Em dezembro de 1941, o Japão invadiu invadir as Filipinas, por conta da Segunda Guerra Mundial.
Pouco antes disso, já antevendo o ataque, o governo dos Estados Unidos, aliado dos filipinos, decidiu escoar parte do tesouro das Filipinas, da capital Manila para uma ilhota próxima, onde os americanos mantinham uma base, chamada Corregidor.
Foram cerca de 350 toneladas de metais preciosos (prata, principalmente), avaliadas, então, em cerca de 50 milhões de dólares.
Com isso, a tal ilhota ficou entupida de prata, o que também representava um risco para os filipinos.
Foi quando os americanos decidiram enviar secretamente um submarino para lá, o Trout, para retirar parte daquela valiosa “carga”.
Ele voltou com duas toneladas em barras de ouro e 18 toneladas em moedas de prata.
Mesmo assim, muito pouco.
E ainda restaram mais de 300 toneladas de metais preciosos na ilha.
O que fazer com todo aquele ouro e prata praticamente à mostra?
Como esconder tamanho volume de preciosidades dos inimigos japoneses, já tão próximos dali?
A solução foi como a de um folhetim de piratas: afundar tudo no mar, para, depois, quando a guerra terminasse, resgatar.
E assim foi feito.
O esconderijo escolhido foi uma parte de fundo arenoso da baía, com cerca de 40 metros de profundidade, bem próxima à ilha.
Os metais foram colocados em caixas e nada menos que 2 632 delas foram depositadas no fundo do mar, ao cabo de nove viagens secretas.
A operação veio na hora exata.
Dias depois, a base de Corregidor foi tomada pelos japoneses e todos os soldados americanos foram presos, na própria ilha.
Entre eles, meia dúzia de mergulhadores da Marinha dos Estados Unidos, que, mais tarde, desempenhariam papel crucial nessa história.
Logo após a invasão da ilha, os japoneses ficaram sabendo, através de espiões, do tal tesouro afundado.
Mas como eram do Exército (e não da Marinha, corporação que eles preferiam manter distância, por puro orgulho — e, também, porque pretendiam doar o tesouro filipino ao Imperador japonês em nome do Exército e não da Marinha), não havia nenhum mergulhador entre os invasores nipônicos.
Eles decidiram, então, recrutar mergulhadores filipinos para a missão de recolher as caixas do fundo do mar.
E os que não aceitassem a missão, seriam presos.
Dos oito mergulhadores filipinos recrutados, todos acostumados ao mergulho livre, não ao uso de cilindros de ar-comprimido, três morreram logo no início da operação, vítimas de descompressões mal feitas – porque, como os japoneses não sabiam exatamente em qual ponto da baía estava o tesouro, era preciso, primeiro, achá-lo.
Assustados, os outros cinco mergulhadores filipinos abandonaram o trabalho e preferiram ser presos a morrer, como os seus companheiros.
Foi quando o coronel japonês Akido, responsável pela missão de resgate, chegou a uma conclusão lógica: se foram os americanos que jogaram o tesouro no mar, seriam eles que iriam tirá-lo de lá!
Novamente, ele “recrutou” ajuda externa.
Só que, desta vez, dos próprios americanos que eles haviam sido feito prisioneiros.
E foi aí que entraram em cena àqueles seis mergulhadores americanos: Morris Solomon, Paul Mann, Virgil Sauers, Wally Barton, Alan Stanley e Edgar Morse, todos também envolvidos na operação de esconder o tesouro, semanas antes.
— Tenho boas notícias para vocês —, anunciou, sorridente e num inglês perfeito, o coronel japonês, ao encontrar-se pela primeira vez com os seis mergulhadores-prisioneiros.
A partir de agora, vocês estarão livres da prisão e com direito a muitas regalias.
Desde que nos ajudem a limpar alguns “destroços” do fundo do mar, que estão atrapalhando a nossa navegação.
Tratava-se, obviamente, de uma mentira.
E os mergulhadores sabiam disso.
Mas, fazer o quê quando se está nas mãos do inimigo?
Todos os seis aceitaram a missão e, automaticamente, tornaram-se “VIPs”- ou “Very Important Prisioners”, como brincariam, depois, os sobreviventes.
Mas os mergulhadores americanos só aceitaram a missão porque já haviam traçado seus próprios planos.
Eles se beneficiariam dos confortos oferecidos pelos japoneses (uma balsa com cabines no lugar de celas, comidas e bebidas à vontade, etc), mas sabotariam pelo menos parcialmente a missão, trabalhando lentamente e desviando parte do resgate para os colegas presos em Corregidor, de forma que eles pudessem usar a prata e o ouro para subornar os carceireiros e, num plano mais amplo, financiar a guerrilha filipina contra os próprios invasores japoneses.
Uma engenhosa vingança silenciosa.
A dúvida era como eles fariam chegar uma parte do tesouro até os colegas presos?
A resposta estava nos carregadores filipinos, que estavam dispostos a ajudar a desviar parte dos carregamentos, desde que ficassem com uma parcela deles.
