No Brasil, aconteceu pela primeira vez doze anos atrás.

E se tornou uma ameaça real de 2020 para cá.

Certo dia, em maio de 2014, quando mergulhavam nos recifes de Arraial do Cabo, no litoral norte do Rio de Janeiro, um grupo de mergulhadores deu de cara com um lindo — mas aterrorizante — exemplar de peixe-leão nadando no mar que banha a cidade.

O que para qualquer leigo em biologia marinha seria uma sorte e tanto (a de ver, solto na natureza, um peixe admiravelmente bonito, que no Brasil só podia ser visto em alguns aquários), para aqueles mergulhadores soou como a sirene de um alerta vermelho: o invasor havia chegado ao mar brasileiro!

O curioso é que não se tratava de nenhum cardume.

Era apenas um — só um! — peixinho, com cerca de 30 centímetros, que foi imediatamente capturado e levado para ser mostrado a especialistas.

Mas significava muito.

Era a quase confirmação daquilo que os biólogos tanto temiam: a possibilidade da chegada do temido peixe-leão à costa brasileira.

Mas o que poderia haver de errado naquilo?

Basicamente, tudo.

Porque o peixe-leão não pertence ao mar brasileiro e sim aos oceanos do outro lado do mundo.

Ele é nativo do Indo-Pacífico, região onde as águas do Índico encontram a do Pacífico, entre a Malásia e a Indonésia.

E toda vez que uma espécie invasora é inserida em um habitat diferente do seu, afeta a biodiversidade.

Isso nem seria um grande problema, não fossem algumas características perversas daquele peixinho fofinho e aparentemente inofensivo.

Uma delas é que o peixe-leão é extremamente voraz e devora praticamente tudo o que caiba na sua boca — de crustáceos a peixes bem maiores.

Ao caçar, o que faz o tempo todo, ele encurrala a presa erguendo seus espinhos dorsais (os mesmos que o tornam tão gracioso aos olhos dos incautos, porque mais parecem bandeirolas presas ao corpo) e, num movimento fulminante, a engole por inteiro.

Ou em bocadas, caso a vítima seja bem maior do que ele, o que acontece com frequência, já que o seu estômago pode se expandir até 30 vezes.

Um único peixe-leão é capaz de devorar, em pouco mais de um mês, 80% de todos os organismos de um recife de coral com cerca de 10 000 m².

E, se forem dois exemplares, comerão tudo daquela região em menos de um mês.

São como felinos dentro de um galinheiro — daí, não por acaso, o “leão” no seu nome.

Um predador e tanto.

Mas o pior de tudo é que, no mar brasileiro, ele praticamente não tem predadores.

Este, o real problema.

A rigor, os únicos predadores naturais do peixe-leão em águas brasileiras seriam os meros, que, no entanto, são cada vez mais escassos no litoral do país.

Além disso, uma única fêmea de peixe-leão é capaz de gerar dois milhões de ovos por ano, o que explica por que este peixe se tornou uma praga em certos mares do mundo.

Como já aconteceu no Caribe.

Ali, para deleite dos mergulhadores mal informados — e pânico dos biólogos e ambientalistas —, o peixe-leão virou epidemia.

Estima-se que os primeiros exemplares deste peixe asiático de furor desenfreado tenham chegado às águas azuis do Caribe apenas duas ou três décadas atrás, no rastro de algum furacão que tenha destruído aquários de casas na costa leste americana, arrastando-os para o mar.

Ou como meros descartes de quem não queria mais tê-los em casa — sim, o problema pode ter começado com um simples exemplar doméstico jogado no mar.

No caso do peixe-leão, não é preciso mais do que isso.

Bastam alguns exemplares para a espécie proliferar descontroladamente, já que eles não têm predadores fora do seu ambiente original.

No Caribe, os peixes-leões se alastraram de forma fulminante e letal.

Começaram dominando as águas de Cuba, Jamaica e do Golfo do México, onde, rapidamente, os pescadores notaram a diminuição na quantidade de pescado capturado — os peixes tinham virado comida para o invasor, que, por ser desconhecido pelas espécies locais, não era percebido como um predador.

Em seguida, os peixes-leão avançaram pelo litoral da Costa Rica, Panamá e Colômbia.

Mais recentemente, invadiram toda a costa da Venezuela.

E é de lá que, se supõe, estão descendo para a costa brasileira.

O peixe-leão já é considerado a maior ameaça à vida marinha nos recifes do Atlântico Sul.

E o pior: segundo alguns especialistas, não há mais como erradicá-lo.

A menos que façamos com ele o mesmo que ele faz com os outros peixes.

Ou seja, comê-los.

Esta alternativa vem sendo amplamente divulgada em campanhas nas ilhas caribenhas afetadas pela praga deste peixe de aparência cinematográfica.

Nas Bahamas, a captura do peixe-leão como alimento já é largamente incentivada.

E na Jamaica, uma agressiva campanha tenta convencer os jamaicanos a experimentarem a novidade na panela.

Tempos atrás, os Estados Unidos patrocinaram a viagem de cinco renomados chefs de cozinha a Porto Rico, a fim de divulgar pratos culinários feitos à base de peixe-leão.

A carne do peixe-leão é branca e delicada, apesar de exigir cuidados, tanto na captura quanto no preparo, por causa dos espinhos do seu corpo, que são venenosos – mas sem toxinas.

Os especialistas defendem que o que deveria ser feito é proibir a venda do peixe-leão vivo, para os aquaristas.

Seria uma forma de evitar que, mais tarde, eles fossem parar no mar.

Exagero?

Talvez não.

No Caribe, pode ter começado assim: com um único exemplar solto na natureza, no lugar errado.

Outro problema é que o peixe-leão é extremamente resistente e de fácil adaptação a novos ambientes marinhos.

No Brasil, eles resistiram até a corrente marítima contrária que sobe a costa, no sentido inverso das águas que vêm do Caribe, e a desembocadura gigantesca do Rio Amazonas.

Uma das explicações para isso está em outra de suas virtudes: eles são capazes de nadar bem fundo, escapando assim tanto das correntezas quanto das redes dos pescadores.

E assim, incógnitos nas profundezas, vão avançando e conquistando novos territórios.

Como tem acontecido no nordeste brasileiro, onde já são vistos perto de algumas praias.

E quando começam a surgir nas partes mais rasas é porque toda a área já está infestada.

Por essas e outras, é fácil saber por que o peixe-leão é, atualmente, o ser mais temido e odiado dos mares, pelos especialistas – apesar da sua beleza extraordinária.

Como pode um peixinho tão bonito ser tão perigoso?

A resposta está em todos os mares por onde ele já passou – e dominou.

Portanto, se ver um exemplar de peixe-leão nadando no mar brasileiro, faça um favor à natureza: acabe com ele!

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