“Estamos partindo. Faça contato quando puder”.
Quando esta mensagem, tão curta quanto enigmática, foi enviada pelo então encarregado do veleiro Berserk, o norueguês Tom Bellika, para o comandante do barco, o seu conterrâneo Jarle Andhoy, então fora da embarcação naquela tarde de 22 de fevereiro de 2011, aparentemente ninguém entendeu o motivo daquela partida abrupta.
Não fazia sentido.
Até então, o veleiro dos noruegueses estava ancorado e bem protegido dentro da Baía Horseshoe (“Ferradura”, em inglês), em uma das partes mais hostis do mar da Antártica, enquanto lá fora uma violenta tempestade se aproximava, com ondas que passavam dos oito metros de altura e ventos acima de 80 nós – uma das piores tormentas vista na região nos últimos 30 anos.
Mas todos sabiam disso.
Inclusive o responsável pelo veleiro, já que o seu capitão estava em terra firme, em uma expedição que visava chegar ao Polo Sul a bordo de quadriciclos, tendo como companheiro outro tripulante do barco, o também jovem norueguês Samuel Massie, de apenas 18 anos de idade.
Por que Bellika, o responsável pelo barco, teria abandonado a segurança de uma ancoragem em uma baía relativamente protegida e zarpado rumo a uma devastadora tempestade?
O que teria levado o encarregado de cuidar do veleiro e seus dois companheiros, o sul-africano Leonard Banks e o também norueguês Robert Skaanes, a tomar tal atitude irracional?
Começava aí um dos mais controversos casos marítimos da história da Antártica, e uma das piores tragédias recentes no mar do Continente Gelado – porque, depois daquela insólita mensagem, nunca mais se teve notícias dos três ocupantes do veleiro norueguês.
Naquela mesma tarde, o Berserk, um veleiro de 54 pés de comprimento, desapareceu no mar, engolido por uma tempestade mais que anunciada, sem que jamais tenha existido uma resposta para a inquietante pergunta-chave daquele caso: por que a tripulação decidiu partir, se sabia bem o que iria encontrar pela frente?
Mas o capitão do Berserk, Jarle Andhoy, nunca teve dúvidas sobre o principal responsável pela morte dos seus três companheiros: a Marinha da Nova Zelândia – uma entidade que deveria justamente zelar, proteger e cuidar das pessoas no mar.
Segundo a teoria de Andhoy, um polêmico capitão e aventureiro, na época com 33 anos de idade, mas um já extenso currículo de imprudências e rebeldias (certa vez, ele chegou a ser banido do Canadá, por molestar um urso polar), quem expulsou os seus companheiros da segurança da Baía Horseshoe teria sido a fragata Wellington, da Marinha da Nova Zelândia, que chegara ao local no dia anterior, a fim de entregar suprimentos a uma base antártica existente no local – e que, por isso mesmo, era considerada “área de segurança”, com acesso restrito.
Ao identificar o veleiro solitário ancorado como sendo o Berserk, do controverso capitão Andhoy, os militares fizeram contato com a base e receberam a informação de que aquele barco não poderia estar lá, porque viajara para a Antártica sem a devida autorização imposta pelo Tratado Antártico – documento que exigia, entre outras coisas, um seguro para o caso de resgate, que Andhoy se recusara a pagar, porque considerava o Continente Gelado uma “terra sem dono” – portanto, na sua interpretação, não havia por que pedir autorização a ninguém.
Após o contato com a base militar neozelandesa, alguns tripulantes da Wellington fizeram uma visita amistosa ao veleiro e informaram Bellika e seus dois companheiros sobre a restrição de visitação à baia, e a obrigatoriedade de autorização prévia para navegar até o Continente Gelado.
Na ocasião, além de tirarem a última foto daqueles três tripulantes ainda vivos, horas antes de serem engolidos pelo mar, os militares também foram informados que o capitão do veleiro estava em terra firme, mas isso eles já sabiam.
O que nunca se soube é o que realmente aconteceu após aquele encontro.
Segundo o capitão Andhoy, horas depois daquela visita ao Berserk, os militares neozelandeses teriam mudado o tom do diálogo e determinado que o veleiro dos noruegueses deixasse imediatamente a baía, a despeito da tormenta que se aproximava.
Mas a Marinha da Nova Zelândia sempre negou isso, alegando que o comandante da fragata também fora surpreendido com a partida do veleiro, e que não faria sentido expulsar os velejadores da baía, para, em seguida, ter que resgatá-los no mar, em uma situação bem mais difícil.
Mas foi exatamente o que aconteceu.
