Quatro anos atrás, quando o filme O Farol das Orcas foi lançado, o biólogo marinho argentino Roberto Bubas, que sempre preferiu ser chamado apenas de Beto, viu sua vida virar de cabeça para baixo.

De repente, aquele discreto e quase recluso fiscal de uma reserva marinha na Patagônia, sul da Argentina, que até então se dedicava a proteção e estudo comportamental de um grupo de orcas que frequentavam a área onde ele atuava, virou personagem de filme. E sua vida foi parar nas telas do mundo inteiro.

Desde então, Beto Bubas perdeu não só a tranquilidade, como, também, a companhia das baleias que tanto amava.

Transferido para outro posto na região, mas um local onde as orcas não frequentam, Bubas, por muito pouco, não perdeu também o emprego, fruto da perseguição e ciumeira profissional que passou a ser vítima, desde que o filme foi lançado.

Hoje, aos 49 anos, mesmo sendo uma reconhecida autoridade no comportamento das orcas, Beto Bubas atua como simples guarda fauna na praia de El Doradillo, na Península Valdés, que, no entanto, não é frequentada por aqueles animais – uma contradição e o mesmo que um especialista em macacos ser mandado trabalhar no Ártico.

“Prefiro não aparecer mais na mídia”, diz o dedicado biólogo, que passou quase metade da vida acompanhando bem de perto o grupo de orcas que frequentava o mar da reserva onde era o encarregado, e onde acontecia um fenômeno raro, que justamente o tornou famoso. “Estou numa fase de retiro interno e não tenho mais nada a dizer sobre aquelas orcas”, desconversa, educadamente, quando alguém lhe procura para falar sobre o filme ou sobre o seu relacionamento pessoal com aqueles gigantescos seres marinhos.

O que tornou Beto Bubas uma quase celebridade mesmo a contragosto foi um fenômeno natural que, até hoje, só acontece na praia onde ele atuava como fiscal, antes de ser transferido: a captura de filhotes de lobos e leões marinhos pelas orcas através de uma técnica de caça até então inédita.

Em vez de aguardar que as presas saiam da segurança da areia para atacá-las no mar, as orcas de Chubut desenvolveram a técnica de avançar fulminantemente em direção à praia, abocanhando os filhotes na beira d´água.

A estratégia exige extrema coordenação por parte das orcas, que precisam voltar para o mar antes que as marolas geradas pelo seu próprio avanço em direção a areia recuem, sob o risco de ficarem encalhadas.

E foi isso que Bubas passou a estudar – e documentar – quando assumiu o posto.

Mas o que nem ele nem ninguém imaginava era que essa proximidade acabaria por criar um vínculo inédito entre o biólogo e aquele grupo de orcas selvagens.

Com o tempo, Bubas foi ficando cada vez mais íntimo e aceito pelas orcas, animais que, embora inteligentíssimos, estão entre os mais poderosos e violentos dos mares.

Tanto que as orcas costumam ser chamadas de “baleias assassinas”, embora isso embuta um duplo erro. Primeiro, porque elas não são baleias e sim parentes distantes dos golfinhos. E segundo porque, longe de serem “assassinas”, tratam-se apenas de estupendos predadores.

Munido de uma gaita, que tocava na beira d´água, Bubas passou a se aproximar das orcas sempre que elas apareciam na praia.

Ao ouvirem o som do instrumento, os animais respondiam trazendo tufos de algas para a beira da praia, para que o biólogo os arremessasse de volta ao mar, como quem brinca com uma bola.

Logo, passaram a se deixar tocar por Bubas, que, com isso, se tornou o único homem a interagir dessa forma com orcas não domesticadas. Com isso, ele passou a ter a oportunidade de estudar o comportamento daqueles temidos animais de maneira privilegiada.

Desta inédita proximidade, resultou um livro e um documentário mundial feito pela National Geographic, que acabaria por desencadear o filme que mudaria a vida do biólogo para sempre.

O filme O Farol das Orcas, hoje disponível na Netflix, não trata apenas da incrível relação do biólogo argentino com aquele grupo de orcas, mas sim o improvável interesse que aquela amizade despertou em menino argentino autista surdo e mudo, chamado Agustin, que, até então, jamais havia demonstrado interesse por nada.

Levado pelos pais para ver de perto a relação entre Bubas e as orcas, Agustin passou uma temporada com o biólogo e, a partir de então, seu desenvolvimento social decolou.

Hoje, aos 27 anos, Agustin leva uma vida praticamente normal, tem namorada, usa a linguagem de sinais para se comunicar e é artista plástico.

A partir de outro livro escrito por Bubas sobre o caso do menino (e os poderes terapêuticos que as orcas, tal qual os golfinhos, exercem em crianças especiais), o diretor espanhol Gerardo Olivares resolveu filmar O Farol das Orcas, que teve o ator argentino Joaquín Furiel no papel do biólogo.

A relação de Beto Bubas com os animais de Chubut, que durou mais de 15 anos, também lhe rendeu o do apelido de “Encantador de Orcas”, título que ele nunca apreciou muito.

“Eram apenas oito orcas, cinco delas fêmeas, as quais cabiam a missão de ensinar seus filhotes a caçar lobos daquela maneira, o que não acontece em nenhuma outra praia do mundo. Se elas morressem, o ensinamento desse tipo de caça também acabaria, e era isso que o Bubas queria proteger”, explica o velejador brasileiro Beto Pandiani, que ficou amigo do biólogo argentino quando passou por lá, em 2001, ao retornar de uma expedição à Antártica.

No mês passado, 19 anos depois, os dois Betos voltaram a ser encontrar, na casa do biólogo, em Puerto Madryn, durante outra viagem do brasileiro à Patagônia.

“O Beto Bubas é uma das pessoas mais interessantes que já conheci” diz o brasileiro, que, não por acaso, se inspirou no amigo para criar o personagem de um projeto infanto juvenil que irá lançar este ano. “Não é todo mundo que fica amigo e é aceito por um grupo de orcas selvagens a ponto de poder acariciá-las”, justifica.

Enquanto isso, porém, alheio a fama e recluso em sua função de monitorar outros animais que não mais aquelas orcas, o biólogo argentino Beto Bubas amarga outro sentimento: a simples saudade delas.

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