Era madrugada de 24 de julho de 2013, mas o pescador John Aldridge, de 45 anos, seguia firme na tarefa de bombear água do mar para um grande tanque no convés do seu barco, onde, mais tarde, seriam colocadas as lagostas que ele capturasse, a mais de 40 milhas da costa de Long Island, nos Estados Unidos, onde navegava – enquanto o seu amigo de infância, sócio no pesqueiro e único companheiro de trabalho, Anthony Sosinski, dormia na cabine, em seu turno de descanso, e o barco avançava, guiado pelo piloto automático.
Quando o primeiro tanque encheu, Aldridge caminhou até o segundo reservatório do Anna Mary, um lagosteiro com convés liso e aberto na popa, por onde eram puxadas as armadilhas de lagostas, e tentou abrir o seu alçapão.
Não conseguiu.
A tampa parecia emperrada, e ele teve que aplicar uma força extra na alça, puxando-a, num só tranco, com as duas mãos.
Por uma fração de segundo, Aldridge julgou que havia conseguido seu intento, já que a alça subiu junto com seus braços – só que arrancada da tampa.
O pescador foi, então, lançado violentamente para trás e passou a deslizar no convés liso e molhado do barco, até a popa, que era equipada apenas com uma rampa, de onde ele desabou, feito uma pedra, no mar escuro.
Aldridge não teve tempo nem de raciocinar direito sobre aquela queda acidental no mar – a pior coisa que pode acontecer para quem navega em solitário, como ele fazia, enquanto seu companheiro dormia.
Ao voltar à superfície, berrou com todas as suas forças, tentando chamar o amigo.
Mas o Anna Mary já ia longe, e o barulho do motor impedia que Sosinski despertasse com seus gritos.
Eram 3h30 da manhã e levaria ainda cerca de duas horas para amanhecer. Só então seu amigo acordaria e descobriria que ele não estava mais no barco.
Até lá, a única coisa que Aldridge podia fazer era permanecer vivo e rezar para que um improvável resgate, sob a luz do dia, o tirasse daquela situação mais que aflitiva.
Mas as chances eram pequenas.
Aldridge estava no mar aberto, a mais de 60 quilômetros da costa, e quando seu amigo despertasse e desse por falta dele, não teria como saber onde, nem quanto tempo antes, ele caíra na água.
Portanto, Sosinski não teria nenhuma referência para começar as buscas.
Parecia ser o fim.
Mas o pescador ainda estava vivo, e precisava fazer algo para se manter assim – embora sem saber por quanto tempo.
Como estava em plena atividade quando aconteceu o acidente, Aldridge vestia um macacão impermeável dos pés à cabeça, mas sem colete salva-vidas.
Nos pés, calçava grossas botas de borracha, que logo se revelaram um incômodo – porque pesavam uma barbaridade.
Mas, por outro lado, a espessura e a densidade do material impulsionavam o seu corpo levemente para cima na água.
Foi quando Aldridge teve a ideia de usar as próprias botas como boias, poupando assim energia para se manter na superfície.
O tempo estava bom, ventava pouco, a noite era clara, mas o mar chacoalhava um pouco, com ondulações entre um metro e um metro e meio de altura.
Depois de arrancar uma das botas dos pés, Aldridge aproveitou uma daquelas subidas involuntárias nas ondas para encher o calçado com ar.
Em seguida, o virou a de ponta cabeça e o enfiou debaixo do braço – feito uma boia de criança.
Deu certo.
E ele, animado, fez o mesmo com o outro pé.
As botas-boias o ajudariam a se manter na superfície até que encontrasse algo mais adequado para flutuar.
Ele só não sabia o quê.
A situação era extremamente crítica, mas Aldridge se negava a ceder ao desespero.
Ao mesmo tempo, não alimentava esperanças.
Apenas tratava de se manter vivo, minuto após minuto.
E pensava na família, que logo receberia a trágica notícia.
Ao amanhecer, Aldridge perdeu as contas de quantas vezes usou as ondulações como “torres de observação”, prospectando o horizonte em busca de algum barco à vista, sempre com as botas enfiadas nas axilas.
Não viu nenhum barco, mas, por volta do meio-dia, encontrou algo mais confortável para se manter na superfície: uma boia redonda, que mais parecia uma bola, usada por pescadores para sinalizar suas redes no mar.
Aldridge arrancou as meias, enfiou-as nas mãos (para aumentar a eficiência das braçadas) e nadou até ela, o mais rápido que pode.
Em seguida, se agarrou ao objeto, mantendo, no entanto, as botas como apoio suplementar.
E assim ficou, parado no meio do oceano, à espera de Deus sabe o quê?
Longe dali, após Sosinski acordar e não encontrar o amigo a bordo do lagosteiro, uma grande e solidária operação de buscas no mar foi colocada em curso, com dois helicópteros, um avião e uma frota de mais de 20 barcos, quase todos de amigos dos dois pescadores.
Mas o desafio era colossal.
E as chances de êxito, mínimas.
A começar pelo fato de que ninguém sabia exatamente onde procurar?
Quando Aldridge caiu no mar, o barco avançava em linha reta a seis nós por hora.
Sosinski só despertou quase duas horas depois.
Portanto, o Anne Mary havia se afastado mais de 20 quilômetros do ponto onde a queda havia acontecido, o que, por si só, já tornava a busca praticamente impossível, pois seria preciso considerar também para qual lado as correntes marítimas poderiam tê-lo arrastado.
