel crucial nessa história.
Logo após a invasão da ilha, os japoneses ficaram sabendo, através de espiões, do tal tesouro afundado.
Mas como eram do Exército (e não da Marinha, corporação que eles preferiam manter distância, por puro orgulho — e, também, porque pretendiam doar o tesouro filipino ao Imperador japonês em nome do Exército e não da Marinha), não havia nenhum mergulhador entre os invasores nipônicos.
Eles decidiram, então, recrutar mergulhadores filipinos para a missão de recolher as caixas do fundo do mar.
E os que não aceitassem a missão, seriam presos.
Dos oito mergulhadores filipinos recrutados, todos acostumados ao mergulho livre, não ao uso de cilindros de ar-comprimido, três morreram logo no início da operação, vítimas de descompressões mal feitas – porque, como os japoneses não sabiam exatamente em qual ponto da baía estava o tesouro, era preciso, primeiro, achá-lo.
Assustados, os outros cinco mergulhadores filipinos abandonaram o trabalho e preferiram ser presos a morrer, como os seus companheiros.
Foi quando o coronel japonês Akido, responsável pela missão de resgate, chegou a uma conclusão lógica: se foram os americanos que jogaram o tesouro no mar, seriam eles que iriam tirá-lo de lá!
Novamente, ele “recrutou” ajuda externa.
Só que, desta vez, dos próprios americanos que eles haviam sido feito prisioneiros.
E foi aí que entraram em cena àqueles seis mergulhadores americanos: Morris Solomon, Paul Mann, Virgil Sauers, Wally Barton, Alan Stanley e Edgar Morse, todos também envolvidos na operação de esconder o tesouro, semanas antes.
— Tenho boas notícias para vocês —, anunciou, sorridente e num inglês perfeito, o coronel japonês, ao encontrar-se pela primeira vez com os seis mergulhadores-prisioneiros.
A partir de agora, vocês estarão livres da prisão e com direito a muitas regalias.
Desde que nos ajudem a limpar alguns “destroços” do fundo do mar, que estão atrapalhando a nossa navegação.
Tratava-se, obviamente, de uma mentira.
E os mergulhadores sabiam disso.
Mas, fazer o quê quando se está nas mãos do inimigo?
Todos os seis aceitaram a missão e, automaticamente, tornaram-se “VIPs”- ou “Very Important Prisioners”, como brincariam, depois, os sobreviventes.
Mas os mergulhadores americanos só aceitaram a missão porque já haviam traçado seus próprios planos.
Eles se beneficiariam dos confortos oferecidos pelos japoneses (uma balsa com cabines no lugar de celas, comidas e bebidas à vontade, etc), mas sabotariam pelo menos parcialmente a missão, trabalhando lentamente e desviando parte do resgate para os colegas presos em Corregidor, de forma que eles pudessem usar a prata e o ouro para subornar os carceireiros e, num plano mais amplo, financiar a guerrilha filipina contra os próprios invasores japoneses.
Uma engenhosa vingança silenciosa.
A dúvida era como eles fariam chegar uma parte do tesouro até os colegas presos?
A resposta estava nos carregadores filipinos, que estavam dispostos a ajudar a desviar parte dos carregamentos, desde que ficassem com uma parcela deles.
Mesmo assim, como os seis americanos fariam para esconder a maior parte do tesouro roubado dos japoneses bem diante deles?
Simples: enfiando moedas e barras de ouro dentro das roupas de mergulho e, depois, transferindo-as para sacolas submersas, presas no fundo da balsa, feito cabides submarinos.
Como a balsa, que ficava ancorada no meio da baía, era periodicamente visitada por “pescadores” filipinos (na verdade, guerrilheiros disfarçados de pescadores), bastaria esconder as cestas no meio dos peixes e ir transferindo a prata, aos poucos, para os prisioneiros na ilha.
A vigilância japonesa era intensa.
Mas incapaz de detectar a fraude.
Embora suspeitasse que ela existia.
