Era para ser apenas um alegre cruzeiro de quatro recém-conhecidos durante 15 dias no Pacífico Sul, entre a Nova Zelândia, onde eles moravam, e a Ilha de Tonga, a 750 milhas de distância.
Mas acabou se transformando em uma sofrida odisseia de luta pela sobrevivência, quando o barco no qual estavam, o Rose Noelle, um trimarã de 41,5 pés que havia sido projetado e construído pelo líder do grupo, o neozelandês John Glennie, virou e emborcou no mar, após ser atingido por uma onda anormal, três dias após eles terem partido do porto de Picton, na ilha sul da Nova Zelândia.
Quando isso aconteceu, em junho de 1989, a vida daqueles quatro homens (os neozelandeses John Glennie, Phil Hoffman, Rick Hellreigel, e o americano Jim Nalepka) virou de cabeça para baixo.
Literalmente.
Na véspera, nada indicava que algo de ruim pudesse acontecer.
Ao contrário, o grupo estava otimista, porque a tempestade que vinham enfrentando há dois dias, com rajadas de vento de passavam dos 40 nós, havia diminuído muito de intensidade, e a previsão era de tempo bom dali em diante.
Mas o Pacífico Sul tinha suas armadilhas.
Uma delas eram as ondas gigantes e esporádicas, que eventualmente surgiam do nada, no meio do oceano, no início do inverno.
E foi uma delas que fez o Rose Noelle, um veleiro suscetível a capotamentos, como todos os multicascos, virar subitamente de ponta-cabeça, sem nenhum aviso.
De repente, tudo ficou ao contrário.
Os quatro velejadores – que dormiam dentro da cabine no instante do acidente -, foram arremessados de encontro às paredes, tudo voou pelos ares, e que era assoalho virou teto, e vice versa.
Quando se deram conta do que tinha ocorrido, a água já havia invadido metade do barco, que só não afundou porque uma grande bolha de ar ficou retida dentro do casco emborcado.
E era nela que, agora, estavam aqueles quatro homens, confinados e trancados.
Uma situação aflitiva e angustiante.
Ainda mais na região onde eles estavam.
Quando o casco virado de cabeça para baixo do Rose Noelle virou uma espécie de baleia boiando na superfície, com aqueles quatro homens trancados em suas entranhas, o grupo navegava em uma área especialmente erma do Pacífico, próxima ao paralelo 40 graus sul, onde os fortes ventos costumam afugentar os barcos e até aviões evitam voar sobre a região.
Não havia, portanto, nenhuma outra embarcação por perto, como eles bem sabiam, pelo permanente silêncio no rádio.
Além disso, as cartas náuticas afirmavam que ali corria uma forte corrente marítima no sentido leste, que invariavelmente conduziria qualquer coisa (barcos à deriva, incluídos) até o outro lado do oceano, no extremo sul da América do Sul, a mais de 6 000 milhas de distância.
Um cenário desolador, que só fez aumentar a angustia do capitão Glennie (os outros três tripulantes praticamente jamais haviam navegado), que sabia que a única esperança do grupo ser resgatado estava concentrada em um equipamento sinalizador que seu barco possuía: um Epirb – mas a bateria deles só durou alguns dias.
Com isso, a única esperança do grupo passou a ser a de que a equipe de monitoramento do porto do qual eles haviam partido, que sabia em qual rumo o Rose Noelle navegaria, estranhasse a ausência de notícias e acionasse a Guarda Costeira neozelandesa, o que de fato aconteceu, alguns dias depois.
No entanto, um capricho da natureza tornaria aquela procura infrutífera e decretaria, precipitadamente, a morte dos quatro tripulantes, quando as buscas foram interrompidas, um par de meses depois.
No começo, esperançosos de um resgate rápido, eles consumiam tudo que aparecesse boiando dentro da cabine inundada – frutas, enlatados, galões de água.
Mas, à medida que o tempo foi passando – e as esperanças diminuindo -, foram obrigados a se auto-impor um severo racionamento.