Mas o problema maior é que Sosinski não sabia se o amigo havia caído no mar cinco minutos ou cinco horas antes de ele acordar.
E isso o impedia de informar com alguma precisão as equipes de buscas da Guarda Costeira americana que estavam em ação.
A primeira análise da operação foi desanimadora.
Técnicos da Guarda Costeira debruçados sobre programas de computação, que a partir da análise de dados como correntezas, ondulações e ventos, tentavam calcular a localização do náufrago (ou, o que era mais provável, onde o seu corpo poderia ser achado), estimaram que a área a ser vasculhada tinha o tamanho de 1 800 milhas quadradas de mar – uma imensidão impossível de rastrear.
Sosinski, então, tratou de botar a cabeça para funcionar, e passou a fazer alguns raciocínios lógicos, tentando diminuir a provável área onde o amigo supostamente havia caído.
Seu primeiro raciocínio foi que, como a bomba que enchia os tanques do barco com água ainda estava ligada, isso significava que Aldridge estava preparando o equipamento para a captura de lagostas no dia seguinte.
Mas como eles só faziam isso quando atingiam 40 quilômetros da costa – e o primeiro local de pesca ficava 24 quilômetros depois disso -, a Guarda Costeira poderia vasculhar apenas naquela faixa de mar.
Sosinski decidiu voltar com o barco para a região a 40 quilômetros da costa e comunicou o seu raciocínio ao chefe da central de buscas, que, imediatamente, o repassou às aeronaves.
Foi uma informação valiosa – porque o avião e os helicópteros procuraram pelo pescador justamente na área oposta.
Por volta do meio-dia, agarrado às botas e à aquela boia como quem agarra uma corda à beira do precipício, Aldridge começou a ver helicópteros sobrevoando a região onde estava.
Mas eles não o viam.
Viu, também, algo ainda mais alvissareiro: o seu próprio barco, o Anna Mary, navegando a uns 500 metros de distância – mas no sentido oposto.
E o barco foi se afastando cada vez mais, com o amigo Sosinski rastreando o horizonte na direção errada. Aldridge não sabia se ficava entusiasmado (porque, afinal, o estavam procurando) ou frustrado (porque, embora estivessem tão perto, não o encontravam).
Enquanto isso, em um dos helicópteros, que estava voando desde as 7 horas da manhã em busca do náufrago, o nível de combustível começou a ficar crítico.
Seu piloto, Ray Jamros, só poderia manter as buscas por mais alguns minutos, antes de ter que retornar à base, para reabastecer.
E foi o que ele fez.
Amargurado por não poder continuar a varredura do mar – e por ter, uma vez mais, fracassado nas buscas por um náufrago -, o piloto embicou o aparelho para cima, ganhou altitude, inclinou o manche para o lado e começou a descrever uma larga curva no ar.
Foi quando Jamros viu, lá de cima, uma pequena boia colorida – que seria apenas mais uma boia deixada por pescadores, entre as tantas que ele vira naquele dia, não fosse o detalhe de que algo parecia estar grudado nela.
E se movendo.
Intrigado, resolveu averiguar.
Baixou novamente o helicóptero e, a despeito do que dizia o marcador do nível de combustível no painel do seu Jayhawk, retornou até aquela boia, avisando seus companheiros, na parte de trás da aeronave, para que ficassem atentos.
E eles ficaram.
E viram algo agarrado à boia.
Era Aldridge, agitando freneticamente os braços, com as duas botas debaixo deles.
No comando do helicóptero, o piloto Jamros não se conteve e soltou um grito.
Pela primeira vez, em três anos de serviços na Guarda Costeira, ele iria resgatar uma pessoa viva – e não um cadáver.
Mas teria que ser uma operação rápida.
Muito rápida.
Para que não sofressem uma pane seca no caminho de volta.
O mergulhador da equipe rapidamente se atirou na água, enquanto os auxiliares de Jamros baixavam o cesto no qual Aldridge seria embarcado.
O pescador subiu ligeiro no cesto salva-vidas, mas, ao fazer isso, suas botas caíram na água. Instintivamente – já que dependera delas durante as quase 12 horas que passara à deriva no mar -, gritou para que o mergulhador as recolhesse.
Foi erguido até o helicóptero abraçado aos dois calçados – sem eles, talvez, Aldridge não estivesse vivo.
Da cabine do helicóptero, o piloto avisou a base sobre o estupendo achado, e passou a rezar para que o combustível desse para chegar até lá.
Só quando o Jayhawk pousou em segurança no heliponto da Guarda Costeira, é que o chefe da operação fez contato com o amigo Sosinski e os pais de Aldridge.
“Ele está conosco. Vivo!”, informou o encarregado, emocionado.
Aldridge passou a noite seguinte em um hospital, sendo analisado.
De manhã, foi liberado.
Estava bem de saúde, sem nenhum trauma.
Dias depois, voltou a pescar lagostas com o sócio e amigo Sosinski, no mesmo barco.
Antes, porém, Aldridge viajou para encontrar a família, que morava em outra cidade.
Ao reencontrar o pai, viu que ele havia feito uma tatuagem no braço: uma sequência de números – as coordenadas onde seu filho fora encontrado no mar – e, sobre elas, o desenho de um par de botas.
As que os salvaram.
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