Até o início do Século 20, a Marinha do Brasil ainda punia com castigos físicos, quase sempre chicotadas, os marinheiros que, na visão dos seus superiores, tivessem cometido falhas ou irregularidades.

Oficialmente, a abominável prática havia sido extinta em 1889 – 65 anos após o castigo corporal ter sido proibido na população em geral pela Constituição Imperial de 1824, e um ano após a abolição da escravatura no Brasil.

Mas, na prática, a bordo dos navios da corporação, ela persistia, disfarçada sob o nome “Companhias Correcionais”, decisões arbitrárias que davam aos oficiais o direito de aplicar punições aos marinheiros de má conduta, “cujas falhas não fossem tão severas a ponto de serem julgadas por um Conselho Militar”.

A prática, abominável, havia sido herdada dos antigos comandantes portugueses.

As punições eram aplicadas nos conveses dos próprios navios, diante dos demais marinheiros, “para que servissem de lição e alerta” aos demais membros da tripulação – uma barbaridade só comparável ao tratamento dedicado aos escravos.

E aquilo sempre incomodou muito um dos marinheiros mais especiais da corporação: o jovem negro João Cândido Felisberto, que ingressara na Marinha aos 14 anos de idade, levado por um almirante amigo do patrão de seus pais, que eram cativos em uma fazenda no interior do Rio Grande do Sul – naquela época, a totalidade dos marinheiros e grumetes da Marinha do Brasil eram negros, pobres e igualmente tratados como escravos.

Na corporação, no entanto, João Cândido logo se destacou pela facilidade que tinha no aprendizado.

Em pouco tempo, tornou-se um timoneiro confiável, e sua habilidade o levou a ser incluído na tripulação brasileira que, no início do século 20, foi levada para a Inglaterra, para ser treinada nos dois mais novos – e poderosos – navios encomendados pelo governo brasileiro, os encouraçados São Paulo e Minas Geraes.

Lá, além de aprender a movimentar perfeitamente as duas grandes embarcações, o jovem timoneiro – que já era uma espécie de líder natural entre os marinheiros, justamente por se opor aos castigos a bordo -, tomou conhecimento de dois fatos: o fim das punições na Marinha Inglesa, muitos anos antes, e o bem sucedido motim no encouraçado russo Potemkin, ocorrido em 1905, contra o regime tirânico dos oficiais daquele navio.

E aquilo fez com que a semente da revolta brotasse dentro dele.

A gota d´água viria logo depois, quando, no retorno ao Brasil, em novembro de 1910, o capitão do Minas Geraes, comandante João Batista das Neves, navio no qual ele passou a servir, determinou que um dos marinheiros, o também negro Marcelino Rodrigues de Menezes, fosse punido com 250 chibatadas, por ter, segundo ele, “cometido falta grave” – sem, contudo, maiores detalhes.

O castigo fez com que o acusado chegasse a desmaiar durante as chicotadas, mas, ainda assim, a punição continuou – para total indignação dos demais marinheiros, especialmente João Cândido.

Naquele dia, junto com os companheiros, o carismático marinheiro, então com pouco mais de 20 anos de idade, decidiu que, a exemplo do que haviam feito os ingleses e russos, era preciso pôr um ponto final na barbárie dos castigos físicos na Marinha do Brasil.

E marcou para o dia seguinte, 22 de novembro de 1910, quando o Minas Geraes, acompanhado de outras embarcações, inclusive o encouraçado São Paulo, estaria na Baía de Guanabara, então sede do governo brasileiro, a insurreição contra os maus tratos nos navios da corporação.

O plano original previa aproveitar uma saída do comandante para terra firme para os insurgentes tomarem posse do navio – e, juntamente com aliados em outras embarcações da Marinha, forçar o governo do então recém empossado presidente Hermes da Fonseca a determinar o fim da prática abusiva dos castigos físicos, além de melhorar os soldos dos marinheiros, que quase nada recebiam pelo trabalho que faziam.

Mas o comandante Batista das Neves voltou antes do esperado e, após uma discussão com um dos rebeldes, foi morto, bem como outros dois oficiais.

João Cândido se opôs às mortes, mas assumiu o controle do motim.

Em seguida, enviou uma mensagem ao governo brasileiro e mandou que seus companheiros nos demais navios tomados pelos marinheiros, também estacionados na Baía de Guanabara, apontassem seus canhões para a cidade do Rio de Janeiro.

