O ano era 1946, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. O australiano Ben Carlin, um engenheiro que trabalhava em bases militares na Índia, vistoriava um campo do Exército americano quando viu, jogado num canto, um estranho barco, que lembrava uma pequena balsa, mas com rodas.

E também volante, faróis e para-brisa.

Parecia um jipe.

E era um jipe: um jipe anfíbio — a resposta americana ao carro que podia navegar, que fora construído pela Volkswagen alemã, durante a guerra.

Foi paixão — na verdade, obsessão — à primeira vista. Carlin não mais sossegaria enquanto não tivesse um daqueles na sua garagem.

Melhor dizendo, na água, já que seu objetivo passou a ser navegar com um daqueles estranhos carros-barcos.

E ele queria ir longe, atravessando mares e oceanos e não apenas rios e lagoas, como aconselhava o fabricante daquela máquina híbrida.

Teria sido muito mais fácil comprar um barco.

Mas Carlin era teimoso demais para admitir que aquele curioso veículo não poderia ser usado no mar.

Fiel ao slogan da época de que um Jeep podia vencer qualquer obstáculo, por que não um oceano?

Ele, então, saiu em busca de um daqueles jipes capazes de andar, também, na água.

E o primeiro problema foi onde encontrar um jipe anfíbio, já que todos haviam sido feitos exclusivamente para o Exército americano.

Em busca de apoio para o seu projeto maluco de cruzar o Atlântico com um automóvel, Ben procurou a Willys Overland, que produzia os tais veículos.

Mas levou um sonoro “não”.

O fabricante sabia que o seu jipe anfíbio tinha sérios problemas estruturais, já que fora projetado às pressas, para atender às necessidades da guerra.

Além disso, a ideia de cruzar um oceano com um carro soava absurda demais para ser levada a sério – como ele faria, por exemplo, com a questão do combustível?

Como e onde reabasteceria?

Além disso, o Jeep anfíbio americano era pesado demais, instável na água e demasiadamente lento, porque seu motor (o mesmo usado no automóvel convencional) tinha apenas 60 hp de potência.

Ou seja, cruzar o Atlântico com aquela máquina, como Ben pretendia, era uma completa loucura.

E ninguém acreditava que isso pudesse ser feito. Exceto ele.

Carlin seguiu procurando um jipe-anfíbio para comprar e logo ficou sabendo de um leilão de sucatas de guerra do Exército.

Foi lá e arrematou um Jeep igual ao que vira anos antes.

Quer dizer, quase igual, porque aquele tinha complicadíssimos problemas mecânicos.

A transmissão estava travada, o tanque de combustível podre, o motor corroído e a ferrugem impregnada por todos os lados.

Quando ficou pronto da reforma, o jipe náutico do australiano estava tão pesado que mal flutuava.

Ficava semiafundado e qualquer marola o enchia d’água.

Assim sendo, a primeira providência foi instalar uma cabine fechada no jipe, que originalmente era conversível.

Ficou parecendo uma caixa de sapatos.

Mas deu certo.

Já o segundo problema foi bem mais difícil de resolver: a limitada capacidade de combustível do seu tanque de gasolina.

Como resolver isso?

A primeira alternativa foi instalar um enorme tanque de combustível debaixo do carro, feito uma quilha de barco.

Foi um completo desastre.

Quando cheio, o tanque quase fazia o jipe afundar feito uma pedra e, uma vez vazio, o empurrava para cima, como uma boia.

Veio, então, a segunda opção: um tanque suplementar puxado a reboque, como uma espécie de trem náutico.

Apesar de esquisita, a ideia foi posta em prática logo na primeira tentativa (frustrada, por sinal) de cruzar o Atlântico com aquele automóvel, em 1948.

Mas Carlin já não estava mais sozinho no seu audacioso objetivo: tinha, agora, a companhia da própria esposa, Elinore, que resolveu embarcar junto com ele naquela maluquice.

Em 16 de junho de 1948, o casal partiu de Nova York com destino aos Açores, do outro lado do Atlântico, mas a aventura não foi nada longe.

Com poucas horas de mar, Carlin sentiu que as coisas não iam bem com o seu carro-barco.

Ele sacudia demais, não mantinha o rumo e era desesperadamente lento.

Para completar o drama, a fumaça do motor entrava na cabine e quase sufocava os dois.

Cinco dias após a partida, eles retornaram.

Mas não se consideravam derrotados.

A estripulia chamou a atenção de uma revista, que pagou um bom dinheiro pela história.

Com ele, Carlin melhorou o veículo, que ganhou até um nome, feito um barco de verdade: Half-Safe (algo como “Meio-Seguro”), título brincalhão e com duplo sentido, já que era, também, o de um famoso desodorante da época – que ele tentou, e não conseguiu, ter como patrocinador.

Dois meses depois, a dupla fez uma nova tentativa de travessia do Atlântico.

Mas, de novo, não foi longe.

Após apenas 300 milhas de navegação, quebrou o hélice.

