No final da década de 1950, o mundo já sabia que o ponto mais profundo dos oceanos (e do próprio planeta) era uma fenda submarina a 11 034 metros da superfície, a cerca de 200 quilômetros da ilha de Guam, no Pacífico. Mas não tinha a menor ideia de como ela era e o que havia nela. Foi quando a Marinha Americana resolveu responder estas duas perguntas – e, com isso, aumentar ainda mais o seu prestígio mundial.

Pouco antes disso, em 1953, o físico e oceanógrafo suiço Auguste Piccard (que, na década de 1930, havia se tornado o primeiro homem a atingir a estrastofera do planeta a bordo de balão que ele mesmo construíra), havia criado um pequeno submarino, na verdade um batiscafo, capaz de atingir incríveis profundidades.

Batizado de Triestre (nome da cidade italiana onde foi desenvolvido, mas que na época era um território livre administrado pela Iugoslávia), o engenho tinha 15 metros de comprimento, capacidade para duas pessoas e casco com espessura que variava entre 14 e 18 centímetros, capaz de suportar a pressão submarina equivalente a mais de 15 000 metros de profundidade.

Pelo menos era o que diziam os testes feitos em laboratório. Faltava comprovar se, na prática, era isso era mesmo verdade. Foi quando surgiu a vontade da Marinha Americana de realizar aquela experiência inédita.

No final de 1959, após o Triestre ter feito uma série de bem-sucedidos testes de submersões profundas no mar Mediterrâneo, a Marinha Americana resolveu comprá-lo de Piccard e dar início ao “Projeto Nekton”, cujo objetivo era chegar ao ponto mais profundo dos oceanos com um veículo tripulado.

Para pilotar o super-submarino, foi escolhido o próprio filho de Piccard, o engenheiro suíço Jacques, que já havia participado de todos os testes iniciais do Triestre. E para acompanhá-lo na missão inédita, foi designado o oficial Don Walsh, da própria Marinha Americana.

Nos primeiros dias de janeiro de 1960, o Projeto Nekton foi colocado em prática, inicialmente com uma série de mergulhos cada vez mais profundos do Triestre na própria região da “Fossa das Marianas”, onde seria tentado o feito.

Todos foram bem-sucedidos e o Triestre se mostrou seguro para levar aqueles dois homens às entranhas do ponto mais profundo de todos os mares do mundo.

Até que, nas primeiras horas da manhã de 23 de janeiro, começou o mergulho histórico – que ganhou o nome de Challenger Deep, ou “Desafio Profundo”.

A lenta descida durou horas, com Piccard e Walsh espremidos dentro de um cubículo arredondado sob a “barriga” do batiscado, que era totalmente ocupada por quase 100 000 litros de combustível.

O Triestre era como uma espécie de balão submarino, com o reservatório de combustível fazendo o papel de peso para a descida e, uma vez vazio, de boia para a subida. E a “cabine” era uma “gôndola” estilizada e hermeticamente fechada.

Durante todo o tempo, os dois monitoraram o comportamento do batiscafo e se comunicavam com a superfície através de uma espécie de telefone. Até que, por fim, tocaram o fundo da Fossa das Marianas, levantando uma nuvem quase branca de suspensões na água. Ficaram ali por cerca de 20 minutos.

Pouco antes disso, veio a maior surpresa do experimento.

Pela minúscula janelinha iluminada do batiscafo, que era pouca coisa maior do que uma moeda, a fim de suportar a pressão de oito toneladas por polegada quadrada do ponto mais profundo dos oceanos, Piccard e Walsh viram um peixe – um estranho ser quase transparente que habitava as profundezas.

Era a prova de que havia vida mesmo na parte mais inóspita dos mares.

O fato foi comunicado à base, que comemorou duplamente.

Em seguida, o Triestre começou o lento caminho de volta à superfície, onde só chegou no final da tarde.

No regresso ao navio, Piccard e Walsh fincaram simbolicamente a bandeira americana, já que, por razões óbvias, não puderam fazer isso debaixo d´água.

A última fronteira do planeta havia sido conquistada.

Mais tarde, outros dois aparatos submarinos também chegaram ao ponto mais profundo da Fossa das Marianas, um deles com o diretor de cinema James Cameron, que, anos antes, havia descoberto os restos do Titanic no fundo do Atlântico Norte.

Já o Trieste continuou em atividade, feito uma espécie de precursor dos atuais submarinos não tripulados de grandes profundidades. E, antes de ser aposentado, ainda ajudou a encontrar, no fundo do mar, o submarino americano USS Thresher, desaparecido em 1963.

Foi sua última missão. Em seguida, o histórico batiscafo foi enviado para o Museu da Marinha Americana em Washington, onde se encontra em exposição até hoje.

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