O problema é que os japoneses não faziam idéia de quanta prata e ouro havia no fundo da baía, nem o grau de dificuldade em resgatá-la.
Com isso, eram obrigados a engolir o que os americanos diziam. Virgil Sauers, o primeiro americano a mergulhar, voltou à superfície falando em “péssima visibilidade”, “correntes fortíssimas” e “dificuldades em encontrar as caixas”, quando, na verdade, elas estavam ordeiramente empilhadas uma sobre as outras, na forma de duas enormes pirâmides submarinas.
Já o segundo mergulhador, Moe Solomon, voltou com uma caixa semidestruída (que ele mesmo arrebentara no fundo, para colher as primeiras moedas do desvio) e a usou para justificar as tais “dificuldades do resgate”.
— As caixas apodreceram e espalharam as moedas na areia. Fui obrigado a catar uma por uma — disse, justificando assim a demora e a suposta complexidade da operação.
A partir daí, o objetivo passou a ser o de trazer para os japoneses apenas o mínimo necessário para mantê-los na missão – que, obviamente, era vista com ótimos olhos pelo governo americano.
Afinal, em plena guerra, aqueles mergulhadores estavam roubando os japoneses bem debaixo dos narizes delês, e, ainda por cima, patrocinando a contra-guerrilha filipina.
Mas, insatisfeitos com a baixa produtividade, os japoneses recrutaram mais três mergulhadores americanos: Harry Anderson, Bob Sheats e George Chopchick.
A roubalheira, contudo, só aumentou.
Irritado, o coronel Akido ordenou que a balsa dos mergulhadores mudasse para um ponto próximo a base japonesa, de forma que o movimento dos americanos pudesse ser melhor controlado.
A decisão trazia um problema real, porque decretaria o fim da total privacidade dos mergulhadores para esconder as cestas carregadas sob o casco da balsa.
Mas, num golpe de sorte, no dia da mudança um tufão atingiu a Baía de Manila e quase arremessou a balsa rebocada de encontro ao píer da base japonesa.
Assustados, os oficiais japonses voltaram atrás e devolveram a balsa ao seu ancoradouro original.
Entretanto, ironicamente, a mesma tempestade que salvou os mergulhadores de um desmascaramento quase certo, arrebentou as cestas penduradas debaixo do casco e levou muitas moedas de prata para a costa, onde foram flagradas pelos japoneses, nos dias subsequentes.
Pior ainda: demoliu as pilhas de caixas submersas e espalhou boa parte do ouro e prata no fundo da baía, tornando – agora, sim – bem difícil a sua localização e resgate.
Era o começo do fim desta história.
Mas início de uma lenda que perdura até hoje: a do tesouro perdido da Baía de Manila.
Convencidos de que realmente estavam sendo passados para trás, os japoneses resolveram mandar todos os mergulhadores de volta à prisão (onde, por sinal, foram recebidos como heróis pelos colegas) e contrataram outros, de outras regiões das Filipinas, para continuar o resgate.
Mas os danos do tufão nas caixas haviam sido grandes e, por isso, a recuperação da prata, tornou-se realmente difícil.
Até o final da guerra, os japoneses conseguiram recuperar perto de 200 toneladas de moedas.
Uma fortuna para os padrões da época, mas, ainda assim, menos da metade do total do tesouro original.
Quando a guerra acabou, conforme o combinado, os americanos voltaram para tentar recuperar pelo menos parte da fortuna dos filipinos do fundo do mar.
Mas, por causa do rebuliço causado pelo tufão no leito marinho, só conseguiram achar uma mínima parte mais.
No total, apenas três quartos da fortuna filipina foi retirada de dentro d´água – seja pelos americanos ou pelos japoneses.
O restante continuou – e continua, até hoje! – afundado e escondido em algum ponto da lama do fundo da baía.
Anos depois, o governo filipino realizou novas buscas, mas desistiu depois de concluir que gastaria mais nas operacoes de resgate do que o valor do próprio ouro e prata.