E, como não havia peças sobressalentes a bordo, eles acabaram à deriva e precisaram ser resgatados por um navio.

Foi melhor assim, porque Carlin já havia percebido que, mesmo com o combustível extra do tal tanque-reboque, a gasolina que ele tinha não permitiria chegar aos Açores.

Uma vez mais, ele desistiu dos seus planos.

Aumentou a capacidade do tanque, criou um sistema equilibrador que compensava o peso do combustível gasto com água do mar, a fim de manter o reboque sempre na mesma profundidade, e, um ano e meio depois, fez nova tentativa.

E, desta vez, contrariando toda a lógica, conseguiu cruzar o oceano.

Mas não foi nada fácil.

Na viagem, o rádio comunicador logo pifou, porque a maresia corroeu os contatos, a comida escassa por falta de espaço a bordo obrigou a dois a pescar para não passar fome, e o motor passou o tempo todo ameaçando parar de vez, porque não fora feito para passar tantas horas sob o mesmo regime de rotação.

De tempos em tempos, era preciso abrir o motor e descarbonizá-lo em pleno oceano, com Carlin se equilibrando sobre o capô para não cair na água.

Mas ele não reclamava, muito menos desistia: haveria de cruzar o Atlântico com o seu veículo anfíbio, nem que fosse a nado, rebocando o próprio jipe.

Até que, no 32o dia de travessia, apesar de um problema mecânico tê-lo obrigado a percorrer os quilômetros finais apenas em segunda marcha (sim, aquele “barco” tinha até câmbio!), a Ilha de Flores, nos Açores, surgiu diante do casal. E lá eles ficaram um bom tempo, reparando o veículo.

De lá, avançaram até as Ilhas Ca­ná­rias e, depois, para a cos­ta do Mar­ro­cos, onde seguiram por ter­ra até a Eu­ro­pa – mas não sem an­tes re­co­lo­car o car­ro no mar, pa­ra cru­zar o Es­trei­to de Gi­bral­tar.

Para Carlin, es­ta era a grande van­ta­gem dos carros anfíbios: quan­do aca­bava a ter­ra, eles seguiam em fren­te, pela água.

Ob­je­ti­vo al­can­ça­do?

Não.

En­tu­si­as­ma­do com a pró­pria fa­ça­nha, Carlin ago­ra que­ria mais: queria dar a volta ao mundo com o seu versátil mas problemático carro-barco, cuja aparência estapafúrdia incluía até um mastro para ajudar a avançar na água com a ajuda de uma vela.

Em abril de 1955, o casal colocou a segunda parte do novo plano de Carlin em prática.

Par­ti­ram de Lon­dres e, depois de cruzarem o Canal da Mancha navegando, seguiram por terra até a Índia, intercalando outros trechos de água no caminho.

Lá, porém, a mulher de Ben desistiu de vez – da viagem, do marido e de toda aquela doidice. “Aventura é uma coisa, masoquismo é outra”, disse, antes voltar aos Estados Unidos e nunca mais tocar no assunto.

Carlin, no entanto, não desistiu e foi em frente, depois de re­cru­tar um no­vo com­pa­nhei­ro de viagem, pa­ra aju­dar no sufoco que era navegar com o Half-Sa­fe.

Ar­ran­jou um com­pa­trio­­ta aus­tra­li­a­no, chamado Barry Han­ley, que em­bar­cou na Índia, mas só aguentou até o Ja­pão, on­de tam­bém aban­do­nou o bar­co – que não passava de um carro transfigurado.

No lugar dele entrou um jo­vem re­pór­ter ame­ri­ca­no, chamado La­fa­yet­te De Men­te, cu­jo so­bre­no­me aju­da­va a entender por que acei­ta­ra aque­le con­vi­te pa­ra cru­zar o maior dos oceanos, o Pa­cí­fi­co, com um ji­pe.

O objetivo da nova dupla era navegar do Japão aos Estados Unidos, completando assim a volta ao mundo.

A odisseia durou dois meses e teve de tudo: de ter­rí­veis tem­pes­ta­des no mar à es­pi­o­na­gem dos rus­sos, que não acre­di­ta­vam que aque­les dois malucos estavam fa­zendo aqui­lo por pu­ra di­ver­são.

Mas, para Carlin, completar aquela viagem vi­ra­ra mais que um desafio – se tornara um ob­je­ti­vo de vi­da.

E ele conseguiu, depois de ir pulando de ilha, até que, em agosto de 1957, chegou ao Alasca, do outro lado do Pacífico.

A contabilidade final da sua ousada viagem somou 62 000 quilômetros rodados por terra e perto de 18 000 quilômetros navegados no mar – exatamente como ele previra que faria.

Carlin morreu satisfeito, 23 anos depois, na Aus­trá­lia, pa­ra on­de o Half-Sa­fe também foi le­va­do, a fim de ser ex­po­sto na es­co­la onde ele estudou, co­mo uma pro­va de que o que pa­re­ce im­pos­sí­vel é, às ve­zes, ape­nas im­pro­vá­vel.

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