Até porque, após aquela tempestade inicial, o clima permaneceu teimosamente bom, com sol forte todos os dias.
Isso, se por um lado ajudava (já que, emborcado, o Rose Noelle certamente não suportaria uma nova tormenta), por outro os impedia de capturar água da chuva para aplacar a sede.
A chuva só apareceu no 40o dia de sofrimento, quando os quatro, já desidratados, sem uma gota de suor ou saliva na boca, haviam reduzido a alimentação diária a míseras três colheres de arroz cru para cada um, do último pacote que tinham, e um dedo de água doce por dia.
Com a chuva, ao menos eles mataram a sede e enganaram os estômagos, enchendo-os de água.
Já a fome, implacável, só foi atenuada na sétima semana, quando um peixe entrou inadvertidamente na cabine semi-inundada e foi instantaneamente capturado pelos velejadores – agora quase transformados em seres selvagens, lutando pela sobrevivência.
Durante os dias, eles passavam a maior parte do tempo aboletados sobre o fundo virado do trimarã, depois de terem feito um buraco no casco, à espera de um socorro que nunca veio.
E foi em uma destas saídas, 16 semanas depois de se tornarem prisioneiros de uma espécie de ilha flutuante, que John e seus companheiros viram o primeiro sinal de vida exterior: um navio navegando ao longe, na linha do horizonte.
Mas distante demais para vê-los.
No dia seguinte, porém, surgiu outro sinal animador: aves passaram voando sobre suas cabeças, sinal de que poderia haver terra firme ali por perto, embora isso parecesse pouco provável na região onde supostamente eles vagavam à deriva.
Mas, felizmente, eles estavam errados.
Há muito que aquele morimbundo barco virado – que, apesar dos pesares, ainda lhes servia de abrigo e os mantinha vivos -, havia abandonado a correnteza predominante na região, e enveredado em outra direção, graças a uma rara confluência de correntes marítimas.
E isso, sem que eles percebessem, estava levando o grupo na direção oposta da que imaginavam.
Na prática, eles haviam feito uma curva de 180 graus no mar e estavam voltando para a própria Nova Zelândia, embora desconhecem esta possibilidade.
Isso só ficou claro para o capitão John quando ele viu se materializar bem à sua frente a Ilha da Grande Barreira da Nova Zelândia, lugar que conhecia muito bem – por mais incrível que aquilo parecesse.
Dois dias depois, o Rose Noelle estancou nos arrecifes que rodeavam a ilha e os quatro desembarcaram, ainda sem entender como aquilo fora possível.
Mas isso pouco importava.
Importante é que eles estavam vivos e salvos, após impressionantes 119 dias à deriva – quase quatro meses -, parcialmente imersos no mar, dentro de um barco virado de cabeça para baixo, sem água nem comida.
Aquilo jamais havia acontecido durante tanto tempo.
Não muito distante da praia onde desembarcaram, os quatro ex-náufragos encontraram uma casa vazia, mas com mantimentos, e nela se abrigaram para passar a noite.
No dia seguinte, caminhando, encontraram um telefone público e pediram ajuda à Polícia.
O atendente custou a entender o que o homem do outro lado da linha dizia, até porque, pelos seus registros, ele estava morto há meses.
Só quando o mal entendido foi desfeito é que John e seus companheiros de infortúnio foram atrás de uma explicação para o estranho fenômeno de terem retornado, involuntariamente, ao mesmo ao mesmo local de onde haviam partido.
O motivo veio nove dias depois, quando uma garrafa, com uma mensagem dentro, foi encontrada em uma praia da mesma região.
Ela continha as coordenadas do último local de onde o Rose Noelle havia transmitido sua localização à equipe do porto de Picton, e fora depositada no mar naquele ponto pelo comandante de um barco que ajudara nas buscas pelo trimarã, e queria prestar uma homenagem aos velejadores desaparecidos.
Sem que essa fosse a intenção, foi aquela singela garrafa que ajudou a comprovar que fora a própria natureza que ajudou a salvar John Glennie e seus três companheiros.
Felizmente, para eles, uma brutal dose de sorte.
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