Quando o sinalizador de emergência do Berserk disparou, às 17h53 daquela tarde, indicando que o veleiro estava sob risco real de naufrágio, teve início uma das mais arriscadas operações de buscas já feitas no mar antártico, em meio a uma tormenta furiosa.
Na ocasião, a própria fragata neozelandesa correu risco de ir a pique, pelo peso extra que toneladas de neve, trazidas pela tempestade, acrescentaram à embarcação – mesmo problema que também deve ter acometido o pequeno veleiro norueguês, que, talvez por isso, logo tenha sido engolido pelo mar.
A suspeita é que as ondas, os ventos, e o acúmulo de neve e o gelo no convés – ou as três coisas ao mesmo tempo – tenham causado o naufrágio quase que imediato do veleiro, logo após ele partir da Baía Horseshoe.
No entanto, as buscas realizadas pela fragata Wellington demoraram mais de uma hora para começar, porque o sinal de emergência vindo do veleiro fora confundido pelo Centro de Resgates da Nova Zelândia com o de outro barco norueguês, que estava na costa da Austrália, na mesma ocasião.
Além disso, as buscas logo tiveram que ser suspensas, por conta das péssimas condições meteorológicas, sem nenhum resultado prático.
Só dias depois é que foi encontrada uma balsa vazia do veleiro desaparecido, pelo navio Steve Irwin, da organização ambientalista Sea Shepherd, que estava na região e se juntou ao esforço para tentar encontrar o veleiro norueguês naquela tarde tempestuosa.
Bem antes disso, porém, os três tripulantes do Berserk já haviam sido dados como irremediavelmente perdidos, já que, naquelas condições, as chances de sobrevivência eram mínimas.
Mas o capitão Andhoy só ficou sabendo da tragédia depois que a mesma tempestade que vitimou seus companheiros o impossibilitou de seguir em frente com os quadriciclos, rumo ao Polo Sul, na companhia de Massie – façanha que ele ambicionava realizar para gravar um documentário que pretendia vender à uma emissora de TV da Noruega.
Com a chegada da tempestade, Andhoy pegou o telefone via satélite que levava consigo no quadriciculo e, após tentar inutilmente falar com a tripulação no seu barco, ligou para um amigo na Noruega.
Foi quando ele ficou sabendo do desaparecimento dos companheiros, já então timidamente divulgado na imprensa, uma vez que ocorrera no mesmo dia em que um devastador terremoto praticamente arrasou a cidade neozelandesa de Christchurch – uma data duplamente tumultuada na Nova Zelândia.
Ao saber da tragédia, o capitão do Berserk abortou a expedição terrestre, retornou à Baía Horseshoe, e de lá embarcou para a Noruega no último avião da temporada a deixar a Antártica naquele finalzinho de verão, acusando formalmente os oficiais da Marinha da Nova Zelândia pela morte de seus companheiros, que, segundo ele, teriam sido obrigados pelos militares a deixar a segurança do local onde estavam ancorados.
Mas, talvez, não tenha sido bem assim…
Das três teorias que até hoje tentam explicar a enigmática decisão do encarregado pelo veleiro Berserk de deixar à baía em meio a uma tempestade, a expulsão dos velejadores pela Marinha da Nova Zelândia é apenas uma delas – e jamais pôde ser comprovada.
Por que os militares fariam isso, se, depois, eles mesmos teriam que se arriscar suas vidas para salvar os jovens entregues à própria sorte no mar?
Além disso, os tripulantes do Berserk (“Guerreiro Feroz”, em norueguês arcaico, cujo casco era decorado com uma assustadora mandíbula de tubarão pintada na proa) se autodenominavam “vikings selvagens”, e eram rebeldes demais para aceitar passivamente uma simples ordem de partir, sobretudo naquelas circunstâncias. Isso também não fazia sentido.
Surgiu, então, uma segunda tese: a de que fora o próprio Bellika que decidira, por conta própria, abandonar a baía quando os ventos aumentaram de intensidade, por temer que o barco fosse arremessado de encontro a margem.
Ou que ficasse trancado no gelo, o que realmente poderia acontecer, já que a Baía Horseshoe era apenas parcialmente abrigada contra ventos do quadrante de onde vinha a tormenta.
Nesse caso, o único erro de Bellika teria sido o de demorar demais para partir em busca de outra ancoragem mais segura, o que permitiu a aproximação da tempestade.
Contra esta tese, no entanto, sempre pesou o argumento de que Bellika não partiria sem comunicar isso ao capitão do veleiro, até porque era para a Baía Horseshoe que Andhoy e Massie retornariam, ao regressar do Polo Sul com os quadriciculos.