Mesmo assim, como os seis americanos fariam para esconder a maior parte do tesouro roubado dos japoneses bem diante deles?
Simples: enfiando moedas e barras de ouro dentro das roupas de mergulho e, depois, transferindo-as para sacolas submersas, presas no fundo da balsa, feito cabides submarinos.
Como a balsa, que ficava ancorada no meio da baía, era periodicamente visitada por “pescadores” filipinos (na verdade, guerrilheiros disfarçados de pescadores), bastaria esconder as cestas no meio dos peixes e ir transferindo a prata, aos poucos, para os prisioneiros na ilha.
A vigilância japonesa era intensa.
Mas incapaz de detectar a fraude.
Embora suspeitasse que ela existia.
O problema é que os japoneses não faziam idéia de quanta prata e ouro havia no fundo da baía, nem o grau de dificuldade em resgatá-la.
Com isso, eram obrigados a engolir o que os americanos diziam. Virgil Sauers, o primeiro americano a mergulhar, voltou à superfície falando em “péssima visibilidade”, “correntes fortíssimas” e “dificuldades em encontrar as caixas”, quando, na verdade, elas estavam ordeiramente empilhadas uma sobre as outras, na forma de duas enormes pirâmides submarinas.
Já o segundo mergulhador, Moe Solomon, voltou com uma caixa semidestruída (que ele mesmo arrebentara no fundo, para colher as primeiras moedas do desvio) e a usou para justificar as tais “dificuldades do resgate”.
— As caixas apodreceram e espalharam as moedas na areia. Fui obrigado a catar uma por uma — disse, justificando assim a demora e a suposta complexidade da operação.
A partir daí, o objetivo passou a ser o de trazer para os japoneses apenas o mínimo necessário para mantê-los na missão – que, obviamente, era vista com ótimos olhos pelo governo americano.
Afinal, em plena guerra, aqueles mergulhadores estavam roubando os japoneses bem debaixo dos narizes delês, e, ainda por cima, patrocinando a contra-guerrilha filipina.
Mas, insatisfeitos com a baixa produtividade, os japoneses recrutaram mais três mergulhadores americanos: Harry Anderson, Bob Sheats e George Chopchick.
A roubalheira, contudo, só aumentou.
Irritado, o coronel Akido ordenou que a balsa dos mergulhadores mudasse para um ponto próximo a base japonesa, de forma que o movimento dos americanos pudesse ser melhor controlado.
A decisão trazia um problema real, porque decretaria o fim da total privacidade dos mergulhadores para esconder as cestas carregadas sob o casco da balsa.
Mas, num golpe de sorte, no dia da mudança um tufão atingiu a Baía de Manila e quase arremessou a balsa rebocada de encontro ao píer da base japonesa.
Assustados, os oficiais japonses voltaram atrás e devolveram a balsa ao seu ancoradouro original.
Entretanto, ironicamente, a mesma tempestade que salvou os mergulhadores de um desmascaramento quase certo, arrebentou as cestas penduradas debaixo do casco e levou muitas moedas de prata para a costa, onde foram flagradas pelos japoneses, nos dias subsequentes.
Pior ainda: demoliu as pilhas de caixas submersas e espalhou boa parte do ouro e prata no fundo da baía, tornando – agora, sim – bem difícil a sua localização e resgate.
Era o começo do fim desta história.
Mas início de uma lenda que perdura até hoje: a do tesouro perdido da Baía de Manila.
Convencidos de que realmente estavam sendo passados para trás, os japoneses resolveram mandar todos os mergulhadores de volta à prisão (onde, por sinal, foram recebidos como heróis pelos colegas) e contrataram outros, de outras regiões das Filipinas, para continuar o resgate.
Mas os danos do tufão nas caixas haviam sido grandes e, por isso, a recuperação da prata, tornou-se realmente difícil.
Até o final da guerra, os japoneses conseguiram recuperar perto de 200 toneladas de moedas.
Uma fortuna para os padrões da época, mas, ainda assim, menos da metade do total do tesouro original.
Quando a guerra acabou, conforme o combinado, os americanos voltaram para tentar recuperar pelo menos parte da fortuna dos filipinos do fundo do mar.
Mas, por causa do rebuliço causado pelo tufão no leito marinho, só conseguiram achar uma mínima parte mais.
No total, apenas três quartos da fortuna filipina foi retirada de dentro d´água – seja pelos americanos ou pelos japoneses.
O restante continuou – e continua, até hoje! – afundado e escondido em algum ponto da lama do fundo da baía.
Anos depois, o governo filipino realizou novas buscas, mas desistiu depois de concluir que gastaria mais nas operacoes de resgate do que o valor do próprio ouro e prata.
Com isso, permitiu o início de uma atividade turística curiosa: a “caça ao tesouro”, nas águas próximas a Corregidor – que existe até hoje.
De lá para cá, de vez em quando, um turista-mergulhador volta com uma moedinha nas mãos.
Supõe-se que ainda haja cerca de três milhões delas espalhadas por lá.
Mas é certo que a maior parte jamais será encontrada.
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