Com isso, permitiu o início de uma atividade turística curiosa: a “caça ao tesouro”, nas águas próximas a Corregidor – que existe até hoje.
De lá para cá, de vez em quando, um turista-mergulhador volta com uma moedinha nas mãos.
Supõe-se que ainda haja cerca de três milhões delas espalhadas por lá.
Mas é certo que a maior parte jamais será encontrada.
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Rondon de Castro, leitor
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André Cavallari, leitor
por Jorge de Souza | ago 15, 2025
Era dia de festa em João Pessoa. Naquele 24 de agosto de 1975, um domingo ensolarado, o Dia do Soldado estava sendo comemorado com uma concorrida exposição de armas, fotos, carros de combates e alguns canhões, no principal ponto da capital paraibana, a lagoa Solon de Lucena, bem no centro da cidade.
Mas a atração que mais interessava as pessoas, sobretudo as crianças, era a oportunidade de dar uma volta na lagoa na balsa que o Exército também levara para a festa, o que gerou uma longa fila de espera, o dia inteiro.
Mas, no final de tarde, já quase anoitecendo, a festa estava por terminar e os soldados encarregados de organizar o embarque dos passageiros na balsa, que não passava de uma chata de transporte de carga, avisaram que aquela seria a última viagem.
O comunicado gerou um frenesi entre quem estava esperando na fila a vez de navegar na lagoa, ao redor da fonte luminosa, passeio que não durava mais que 15 minutos.
Depois daquela última partida, só no ano seguinte, quando houvesse outra festa do Dia do Soldado.
Ao ouvir o aviso, a multidão abandonou a fila ordeira e todos correram para garantir um lugar na balsa, a despeito das tentativas frustradas dos soldados de colocar alguma ordem no embarque caótico.
Só parou de entrar gente quando não cabia mais ninguém naquele pranchão flutuante, que era operado por um piloto igualmente espremido na popa.
Embarcaram perto de 200 pessoas, embora a capacidade da balsa fosse para pouco mais de 50.
E nenhuma delas com colete salva-vidas.
Menos de três minutos após partir, quando a balsa superlotada ainda estava a cerca de 50 metros da margem, as pessoas em volta da lagoa notaram que o piso da embarcação estava estranhamente se aproximando da superfície da água. Lentamente, centímetro a centímetro, a balsa estava cedendo ao peso exagerado, até que os pés dos ocupantes começaram a ficar molhados.
Em seguida, submersos.
E aquele amontoado de gente seguiu afundando gradualmente, em câmera lenta, sem que nada fosse feito, apesar da proximidade com a margem da lagoa – que, no entanto, era bem profunda naquele trecho.
Só quando a água subiu até quase os joelhos, e os pais começaram a erguer as crianças sobre as cabeças, é que começou o alvoroço.
E, com ele, o pânico, que fez muita gente cair na água, empurrada pelos outros.
Como ninguém vestia colete salva-vidas e muitos não sabiam nadar, a começar pelas crianças, que eram quase maioria no barco, a tragédia começou a se delinear.
Quem permaneceu na balsa semi-submersa, tentava se manter sobre o casco, que sumia sob os seus pés.
E os que já estavam na água, agarravam-se mutuamente, na desesperada luta pela sobrevivência.
Com isso, um afogava o outro.
O cenário era desesperador e acompanhado com aflição por todos que estavam na margem, assistindo, atônitos, aquele trágico espetáculo – um dramático naufrágio com plateia e endereço: altura da rua Padre Meira, na parte mais profunda da lagoa, que ali chegava aos cinco metros.
Quem passava de carro pelas ruas que contornavam a lagoa, parava para acompanhar o drama das vítimas, embora pouquíssimos tenham entrado na água para ajudá-las.
A exceção foi o sargento Reginaldo Calixto, que aproveitara o seu dia de folga para ir à festa, e caminhava na calçada que circundava a lagoa quando ouviu a gritaria.