A menos que o ponto de encontro dos dois grupos tivesse sido alterado pelo próprio capitão do veleiro, através do telefone via satélite…
É aí que entra a terceira – e mais polêmica – teoria sobre o “Caso Berserk”, como a tragédia ficou conhecida.
Segundo os defensores da tese de que fora o próprio capitão do veleiro o causador indireto daquela tragédia (o que Andhoy sempre negou com veemência), a mesma furiosa tempestade que selou o destino dos ocupantes do Berserk teria, pouco antes disso, atingido o local onde a dupla da expedição terrestre estava, já há mais de 200 quilômetros da Baía Horseshoe.
E isso teria feito com que Andhoy ligasse para Bellika, ordenando que o barco fosse levado para outra baía, mais próxima de onde eles estavam, a fim de resgatá-los.
Neste caso, teria sido a imprudência de Andhoy que teria provocado a morte de seus companheiros – que, ao abandonar aquela ancoragem segura, teriam apenas seguido as ordens do seu capitão.
Se foi isso o que aconteceu, teria sido a segunda decisão imprudente tomada por Jarle Andhoy naquela viagem.
A primeira fora a época do ano escolhida para realizá-la: fevereiro, mês em que o inverno antártico já começa a se avizinhar, e tarde demais para uma expedição terrestre ao Polo Sul, como ele pretendia fazer com os quadriciclos.
Mas Andhoy havia escolhido ir para a Antártica propositalmente perto do final da temporada de verão, porque seu objetivo era gravar cenas dramáticas de tempestades no Continente Gelado, a fim de enriquecer o seu documentário, porque, como costumava dizer, “mau tempo gerava boas imagens”.
O atraso deliberado na partida do grupo da Nova Zelândia também custou a Andhoy a perda de um dos mais experientes velejadores da sua equipe, o americano Edwin Kumar, que temeroso do que encontrariam pela frente, chegando tão tarde à Antártica, desistiu da viagem.
Kumar foi substituído por Bellika, que passou a ser o braço direito de Andhoy no comando do Berserk.
Quando retornou à Noruega, na companhia apenas do jovem Massie, Andhoy foi multado pelas autoridades norueguesas em cerca de 4 000 dólares, por “violar os protocolos do Tratado da Antártica”, já que viajara para lá sem pagar o seguro obrigatório para o caso um resgate – como, de fato, aconteceu. E isso o deixou ainda mais revoltado.
“As autoridades da Noruega e da Nova Zelândia preferem focar apenas nos aspectos legais da viagem, não nas causas da tragédia, como se a vida de meus companheiros valesse menos que uma multa”, escreveu Andhoy, na época, nas suas redes sociais, ao mesmo tempo em que tratava de vender o seu documentário inacabado para alguma emissora de TV.
Meses depois, ele conseguiu o seu intento.
O documentário foi comprado e exibido por uma TV norueguesa, mostrando, no entanto, apenas o ponto de vista de Andhoy para a tragédia do Berserk. Com o dinheiro arrecadado, o polêmico capitão comprou outro veleiro, o Nilaya, convocou uma vez mais o amigo Massie, e partiu novamente rumo à mesma Baía Horseshoe, na Antártica.
E, de novo, sem cumprir os requisitos legais.
O propósito da nova expedição era, segundo Andhoy, “procurar vestígios dos seus ex-companheiros”, embora, na prática, isso fosse praticamente impossível, um ano após o desaparecimento do veleiro.
Mas o real motivo da viagem era outro: recuperar os dois quadriciclos que ele havia deixado para trás em um abrigo da base de pesquisas da Baía Horseshoe , ao embarcar para a Noruega.
Só que os veículos não estavam mais lá, o que deixou Andhoy ainda mais furioso com as autoridades neozelandesas, a quem acusou de estar “destruindo provas” do crime que cometeram.
E as acusações de Andhoy seguem as mesmas até hoje.
A despeito do seu histórico de encrenqueiro incurável (no retorno que fez à Antártica, havia até um tripulante sem documentos a bordo do seu veleiro), o norueguês ainda pressiona a Marinha da Nova Zelândia para ter acesso à transcrição das conversas entre o comandante da fragata Wellington e sua base, no dia em que o Berserk desapareceu, o que a corporação nega, alimentando assim a dúvida sobre a pergunta-chave deste complexo caso: por que, afinal, o responsável pelo veleiro suspendeu âncoras e partiu rumo a um desastre mais que anunciado, naquela fatídica tarde?
Andhoy, talvez, tenha razão nas acusações que sempre fez à Marinha neozelandesa.
Ou, quem sabe, ele tenha a resposta que tanto cobra na sua própria consciência.
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