
O navio que se disfarçava de ilha
A camuflagem sempre foi um dos artifícios mais utilizados nas guerras.
De rostos pintados a vestimentas que imitam o solo dos campos de batalha, praticamente todos os beligerantes já utilizaram o truque do mimetismo para enganar o inimigo.
Mas poucos de maneira tão original quanto os tripulantes do pequeno caça-minas holandês Abraham Crijnssen, na Segunda Guerra Mundial.
Em 27 de fevereiro de 1942, quando a frota japonesa atacou e esmagou os Aliados na Batalha do Mar de Java, atual Indonésia, apenas um navio conseguiu fugir a tempo do massacre: o acanhado Abraham Crijnssen.
Mas, com pouco mais de 50 metros de comprimento, baixa velocidade e apenas três canhões para defendê-lo, parecia certo que as suas chances de escapar das buscas aéreas que os aviões japoneses faziam na região eram mínimas.
Foi quando os seus 45 tripulantes tiveram uma ideia que parecia maluca demais para dar certo: revestir o navio inteiro com galhos, arbustos e vegetações, para que, do alto, parecesse uma ilha.
A princípio, o plano parecia fadado ao fracasso, tal as dimensões da empreitada.
Mas como eles não tinham outra alternativa a não ser esperar passivamente pelo bombardeio, por que não tentar?
A primeira providência foi ancorar ao lado de uma ilha deserta, entre as milhares que existem no mar da Indonésia, na época chamada de Índias Orientais Holandesas, e transpor para o navio tudo o que pudesse camuflá-lo – sobretudo folhas e galhos, que também foram usados para transformar o mastro do caça-minas em um simulacro de árvore.
O convés inteiro foi forrado com vegetação, e o pouco que restou à mostra foi pintado de cinza escuro, para parecer pedras.
Grandes galhadas também foram colocadas amuradas afora, até quase tocar a água, encobrindo assim as laterais do casco.
O Abraham Crijnssen ficou totalmente revestido de verde e mais parecia uma moita flutuante.
Já a segunda providência foi passar a navegar apenas à noite, para diminuir as chances de ser avistado pelos aviões japoneses.
Durante a luz do dia, do amanhecer ao entardecer, o navio ficava ancorado o mais próximo possível de alguma ilha, de forma que parecesse a extensão natural dela.
E deu certo.
A camuflagem ficou tão convincente que o Abraham Crijnssen não foi detectado por nenhum avião japones de patrulha, durante as quase duas semanas que levou para sair da área dominada pelos inimigos – embora alguns o tenham sobrevoado mais de uma vez.
E foi assim, de disfarce em disfarce, que o curioso navio-ilha conseguiu sair incólume da zona dominada pelos japoneses e ganhou o mar aberto, rumo a segurança da Austrália.
Em 20 de março daquele ano, ainda camuflado – e quase um mês após a batalha da qual escapara graças ao engenhoso artifício -, o pequeno caça-minas holandês chegou à Austrália, onde foi incorporado à Marinha local e transformado em barco de escolta para comboios, função que desempenhou até o final da guerra.
Mas nem com o fim do conflito se encerrou a história do ardiloso Abraham Crijnssen.
Devolvido à Marinha Holandesa, o ex-caça-minas foi mandado de volta à Indonésia, onde atuou por mais 15 anos como barco de patrulha, tendo visitado, por diversas vezes, o mesmo local na qual passara pela mais radical – e original – mutação que um navio já teve.
Aquela que o transformou em uma peculiar ilha que se movimentava.
Gostou desta história?
Ela faz parte do NOVO LIVRO HISTóRIAS DO MAR – VOLUME 3, Casos Verídicos de Façanhas, Dramas, Aventuras e Odisseias nos Oceanos, que pode ser comprado clicando AQUI, com ENVIO GRáTIS.
Comentários