Sem pensar duas vezes, se jogou na água e começou a puxar quem via pela frente.
Mas, logo agarrados por todos os lados pelos náufragos desesperados, acabou também sucumbindo naquele absurdo naufrágio, que matou até quem não estava na balsa.
Outro herói do dia foi o radialista Gilvan de Brito, que também estava na lagoa passeando com a família.
Ao ver a balsa afundando, ele correu no sentido oposto ao da lagoa.
Mas por um bom motivo: foi para a rádio na qual trabalhava, a Tabajara, a poucas quadras de distância, interrompeu a transmissão de uma partida de futebol, anunciou a tragédia e convocou todas as pessoas “que soubessem nadar” para ajudar.
Rapidamente, voluntários começaram a chegar, muitos a pé, porque moravam nas ruas que rodeavam a lagoa, trazendo tudo o que pudesse flutuar – boias, galões, pedaços de pau.
Minutos depois, chegou também o Corpo de Bombeiros, que também ouvira a notícia dada pelo radialista.
Mas era tarde demais.
Corpos já flutuavam na lagoa, enquanto pais desesperados buscavam pelos filhos que não conseguiram sair da água.
O Brasil nunca tinha visto nada igual.
Muito menos em uma plácida lagoa urbana de não mais que 500 metros, no centro de uma capital.
O trabalho de busca e resgate dos corpos na água escura da lagoa continuou a noite inteira.
Até porque, como não se sabia quantas pessoas havia na balsa, era impossível saber quantos tinham morrido.
Quando o dia amanheceu, uma multidão ainda maior lotou o perímetro da lagoa, para acompanhar a retirada dos corpos – que eram colocados lado a lado na margem, para serem identificados pelos familiares.
Até o prefeito da cidade foi para lá, prestar solidariedade.
Em dado momento, um sobrevivente do naufrágio, que vagava desorientado pela lagoa desde o acidente, desabou em prantos na calçada.
Estirados no gramado, jaziam os corpos de sua mulher e seus três filhos. Uma cena que se repetiria outras vezes ao longo do dia, já que praticamente só haviam famílias na balsa.
E crianças. Muitas crianças.
No final, a fúnebre contabilidade do desastre somou 35 mortos, incluindo o soldado pelo pilotava a balsa. 29 deles eram crianças.
Foi a maior tragédia da história de João Pessoa, até hoje.
Mas, como o Brasil viva os duros anos da ditadura militar – e a catastrófica festa fora organizada pelo Exército -, o acidente não repercutiu muito fora dali, porque, na época, as notícias eram minimizadas ou simplesmente censuradas.
Tempos depois, o inquérito que investigou o caso apontou o Exército como responsável pelo acidente, por ter permitido o excesso de pessoas na balsa e sem nenhum tipo de proteção.
Mas ninguém foi punido ou sequer rebaixado de cargo.
A única consequência prática foi que, no ano seguinte, não houve comemoração do Dia do Soldado em João Pessoa.
Nem ninguém na cidade sentiu falta disso.
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André Cavallari, leitor
por Jorge de Souza | ago 8, 2025
Quando a Segunda Guerra Mundial estourou, com a invasão da Polônia pela Alemanha, em 1º de setembro de 1939, o navio cargueiro alemão SS Minden estava iniciando a travessia do Atlântico Sul, entre a Argentina e a África do Sul, bem longe daquele cenário de pré-guerra na Europa.
Mesmo assim, o seu comandante recebeu ordens de retornar à América do Sul e buscar um porto neutro, para que o navio não corresse o risco de ser confiscado. Todos os capitães de embarcações navegando sob bandeira alemã receberam a mesma instrução.
Mas a do comandante do Minden veio acrescida de outra ordem específica: a de que ele rumasse para o porto do Rio de Janeiro, onde o navio receberia um carregamento de resinas, destinado às indústrias alemãs, “entre outras mercadorias” – uma delas, um suposto carregamento de cerca de quatro toneladas de ouro (que, por razões de segurança, não constavam nos manifestos de carga), que seriam transferidas da sede do Banco Germânico, filial brasileira do banco alemão Dresden, para a Alemanha – que, antevendo as extensões do conflito, sabia que necessitaria de recursos para financiá-lo.
