Sorte ou azar demais?
O que você diria de uma pessoa que tivesse sido vítima de dois dos piores naufrágios no século passado, mas sobrevivido a ambos?
Pois a camareira e enfermeira argentina Violet Jessop conseguiu esta proeza.
Ela estava no Titanic, quando ele atingiu um iceberg e afundou, em 1912, e também a bordo do seu irmão gêmeo, o transatlântico Olympic, quando ele foi abalroado por outro navio no Canal da Mancha, e só não afundou por pouco.
Mas, pior que tudo foi o seu terceiro infortúnio – sim, houve mais um.
Foi no navio-hospital Britannic, no qual ela trabalhava como enfermeira, na Primeira Guerra Mundial.
O navio afundou por causa da explosão de uma mina, e ao ser evacuada em um bote salva vida, ela foi sugada para baixo do casco e quase decepada pelos hélices, ainda em movimento.
Mas, uma vez mais, ela sobreviveu.
Filha de ingleses criadores de ovelhas, que se mudaram para a Patagônia argentina no final do século 19, Violet nasceu na cidade de Bahia Blanca, mas, aos 16 anos de idade (após a morte do pai, e quase dela própria, por tuberculose), migrou para Inglaterra, com a mãe, para tentar uma nova vida.
Na viagem, feita pelo mar, único meio de locomoção entre a América do Sul e a Europa na época, Violet teve a ideia de tentar um emprego de camareira em navios, e assim que chegou à Inglaterra colocou o seu plano em prática.
Procurou diversas empresas marítimas, mas foi recusada em todas, por ser jovem demais.
Mudou então de estratégia, passou a se vestir como uma senhora, e assim conseguiu emprego em um pequeno navio, de uma pequena empresa, o Orinoco.
Mas o emprego durou pouco.
Com sua juventude descoberta, passou a ser assediada pelo capitão do navio, e pediu demissão.
No entanto, com a experiência adquirida no Orinoco, Violet conseguiu uma vaga no transatlântico Majestic, da poderosa companhia White Star Lines, a mesma que, mais tarde, lançaria o Titanic.
Dois anos depois, como prêmio por sua eficiência e dedicação aos passageiros, foi promovida a camareira em outro navio da empresa, o recém-lançado Olympic, irmão gêmeo do Titanic, no qual manteve o hábito de disfarçar sua pouca idade sob vestimentas antiquadas.
Contudo, sua estreia naquele grande navio não foi muito promissora.
Em 20 de setembro de 1911, meses após começar no novo emprego, o Olympic quase foi a pique após colidir com outro navio, o cruzador da Marinha Inglesa Hawke, logo após a partida de ambos do porto de Southhampton, na Inglaterra.
O acidente foi causado pelo próprio tamanho colossal do transatlântico, cujo deslocamento no estreito canal do porto “sugou” o cruzador, causando a colisão das duas embarcações.
O choque gerou dois grandes rombos no casco do Olympic – e ainda mais danos no Hawke -, mas ambos conseguiram retornar ao porto, antes que inundassem e afundassem.
Violet não se importou com o episódio e continuou trabalhando no navio.
Mas não por muito tempo.
Logo, foi convidada a assumir a função de camareira da Primeira Classe na viagem inaugural do mais novo transatlântico da companhia, o Titanic, cujo capitão, Edward Smith, era o mesmo que havia comandado o Olympic – e que, como se sabe, resultou na mais famosa tragédia marítima de todos os tempos, em 14 de abril de 1912.
Naquela fatídica noite, em meio ao pânico dos passageiros do Titanic, Violet não se abalou.
Ao acordar com o impacto do navio contra o iceberg, agarrou um terço, já que acreditava piamente no poder das orações, vestiu seu uniforme e foi para o convés, auxiliar os passageiros – especialmente aqueles que não falavam inglês, já que ela dominava outros idiomas, sobretudo o espanhol.
Acabou sendo instruída a embarcar em um dos botes salva-vidas, junto à um grupo de poloneses, para ajudá-los com questões de segurança, como o uso dos coletes salva-vidas.
