Era dia de festa em João Pessoa. Naquele 24 de agosto de 1975, um domingo ensolarado, o Dia do Soldado estava sendo comemorado com uma concorrida exposição de armas, fotos, carros de combates e alguns canhões, no principal ponto da capital paraibana, a lagoa Solon de Lucena, bem no centro da cidade.

Mas a atração que mais interessava as pessoas, sobretudo as crianças, era a oportunidade de dar uma volta na lagoa na balsa que o Exército também levara para a festa, o que gerou uma longa fila de espera, o dia inteiro.

Mas, no final de tarde, já quase anoitecendo, a festa estava por terminar e os soldados encarregados de organizar o embarque dos passageiros na balsa, que não passava de uma chata de transporte de carga, avisaram que aquela seria a última viagem.

O comunicado gerou um frenesi entre quem estava esperando na fila a vez de navegar na lagoa, ao redor da fonte luminosa, passeio que não durava mais que 15 minutos.

Depois daquela última partida, só no ano seguinte, quando houvesse outra festa do Dia do Soldado.

Ao ouvir o aviso, a multidão abandonou a fila ordeira e todos correram para garantir um lugar na balsa, a despeito das tentativas frustradas dos soldados de colocar alguma ordem no embarque caótico.

Só parou de entrar gente quando não cabia mais ninguém naquele pranchão flutuante, que era operado por um piloto igualmente espremido na popa.

Embarcaram perto de 200 pessoas, embora a capacidade da balsa fosse para pouco mais de 50.

E nenhuma delas com colete salva-vidas.

Menos de três minutos após partir, quando a balsa superlotada ainda estava a cerca de 50 metros da margem, as pessoas em volta da lagoa notaram que o piso da embarcação estava estranhamente se aproximando da superfície da água. Lentamente, centímetro a centímetro, a balsa estava cedendo ao peso exagerado, até que os pés dos ocupantes começaram a ficar molhados.

Em seguida, submersos.

E aquele amontoado de gente seguiu afundando gradualmente, em câmera lenta, sem que nada fosse feito, apesar da proximidade com a margem da lagoa – que, no entanto, era bem profunda naquele trecho.

Só quando a água subiu até quase os joelhos, e os pais começaram a erguer as crianças sobre as cabeças, é que começou o alvoroço.

E, com ele, o pânico, que fez muita gente cair na água, empurrada pelos outros.

Como ninguém vestia colete salva-vidas e muitos não sabiam nadar, a começar pelas crianças, que eram quase maioria no barco, a tragédia começou a se delinear.

Quem permaneceu na balsa semi-submersa, tentava se manter sobre o casco, que sumia sob os seus pés.

E os que já estavam na água, agarravam-se mutuamente, na desesperada luta pela sobrevivência.

Com isso, um afogava o outro.

O cenário era desesperador e acompanhado com aflição por todos que estavam na margem, assistindo, atônitos, aquele trágico espetáculo – um dramático naufrágio com plateia e endereço: altura da rua Padre Meira, na parte mais profunda da lagoa, que ali chegava aos cinco metros.

Quem passava de carro pelas ruas que contornavam a lagoa, parava para acompanhar o drama das vítimas, embora pouquíssimos tenham entrado na água para ajudá-las.

A exceção foi o sargento Reginaldo Calixto, que aproveitara o seu dia de folga para ir à festa, e caminhava na calçada que circundava a lagoa quando ouviu a gritaria.

Sem pensar duas vezes, se jogou na água e começou a puxar quem via pela frente.

Mas, logo agarrados por todos os lados pelos náufragos desesperados, acabou também sucumbindo naquele absurdo naufrágio, que matou até quem não estava na balsa.

Outro herói do dia foi o radialista Gilvan de Brito, que também estava na lagoa passeando com a família.

Ao ver a balsa afundando, ele correu no sentido oposto ao da lagoa.

Mas por um bom motivo: foi para a rádio na qual trabalhava, a Tabajara, a poucas quadras de distância, interrompeu a transmissão de uma partida de futebol, anunciou a tragédia e convocou todas as pessoas “que soubessem nadar” para ajudar.

Rapidamente, voluntários começaram a chegar, muitos a pé, porque moravam nas ruas que rodeavam a lagoa, trazendo tudo o que pudesse flutuar – boias, galões, pedaços de pau.

Minutos depois, chegou também o Corpo de Bombeiros, que também ouvira a notícia dada pelo radialista.

Mas era tarde demais.

Corpos já flutuavam na lagoa, enquanto pais desesperados buscavam pelos filhos que não conseguiram sair da água.

O Brasil nunca tinha visto nada igual.

Muito menos em uma plácida lagoa urbana de não mais que 500 metros, no centro de uma capital.

O trabalho de busca e resgate dos corpos na água escura da lagoa continuou a noite inteira.

Até porque, como não se sabia quantas pessoas havia na balsa, era impossível saber quantos tinham morrido.

Quando o dia amanheceu, uma multidão ainda maior lotou o perímetro da lagoa, para acompanhar a retirada dos corpos – que eram colocados lado a lado na margem, para serem identificados pelos familiares.

Até o prefeito da cidade foi para lá, prestar solidariedade.

Em dado momento, um sobrevivente do naufrágio, que vagava desorientado pela lagoa desde o acidente, desabou em prantos na calçada.

Estirados no gramado, jaziam os corpos de sua mulher e seus três filhos. Uma cena que se repetiria outras vezes ao longo do dia, já que praticamente só haviam famílias na balsa.

E crianças. Muitas crianças.

No final, a fúnebre contabilidade do desastre somou 35 mortos, incluindo o soldado pelo pilotava a balsa. 29 deles eram crianças.

Foi a maior tragédia da história de João Pessoa, até hoje.

Mas, como o Brasil viva os duros anos da ditadura militar – e a catastrófica festa fora organizada pelo Exército -, o acidente não repercutiu muito fora dali, porque, na época, as notícias eram minimizadas ou simplesmente censuradas.

Tempos depois, o inquérito que investigou o caso apontou o Exército como responsável pelo acidente, por ter permitido o excesso de pessoas na balsa e sem nenhum tipo de proteção.

Mas ninguém foi punido ou sequer rebaixado de cargo.

A única consequência prática foi que, no ano seguinte, não houve comemoração do Dia do Soldado em João Pessoa.

Nem ninguém na cidade sentiu falta disso.

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