Era a 214ª travessia que aquele ferry boat fazia, entre a cidade de Incheon e a ilha de Jeju, no litoral da Coréia do Sul.

Uma travessia tão rotineira que a tripulação nem se deu ao trabalho de organizar, com afinco, a distribuição dos mais de 150 veículos, entre carros, ônibus e caminhões, que seriam transportados na parte inferior do Sewol, um velho ferry boat com mais de 20 anos de uso, que havia passado por uma reforma que aumentara significativamente a sua capacidade – tanto de passageiros, quanto de automóveis.

À medida em que os veículos iam entrando na garagem, eram apenas estacionados um atrás do outro, sem respeitar equilíbrios entre tamanhos e pesos, o que contrariava todos os protocolos de segurança em embarcações do gênero.

E isso, mais tarde, seria o estopim de uma tragédia que custaria a vida de mais de 300 pessoas, a grande maioria jovens estudantes de uma escola sul-coreana.

Mas a má distribuição dos veículos que o Sewol transportava naquela noite, em sua habitual travessia diária de seis horas de duração, não foi a única causa da tragédia.

Houve, também, o desentendimento geral entre o encarregado de conduzir a embarcação, o terceiro imediato Park Han-kyul, enquanto o comandante Lee Joon-seok, de 69 anos, descansava em sua cabine, e o timoneiro Cho Joon-ki, responsável por transformar os comandos que recebia em movimentos.

A confusão na comunicação entre os dois tripulantes resultou em uma curva acentuada demais do Sewol no canal de acesso à ilha Jeju, a poucos quilômetros da costa sul-coreana, e o movimento brusco deslocou os veículos mal distribuídos, concentrando ainda mais o peso em um único lado do casco.

Com isso, o Sewol adernou e, aos poucos, foi deitando no mar, incapaz de retornar à sua posição original – uma situação causada pela imprudência e despreparo da equipe comandada pelo capitão Lee, que dormia quando tudo aconteceu. Mas coisas muito piores aconteceriam naquele início de manhã de 16 de abril 2014.

Quando o ferry boat começou a adernar, quase derrubando das camas os seus quase 500 passageiros e tripulantes, o capitão Lee correu para a ponte de comando e sua primeira ordem foi que, a despeito daquela situação dramática, os passageiros permanecessem em suas cabines, por receio de que a movimentação de pessoas fizesse o ferry boat tombar de vez.

Pelos alto-falantes, todos foram instruídos a vestirem seus coletes salva-vidas, mas permanecerem onde estavam – nas cabines ou no refeitório, já que estava sendo servido o café da manhã -, a despeito da água que já começava a inundar o casco.

Como a grande maioria dos passageiros eram obedientes estudantes de uma escola da cidade de Ansan, próxima a Seul, que viajavam para alguns dias de férias em um resort na ilha Jeju, eles seguiram a instrução do comandante à risca, sem nenhum questionamento.

Mas não deveriam ter feito isso.

Nas duas horas seguintes, à medida que o navio foi sendo lentamente tragado pelo mar, um a um eles foram se afogando, trancados em suas cabines e, agora, acuados pela água.

Só os que ignoraram a ordem do capitão Lee sobreviveram – inclusive, ele próprio, um dos primeiros a abandonar o navio condenado, mas ainda brandando que os passageiros se mantivessem onde estavam.

E não parou por aí.

A negligência continuou também durante a operação de resgate, que só foi acionada depois que um dos próprios estudantes ligou, do seu celular, para a Guarda Costeira Sul-Coreana, relatando o acidente e pedindo socorro imediato – que, no entanto, levou 40 minutos para chegar, embora o iminente naufrágio estivesse acontecendo a poucas milhas da costa.

Quando uma única embarcação da Guarda Costeira chegou ao local – apesar das dimensões da tragédia -, o Sewol já havia adernado mais de 50 graus, e eram barcos particulares voluntários que tentavam recolher aqueles que haviam desobedecidos as ordens do capitão e corrido para o convés, de onde se atiraram na água.

Só eles se salvariam.