Ao fazer isso, ela recebeu – nunca soube de quem – um bebê, que ficaria em seu colo até a manhã seguinte, quando o seu bote se tornou o último a ser resgatado por um dos navios que vieram em socorro às vítimas do Titanic, o Carpathia.
Ao embarcar no navio, com o bebê no colo, uma mulher – que ela também jamais soube quem era – correu na sua direção e arrancou a criança das suas mãos.
Violet nunca mais voltou a ver a tal mulher, nem o bebê.
O episódio a incomodou bem mais do que o próprio naufrágio.
Um mês depois, Violet voltou a trabalhar, no mesmo Olympic.
Mas, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial – e o declínio nas viagens marítimas -, decidiu fazer um curso de enfermagem e se alistou, como enfermeira voluntária, aos 29 anos, no navio-hospital Britannic, que antes da guerra também fizera parte da frota da White Star Line, como transatlântico de passageiros.
Mas, tal qual aconteceu no Titanic, no Britannic ela não completou sequer sua primeira viagem.
Na manhã de 21 de novembro de 1916, quando transportava soldados feridos no Mar Egeu, o Britannic tocou em uma mina marítima e explodiu, obrigando a evacuação, em botes salva-vidas, de todos os sobreviventes.
Entre eles, estava a resiliente ex-camareira, já chamada de “Senhora Inafundável”.
Violet foi uma das primeiras mulheres a abandonar o navio, mas, desta vez, por muito pouco, ela não perdeu o apelido.
E a própria vida.
Como o capitão do Britannic mantivera o navio em movimento, na esperança de conseguir encalhá-lo em águas rasas, o seu deslocamento gerou um movimento de sucção dos botes que estavam sendo baixados, e o de Violet foi parar debaixo do casco, bem diante dos hélices.
Ela só não foi triturada pelas lâminas, porque, ao ser sugado, o bote virou de cabeça para baixo, formando uma espécie de escudo sobre a enfermeira, salvando-a de uma morte certa.
Violet foi resgatada apenas com um corte na cabeça, consequência da pancada que sofreu, quando o bote virou sobre ela, e isso, mais tarde, acrescentaria outro surpreendente dado ao seu currículo de sorte extraordinária.
Anos depois, ao fazer um exame de rotina, Violet descobriu que havia fraturado o crânio naquele episódio do Britannic.
Mas nem percebeu.
Quando a guerra terminou, a inabalável camareira voltou a trabalhar em navios transatlânticos, e assim permaneceu até se aposentar, aos 63 anos de idade.
Foi, então, viver em uma fazenda no interior da Inglaterra, criando galinhas e escrevendo suas memórias — que, na época, ninguém se interessou em publicar.
Certo dia, o telefone tocou em sua casa e, do outro lado da linha, uma voz masculina perguntou se fora ela que salvara um bebê no naufrágio do Titanic.
Violet respondeu que sim, mas a conversa parou por ali.
O homem apenas riu e desligou, sem dizer mais nada.
Ela jamais soube quem era aquele homem.
Mas a suspeita é que ele fora o bebê que ela protegera naquela terrível noite.
Um ano depois, em maio de 1971, Violet Jessop morreu, de ataque cardíaco, aos 83 anos, deixando uma incrível história de vida (ou, melhor dizendo, de sobrevivência), e um livro pronto, que só seria publicado 26 anos depois.
Só quando isso aconteceu, veio o reconhecimento do valor – e da sorte – daquela brava mulher, que, apesar de ter sobrevivido a tantos infortúnios no mar, jamais aprendeu a nadar.
Gostou desta história?
Ela faz parte do NOVO LIVRO HISTÓRIAS DO MAR – VOLUME 3 – 100 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos, que ACABA DE SER LANÇADO, e pode ser comprado com CLICANDO AQUI, com ENVIO GRÁTIS
VEJA VÍDEOS DE OUTRAS HISTÓRIAS CLICANDO AQUI