E, como forma de pressão, autorizou um disparo de advertência – que, por acidente, atingiu uma casa e matou duas crianças.

Durante quatro dias, a Capital Federal ficou sob a mira dos canhões dos navios da própria Marinha, mas agora comandados por João Cândido – que, com a destreza um bom timoneiro, e com o que aprendeu na Inglaterra sobre as capacidades do Minas Geraes, manobrava com maestria o grande encouraçado dentro da baía.

Nascia assim o “Almirante Negro”, como os jornais da época passaram a chamar o líder dos revoltosos – apelido que ficaria para sempre ligado ao seu nome.

Acuado – e temeroso de que a audácia daqueles marinheiros levasse ao bombardeio da cidade -, o governo brasileiro descartou uma retaliação militar e optou pela saída diplomática.

O próprio presidente Hermes da Fonseca negociou com João Cândido o fim do levante – que entraria para a História como a “Revolta das Chibatas” -, aceitando banir os castigos físicos nas instituições do país, e dando anistia aos revoltosos.

Mas não foi bem assim que aconteceu depois.

Terminado o movimento, mais de 1 200 marinheiros foram expulsos da corporação, e outros presos – especialmente João Cândido, um dos dois únicos que sobreviveu às insalubres condições do cárcere privado em uma base da Marinha, na própria Baía de Guanabara, onde 16 companheiros seus morreram na mesma noite, vítimas da cal viva usada para desinfetar as celas.

De lá, João Cândido foi enviado para um hospício, sob a alegação ter enlouquecido.

Quando conseguiu provar não estava maluco, veio outro golpe vingativo: foi mandado para julgamento, pelo levante contra o governo.

Julgado, foi absolvido. Mas, em seguida, expulso da Marinha.

João Cândido passou a viver como pescador na Baia de Guanabara, já que sempre que conseguia emprego como timoneiro em algum barco era rapidamente demitido, por pressões políticas.

E assim foi até sua morte, em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos, de câncer no intestino, quando o “Almirante Negro” já havia sido homenageado até com letra de música: o sucesso “Mestre-Sala dos Mares, de Aldir Blanc e João Bosco, imortalizado na voz de Elis Regina, na década de 1970 – que, ainda assim, também por pressão dos militares, sofreu alterações nas expressões originais “marinheiro” (que virou “feiticeiro”), “negros” (que deu lugar a “santos”) e sobretudo “almirante” (que foi trocado por “navegante”).

A perseguição da Marinha (que, até hoje, se refere ao movimento como a “Revolta dos Marinheiros”, e não “da Chibata”) persistiu mesmo após a morte de João Cândido. Em 2021, treze anos após o Senado brasileiro ter concedido anistia post mortem a ele e outros marinheiros participantes do levante (o que desagradou aos militares), a corporação também se opôs à proposta de que o nome do líder dos marinheiros fosse incluído na lista dos “Heróis da Pátria”, como um “símbolo da luta antirracista”.

E conseguiu.

Hoje, além de batizar um grande navio petroleiro brasileiro, e de ter virado estátua em um dos principais pontos do Rio de Janeiro – não por acaso, bem diante do palácio onde a Princesa Isabel assinou a lei que aboliu a escravidão no Brasil, em 1888 -, a vida do marinheiro que entrou para a História por sua bravura e senso de justiça, já foi retratada em três filmes, e virou enredo de escola de samba em meia dúzia de oportunidades.

A última delas, como tema do desfile da Paraíso do Tuiuti, na Marquês de Sapucaí, no Carnaval de 2024.

O povo aplaudiu de pé.

Gostou desta história?

Ela faz parte do NOVO LIVRO HISTÓRIAS DO MAR – VOLUME 3 – 100 casos verídicos de façanhas, dramas, aventuras e odisseias nos oceanos, que ACABA DE SER LANÇADO, e pode ser comprado com CLICANDO AQUI, com ENVIO GRÁTIS

VEJA O QUE ESTÃO DIZENDO SOBRE OS LIVROS HISTÓRIAS DO MAR

“Sensacional! Difícil parar de ler”.
Amyr Klink, navegador

“Leitura rápida, que prende o leitor”.
Manoel Júnior, leitor


“Um achado! Devorei numa só tacada”.
Rondon de Castro, leitor

“Leiam. É muito bom!” 
André Cavallari, leitor