Presos no interior do casco, com a água subindo mais e mais a cada instante, os jovens estudantes usavam seus celulares para enviar mensagens (algumas delas de despedida) aos pais, que, desesperados, passaram a acompanhar a tragédia em tempo real, através das ligações, mas sem nada poderem fazer para socorrer seus filhos.

Uma das mensagens dizia: “Mãe, não se preocupe. Já estou vendo o barco de socorro pela janelinha”.

A mãe ligou de volta.

Mas o filho não atendeu.

Já era tarde demais.

No tumulto que se seguiu a desorganizada operação de resgate dos sobreviventes, o solitário barco da Guarda Costeira Sul-Coreana (após recolher no mar o assustado capitão Lee, bem como outros tripulantes que fizeram o mesmo que ele), passou a usar um megafone para instruir os passageiros que ainda estavam dentro do Sewol a fazerem o oposto do que o comandante ordenara.

A ordem, agora, é que todos saíssem de onde estavam e se jogassem ao mar, já que a inclinação do casco não mais permitia a penetração de equipes de resgate.

Mas não havia mais como eles saírem de dentro do ferry boat virado e inundado.

Estavam trancados no casco emborcado, condenados a uma morte tão certa quanto agonizante.

As tentativas de quebrar as janelas das cabines do ferry boat para retirar os passageiros também não deram em nada, porque o material era resistente demais.

Gradualmente, o ferry boat foi afundando, até que restou apenas o seu bico de proa fora d´água – e assim ficou por mais de duas horas.

Quando isso aconteceu, até as emissoras de TV já haviam chegado ao local e passaram a transmitir, ao vivo, a tragédia, para desespero ainda maior dos familiares das vítimas, que passaram a acompanhar tudo pela televisão.

Minutos depois, o Sewol mergulhou de vez, ceifando as esperanças dos parentes dos que não tinham conseguido sair de dentro do ferry boat – quase dois terços dos seus passageiros.

Das 476 pessoas que havia a bordo do Sewol, quando ele zarpou do continente, apenas 172 foram resgatadas com vida.

304 pessoas morreram no desastre, quase 200 delas jovens estudantes, com idades entre 9 e 16 anos, que pagaram com suas vidas a obediência a ordem insensata do comandante Lee.

Desde então, na Danwon High School, na cidade de Ansan, onde moravam a quase totalidade das vítimas, dois monumentos homenageiam os estudantes mortos no mais terrível naufrágio da história da Coréia do Sul.

Um deles, tem a forma pacífica de uma baleia. Já o outro é bem mais impactante: reproduz uma sala de aula da escola, com os nomes de todos os alunos mortos no desastre.

Ela costuma ser visitada quase que diariamente por familiares das vítimas em busca de algum tipo de consolo.

Até hoje.

Após a tragédia do Sewol, pelo menos três pais de alunos cometeram suicídio, deprimidos com a morte dos filhos.

O mesmo fez o diretor da escola, que também estava a bordo, acompanhando os alunos, e jamais se perdoou por ter sobrevivido.

Seu último pedido foi que suas cinzas fossem jogadas no local onde aconteceu o naufrágio.

Ele queria se juntar às vítimas.

Já os demais parentes das vítimas, revoltados com a letargia do governo sul-coreano em dar respostas à causa do acidente, passaram a promover manifestações – e a fazer greve de fome, acampados diante da sede do governo -, exigindo uma investigação aprofundada.

A indignação aumentou ainda mais quando eles tomaram conhecimento de que, ao saber do acidente, a presidenta Park Geun-hye (que estava em um salão de beleza, arrumando o cabelo) ordenou que a Guarda Costeira recusasse ajuda externa, como já havia sido oferecido pelos governos do Japão e Estados Unidos, ambos com navios e helicópteros nas proximidades, a fim de minimizar a gravidade da catástrofe mundo afora, e não fragilizar o seu governo – que, durante o naufrágio, chegou  a dizer que todos os passageiros tinham sido resgatados com vida.

A sequência de mentiras e atos desconexos do governo desencadearia uma reação social e política sem precedentes na história recente da Coréia do Sul, que culminaria no impeachment da presidenta Park Geun-hye, também acusada de outros escândalos, três anos depois.

