O sonho de uma vida tranquila em completa paz com a natureza numa ilha deserta levou o neozelandês Thomas Neale a se transformar, por livre vontade, numa espécie de Robinson Crusoé moderno. Um tipo de náufrago voluntário, que se tornou bastante famoso entre os navegadores do Pacífico, entre as décadas de 1960 e 1970.

Tudo porém começou em 1940, quando, numa conversa de bar, Neale conheceu um aventureiro americano Robert Frisbie, que lhe contou sobre um paraíso que conhecera tempos antes: o atol Suvarov, a noroeste das Ilhas Cook, no Pacífico Sul.

Neale ficou fascinado com a descrição do lugar: “18 ilhotas cor de esmeralda em torno de uma lagoa azul opalina”, resumiu o amigo americano, que finalizou com uma frase que soou como música nos seus ouvidos:

– É o lugar mais lindo da Terra.

A partir daquele dia, mudar-se para Suvarov e viver da maneira mais natural possível passou a ser o único objetivo na vida de Neale, então já perto dos 50 anos de idade.

Mas foi só anos depois, quando trabalhava como chefe de máquinas de um barco de carga, que ele, finalmente, conheceu Suvarov, depois de convencer o comandante do barco a desviar a rota até lá.

E o que Neale viu o convenceu de vez: aquele era o lugar
onde ele queria viver. E sozinho, já que o atol, além de distante de tudo, era desabitado.

No passado, Suvarov até abrigara alguns guardas-costeiros, mas eles logo abandonaram o atol porque o local era tão ermo e distante que nenhum barco passava por lá. Neale desembarcou e examinou atentamente o casebre onde moravam os guardas, bem como o reservatório de captação de água da chuva que havia na casa. E conclui que era tudo o que precisava.

Em seguida foi tentar obter autorização do governador da Ilhas Cook, a quem o atol pertencia, para viver lá. Não foi fácil e consumiu sete longos anos de espera.

Até que, em outubro de 1952, a autorização saiu. E ele foi para lá. Sozinho, como queria. E com o mínimo de mantimentos, porque o objetivo era viver dos próprios recursos da ilha.

Mas não chegou a passar necessidades. As águas azuis da lagoa de Suvarov eram repletas de peixes, caranguejos e lagostas, que ele capturava facilmente, muitas vezes com as próprias mãos.

Em terra-firme também criou uma horta, com algumas sementes que levara, que logo lhe renderam verduras. E capturava ovos dos ninhos das aves marinhas e de algumas galinhas que os antigos guardas haviam deixado na ilha.

Em questão de meses, Neale já estava totalmente integrado à vida solitária na ilha.

Os primeiros visitantes só apareceram dez meses depois. Era um casal de velejadores americanos, que, depois de passar alguns dias na ilha com Neale, foram embora, mas passaram a propagar aos outros navegadores a existência de um “eremita em Suvarov”, como ele passou a ser conhecido na comunidade náutica. E logo todos queriam visitá-lo.

Já os próximos visitantes, dois jovens velejadores que estavam fazendo uma preguiçosa travessia do Pacífico quando ouviram falar do tal eremita e resolveram conhecê-lo, chegaram na hora agá. Dias antes, Neale trincara uma das vértebras da coluna e, sem poder caminhar, não tinha como buscar comida.

Os velejadores comunicaram o fato as autoridades das Ilhas Cook e um barco do governo veio buscá-lo. Neale embarcou a contragosto, porque não queria deixar sua ilha. Em seguida, o governador cassou sua licença de morador do atol. E ele levou seis anos para conseguir outra.

Neste intervalo, Neale se casou e foi pai de dois filhos. Mas não era isso o que ele queria para sua vida. O que ele queria era voltar para a sua ilha. E conseguiu.

Em março de 1960, depois de nova autorização do governo, Neale voltou à Suvarov, deixando mulher e filhos. Lá chegando, encontrou um curioso bilhete, deixado por um navegador que passara pela ilha, com uma cédula de 20 dólares. Era o “pagamento” pelas verduras e galinhas que ele consumira. Neale jogou fora a nota. Dinheiro ali não valia nada.

A segunda permanência de Neale em Suvarov durou três anos e terminou quando o movimento de visitantes no atol se tornou, segundo ele, “insuportável”, por conta da sua própria fama como eremita da ilha.

Desgostoso, Neale decidiu ir embora. Embarcou num dos barcos que passava regularmente pelo atol e foi para a cidade.

Lá, decidiu escrever um livro sobre sua experiência: o bem-sucedido “Uma Ilha para Mim”, que virou sucesso no seu país natal. Mas, enquanto escrevia, passou a sentir saudades da vida que levava na ilha. E não demorou muito para retornar a Suvarov, pela terceira vez.

Desta vez, Neale ficou nada menos que dez anos sozinho no atol, apesar da idade já avançada.

Até que, no início de 1977, já com 75 anos, Neale começou a sentir fortes dores no estômago. E resolveu pedir ajuda. Um barco veio buscá-lo e o levou para um hospital, de onde nunca mais saiu.

Neale morreu em 30 de novembro daquele ano e seu corpo, contrariando toda a lógica, foi sepultado em um pequeno cemitério de Rarotonga, capital das Ilhas Cook – e não na ilha que ele sempre chamara de “sua”.

Na ilha, anos depois, foi colocada apenas uma placa dizendo que ali Tom Neale vivera o seu sonho.

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