Cinco dias depois, após ser abastecido e carregado com as mercadorias (incluindo o suposto ouro do banco alemão), o cargueiro partiu do porto brasileiro, com destino ao seu país de origem. Mas nunca chegou lá.
Quando navegava a cerca de 190 quilômetros da costa da Islândia, em uma rota propositalmente incomum para os navios que vinham da América do Sul, o Minden foi avistado pelos cruzadores da Marinha Britânica Calypso e Dunedin, e seu capitão recebeu ordens de parar. E parou.
Mas apenas para executar outra ordem que recebera, assim que informou sua base na Alemanha sobre a iminente abordagem dos navios ingleses: a de que afundasse o próprio navio, para que o seu conteúdo não caísse nas mãos do inimigo.
O capitão alemão mandou sua tripulação abrir todas as válvulas do casco e passar para os botes salva-vidas – que, mais tarde, seriam resgatados por um dos próprios cruzadores ingleses. Em seguida, o Minden afundou com toda a sua carga – inclusive aquele suposto carregamento de ouro brasileiro, que a Alemanha não queria que caísse nas mãos dos ingleses.
Consta que a ordem de afundamento teria vindo do próprio Hitler, o que só faria sentido se houvesse realmente algo de muito valioso naquele insignificante navio. Mas, com o desenrolar da guerra e as dimensões mundiais que o conflito foi ganhando, o intrigante naufrágio proposital do Minden logo foi abafado por inúmeros outros casos. Mas não esquecido.
Quase oito décadas depois, com base em documentos da época, uma recém criada empresa inglesa de exploração de naufrágios, a Advanced Marine Services, decidiu trazer o caso novamente à tona, promovendo uma expedição particular para tentar localizar os restos do cargueiro alemão no fundo do mar. E os encontrou, com a ajuda de um navio especial de prospecção, o Seabed Constructor, alugado por cerca de 100 000 dólares ao dia, em abril de 2017, a 2 240 metros de profundidade.
Na época, o achado (do navio, não do seu eventual conteúdo milionário) foi notícia no mundo inteiro. Por dois motivos: a detenção do navio de pesquisa e de toda a sua equipe por não haver uma autorização do governo da Islândia para aquela prospecção em sua zona exclusiva de exploração marítima, e porque aquela custosa operação só se justificaria se houvesse, de fato, algo muito valioso a bordo daquele velho cargueiro – o que a empresa inglesa acreditava ser verdade.
A detenção da equipe pela polícia islandesa durou apenas alguns dias, e a empresa foi autorizada a repetir a operação no ano seguinte, desta vez sob a vigília da Marinha da Islândia.
Em 2018, os técnicos da Advanced Marine voltaram ao local do naufrágio, e, durante três dias, vasculharam, com robôs submarinos, os escombros do navio. Até que o prazo concedido pelo governo islandês se esgotou, ao mesmo tempo em que o mau tempo obrigou a equipe a suspender a varredura que vinha fazendo no interior do Minden, o que implicava, inclusive, em cortar pedaços do casco.
Novamente, a equipe inglesa teve que abandonar a área, desta vez, porém, sem pleitear uma nova expedição. E nunca mais voltou a explorar os restos do SS Minden.
Três anos depois, a Advanced Marine Services (que, se supõe, era apoiada pelo milionário inglês Anthony Clake, suspeito de financiar saques ilegais em diversos naufrágios mundo afora) foi dissolvida e deixou de existir. Mas nunca ficou claro se a empresa foi fechada porque desistira de vez do resgate do eventual ouro que SS Minden transportava (hoje avaliado em algo em superior a 100 milhões de dólares), ou porque já havia atingido o seu objetivo.
Restou apenas um mistério dentro do outro.
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