O italiano Stefano Casiraghi já era mundialmente famoso quando se tornou campeão mundial de motonáutica, em 1989, aos 29 anos – mas, até então, não por conta apenas das corridas de lanchas.
Filho de um milionário italiano e marido da princesa Caroline, de Mônaco, com quem se casara pouco antes, ele era uma espécie de exemplo de alguém bem-sucedido na vida. Era jovem, bonito, rico, famoso, empresário habilidoso, pais de três lindos filhos com a famosa princesa e um talentoso piloto de corridas de barco nas horas vagas.
Nas competições, no entanto, sua função não era propriamente pilotar as velozes lanchas da Classe 1 do Campeonato Mundial de Offshore, categoria topo da motonáutica e uma espécie de Fórmula 1 dos mares. A ele cabia a função apenas de acelerá-las. E fazia isso com arrojo e afinco. Em 1984, havia cravado o recorde mundial de velocidade na água, com a impressionante marca de 278, 5 km/h.
Casiraghi era um competente throttleman, encarregado de cuidar dos aceleradores dos dois motores de 800 hp cada da poderosa lancha puro-sangue Pinot di Pinot, aumentando ou diminuindo a potência conforme a situação, enquanto seu companheiro de equipe, o também italiano Patrice Innocenti, se incumbia do volante, dando direção ao barco. E foi uma infeliz manobra de ambos que causou o acidente que tirou a vida do então campeão mundial da modalidade.
Era a segunda volta de uma das etapas da Mundial de Offshore de 1990, nas águas de Saint Jean Cap Ferrat, cidade vizinha a Mônaco, onde Casiraghi vivia com a princesa Caroline e os filhos, e a dupla favorita, justamente ele e Innocenti, liderava a competição já com certa folga, quando a combinação de velocidade excessiva naquele instante, estimada em 170 km/h, com abordagem equivocada de uma pequena onda, de não mais que um metro de altura, fez a lancha decolar, girar e rodopiar no ar, antes de cair na água, de cabeça para baixo. Em seguida, o catamarã começou a afundar e só não sucumbiu por completo porque bolsas de ar se que formaram dentro dos seus dois cascos mantiveram os bicos de proa – só eles – fora d´água.
Enquanto girava descontroladamente no ar, a lancha cuspiu longe o piloto Patrice Innocenti, que, por isso mesmo, sobreviveu sem maiores problemas. Já Casiraghi não teve a mesma sorte. Ficou preso no seu apertado habitáculo (a Pinot di Pinot tinha dois, um em cada casco, com piloto e throttleman separados por quase toda a largura do casco) e afundou junto com o barco. Mas não chegou a morrer afogado. O que matou o badalado piloto-celebridade foi o impacto do casco de cinco toneladas na água, como comprovaria a autópsia mais tarde.
Mais tarde, também ficaria provado que se os cockpits da lancha de Casiraghi fossem fechados nem Innocenti teria sido ejetado nem ele morrido no impacto, o que levou a Federação Mundial a obrigar que, dali em diante, os habitáculos dos barcos da categoria passassem a ser cobertos. Também foi alterado o local das competições, que, apesar do nome “offshore” (ou “fora da costa”), passaram a ser disputadas em águas mais próximas das margens, a fim de agilizar os resgates em caso de acidentes – se bem que, no caso de Casiraghi, nem isso teria ajudado, porque a autópsia também revelou que ele teve morte instantânea.
Naquele dia, a competição foi interrompida e a etapa suspensa, em meio a uma comoção generalizada. O campeão Casiraghi, que defendia o título conquistado no ano anterior e que, três semanas antes, havia escapado de uma explosão no mesmo barco durante uma competição na ilha inglesa de Guernsey (razão pela qual havia decidido que aquela seria sua última temporada no Mundial de Offshore), estava morto. E isso traria um tom fúnebre às corridas de barcos por muito tempo, tal qual aconteceria na Fórmula 1 oito anos depois, com a morte, também por acidente durante uma competição, do tri-campeão Ayrton Senna, com quem Casiraghi nutria muitas similaridades – ambos viviam em Mônaco, adoravam a velocidade, se conheciam pessoalmente e tinham praticamente a mesma idade.
Fora do circuito da motonáutica a comoção foi ainda maior. A morte brutal de Casiraghi foi um choque para a família Grimaldi, que sempre dominou o Principado, e deixou viúva a jovem princesa Caroline, cuja mãe, a ex-atriz americana Grace Kelly, havia morrido pouco antes também em um acidente de automóvel, na mesma região – ocasião em que também sua irmã, a princesa Stephanie, na época ainda uma criança, ficou ferida. E alimentou ainda mais a crença na maldição que sempre perseguiu os Grimaldi.
O funeral do piloto-quase príncipe foi um acontecimento mundial e a cerimônia aconteceu na mesma catedral do Principado onde a mãe de Caroline fora velada, oito anos antes. Os três filhos do casal, Andrea, Charlote e Pierre Casiraghi, então com seis, quatro e três anos de idade, respectivamente – e que, até hoje, seguem na linha de sucessão do Principado – estavam presentes e, deles, ao menos um, o caçula Pierre, herdou do pai o mesmo gosto pela velocidade na água – só que com barcos à vela.
Em 2016, durante uma regata na Itália, Pierre Casiraghi voltou a associar o sobrenome famoso com acidentes náuticos, quando o veleiro no qual competia abalroou um dos barcos da organização da prova. Felizmente, ninguém se feriu no episódio. Mas há quem diga que, talvez, a maldição dos Grimaldi ainda não tenha terminado.
Imagem: Reprodução OffshoreOnly.com
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