Contrariando expectativas, o aventureiro francês Jean Jacques Savin conseguiu completar, na semana retrasada, a travessia do oceano Atlântico totalmente à deriva dentro de uma espécie de barril, que ele mesmo construiu, sem velas, nem motor nem nenhum tipo de propulsão.

Ele havia partido das Ilhas Canárias no dia 26 de dezembro, planejando chegar do outro lado do oceano em cerca de três meses, levado apenas pelos ventos e correntes marítimas, na mais ousada travessia do Atlântico que se tem notícia.

Levou pouco mais de um mês além disso.

Aós 122 dias no mar e mais de 5 000 quilômetros percorridos totalmente à deriva, Savin deu por completada a inédita travessia no último dia 27 de abril, ao cruzar com seu barril o Meridiano 65 W, usado para delimitar oficialmente o Mar do Caribe dentro do oceano Atlântico.

Ele, então, fez contato com a Guarda Costeira americana e pediu ajuda, pois temia ser lançado em outras correntes que o levassem na direção norte, para fora do Caribe.

Cinco dias depois, o francês e seu barril foram içados pelo navio petroleiro holandês Kelly Anne e deixado na ilha de St. Eustatios, próxima à Martinica, objetivo final do francês.

De lá, um rebocador conduziu Savin até a possessão francesa, onde ele foi recebido pela mulher e por um grupo de amigos.

“Foi uma experiência incrível”, resumiu Savin numa entrevista ao jornal americano The New York Times, ao desembarcar e abraçar a mulher e os amigos. “No meio do oceano, sendo levado por ele, você tem a real sensação do que é liberdade. Não há regras nem ninguém dizendo o que você tem ou não que fazer”.

O mais curioso, no entanto, é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo.

E o barril no qual ele fez a insólita travessia não passava de uma espécie de cápsula, com três metros de comprimento por dois de diâmetro, com uma cama, uma pia (com água extraída do mar e dessalinizada), um fogareiro, um assento e um compartimento para guardar comida desidratada e mais nada.

Além disso, Savin fez a viagem sozinho, sem nenhuma companhia. “Nem caberia outra pessoa no barril”, explicou, bem-humorado, ao partir das Ilhas Canárias, sob a descrença de muitas pessoas.

“Não serei o capitão de um barco e sim um simples passageiro do mar. Ele me levará para onde quiser”, disse Savin, ao partir. E assim ele o fez.

“Nos fins de tarde, eu costumava sair do barril para ver o pôr-do-sol e, depois, as estrelas no céu”, contou Savin. “Também, com frequência, vasculhava o horizonte em busca de navios, já que eu estava numa das rotas marítimas mais movimentadas do planeta”.

“Quando eu via algum navio, só relaxava depois de fazer contato pelo rádio e passar a minha localização, para que ele desviasse, já que eu não tinha como fazer isso. À noite, dormia com um foguete sinalizador debaixo do travesseiro, pronto para ser disparado. E acordava a todo instante, para ver se havia algum barco no horizonte”.

Quando a natureza colaborava, o francês conseguia avançar boas milhas por dia, embora nem sempre na direção desejada. Mas, com certa frequência, passava dias navegando em círculos, sem sair do lugar.

Para manter a forma, já que não tinha sequer como caminhar no seu acanhando barril-rolha, Savin, de vez em quando, nadava ao lado do barril, preso a ele por um cabo. Mas só quando o mar permitia isso.

No navio que resgatou o francês, antes que seu barril errante tomasse outro rumo ou se esborrachasse nas pedras de alguma ilha, Savin tomou o primeiro banho em mais de quatro meses e, quando perguntado sobre o que gostaria de comer, pediu apenas dois ovos fritos.

Na ocasião, ele também comentou que o melhor momento da travessia foi quando, após 62 dias no mar, foi socorrido pelo navio americano Ronald Brown que lhe forneceu comida e frutas, quando Savin percebeu que não conseguiria completar a jornada nos três meses que havia planejado.

“Os primeiros passos no convés do navio foram bem difíceis”, recorda, rindo. “Eu parecia bêbado. Não conseguia andar em linha reta e precisei da ajuda de dois homens para subir as escadas e conversar com o comandante. Eu, praticamente, precisei reaprender a caminhar”.

Apesar da extensão da jornada e da dieta à base de comida desidratada, Savin perdeu apenas quatro quilos durante a travessia. Isso porque, sempre que possível, ele pescava – e conseguia capturar grandes peixes, que comia crus ou ressecados, após ficarem dias expostos ao sol, do lado de fora do barril.

Durante a jornada, Savin também cruzou com vários navios, mas nem todos de maneira tão tranquila. “Por duas vezes, quase fui atropelado por eles. Um só me viu porque eu disparei foguetes sinalizadores quando ele já estava prestes a passar por cima do meu barril”, recorda.

Mesmo assim, Savin garante que em momento algum pensou em desistir da sua louca travessia.

Também garante que não sentiu medo nem solidão. “Eu queria justamente ficar sozinho”, explicou. “A solidão me faz bem, me faz permanecer ativo e jovem”, disse o dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível – ou seja, sendo levado pelo próprio oceano.

“Aproveitei a viagem para escrever um livro sobre a travessia, que sairá em agosto. Também li bastante, incluindo uma versão compacta da Bíblia, porque para lê-la inteira eu precisaria ter atravessado um oceano maior que o Atlântico”, brincou. “Na verdade, o tempo passou bem rápido”, completou.

A inspiração para a insana travessia de Savin veio da ousadia de outro francês, o médico Alain Bombard, que, em 1952, também cruzou o Atlântico sozinho com um bote de borracha, sem água nem comida a bordo. Ele sobreviveu bebendo água do mar e comendo apenas os peixes crus que capturava. A experiência rendeu um livro, chamado Náufrago Voluntário, e fama mundial a Bombard, que, desde então, virou ídolo de Savin.

“Eu era garoto quando li o livro que ele escreveu e aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Virou o meu sonho fazer algo igual, e, agora, eu fiz”, disse, feliz, o septuagenário francês.

Sonho realizado? Sim, mas Savin, agora, tem outros.

Quer atravessar o Canal da Mancha, entre a Inglaterra e a França, à nado e, se conseguir patrocinadores, também cruzar à deriva, com um barril do mesmo tipo, o maior oceano do mundo, o Pacífico, algo igualmente jamais tentado. “Deve levar uns seis meses”, estima.

Depois de colocar seu barril num navio de volta à Europa, o homem que se deixou ser levado pelo mar embarcou num avião e retornou à França, onde, entre outras atividades, irá participar de estudos sobre o comportamento humano durante longos períodos em espaços reduzidos. Tema no qual, ele, agora, se tornou especialista.

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