Neste exato momento, em algum ponto quase no meio do Atlântico, um homem está tentando atravessar o segundo maior oceano do planeta de uma maneira inédita e insólita: dentro de uma espécie de barril – uma cápsula feita de material resistente, mas sem velas, nem motor nem nenhum tipo de propulsão, que avança empurrada apenas pelo vento e pelas correntezas.

Loucura? Não é o que pensa o navegador e aventureiro francês Jean-Jacques Savin, dono da ideia de cruzar o Atlântico da maneira mais natural possível. Ou seja, sendo levado pelo próprio oceano, dentro de uma espécie de gigantesca rolha, sem nenhum tipo do comando ou controle.

“Não serei o capitão de um barco e sim um simples passageiro do oceano. Ele me levará para onde quiser”, disse Savin ao partir das Ilhas Canárias, no último dia 26 de dezembro (portanto exatos dois meses atrás) rumo ao Caribe, onde ele pretende chegar dentro de mais dois meses – ou mais, se as correntes marítimas que estão empurrando o seu barril não ajudarem.

“Não sei onde vou chegar, mas deve ser em Barbados ou Martinica”, arrisca o francês, que, para isso, escolheu uma região onde as correntes marítimas são favoráveis e cruzam de um lado a outro do oceano, embora ventos contrários e mudanças de correntezas sejam sempre possíveis.

“Até aqui, está indo tudo bem”, diz Savin, que se comunica quase que diariamente com o mundo exterior através da sua página no Facebook, graças aos equipamentos eletrônicos (alimentados por uma placa de energia solar) que há no seu barril de fibra de vidro, que ele mesmo construiu e que batizou com um nome bem-humorado: OFNI – iniciais de “Objeto Flutuante Não Identificado”, uma brincadeira com os OVNIs do espaço.

“Meu OFNI tem capacidade para suportar ondas e até eventuais choques com baleias”, garante. No começo, no entanto, o francês enjoou bastante, pelos constantes balanços do seu exótico “barco”, que vai para onde o mar – e só o mar! – quiser.

O mais curioso, no entanto, é que Savin não é nenhum jovem impetuoso e sim um senhor de 72 anos de idade e já avô, embora com um respeitável histórico de aventuras e ousadias no currículo. Ele é ex-paraquedista, ex-piloto de aviões, ex-guarda de parques de animais selvagens na África e também tri-atleta, e já atravessou o Atlântico navegando quatro vezes – mas, até aqui, sempre com barcos convencionais.

Empurrado apenas pelos ventos e correntes marítimas, Savin tem avançado a uma velocidade média de apenas 2 ou 3 km/h (menos do que uma pessoa caminhando) e assim pretende chegar ao Caribe, a 4 500 quilômetros de distância.

Mas ele não tem pressa, até porque, mesmo que quisesse, nada poderia fazer para acelerar sua jornada. “Passo o tempo lendo, escrevendo, pescando, checando o barril e lançando marcos na água, para ajudar uma instituição oceanógrafa a analisar as correntes marítimas”, diz. “De vez em quando, também me exercito, nadando ao lado do barril, mas preso a ele por uma corda”.

Quando a natureza ajuda, o francês consegue avançar quase 100 quilômetros por dia, embora nem sempre na direção desejada.

No início da jornada, seu barril foi empurrado pelas ondas e pelo mau tempo na direção norte, contrária ao seu objetivo. Mas, depois, retomou sozinho o rumo do Caribe. “No começo, a navegação não foi boa, mas o que isso importa? Eu não podia mesmo dar meia-volta”, disse bem-humorado.

Nos últimos dias, Savin voltou a viver o drama de ver seu barco-barril ser levado para o lado contrário e, depois, ainda ficou navegando em círculos, sem sair do lugar. Mas, uma vez mais, após alguns dias de retrocesso, retomou o rumo do Caribe.

Outro susto aconteceu na semana passada, quando dois navios passaram bem próximos de Savin. Um deles, tão perto que o francês conseguiu avistar um homem no convés – embora o seu barril não tenha sido visto pelo navio.

Só quando Savin, temendo ser atropelado, chamou o navio pelo rádio é que o comandante do cargueiro tomou conhecimento dele. Em seguida, os dois conversaram por alguns minutos, antes que o sinal de rádio sumisse. “Aquela breve conversa com outro ser humano, no meio do oceano, me deixou emocionado”, escreveu Savin no Facebook. Na véspera, ele havia visto baleias nas proximidades do seu curioso “barco”.

O barril-navegador de Savin tem três metros de comprimento por 2,10 m de diâmetro, uma cama, uma pia (com água extraída do mar e dessalinizada), um fogareiro, um assento e um compartimento onde ele guarda o estoque de comida liofilizada, um tipo de alimento desidratado, que ele leva em quantidade suficiente para cerca de três meses no mar. Tem, também, uma escotilha de acesso e três janelas, uma delas no fundo do casco, para ele poder observar os peixes que passam.

Eventualmente, ele também pesca, para aumentar o estoque de comida a bordo.

A ideia de Savin de atravessar o oceano totalmente à deriva, dentro de um cilindro fechado, veio de uma velha – e ainda mais insana – maluquice: a de atirar nas Cataratas de Niágara, a mais famosa cachoeira dos Estados Unidos, dentro de um barril de madeira, algo que, no passado, muitos fizeram e poucos sobreviveram para contar a história.

Mas, até agora, com o septuagenário Savin vem dando tudo certo.

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