Antes disso, porém, a pressão popular obrigou as autoridades sul-coreanas a agir – ainda que tardiamente.

Uma comissão de inquérito foi instaurada, para apurar responsabilidades, ao mesmo tempo em que mergulhadores e robôs submarinos foram enviados até o casco soçobrado, a 40 metros de profundidade, em busca de corpos de vítimas.

Mas eles só conseguiram penetrar no compartimento das garagens, onde não havia ninguém.

Após meses de análises, apurações e entrevistas com os sobreviventes, a comissão de inquérito concluiu que não havia uma causa para a tragédia.

Haviam várias.

Uma delas foi a sobrecarga de peso a bordo.

O Sewol, que dois anos antes havia passado por uma imprudente reforma, que adicionara dois deques de cabines à sua estrutura, aumentando assim sua capacidade de passageiros – além de 37 toneladas de pisos de mármore em seus salões internos -, partira com 180 veículos, mal distribuídos, quando sua capacidade segura era para pouco mais de 150.

Naquela viagem, ele transportava mais de 3 600 toneladas, entre veículos e carga em geral, quase o dobro do que comportava.

Para tanto, o tamanho do seu lastro fora reduzido das 2 000 toneladas recomendadas para pouco mais de 500 – uma forma de compensar o maior peso transportado.

Contudo, esta troca de lastro no fundo do casco por peso de carga acima d´água, alterou o centro de gravidade e o equilíbrio do casco, deixando-o bem mais sensível a manobras bruscas, como feita por conta do desentendimento entre os dois tripulantes que pilotavam o ferry boat, na entrada do canal de acesso à ilha, uma área de forte correnteza.

Quando se aproximava de uma curva mais acentuada no canal, o terceiro imediato Park Han-kyul, encarregado de conduzir a embarcação pelo comandante Lee, ordenou que o timoneiro Cho Joon-ki guinasse levemente para estibordo.

Mas o timoneiro entendeu que era para virar e exagerou na manobra.

O terceiro imediato tentou corrigir, mandando, então, que ele girasse o timão no sentido oposto, o de bombordo, para compensar o movimento equivocado.

Mas isso desequilibrou ainda mais o casco, que já estava com sua estabilidade comprometida, pela má distribuição dos veículos a bordo.

O Sewol inclinou demais, e não conseguiu mais voltar à posição original.

Era o começo da tragédia.

A conclusão da comissão foi que houve negligência generalizada, tanto na compensação do menor lastro com maior volume de carga, na má distribuição dos veículos na garagem e na comunicação truncada entre os dois encarregados de conduzir a embarcação.

Também houveram falhas gritantes nas operações de evacuação e resgate, ambas feitas de forma precária e muito aquém da intensidade do desastre – quantas pessoas poderiam ter sido salvas se a Guarda Costeira tivesse agido com rapidez, e se o comandante Lee não tivesse dado aquela catastrófica ordem para que todos permanecessem onde estavam?

Como consequência disso, mais de 150 pessoas, entre tripulantes, agentes portuários e oficiais da Guarda Costeira sul-coreana, envolvidos direta ou indiretamente na tragédia, foram indiciados.

Já o capitão Lee Joon-seok foi preso, acusado de múltiplos homicídios, com pedido de pena de morte pela promotoria. Julgado, foi condenado a 36 anos de prisão, pena depois aumentada para prisão perpétua, que vem cumprindo desde então.

Outros 13 membros da tripulação foram condenados a penas de até 20 anos de prisão, por abandonarem a embarcação antes de socorrer os passageiros, incluindo os dois que estavam na cabine de comando no instante daquela desastrosa manobra.

Três anos depois, em março de 2017, o casco do Sewol foi retirado do fundo do mar, em busca de restos de vítimas que ainda estivessem confinadas dentro dele.

Apenas uma ossada foi encontrada.

Nove corpos jamais foram localizados: o de oito estudantes e de uma criança, de 6 anos de idade.

Não poderia haver desfecho mais tocante par a pior tragédia da história da Coréia do Sul.

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